Hábitos de veado

veado

Tem nakshatra de elefante que avança furiosamente, tem nakshatra de tempestade, tem nakshatra de flecha que atinge o alvo. Um dos meus principais nakshatas tem como símbolo um veadinho. Sério. Ele é o mais frágil dos 27 nakshatras. Um dos astrólogos que eu sigo, o Vic Dicara, faz uma reflexão de vida sobre cada um dos nakshatras, e o do meu é, basicamente, “como sobreviver sendo frágil“. A sorte é que tem uns de cobrinha pra me ajudar. Mas, apesar de eu estar aqui reclamando, eu adoro esse nakshatra. A palavra que o define é “buscador”. Tal como o veado que fica pela floresta cheirando as folhas, as pessoas que tem esse nakshatra forte adoram estar sempre à procura. Eles gostam tanto de estar à procura que gostam mais de procurar do que encontrar. É um nakshatra ótimo quando se fala de estudos ou de busca espiritual, porque a pessoa nunca se contenta com o que tem e se enriquece cada vez mais de conhecimento; ao mesmo tempo, é ruim quando essa busca se volta par ao lado amoroso, porque aí a pessoa pula de parceiro em parceiro, sem jamais se contentam com ninguém.

Uma das coisas que esse nakshatra me jogou na cara foi a tendência aos hábitos. Diz que o veado é um animal de hábitos regulares, ele anda sempre pelos mesmo lugares na floresta. Eu percebo isso claramente quando começo a ser conhecida nos lugares onde eu vou. Quando estava deprimida e detestava ter tempo livre, comecei a inventar programas novos, percorrer padarias e cafés, me obrigar a agendas culturais. Só que de tanto explorar, acabei descobrindo o que combina mais comigo em termos de ambiente, orçamento, sabores. Então, todos os dias da semana e nos mesmos horários, vou para os mesmo lugares e como sempre as mesmas coisas. Nas poucas vezes que tentei mudar, me arrependi. Não é que eu faça amizade com os atendentes porque chegue íntima, ao contrário, sou a que chega muda e saio calada. Mas depois de encontrar quase todo dia chega uma hora que não dá, né?

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Eremita

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Tenho um problema sério quando fico muito tempo sem contato humano: eu acostumo. Acostumo e gostcho demais. Olho para o ritmo normal da minha vida ao longo do ano, as pessoas que estou sempre em contato, as várias conversas engatilhadas e os compromissos e me espanto – como aguento? Eu sei, estar sozinho pode dar uma ilusão enorme de paz e sabedoria, como o sujeito que passa vinte anos numa montanha e se crê santo pra perder a calma quando cruza com o primeiro. Mas… como aguento? Sei que se eu falasse das coisas que me são verdadeiramente caras não encontraria ouvidos. Posso adivinhar o silêncio educado e impaciente se começasse a falar dos livros que li, as séries, os canais no youtube, os sonhos, as coisas que pensei. Mas não, eu não saí, não bebi, não fiquei e nem fui cantada por ninguém, então, na versão oficial, nada me acontece há semanas.

Minha foto ga(s)ta

avatar macanudo

Evidentemente, esta não é a foto gata.

Para impressionar o meu crush, ganhei uma foto gata. E ao ganhar a foto gata, ouvi que era difícil me fotografar por causa do meu cabelo. Eu já sabia: meus fios brancos ficam muito brancos em fotos. Eles se concentram na parte da frente, na moldura do rosto. Dependendo da luz parece que o meu cabelo está todo branco; e eu fico “parecendo uma velha”.  Eu tinha que impressionar, eu tinha que ficar gata, eu tinha que… Minha filosofia no que diz respeito a conquista sempre foi o que eu escrevia no Caminhante responde questões esdruxulas: “Seja uma pessoa legal para homens, mulheres, cachorros, aliens. O resto vem naturalmente”. A internet é um perigo de se levar à sério, tem gente que não entende nada de nada e se arrisca a dar conselhos sobre o que não conhece. É o meu caso. Não sei se vem conquistar alguém naturalmente. Eu sou uma teimosa que insiste em seguir a vida ao invés de procurar um par. A tentativa de impressionar o crush falhou, e nela eu senti o quanto na verdade eu sou insegura. Olho pra ele debaixo pra cima, penso que é muita areia pro meu caminhãozinho, me recuso a me aproximar. Talvez eu realmente ficasse mais bonita se pintasse o cabelo. Um cabelo liso que eu deixo curto e ainda por cima faço cachinhos, tudo ao contrário. Eu escolhi deixar meu cabelo assim, é mais prático pra mim, eu gosto. Nunca me perguntei qual o efeito dele sobre o sexo oposto. Nem o efeito das minhas piadas, de estar sempre de tênis, de pintar as unhas de cores diferentes, de andar de bike… Meu crush não me adicionou mesmo com foto gata, mesmo disfarçando os brancos. Pena. O cabelo branco, atualmente, faz parte do pacote.

Namoro?

 

Me disseram que namoro é status, mercadoria rara. Assim como o casamento é, e percebi claramente quando casei. E mesmo agora, que não sou mais, o status permanece em mim, uma marca eterna. Não sou, mas fui. Eu consegui, uma vez na vida um homem me escolheu para ficar o resto da vida do meu lado. Que se dane se não deu certo, sou mais do que as outras que nunca viveram isso. Acho terrível, mas quase todos vocês pensam assim.

