Curtas ansiosos e fora do lugar

Passarei uma semana acordando 4:30. É exagerado e não é. É pra dar tempo de tomar banho, café tão cedo eu não consigo, andar tranquilamente, pegar os ônibus que mesmo atrasados meu levarão aonde eu preciso. Se tudo atrasar, ainda chego no horário. Quando chegar meia hora mais cedo e esperar pelos outros, é provável que me xingue pelas horas de sono perdidas. Mas no fundo eu vou saber que é o preço que pago por ser quem eu sou: uma pessoa que se cobra demais e não conta com a sorte.

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Uma vez fui num iridologista. Fui com meu então marido, que ia ficar me esperando na sala espera e o iridólogo o mandou entrar. Guardei pouquíssimo do que o sujeito me disse, lembro das fotos do meu olho bem grande numa tela de TV e ele me falando algumas coisas a respeito do meu temperamento e da minha saúde. O que guardei foi a frase: “você é uma pessoa de grandes medos e grandes coragens”. Talvez nem isso tivesse guardado se o meu ex não tivesse dito que foi a melhor definição já feita a meu respeito. De acordo com ele, nem registro o perigo de situações que fariam os mais machos recuarem, e ao mesmo tempo temo coisas tão estúpidas que ninguém imagina.

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Uma lembrança tola. Eu havia combinado de encontrar minha mãe para almoçar antes da minha aula na faculdade e no intervalo dela. Eu a buscaria e iriamos juntas, mas como atrasei ela já estava no restaurante. Eu me desculpei e disse que o ônibus atrasou. No seu silêncio, ela me disse que “claro, você sai em cima da hora. Aí, quando as coisas não dão todas certo, você diz que o ônibus atrasou”. Ou seja, eu não fui sempre assim, ansiosamente pontual.

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Outra lembrança: eu comecei minha segunda faculdade e conversava com os outros alunos mais velhos. Havia uma lá de cinquenta. Ela me falava que havia sido de movimento estudantil, que era do tipo que falava, que era isso e aquilo. Mas isso antes, quando era jovem. Com o viver, havia se tornado calada, não dizia o que pensava, tímida, não levantava a voz. E eu pensava: “então por que você não recupera aquela moça, se você tem ela aí dentro?”. Hoje eu entendo.

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Uma que dança desde criança foi parar na vida acadêmica e escreveu no seu Insta sobre o quanto lutava contra o seu sentimento de estar fora do lugar. E eu comentei: “sinto o mesmo que você, só que invertido. Na academia, eu estava no meu lugar.” Um dia houve um lugar.

livro da vida

Jeans e oráculos

Eu adoro comprar roupa online, especialmente da China. Antes (dólar baixo) era uma pechincha, saia quatro vezes mais barato do que ir numa loja. Depois de ser tão vantajoso e passei a comprar menos, mas continuei gostando. A ironia é que comprar em site é se basear em medidas e com base na foto tentar adivinhar como você ficaria. Justo eu, que quando preciso comprar um jeans sou capaz de experimentar vinte antes de me decidir por um – ou nenhum. Aí eu me dei conta de que talvez seja justamente por isso, porque no site eu me desobrigo e pessoalmente eu não posso não experimentar. Se eu não experimentar tudo, vou me condenar pelo resto do tempo, imaginando que um jeans muito mais perfeito estava à minha espera.

Bauman fala disso, outros autores falam disso, do quanto o excesso de escolhas acaba se tornando fonte de ansiedade. Aí estava pensando num meio atendimento que acabei fazendo com um amigo. Numa fase da vida dele, ele viajou para o exterior e que poderia ter acontecido algo extraordinário nesta viagem, que a vida dele poderia ter dado uma guinada. Eu fui determinista, disse que pelo mapa dele a viagem deu o que tinha que dar, que aquilo era um começo e não uma guinada. Lembro agora de um outro amigo que via cartas, e ele me disse que nove entre dez pessoas queriam saber de amor, os outros poucos tinham um problema específico de saúde ou queriam um emprego. Eu lhe perguntei se já apareceu gente que não iam arranjar um amor e ele disse que sim, e que falou para elas. Então, concluí que o que as pessoas iam lá ouvir que iam sim arranjar um amor, que apesar das aparências e da ansiedade havia alguém, era apenas uma questão de tempo.

