As portas

escada na sombra

Nosso psiquismo tem portas. Quem já passou por elas olha para os que não as conhecem e percebem. A arrogância e o descrédito que os mais velhos têm em relação aos mais novos têm razão de ser. Existem dores, desde que nascemos vivemos em meio a dores. Cada dor, quando inédita, parece enorme – o fim do primeiro amor, a primeira traição, a primeira frustração, a primeira responsabilidade. Para todas as dores, até um nível, chorar é um bom caminho. Chore, alivie-se. Mas para além de todas as dores pessoais, há uma que abre uma porta diferente. Quando se abre essa porta, o sujeito se vê diante de um cenário muito maior do que ele. A sensação é a de entrar no pântano de todas as dores da humanidade. É uma dor ancestral, atávica, genética. É uma dor tão grande que não é possível ser chorada, porque uma pessoa sozinha não consegue dar vazão a tanta dor. Ao contrário da dor pessoal que se cura com alguns instantes de entrega, para esta não é possível se entregar; não pode chorar, não pode entrar, sob o risco de não conseguir sair vivo. Diante da última porta da dor, só é possível fugir. São meses ou até mesmo anos sem perspectiva de alegria, por isso é muito difícil não criar ainda mais dificuldade no processo. Há de se fazer de tudo para tentar fechar de novo a porta, mesmo em meio a erros. Melhor seria não abrir, mas ninguém chega lá por vontade própria. E, uma vez que tenha vivido o que há lá atrás, nunca esquecerá essa porta.

 

O que toca

despedida

Não gosto de ler sobre guerra no geral e comecei a ler o A guerra não tem rosto de mulher, da Svetlana Aleksiévitch, porque uma amiga jurou que é um livro essencial e que se devora em poucos dias. Como qualquer livro de guerra, a lista de barbaridades e situações horríveis é abundante – estupros, mutilações, canibalismo, etc. Tudo lá, se for levar a sério, é de chorar. Mas eu fui lendo – estou lendo – meio incólume, passando pelo horror com o olhar de quem já esperava aquilo. Aí, num certo momento, percebo que uma coisa vai subindo, subindo, e tenho que me interromper. As mães não choravam, elas uivavam de dor ao se despedir dos filhos. Uivar de dor. Eu que nem tenho filhos me vi transportada a estações de trem e mães entregando sua própria carne para ser esmagada, perder toda inocência, quem sabe nunca mais voltar.

Em breve, crítica no Caminhando por Fora.

A revolução altruísta

É fascinante pensar a quantidade de informações que os nossos pais nos passam e como elas ficam, e algo que eles nos disseram sem dar uma importância maior do que qualquer outra informação pode ser determinante no nosso futuro. Minha mãe me alimentou com muitas histórias, de irmãos Grimm e contos tradicionais aos livros de Chico Xavier e outras histórias de fundo moral. Ela me contou uma vez a história de uma mulher que foi procurar Buda porque seu marido havia morrido e ouviu falar que ele era um grande mestre, um iluminado, e queria que ele trouxesse seu marido de volta. Buda lhe pediu para trazer uma semente de mostarda de uma casa onde nunca havia morrido alguém. A mulher foi de casa em casa, explicou sua história, e todos lhe diziam que não podiam ajudar – uns haviam perdido o pai, outro um filho recém-nascido, a esposa… “Mas, mãe, a gente poderia dar uma semente de mostarda pra ela porque aqui não morreu ninguém”. Aí ela teve que me explicar que a nossa situação – uma mulher com seus filhos num apartamento – não existia naquela época, que as famílias moravam juntas, que a gente provavelmente viveria numa casa grande com a vó, nossos tios e primos. Nessa que seria a nossa casa, a gente tinha perdido o pai dela antes mesmo de eu nascer. A mulher voltou até Buda e lhe disse que não havia encontrado a semente, em todas as casas alguém havia morrido. Ela havia visto a dor dos outros e aceitado melhor a sua.

