Homem-Pisa e Quíron

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Numa das muitas histórias dos pacientes descritas nos livros do Oliver Sacks – não sei dizer em qual – tem um homem que estava com um problema no centro de equilíbrio. Ele andava inclinado pro lado, as pessoas diziam que ele parecia uma Torre de Pisa. Mas pra ele, ele estava certo. Era mais do que um problema de equilíbrio, era um problema de propriocepção, porque o corpo sentia que estava certo um equilíbrio que estava errado. Então ele inventou uma barra em cima do óculos, um prumo minúsculo, que ele consultava discretamente quando olhava pra cima e se corrigia. Ele sabia que não podia confiar no que sentia e encontrava uma regulagem exterior. Talvez de tanto submeter o cérebro à medida exterior, quem sabe ele tenha se corrigido.

Antes eu achava que ser sábio, maduro ou terapeutizado era muito a mágica das palavras, como se ao ser exposto à luz, o que há de mal resolvido se alterasse, tipo uma reação química. Para algumas coisas, até reconheço que seja. Mas tem uns traumas que você conhece de cor, toma café com ele todas as manhãs e tá, e daí. Existe na astrologia contemporânea aspectos formados pelo asteroide Quíron. A história de Quíron, um centauro que é filho de Cronos e não sabe, divino demais para um centauro e ainda assim animal, ferido por uma flecha e incapaz de se curar ou morrer da ferida, é uma das lendas mais tocantes que eu já li. LEIAM AQUI. Quíron é chamado de “o curador ferido”. Quíron diz assim: você foi ferido e nada mais muda o que aconteceu, mas esta dor te torna apto a ajudar os que passam pelo mesmo. Já vi astrólogo dizendo que Quíron é o Quasimodo do zodíaco. Eu concordo.

Não some quando toma ar não. Quasimodo nunca ficou bonito e na história original nem ao menos fica com a mulher amada. Uma vez um amigo que ia fazer terapia disse que eu estava estragando o processo antes mesmo de começar, porque eu lhe disse que terapia não nos muda. Psicanalistas concordarão comigo. O que se aprende é saber o que está lá, que existe um pedaço torto e ele nunca será normal e é preciso seguir em frente e ser feliz assim mesmo. Que temos uma lente viciada e mesmo com toda nossa alma, lógica e razão gritar que estamos certos, pode ser que na realidade estejamos ridiculamente inclinados.

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Feroz

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Eu não gosto de realitys que deixam as pessoas entediadas dentro de um ambiente fechado, mas gosto muito daqueles que fazem a pessoa trabalhar em meio a outros profissionais da mesma área. Terminei há pouco a 10º temporada de Project Runway e comecei a 9º de Ru Paul´s Drag Race. Numa dessas duas, teve gente que surtou e foi embora. Programa super concorrido, o sonho das pessoas e elas surtam. A organização não gosta, os outros participantes dão a entender que são covardes e pega muito mal. Quando entra, todo mundo se descreve como ambicioso, disposto a tudo, feroz, aquele que vai dar trabalho. Aí coloca a pessoa entre estranhos, trabalho duro, críticas, surpresas, sem lazer e longe do seu círculo de afeto. Descobrimos que, dos doze que se diriam ferozes, só dois são e olhe lá.

Não condeno quem sai, eu nem iria porque sei que seria massacrada. Mas sei disso hoje. Eu com vinte também me descreveria como feroz – é uma soma de imaturidade, expectativas sociais e o desejo de ser realmente feroz. Ninguém quer se ver como circunstancial e formiga operária. Hoje, na realidade, nem gosto das pessoas ferozes. Muitas vezes quem se dá bem nesses programas é quem se alimenta do descontrole alheio, quem cresce em cima dos outros. Aí me lembrei de um dos muitos motivos que larguei a psico: eu não queria realmente “tratar” os que me procuravam. Eram pessoas sensíveis que sofriam na mão dos ferozes e com a cobrança do mundo em sermos ferozes. Elas realmente precisavam de ajuda para conseguir se proteger e enfrentar, mas o que realmente precisa de tratamento é a agressividade do mundo.