Ninguém aqui nasce numa família de nobres ou servos e que lhe diz desde criança que você será nobre ou servo. Por mais que a mobilidade social não seja tão livre quanto se prega, crescemos com uma ideia de é tudo escolha nossa. Tudo o que eu sou e penso é fabricado a cada minuto e em cada gesto. Como se a vida hoje fosse um excesso de opções confuso e sempre escolhemos errado em algum lugar. Sempre, eternamente, nunca enxergamos o suficiente, nunca experimentamos o suficiente, era justamente o último jeans da loja que tinha o melhor caimento e mudaria nossas vidas. Procurar oráculos, mapas astrais, cartas, previsões é, no fundo, uma visão determinista. E o que ela nos diz é: você fez o seu melhor e o que tinha de fazer. Aguarde e confie.

Tenho respaldo da sociologia ao dizer: você não escolhe tanto assim.

Paul diz: Let it be. Confiem nele.

Em busca do céu

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A ansiedade vinha tão forte, de baixo para cima, que parecia um vômito, e ao invés de sair pela garganta se plantava no coração e parecia que a única saída era morrer. Continuar vivendo nos próximos minutos era insuportável, o que dirá uma vida inteira. Porque a não ser que eu tivesse a sorte (!) de sofrer um acidente fatal, pelo menos mais uns quarenta anos mais eu viveria. Qualquer coisa que eu pensasse me parecia angustiante demais. Como ir adiante, como acordar cedo na manhã seguinte, como levantar da cama, como falar com as pessoas, como fazer coisas? Tudo tinha o sabor de cinza, nada era capaz de me dar prazer. Só então eu realmente entendi o que é depressão, crise de pânico, transtornos psiquiátricos. Eu não tomei nenhum remédio, só floral, mas entendo perfeitamente quem toma. Não tomei porque dentro de mim havia a lembrança de quem eu era, e eu sabia que podia voltar a ser aquela pessoa. Mas nem tudo foi coragem o tempo todo. O que me impediu nos momentos de desespero foi saber que tarja preta leva pelo menos uns quinze dias para começar a fazer efeito. “Eu preciso agora, quero parar de sofrer neste minuto, quero uma paulada na cabeça. Daqui há quinze dias já vai ter passado. Lembro especialmente de uma crise que me deu no terminal, voltando da aula de flamenco, tarde da noite. Eu não apenas me sentia sozinha, eu estava sozinha. Naquela hora, mesmo com toda boa vontade, eu não conseguiria um amigo pra me ajudar. “Calma, está tudo bem. Respira”, eu tive que dizer pra mim mesma. Olhei à minha volta, olhei para o céu. “Está tudo calmo. Não importa o que aconteceu antes, não importa o que vai acontecer depois. Você está no terminal, de pé, a noite está agradável”. Naquele período eu percebi que olhava sempre para baixo, ou nem ao menos realmente olhava para o que estava olhando. “Você não tem nenhum problema. Não agora, não neste momento. Você está apenas de pé no terminal. Esquece o resto”. Eu descobri que quando vinham as crises, eu nunca estava onde realmente estava, meus pensamentos estavam em outros lugares. Para estar mais presente, eu passei a me obrigar a olhar para cima. “Olha que vento gostoso, olha como ele balança aquelas folhas”. Simbolicamente é tão simples e eu senti na carne: olhar para baixo e para si, o pequeno, o sem perspectiva; olhar para o horizonte, o longe, amplo e cheio de possibilidades. “Olhe à sua volta. Está tudo bem”. Naquela noite, antes que o ônibus chegasse, eu já havia conseguido me acalmar. Outras crises vieram, em intervalos de tempo cada vez maiores e com cada vez menos força. E como não quero sentir aquilo nunca mais, estou sempre olhando pro céu.

Segura a chave de fenda!

Eu ouvi uma vez a história de um cara que foi fazer um conserto, e tinha um pirralho pentelho do lado que queria “ajudar”. Aí ele deu uma chave de fenda pro menino: Preciso que você seguro essa chave de fenda pra mim. Ela é muito importante, segure bem, não pode deixar cair, não pode perder ela de vista! Aí enquanto o moleque se concentrava na importante missão de segurar a chave de fenda, ele pode realizar o seu trabalho.
O que eu mais gostaria é de achar uma chave de fenda dessas pra minha mente ansiosa.

