A amiga mediana

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Eu sinto falta dela, e talvez não seja de forma elogiosa. Lembro que vi uma  vez uma matéria de uma menina que era consultora oficial de uma grande empresa de brinquedos. O Walt Disney da tal empresa a descobriu por acaso, uma filha da vizinha, e era tiro e queda, que tudo o que ela gostava virava sucesso de vendas e se ela não se entusiasmava o brinquedo não vendia. Essa tal amiga, de quem eu sinto falta, era como essa menina pra mim. Se eu queria saber a opinião do senso comum, a opinião das ruas, o que a maior parte das pessoas julga sobre uma situação, até mesmo se as pessoas consideravam tal assunto relevante, era só perguntar pra ela. Um dos casos impressionantes foi quando ela me disse que viu um prêmio importante, com as pessoas muito chiques, e a Marisa Monte disse que estava usando roupa de brechó – não brechó chique, brecho dérreau. Eu achei aquilo muito legal e ela ficou mortalmente ofendida, nunca mais gostou da Marisa Monte, porque achou um desrespeito com as pessoas que haviam gastado bastante. Eu jamais teria chegado àquela conclusão sozinha. Com ela eu estava sempre a par do que se pensavam das celebridades e do quanto elas são “importantes”, dos sonhos de consumo nas novelas, do peso de certos símbolos de status presentes em e festas, do que se deve ou não fazer nas horas livres. Eu a ouvia com interesse e contava em casa o novo mundo que ela me apresentava, porque ela também me fez ver o quanto eu era esquisita e fora da média. Nunca consegui substituí-la, nunca mais consegui alguém que encarnasse o comum em todos os gestos e opiniões; tenho que ficar imaginando, tenho aqui e ali pessoas que me mostram o que pensam grupos específicos. Acho que a primeira pergunta que eu lhe faria se a reencontrasse é o que ela pensa sobre o Bolsonaro.

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Uns mais iguais

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-… maldita Bolsa Família. Ninguém mais quer trabalhar, pra quê trabalhar? Está muito difícil arranjar funcionário hoje em dia, não compensa mais.

– Eu tenho uma amiga que tem loja em shopping e ela disse que está muito difícil. Você contrata uma pessoa, treina, aí depois de um tempo aparece uma oportunidade em que ela vai ganhar pouca coisa a mais, e ela vai, só pra não ter que trabalhar no fim de semana.

Aí eu não aguentei:

– Eu também trocaria de emprego por um que não precisasse trabalhar nos fins de semana…

– Ahhhhh, mas é diferente! Você é diferente, estamos falando deles.

O que a vida pede

Passei o feriado inteiro meio doente e o dia ficou quase o tempo todo chuvoso. Mas eu precisava ir no supermercado de qualquer maneira. Fui com casacão, cachecol, guarda-chuva e voltei encalorada, equilibrando as compras pesadas junto com o guarda-chuva, desviando das poças. Eu gosto de andar, gosto de fazer compras, gosto até de chuva, mas naquele instante os carros que passavam por mim pareciam bem mais confortáveis. Posso não comprar todos os sonhos burgueses e não estar disposta a todos os sacrifícios necessários por eles, mas não sou imune. O Ernani me fez pensar na maravilhosa entrevista que deu para o Cândido:
Acordar o mesmo, não um inseto monstruoso, não é só uma brincadeira com A metamorfose, do Kafka, um dos poucos livros que considero perfeito. Muitos livros e filmes começam com uma mudança brusca na vida do personagem, uma separação, a morte de um filho, essas coisas. Só que o drama da maior parte das pessoas é não haver mudança nenhuma, é o sujeito continuar o mesmo, preso na mesma circunstância.
Eu também, como todo mundo, olho pro céu e me pergunto se isto – as sacolas de compras pesadas que carrego na mão até a minha casa – é a minha definição, a minha realidade, se a vida não me reservará algo novo e inacreditável. O quanto eu amo, ou o quanto eu aceito, ou até quando eu amarei tudo isso? Dependendo do olhar, não passo de uma pobre coitada. Não precisa ser muito observador pra perceber que levo uma vida simples e que tento obter dela o máximo de felicidade. Minha realidade vai até poucas quadras mesmo, pelo menos por enquanto. O que sei é o que o Farinatti colocou como legenda nesta foto:

A vida pede alegria e um pouco de boa vontade.

Fantasia gitana

Não tem aquelas lendas de que a coitada da criança nasceu numa família de classe média e foi roubada por ciganos malvados, que a obrigaram a viver uma vida errante? Pro meu caso instituo a lenda contrária: eu, bebezinha cigana, estava linda na minha barraca e fui roubada por uma família de classe média, que me obrigou a viver entre paredes.