Todo mundo não existe

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Aprendi isso em terapia: todo mundo não existe. A não ser que você tenha tido um vídeo íntimo vazado e esteja sofrendo de bullying em cadeia nacional, não existe o “todo mundo” que pensa ou sente algo a teu respeito. Os funcionários da padaria, o pessoal do ponto de ônibus, o motorista do carro ao lado, ou seja, pra maioria da população você nem ao menos existe. Aí você diminui para as poucas pessoas com quem convive, elimina as que não estão envolvidas na situação, coloca também aquelas que te amam e estão do seu lado, corta de um lado e corta de outro e acaba descobrindo que o tal “todo mundo” se reduz a um círculo muito pequeno de pessoas, às vezes nem isso. Pode ser que seja apenas uma pessoa e ela seja tão poderosa que o seu juízo pese mais do que “todo mundo”. Um conselho fácil de dar e às vezes difícil de aplicar: não dê poder a quem te fere.

Melhor que filtro solar

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Ao contrário do que a gente pensava na época que o Bial eternizou a mensagem “Use filtro solar“, esse não é um conselho imperdível e acima de qualquer risco. Aqui em Curitiba, por exemplo, é muito comum as pessoas terem que fazer reposição de vitamina D por causa da falta de exposição ao sol e usar filtro solar é um desses fatores, porque o filtro solar bloqueia a absorção da vitamina. Se a pessoa está todinha com filtro ou se pega sol apenas pelo vidro (dirigindo, por exemplo), fica sem vitamina D. Tem umas linhas mais naturais que também dizem que ele faz mais mal do que bem, que o ideal é buscar alternativas mais naturais. Mas, enfim, o assunto não é esse.

Se eu fosse dar um conselho definitivo, como se fosse esse do filtro solar, ele seria: faça terapia. Uma amiga veio me falar de uma dificuldade num relacionamento, que gostava muito do sujeito e estava agindo praticamente ao contrário. Sonhava acordada com ele e frente a frente era tão durona que ele deve ter pensado que ela não é a fim. Mas quando ele ia embora, ela lamentava que não tivesse rolado nada… Eu me identifiquei muito, mas muito mesmo, no nível já fiz igual. Fiz? Quando parei pra pensar, me dei conta de que aquilo fazia parte de um passado distante, que não sou assim faz tempo. Foi só quando ela me falou aqui que me dei conta do tanto que eu caminhei. Ou, dito de outra forma: eu poderia ser assim até hoje. Sem saber, fazendo uma limpeza ali, revendo conceitos acolá, eu mudei.

Não sei dizer quanto tempo de terapia eu tenho, fiz muita terapia. Foram linhas diferentes, abordagens diferentes e com anos de intervalo. Embora, como tudo na vida, existam profissionais e profissionais, mesmo quando fraquinha o saldo costuma ser mais positivo do que negativo. Incluo também nessa lista outras atividades “bobas” – danças, vivências, grupos de apoio, conselhos de pessoas mais velhas, etc. Sou muito à favor de procurar ajuda. Tenho muitos amigos ateus, céticos até os ossos, então se pinta um termo suspeito do tipo “energia” eles já jogam tudo no lixo. Eu mesma tenho uma tendência a me tornar uma observadora cínica ao invés de me misturar. Hoje vejo que quem sai perdendo com isso é a gente. Querer fazer tudo sozinho é querer enfrentar a vida na raça, abrindo caminho no mato com um canivete suíço; a outra opção é gps, guia, estradas e quem sabe até pegar um avião.

Mulheres sentadas em círculo

Eu tenho uma amiga que trabalha como terapeuta de mulheres e faz uns workshops que só de olhar os títulos me arrepia. Workshop de utero. Sim, útero. Aí vejo as fotos e tem um monte de mulheres sentadas em círculos. Piora: ela faz vários, então senta em círculos várias vezes. Sempre achei o horror dos horrores, até o dia que tive uma epifania quando vi minha professora de flamenco dançar. Já havia visto muitas vezes, mas naquela vez eu havia me desentendido com ela a respeito de uma flor e andava sacuda com essa fidelidade ao flamenco de raiz, queria inovar em flor, figurino, etc. Naquele dia, entendi que a tradição diz coisas muito profundas, trabalha com arquétipos, nos faz economizar caminhos. Que minha amiga tem razão, que as mulheres sentadas em círculo dizem umas para as outras coisas que de outra forma não obteríamos. Mulheres juntas, mulheres se apoiando, isso não deveria ser antigo. São coisas que a gente não deixou de lado porque se modernizou e sim porque se perdeu. Sim, tradição não é só lixo, às vezes é pura perda.