 

Por outro lado, já ter vivido é diferente. Eu sei o que ser a “oficial” – agora falo também de namoro – implica. Tem o andar de mãos dadas, o apresentar para os nossos amigos na expectativa que ele se misture, ser apresentada aos amigos dele na expectativa de agradar, a mudança de status no facebook!, o ajuste das agendas, o entrar num ambiente e ser olhada como propriedade daquele homem, a dificuldade em conciliar gostos na hora de escolher um cardápio, a tampa da privada e o papel higiênico, os gostos bestas que você deve amar, e se isso não acontecer, lembrar de jamais jogar na cara. E tem a família. (suspiro). Tem a família.

Não sei se consigo mais. Neste momento, não.

Coisas demais

Todo ano faço limpas. É um hábito que trago de casa. Desde pequena eu era estimulada a me livrar das coisas. Pegava o meu baú de brinquedos e devia me livrar do que eu não queria mais, deixar que outra criança brincasse com aquilo. Lembro que uma vez quis me livrar de uma mini casinha e minha mãe me impediu, porque a achava tão linda! E assim sempre fizemos com roupas, objetos. O critério não é apenas o que está velho, quebrado, fora de moda ou que não serve mais. As pessoas se impressionam quando vêm minhas limpas, com tantas coisas ainda novas e bonitas. Eu me livro do que não uso, mesmo que esteja em ótimo estado. Levo para alguma instituição e penso que alguém usará aquilo com tanto prazer quando eu um dia usei. Não quero e nem preciso olhar para a cara dessa pessoa; alias, a caridade dirigida, em que a pessoa que recebe se sente impelida a ME agradecer sempre me incomodou. Gosto mais da caridade anônima, não quero que ninguém se sinta em dívida comigo. Não sou eu que estou fazendo um bem em dar e sim ela ao receber.

 

A cada ano que passa, tenho sentido mais vontade de me livrar das coisas. Tenho a maior empatia com os sites Casas Pequenas e Menos VC. Ter coisas nos dá prazer quando compramos, quando usamos… só que depois se tornam prisões. Elas nos preocupam por quebrar, por bagunçar, por envelhecer. Precisamos armazenar, limpar, manter. E assim nos tornamos mais pesados, enraizados no pior sentido. Invejamos aqueles que largam empregos, casamentos ou cidades ruins e depois não sabemos o porquê.

 

Ainda estou longe demais de ser uma pessoa que carrega tudo o que tem numa mochila; quem dera ainda tivesse apenas um baú de brinquedos… Embalar minhas coisas requereria muitas horas. Seriam caixas e mais caixas. Mas eu pelo menos me incomodo, estou tentando ser cada dia mais simples.

Para as visitas

Hoje não dá mais, com os nossos apartamentos minúsculos, de ambientes integrados e até sem paredes. Os imóveis de classe media de antigamente, que ultrapassavam com facilidade os duzentos metros quadrados, hoje são considerados enormes. Antes não era. Antes as pessoas tinham tanto espaço e tantos cômodos que era comum ter uma sala de visitas que era para visitas de verdade, ou seja, que as pessoas comuns da casa não usavam. Era o ambiente que tinha os melhores sofás, as melhores cadeiras, os tapetes e a mesinha de centro, então não se podia arriscar que eles ficassem puídos e manchados pelo uso e crianças brincando em cima. Na casa dos meus sogros – que foi vendida e transformada num pensionato pouco depois do meu casamento – tinha uma dessas. Toda casa era assim. Lembro que me senti muito adulta quando pude conversar com a minha vizinha na sala de visitas da casa dela, no misterioso sofá de almofadas estampadas em cima de uma estrutura de cimento (comum no nordeste e incomum no sul). Já na casa de uma colega de faculdade, onde o tapete da sala branquíssimo, de pele de coelho, sempre passamos contornando, nunca provei de seus luxos. Como num final infeliz de vilões, anos depois a casa foi assaltada, e os assaltantes fizeram questão de limpar os pés sujos de lama naquele tapete.

Raciocínio antigo, eu diria. Diria que não somos mais assim, que hoje fazemos questão de usar o que temos de melhor nas nossas casas, ao invés de guardar para os outros. Nos damos o melhor sofá, usamos a mesma louça usada para receber as pessoas, dispensamos aos outros a mesma coisa do nosso dia a dia. Estamos assim, em pé de igualdade com a exceção e com quem vem de fora. Eu diria isso, até pouco tempo atrás; até resolver fazer uma limpa no meu guarda-roupa e descobrir roupas lindas, de caimento perfeito, novas ou semi-novas, todas compradas por mim e que ficaram esquecidas, enquanto uso as mesmas roupas de sempre e espero ocasiões especiais que nunca chegam.

4 x 7

A Anne adaptou o meme e eu resolvi adaptar também. Respondi apenas os itens onde consegui listar 7 coisas e deixei o resto (muita coisa) de fora. Também não vou passar pra ninguém, responde aí se você quiser.

7 coisas pra fazer antes de morrer
1. Viajar pela Europa com o Luiz 2. Me mudar de Curitiba 3. Aprender a tocar cello 4. Voltar a esculpir 5. Arranjar um irmãozinho pra Dúnia 6. Ser regularmente remunerada por algo que faço 7. Ler alguma coisa do Bolaño.

7 coisas que mais digo
1. Affe! 2. Virge Mary! 3. Ploft. 4. Então tá então. 5. Merda. 6. Guay! 7. Comassim, Bial?

7 defeitos meus
1. Rancorosa 2. Intolerante 3. Impulsiva 4. Compulsiva 5. Inconstante 6. Insegura 7. Orgulhosa 8. Perfeccionista 9. Ansiosa 10. Excesso de auto-crítica…

7 coisas que amo
1. Minha casa, minha vida, meus amores. 2. Escrever. 3. Pão com manteiga. 4. Fazer algo inédito. 5. Estar em movimento. 6. Ficar sozinha 7. Rir.