Essa história foi determinante pra mim quando me separei – de longe a coisa mais difícil que enfrentei na vida. Sempre gostei de olhar em volta e quando estava deprimida fazia o exercício de olhar ainda mais. Descobri perto de mim muitas dores, que jamais faziam o meu peito se encher de alegria, mas que me faziam aceitar aquela fase. Naquela época fiz aula de costura, um lugar que mais tarde fui perceber que era o refúgio de muitas mulheres como eu, que precisavam lidar com suas dores. Nem todo mundo por ali estava aprendendo, algumas já eram costureiras profissionais e precisavam apenas de uma ou outra dica e principalmente de companhia. Era um círculo de mulheres. Uma dessas mulheres era uma senhora baixinha, gorda e com uma gargalhada deliciosa que a fazia chacoalhar o corpo todo na risada. Numa tarde qualquer, nossa professora recebeu o telefonema do filho adolescente. Ele a avisou de uma mudança de horário porque alguém no colégio dele havia acabado de morrer subitamente durante a aula, aparentemente um ataque cardíaco. Ok. Apenas dias depois soubemos que o colega de colégio que havia morrido era neto da nossa colega de risada gostosa. Quando ela reapareceu, tinha o olhar baixo e mal falava. Minha professora me cutucou, disse para eu lhe fazer um gesto de carinho. Cheguei até ela e lhe dei um longo e sincero abraço, e nós duas nos emocionamos. A minha dor que me doía tanto e não me deixava em paz pelo menos tinha um componente de escolha.

Um mês depois da minha separação eu fui pra uma festa. Era um amigo que estava meio afastado e quis me animar porque soube. Valeu muito a pena, deve ter sido a primeira ocasião em meses – separação nunca é apenas aquela assinatura – que eu chorei de rir. Num certo momento chegou uma amiga que não via há tempos e ela me disse, com muita sinceridade, que estava passando exatamente o mesmo sofrimento que eu, porque havia se separado do noivo há pouco tempo. Depois soube que nossos amigos em comum lhe deram bronca quando ela disse isso para eles: como ela ousava, comparar um noivado com um sujeito que a enrolava há tempos e vinha para Curitiba a cada quinze dias com o fim de um casamento de mais de dez anos? Isso sem dizer que, ao contrário de mim, ela os solicitava o tempo todo com telefonemas e queixas. Eu os angustiava por não me abrir e ela enchia o saco por estar sempre nas últimas. Em algum post eu sei que já citei essa amiga, mas o que não disse é que eu realmente acredito que a dor dela era tão grande quanto a minha. É que ela não conhecia o segredo: eu fiz da minha dor a minha semente de mostarda e fui me curando com a dor do mundo. Ela se trancou no seu sofrimento como quem grita numa sala de espelhos.

Eu realmente acredito no altruísmo. Acredito na busca pela felicidade e na confusão que isso é, na diversidade dos caminhos e suas interpretações, na incapacidade da linguagem em realmente nos colocar claramente diante de outros ser humano. Se nos chocamos com as cenas de violência e os assassinos, é justamente porque somos quase todos seres pacíficos que se deixariam matar muito antes de pensar em ir a extremos com alguém. Fico feliz que coisas que sempre me pareceram tão minhas, tão idiossincráticas e religiosas, agora encontrem respaldo científico. Recomendo The altruism revolution a todos que estejam precisando reavivar sua fé na humanidade. Tem no youtube com legendas em inglês e no Netflix.

 

No vuelan

Eu não diria que é uma dor, não uma dor no sentido de dizer Ai, uma pontada ou uma pequena morte. É um incômodo, um não esquecer nunca, uma vontade de arrancar com a mão. Semanas e semanas tendo que fazer a parte chata da vida adulta de ter que ser responsável, reivindicar, correr atrás, tira dinheiro daqui e coloca em acolá. Me vinha à cabeça o dito que a vida adulta vale a pena somente pela permissão que temos de beber álcool e fazer sexo – eu me repetia, então, que diabos estou fazendo, já que não tenho praticado nenhum dos dois. Agora, espero sinceramente, a coisa está se acalmando, e tomara que suma a sensação crescente de que a passagem dos anos é como naqueles filmes que os protagonistas ficam presos entrem paredes que não param de se aproximar. Quase todos os dias me proponho a continuar o Guerra e Paz, mudo de lugar, coloco na bolsa, mas só tenho mesmo levado o livro para fazer turismo. Enquanto isso a amiga ainda vai casar e quer confirmação, as alfaces precisam ser colocadas de molho antes que eu possa comê-las e o mundo insiste em ignorar meus sábios conselhos, que dirá as minhas dores. Mesmo com o incômodo do aparelho, o arrasto fora da cama quando o alarme toca, as disputas insanas entre coxinhas e petralhas, eu quero escrever. Não tenho saco, não tenho inspiração, não tenho tempo, tenho dor e solidão. Tenho dúvidas e lentidão, choro vendo Cosmos e me sinto insuficiente. Mas um dia eu sei que nem vou conseguir lembrar de nada disso que hoje me espreme tanto. Que não vou entender o que havia de tão difícil num conjunto de telefonemas, caras feias e contas que se renovam mês a mês. Eu quero e preciso escrever, nem que seja apenas para justificar todo meu desajuste social. A vida não espera e a gente precisa fazer o nosso com e apesar de tudo.