Por incrível que pareça, quem me fez pensar em tudo isso foi a Madonna. Sempre a vi como uma espécie de deusa invencível, e vem ela dizer que sentiu falta de apoio. Madonna precisou sentar com mulheres em círculo e a gente nem sabia.

Um conselho sobre uma paixão no divã

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De acordo com ela, o psi se entregou porque numa sessão ela comentou de uma música obscura de uma banda mais obscura ainda, e na sessão seguinte ele citou uma outra música da mesma banda, o que mostrou que ele anotou, pesquisou em casa e também ouviu. Foi a demonstração que faltava para se convencer de que o psi estava interessado nela. O que eu faço, ela me perguntou. Eu tenho uma teoria sobre ser confidente (e, por consequência, conselheira): o bom confidente é aquele que não gosta de ouvir confidências. Nunca pergunto, e depois que sei, nunca me interesso em voltar ao assunto e nem ouvir o final da história. Eu não quero ouvir segredos e os segredos que pulam na minha frente. Mas já que fui colocada nessa posição, tive que perguntar se, caso sim, o que ela sentia por ele. Sua resposta foi um vago “ele é legal, bonitinho, a idade regula”. Meu conselho foi algo que hoje faz com que eu me sinta meio Violet Crawley, mas fez sentido pra ela, que me agradeceu e disse que foi mesmo a melhor escolha. Eu lhe disse: então não vá. Porque um cara legal e bonitinho pra ter um caso você encontra facilmente, já um bom psicólogo…

Velhinha e colheita

Soube de uma história real de uma velhinha, daquelas de cabelo bem branquinho, passos curvados e vestido de chita, que foi mandada ao psiquiatra pelo filho. Ela chegava na consulta e falava sobre os filhos, os netos, a TV, coisas amenas. O tempo passava e o psi não entendia direito o que a velhinha fazia lá, as conversas giravam sempre em torno desses temas, nada muito angustiante. Até que a velhinha faltou uma consulta, depois outra. Aí o filho liga desesperado:

– Minha mãe sumiu!
– O que você acha que pode ter acontecido?
– Ora, doutor, o senhor sabe, deve ser a cachaça.

A velhinha era uma pinguça, ou melhor, uma tremenda alcoólatra e o psi nem desconfiava.

 

Lembro da velhinha porque cansei de ouvir queixas sobre a injustiça do universo. A gente conhece a pessoa, ela expõe a sua situação, nos diz que fez de tudo, que é incompreensível estar tão ferrada daquele jeito. Durante algum tempo ficamos lá, comovidos, pensando no quanto o mundo é injusto. Compramos a causa, tentamos ajudar, aquela coisa toda. Mas um dia, mais cedo ou mais tarde, descobrimos o lado oculto. Às vezes por informações de terceiros, ou porque ela se distrai e nos mostra sua verdadeira face, ou até mesmo porque o veneno se volta contra nós. Aí você descobre o porquê – ah, ela merece sim! Deve ter um ou outro caso por aí de gente que não fez por onde, tão poucos que nem merecem registro. As estatísticas provam: todo mundo colhe o que planta. Você que não conhece todos os lados da história

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Qualquercoisoterapia

Minha amiga Isabel é uma grande cantora e professora de canto. Ela tem um problema que está se tornando cada dia mais comum: as pessoas, sejam elas potenciais clientes, alunos ou donos de escola, a pressionam para dizer que fazer aula de canto é terapêutico. Tem gente que abraça essa idéia é adora falar por aí que cantar é terapêutico, fazer sapateado é terapêutico, escrever em blog é terapêutico, cortar grama é terapêutico. Só que ela acha chato, assim como eu também acharia chato no lugar dela. Cantar é terapêutico? Pode ser. O que fazer aula de canto realmente melhora é a capacidade de cantar – esse deveria ser o objetivo, não? É complicado as pessoas procurarem uma coisa com o objetivo de melhorarem ou modificarem outra. Vamos combinar que aula de canto pode ser terapêutica, assim como ir a padaria também pode ser – tudo depende da disposição de quem faz. Algo que te tire de si mesmo, que te abra a novas relações, que te faça pensar na vida e quem sabe estabelecer alguns vínculos sempre será terapêutico. Nem todo mundo é assim. Uma pessoa pode fazer anos de aula de canto sem mover uma pedra de quem ela é. Outro pode ser tão disponível que encontrará coisas para mudar em si mesmo até enquanto lava a louça.