Precipitada

Tenho dificuldade em esperar. Me proponho a fazer algo e fico impaciente até poder colocar a minha decisão em prática. Se no dia fatídico acontece algum problema, ao invés de deixar pra depois, minha tendência é fazer do mesmo jeito. Porque eu já me programei, entende? Isso me levou a falar coisas que não pegaram bem, porque na hora já não cabia mais falar aquilo. Já paguei caro por coisas que poderiam ter saído mais barato se eu tivesse dado uma olhada na outra loja ou conversado com alguém que entende mais do assunto. Corri com prazos, me matei pra fazer tudo certinho e nem precisava. Ansiosa, ansiosa, ansiosa. Via nisso apenas uma incapacidade de mudar de programação e de esperar. Também é, mas existe um componente a mais, algo que talvez esteja na raiz: os precipitados sofrem de falta de fé, são pessimistas. Se algo puder dar errado… a sua resposta é dizer que dará? Não sou daquelas pessoas que contam com a sorte, muito pelo contrário. Cresci com o destino está jogando contra mim – coisas dadas como certeza escorreram por entre os meus dedos, fui a pessoa certa no momento errado, aquele contato que poderia mudar minha vida nunca chegou ou veio e não aconteceu nada. Por isso eu sempre acho que se eu pedir não serei atendida, que se eu esperar a coisa não estará mais. Fazer o mais rápido possível, assim que dá, é a única alternativa pra quem se sente sozinho no mundo.

Luta diária

Com exceção dos dias chuvosos, sempre levamos a Dúnia pra passear. Antes eu chegava em casa mais ou menos no horário do almoço e ela se acostumou a passear quando eu chego em casa. Vi uma vez a recomendação de não passear com o cachorro no horário mais quente do dia, porque eles podem queimar as patinhas no asfalto. Meus horários mudaram e já tentei reacostumá-la a passear no final da tarde. Mas é inútil. Se passeio com ela cedo, mais tarde ela “esquece” que passeou e fica chorando pra passear de novo. Se tento passear mais tarde, lá por umas duas horas ela começa uma choradeira sem fim, que não termina enquanto não saímos. À medida que o horário do passeio se aproxima, eu não posso passar nem pela cozinha direito sem que ela se coloque à postos e/ou chore. Depois de tantos anos, acho que a Dúnia tem convicção de que é ela quem nos obriga a passear, tudo na base do choro.

O Luiz vê essas coisas e diz que a Dúnia teve a quem puxar. Porque eu sou naturalmente ansiosa, e não deixo de me identificar com esse dramalhão que ela faz. Acho que, do mesmo modo que ela, às vezes inverto causa e efeito, e me acho grande causadora de várias coisas, sendo que na verdade elas é que chegaram até mim. Me debato inutilmente, como se isso fizesse chegar mais rápido ou que posso interferir. Ou me angustio pelo que chegará de qualquer maneira.

Ortodontista cruel

Esperei a vida interia para usar aparelho. Quando era adolescente, eles era muito caros. Meu pai até tinha dinheiro para pagar, mas por puro capricho não pagou. Esperei ansiosa e dolorosamente o dia em que desentortaria meu dente bem na frente.

Quando esse dia chegou, me tornei a paciente exemplar. Mais do que exemplar, eu fiquei paranóica. Se o meu dentista tivesse dito que dormir abraçada com uma jaca ajudaria no meu tratamento, eu teria dormido. Qualquer coisa que ele pedia, eu seguia à risca. Para cumprir as 10 horas diárias usando o extrabucal, chegava a cronometrar. Nos últimos dias, o extrabucal me causava tanta dor nos ombros que eu cheguei a tomar Dorflex. Mesmo assim, só parei quando ele mandou.

Quando ele dizia para arrancar os pré-molares, ia praticamente no dia seguinte à dentista e tirava os dois de uma vez. Tudo para não atrasar o tratamento. Fui obediente no uso dos elásticos de Moon-ra. Sempre que ele me pediu para aparecer no consultório, eu largava qualquer coisa para ir. Quantas vezes minha mochila não ficou assistindo aula enquanto eu ia correndo ao dentista trocar de elástico? E quando tinha a opção de aparecer lá na sexta ou na segunda, aparecia na sexta. Tudo para não atrasar o tratamento. Já cheguei a aparecer lá 3 vezes em uma semana.

Toda essa luta fez com que eu ficasse 3 anos de aparelho. Ironicamente, meus dentes não tinham pressa. Tirei em março deste ano. Minha primeira providência foi tirar uma foto sorrindo, coisa que há anos não podia. Comecei a usar o extrabucal. Ele disse – só tire para comer e escovar os dentes. Eu só tirava para comer refeições grandes. Para os lanchinhos, continuava de aparelho mesmo. Só parei de fazer isso porque estraguei a solda do aparelho e me custou 25,00 reais consertar.

Agora, em dezembro, ele disse que provavelmente me liberaria para usar só à noite. Liguei agora para marcar a consulta e soube que ele vai tirar férias, está sem horário e só vai me atender em janeiro. E eu, como fico no natal, ano novo, fotos com os amigos em São Paulo?

Que vontade de chorar…