no vuelan

Quatro dias e meio na merda

Passar quatro dias e meio na merda por causa de alguém que te faz passar pelo menos sete em depressão não é lá isso tudo. (“Se essa pessoa te faz tão mal, por que você não se afastou antes?” Pois é.) Foram dias que eu arrastei a mim mesma e nada convencia o meu coração de que a vida não era pesada de se viver. E talvez tivesse durado mais tempo, se o dia não tivesse amanhecido feliz e ensolarado. Não sei se com todo mundo é assim ou se é pessoal. Descobri que as dores do (meu) coração são iguais às outras dores do corpo: a gente luta, toma cuidados, fortalece o organismo, faz o que pode, mas não vê resultado enquanto o ciclo não se cumpre.

Pois é, o ciclo. No meio dele, com a cara inchada e um sarcasmo exagerado pra tentar parecer bem, minhas amigas comentaram de um tal remédio que estimula a produção de serotonina. Todo mundo anotando o nome e eu fiz questão de esquecer. Tenho esse radicalismo pessoal, de mesmo na merda me recusar a tomar remédios que poderiam me deixar “feliz”. Investigo a causa profunda e acho que ela está na minha descrença pela alopatia: eu sempre acho que esses remédios, pra arrumar uma coisinha, estragam dez. Então prefiro lutar eu mesma, só com a reflexão. E esperar. 
(Em tempo: não estou fazendo apologia à nada, viu? Quem quiser e precisar de remédio alopático, que queira e tome!)

Portas

Nunca mais somos os mesmos depois que abrimos certas portas. Para algumas, existe limite de idade. Quem não se tornou esquizofrênico depois dos vinte não se torna mais, não existe esquizofrenia mais velha. Os sintomas se desenvolvem muito cedo, no início da idade adulta ela já está lá. Eu não conseguiria mais gostar de bebida alcoólica; me proibi durante a adolescência e hoje poderia até tomar, mas seria sem prazer. Os não-fumantes podem sentir o cheiro de qualquer fumaça sem sentirem nada mais do que incômodo, enquanto ex-fumantes lutarão. Já li que fumar não deixa de ser uma certa yoga, que o prazer do fumante é o prazer do controle sobre a respiração. Depois que li isso, me convenci de que o fumo me conquistaria facilmente se tivesse pelo menos tentado. É muito diferente se abster de fumar do não ter noção do que é fumar. Culpa da porta. Já que citei a yoga, os livros místicos costumam ser bastante duros com relação ao sexo. Ok, tem o kama-sutra, mas não confunda variedade de posição com variedade de parceiros, just for fun. Hoje a leitura que faço do assunto é muito mais relativa às portas do que moralismo. O sexo é uma porta poderosa demais, difícil de ser controlada, até mesmo diminuída. Adultos já enlouquecem com ela; penso no problema que é pra alguém muito novo. A porta do sexo pode ser de tal forma poderosa que impede a descoberta de outras portas. Drogas, idem. Porque, do mesmo modo que algumas portas se abrem facilmente, para outras precisamos nos empenhar: bons livros, meditação, contemplação da natureza, estar em contato com a arte. E a disciplina também é uma porta – os disciplinados entenderão o que quero dizer.

 

Eu não queria ter lembrado, eu não queria ter feito contagem regressiva, eu não queria de certa forma estar revivendo tudo. Mas estou. Sempre achei desnecessário quem relembrava o aniversário de datas trágicas, de ficar guardando o dia que pessoas queridas morreram. Bem. Estou fazendo um ano de divórcio e tenho lembrado e fugido. Nesse meio tempo descobri uma porta imensa de dor e não quero voltar lá.