Meu conselho a todos que procuram atividades terapêuticas é: faça terapia.

Bagunça

Viviane havia saído da casa da mãe há pouco tempo e estava morando sozinha num apartamento. A terapeuta quis saber como ela estava na casa nova:
– Está tudo ótimo. Meu apartamento é um brinco, só o quarto que é uma bagunça, mal dá pra entrar.

– Será que você não está morando só no seu quarto, ainda?

Ela ficou cismada. Ao abrir a porta e se deparar com aquele ambiente organizado, olhou para ele com uma certa desconfiança. Colocou por querer a bolsa bem no meio da mesa de jantar. Deixou os sapatos num canto. Quando voltou para a terapia na semana seguinte, Viviane contou como estava na casa nova:
– Está tudo ótimo! Agora eu tomei conta do apartamento inteiro, ele está uma zona!

Análise

Para quem não sabe a diferença entre terapia e análise, posso dizer de cadeira que terapia tem o propósito de curar e análise não. Digo isso como quem estudou o assunto e como quem se submeteu a essas duas formas de atendimento. Análise é proposta por psicanalistas, e eles dizem que só acreditam em cura no mesmo sentido de “curar um cachimbo”, de uma preparação. A psicanálise acredita que cada um tem uma estrutura, formada na tenra infância, e nada pode mudar o que você já é. Apenas que se conscientizar de algumas coisas pode ajudá-lo a viver melhor com elas. Eu fiz análise lacaniana, análise de raiz, daquelas com divã de costas pro analista e tudo. Pra mim – vejam bem, pra mim, sem querer dizer mais do que minha experiência pessoal – não foi bom. Não sei se foi culpa do período que eu estava passando, e que eu teria a impressão de que estava vivendo em trevas de qualquer maneira. O que eu lembro é que ficava a sós com os meus fantasmas, tentando analisar culpas através das minhas culpas. As culpas digeriam culpas, se reproduziam e geravam culpas, analisavam e concluiam mais culpa, que me afogavam num mar de culpa. Não há a menor dúvida que a minha estrutura é neurótica… Era como tentar limpar usando um pano mais sujo. Ao invés da neutralidade que me permitia olhar para mim com meus referenciais, senti falta de uma luz, de uma perspectiva mais madura de quem estava vendo de fora. A origem de muito sofrimento pode ser justamente a incapacidade de formular novas perguntas. Há casos que é preciso ouvir um simples: você não tinha como adivinhar.

De tudo ficou um pouco

Mas de tudo fica um pouco./De ponte bombardeada. Acho que o que nos leva a fazer terapia é sempre um desejo – vago pra alguns, muito claro para outros – de ser alguém diferente do que se é. Minha vida teria sido muito mais fácil, desde sempre, se ao invés de ser uma CDF observadora e dilacerada por questões éticas, eu tivesse simplesmente seguido o fluxo e feito tudo pensando apenas nos meus interesses. Se de tudo fica um pouco/ mas por que não ficaria/ um pouco de mim?