Eu sei

Já me contaram e eu já percebi que as coisas não são como eram quando eu saí do mercado por casar. Ou talvez até já fossem, mas passar um período casada pra dez anos depois estar solteira é como dormir adolescente e acordar quarentona. Eu sei que o mundo está assim, que ninguém é de ninguém, que a palavra namoro soa forte demais, soa mofo, soa compromisso, soa alianças e estamos já tão desapegados, quase um filme de ficção científica. Que velha sou, por favor, que eu guarde pra mim todo meu romantismo, minha paixão pelo cheiro de quem eu gosto, minha necessidade de abraçar, sexualmente e principalmente não sexualmente, apenas por gostar do calor e todo carinho que estar no meio dos braços de alguém transmite. Ontem fui parar num concerto de jazz, e digo que fui parar porque só fui porque a Adri insistiu, e a Adri só existe porque um dia nos apresentaram, e no dia seguinte estávamos juntas numa festa dos amigos dela e eu não conhecia ninguém, e falamos de nossas vidas complicadas. É como se tudo tivesse ficado mais intenso e inesperado desde que me separei. Agora nada me impede de falar com estranhos, de aparecer em festas, de assistir espetáculos de jazz. Porque ele sim era uma pessoa mais normal, que não se apegava facilmente, que tinha vergonha na cara pra não ir assim na casa dos outros e, principalmente, detestava jazz. Ela me deu carona, mas eu não teria problema nenhum em voltar de ônibus, porque me tornei amiga da noite, das ruas escuras e dos ônibus noturnos. Em uma semana comi dois hamburgueres vegetarianos iguais no Dom Corleone, o primeiro porque vários amigos foram lá e não deixamos ninguém conversar direito com as nossas risadas e o segundo porque eu estava na fossa, e se bebesse teria enchido a cara naquele dia. Foi a primeira vez na vida que mobilizei as pessoas em torno da minha dor de amor. Mas, veja só, como são inocentes meus novos programas, minhas fossas, minhas dores. Eu sei que poderia muito mais, eu sei que poderia começar agora. Assim como agora eu sei que o que ele me oferecia nem era tão pouco assim, em comparação com o tão pouco que hoje se cobra. Um telefonema, uma trepada mensal, arranjar vários pra evitar de se apaixonar por um, ou se apaixonar por todos e desejar que algum deles fique. Eu ouço minhas músicas, eu danço pela sala, eu ando no sol e me pergunto se mais ninguém sente as coisas que eu sinto, como eu sinto. Eu sei que eu sou adulta, eu sei que ele vai voltar, eu sei que o jazz é problema meu, eu sei que seria tão bom crescer, eu sei que o mundo é assim, eu sei que não me custaria nada. Um pouco de prazer, meu bem, entre amigos. Mas o que fazer se meu peito começou a doer, igualzinho quando eu me separei. Igualzinho. O mesmo medo e desamor. Então por mais que eu saiba, que eu concorde, que eu queria, que eu seja adulta, que eu aceite e ache tudo muito funcional, não vai dar. Meu peito dói.

O fio

Era algum comentário sobre uma história de Ananda e Buda. Ananda, o principal discípulo de Buda, havia lhe feito uma pergunta. Não lembro que pergunta era e qual o teor do assunto. Lembro que o comentário dizia que o que Ananda não entendia é que era justamente Buda quem o impedia de se iluminar. Porque Ananda e os outros discípulos haviam se desapegado de tudo nas suas vidas… menos do próprio Buda. Buda era o último e definitivo apego. Quando ele morreu, continuou o comentarista, vários discípulos se iluminaram. Depois de um Buda, a que se apegar?
Em um texto da Fal, ela disse que não raro tinha crises de pânico (desculpa se estou contando errado, Fal), que praticamente sumiram depois que o marido morreu. Porque o que havia de pior já havia acontecido. Eu também sentia que o pior já havia me acontecido após minha separação. Andava por aí à noite, em qualquer horário, em qualquer rua. Todo mundo com medo do que poderia me acontecer e eu tranquila. Eu me sentia imune porque nada poderia piorar. Você pode argumentar que não, que pior do que estar separada seria estar separada e estuprada, separada e esfaqueada, separada e pobre. Sim, eu sei que havia o que piorar por fora; esses são argumentos racionais. Subjetivamente é que não havia.
Certas dores são o último fio.

Curtas de amor & sexo

Andei pensando e cheguei à conclusão que o meu (só meu?) problema com amizade colorida é puramente narcisista: não suportaria a ideia de alguém partilhar da minha intimidade e depois sair igual. Tem que ficar loucamente apaixonado, claro.

 

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Assim como dói enorme e absurdamente quando do lado de cá houve um grande amor e do lado de lá apenas mais uma foda. Se do lado de cá houve amor, houve luzes, houve borboletas na barriga, houve felicidade. Podemos dizer que o outro lado saiu perdendo, que o que vale nessa vida é a capacidade de amar e criar boas lembranças. Mas poxa. Dói demais, deve ser a coisa que mais dói no mundo. É daquelas que joga o cabra no chão e pode ser que ele nunca mais levante.

 

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A espera é uma coisa complicada. Esperar até esperamos, mas achamos que isso gera bônus. Como se fosse uma planta, que quanto mais você espera, maior ela fica, ou seja, melhor vai ser o que vem depois. “Tenho esperado muito tempo, então não pode ser esse comunzinho aí, tem que ser espetacular”. Não é assim que funciona. Às vezes não tem planta nenhuma.

 

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Eu me pego – veja porque sei que o ateísmo está além da minha capacidade – querendo chantagear o Destino. “Se até dia tal, não aparecer alguém assim, assim e assim, eu vou fazer isso e aquilo.” Claro que o Destino boceja, a vida segue e não acontece nem uma coisa e nem outra.

A floresta escura

Agora eu sei como minhas amigas se sentiram. “Eu gostaria de poder fazer mais” me disse uma que ofereceu colo, casa, comida, tudo o que eu precisasse. Que ficasse a semana inteira aproveitando o clima maravilhoso que a casa dela tem. Clima e família maravilhosa que ela criou a duras penas. Outra me ofereceu conversas de madrugada, aproveitando que está num fuso horário diferente, me dizendo que o que ela queria, às vezes, era só falar. Já outra, quando liguei aos prantos e disse que não suportaria, invocou o seu próprio exemplo, o de sua filha e o de tantas mulheres que já haviam passado por coisas difíceis e estão aí. Na hora achei duro, não lembro o que esperava ouvir. E todas, todas foram unânimes em me dar o mesmo conselho: ocupe-se. Que eu arranjasse coisas para fazer e lugares para ir o tempo todo, que não deixasse a mente ociosa e a depressão bater, que depois de me ocupar muito um dia eu perceberia que passou. A noite demoraria, seria difícil e dolorosa, mas chegaria ao seu fim. 

Tenho uma amiga que está começando esse mesmo processo. Que angústia, eu gostaria de poder fazer mais. A única coisa que se pode fazer é apoiar. É como se a pessoa fosse entrar numa floresta. Podemos lhe dar um cantil, os sapatos mais apropriados, bússolas, conselhos, nossa experiência pessoal, a festa do lado de fora. Mas quando ela entra, está sozinha. Há dores que não se economiza, há dores incompartilháveis.

Sabedoria

Quantos de nós não fariam igual Peter Pan, se tivéssemos sabido o que nos aguardava a vida adulta. Crescemos e sentimos o mesmo de sempre: a mesma insegurança, o mesmo não saber para onde ir, a mesma solidão, só que na versão maior e mais séria. As atitudes maduras que vêm com a idade não são nada daquilo que eu esperava. Eu achava que com os anos as coisas parariam de me afetar. Sem me deixar afetar por elas, eu olharia para os meus problemas com calma e isso me levaria a tomar decisões sensatas. Pois bem, as coisas que doíam antes continuam doendo depois, só muda o formato. Não dói mais ser rejeitada pelo coleguinha interessante da 6º B, mas dói descobrir que o homem interessante que me olhava é muito bem casado e com filhos. Está tudo lá, igual ao que sempre foi. Se diante das dificuldades da vida eu não saio correndo aos prantos pros braços da minha mãe, é única e tão somente porque pega mal.
A não ser que a pessoa tenha se tornado um ser iluminado que saiu da roda de Samsara, a parte de olhar para os problemas sem se deixar afetar não existe. O que adquirimos é a experiência de já ter surtado, chorado, jogado as coisas pro alto, ter tirado satisfações, se vingado, sambado na cara e, depois de tudo, voltado a chorar solitariamente no quarto. Por causa disso, decidimos poupar todo trajeto e ficamos quietos no canto. Seguramos a onda, só isso. O que quebra não tem mais conserto, tem só remendo, o que não é o mesmo de nunca ter quebrado. Quanto mais cedo aceitamos – céus, odeio essa palavra, a-ce-i-tar! – melhor. A vida fica lá, impassível, esperando a gente parar de se debater e fazer birra na sessão de brinquedos do shopping. Então, ao invés de telefonar e dizer besteira, abrimos uma caixa de Bis. Pra não ficar remoendo pensamentos tristes, assistimos um filme. E por aí vai. O coração se desespera e acha que tudo está perdido, mas tentamos fazer com que a mente não vá atrás. Dizemos para nós mesmos o mesmo que diríamos a um amigo naquela situação. Tal como aconteceria com o amigo, não adianta muita coisa. Alivia apenas o suficiente para seguirmos adiante.
Aguardo ansiosamente (ops!) o dia que serei realmente sábia, sem dor, como deveria ser.