 

Um amigo ia começar a terapia porque queria se tornar alguém diferente e eu lhe disse que isso não aconteceria. Foi crueldade. Não que seja mentira, mas é uma verdade que apenas quem fez terapia entende: a gente muda sem mudar. Descobre os seus pontos difíceis e lida com eles da maneira como pode. Eu leio as dores da Rita e fico sem jeito porque sei que a morte da minha mãe não me afetará tanto. Quando S. fala que tem problemas com bebida e pessoas lhe dizem que encher a cara não tem nada demais, me sinto trouxa porque parece que só eu já convivi (e sofri) com alcoolismo. Oh abre os vidros de loção/ e abafa/ o insuportável mau cheiro da memória. No sábado passado, entrei distraída num restaurante e uma ex-colega de faculdade sorriu pra mim. E eu a ignorei (no início por não lembrar de onde a conhecia), porque não me sentia em condições de responder a clássica pergunta sobre o que estou fazendo. São essas coisas que nos fazem querer terapia, o desejo de tirar as dores debaixo do tapete e mandar direto pro caminhão de lixo. Partido em mil esperanças,/ este pescoço de cisne,/ este segredo infantil…

 

Mas terapia não é Lacuna, o apagamento de lembranças do filme Eternal Sunshine. Meus muitos anos de divã – que às vezes são poltronas, noutras são almofadas- me ensinaram que algumas coisas não apenas não vão pro lixo como passam a enfeitar a sala de estar. Que eu sou, também, as minhas dores. Com ou apesar delas, tenho que ser feliz. Assim como tenho dificuldades com coisas que são fáceis para outros, tenho vitórias silenciosas com coisas que ninguém imagina. E sob tu mesmo e os teus pés já duros/ e sob os gonzos da família e da classe,/ fica sempre um pouco de tudo.

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Lote-terapia

Ela funcionaria assim: meu cliente marcaria um horário comigo. Na hora combinada, eu o esperaria dentro de um carrinho de golfe, no lote. Entregaria a ele uma enxada. Então, à medida em que carpisse, o sujeito desfiaria seu rosário de reclamações. Se ele ficar sem fôlego, pode parar de falar; o que não pode é parar de carpir o lote. Com o tempo a pessoa acaba percebendo que o objetivo é que ela fique quieta mesmo. Se o caso for muito grave e mesmo depois de um hectare o problema ainda parecer grande, a gente estende por mais uma hora ou vai carpir outro lote. Depois desse horário, ele me pagaria (óbvio!), sairia extenuado e garanto que mais feliz.

Existem dois tipos de pessoas no mundo: as que se queixam de seus problemas e as que não se queixam. Mas as que se queixam parecem esquecer disso, e acham que o mundo está dividido entre pessoas com e sem problemas. Aí acontece a situação ridícula de você estar ferrado na vida e ter que consolar gente que não consegue ser feliz porque tem trauma de infância. E de nada adianta mostrar que a pessoa é mais jovem, mais loira e que gasta com roupas mais do que você pra sobreviver. Ela lhe dirá – Mas é diferente, você é forte e eu não. Porque a capacidade de olhar para os problemas próprios e achar trágico, é inversamente proporcional à capacidade de ser sensível ao problema dos outros. O que falta pra esse povo é lote pra carpir.

A verdade está lá fora

Recém-saída da universidade, com 21 anos, eu achei que iria bombar no mercado de trabalho. Durante toda a minha vida fui boa aluna sem precisar fazer esforço. Meus professores, meus colegas de faculdade, todo mundo achava que eu era ótima. Só faltou alguém dizer isso pro mercado de trabalho, que me ignorou. Meses mandando currículos e esperando telefonemas que nunca aconteciam acabaram com a minha auto-estima.

Um dia, no meio de todo aquele tumulto, cheguei pra minha terapeuta junguiana e me dei alta. “Descobri que o meu sintoma é fazer terapia”. Pela cara, vi que ela ficou surpresa e não gostou muito. “Descobri que eu tenho que pensar menos e viver mais. Tem coisas que não se resolvem pensando, analisando; e é isso o que eu faço o tempo todo. Eu tenho que viver, me arriscar e agüentar o tranco”. Fizemos uma sessão de despedida, onde ela disse que as portas estavam sempre abertas. E apesar da descrença de nós duas, eu nunca mais voltei.

Hoje, estou ainda mais qualificada e ignorada pelo mercado de trabalho. Eu não sabia que trabalho, dinheiro e profissão se tornariam problemas eternos para mim. Desde aquela época, minha auto-estima oscila entre Dona do Mundo e suco de beterraba. Mas não tenho nada a acrescentar ao que falei naquela sessão. A vida é assim mesmo, cheia de altos e baixos. Quando a gente está no alto, curte; quando está no baixo, se recolhe esperando por dias melhores.