Traição orgânica

Só agora eu entendo o tamanho do meu egoísmo e da minha crueldade para com a minha sogra, saindo com ela de vez em quando na sua viuvez. Eu devia ter trazido aquela mulher aqui pra casa, mesmo sem qualquer intimidade. Largava ela no sofá vendo rede globo, igualzinha a rede globo da casa dela, mas seria melhor. Esse era o problema, eu não entendia que seria melhor. Eu não entendia a diferença que faz estar acompanhado, apenas estar acompanhado, saber que tem outro ser humano por perto quando você não está bem. Eu não entendia porque uma amiga que estava recém-separada falava com tanta gratidão do amigo que assim que soube a chamou pra sair naquela noite. No que resolvia, uma noite?
Eu não entendia o problema da solidão súbita e forçada porque não entendi o que significa essa solidão. Não entendia os depressivos, não entendia as crises de pânico, nunca havia sentido nada semelhante. Eu nunca havia sentido essa ânsia que sobe da mesma forma que uma ânsia de vômito, e vai no coração e dói. Da cabeça entender mas o corpo precisar purgar, e te assaltar de quando em quando com um medo maior do que você, atávico, ancestral, que não te pertence e que você não consegue se defender. Enquanto ele dura, dá vontade de morrer. E o parente dele é um desânimo, uma auto-comiseração e uma falta de fé tão grande que qualquer tarefa corriqueira se torna um fardo. Não há o que fazer, mas ao mesmo tempo há a necessidade de fazer alguma coisa, pra pelo menos fazer as horas passarem. 
Agora tudo faz sentido. Estar presente, sair, tirar de casa faz toda diferença. Nos primeiros dias, nas primeiras semanas, nesse começo. Até o corpo purgar. A cabeça entende, a cabeça decidiu, mas é algo além dela. Como condenar alguém por buscar remédios, beber, fazer sexo loucamente, enfim, sair de si, quando dentro de si se torna o pior lugar. É uma verdadeira traição orgânica.

Certezas

Tudo resolvido, assinado, depois de tantos meses. Minhas amigas admiradas diante de tanto equilíbrio emocional em um divórcio. Tudo muito amigável, otimista, civilizado. Passamos todos esses meses vivendo juntos, embora separados. E eu não via a hora de tudo terminar pra ele finalmente ir embora e eu tocar minha vida pra frente. É no próximo fim de semana.

Certeza? Acabou. Agora bateu de verdade. Agora o que me impede de me atirar debaixo do primeiro carro é covardia pela dor.

Rezem por mim, estou precisando muito. Pior aniversário de toda a minha vida.

Segurar as pontas

Segurar as pontas, agüentar a barra, engolir seco. É a coisa mais simples e mais difícil de se fazer. Teoricamente, basta sentar e esperar que o tempo deixe as coisas assentarem e a dor diminuir. E quem é capaz de ficar quieto no seu canto quando está com dor? A gente é traído, chifrado, humilhado, passado para trás, enganado e é muito duro voltar pra casa e encarar que o prejuízo sozinho. Sempre penso no caso da menina Eloá: se o ex-namorado tivesse se conformado em deixar passar, duvido que em algumas semanas ele já não teria esquecido dela. Mas não, ela tinha que pagar por ele estar sofrendo e deu no que deu. Isso separa normais dos psicopatas: eles não deixam barato.

Quase ninguém mata quando está com dor. O mesmo não se pode com relação a cair matando em um monte de comida. Ou dar pro primeiro que aparece. Como sofrer sem acabar a saúde, auto-estima, conta bancária, amizades e tudo o que importa? Corre-se o risco de cair no ciclo das cagadas sucessivas. Dizem que tem a ver com maturidade, educação, inteligência emocional. Eu não sei ao certo. Seja lá o que for, quem consegue segurar sua própria dor tende – ironicamente – a ser mais feliz do que quem não consegue.