Curtas saturninos

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Eu me perguntava porque as pessoas eram assim, não acessavam suas dores, deixavam que se transformassem em pedras, cânceres, rugas ou sei lá o quê. Que se soltassem, chorrassem e gritassem, enfrentassem sem medos. Hoje eu sei que, nossa, funciona pra caramba você ver a tristeza subindo a ladeira e mudar de rua. Muito mais fácil do que levantar é nem ao menos cair.

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Eu cheguei cedo e minha cabeleireira terminou o corte anterior cedo, por isso fui atendida quinze minutos mais cedo. O que era pra ser uma vantagem acabou sendo pior, porque a moça da sobrancelha atrasou meia hora. Ela estava saindo de casa e esqueceu suas coisas e teve que voltar. Que bom que o salão tem wi-fi. Esse pessoal do “converse entre si” não faz ideia do quanto o wi-fi gratuito melhoria o clima deles, com clientes calminhos.

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Voltando ao atraso. Estava com os olhos no celular e pensando no que fazer. Normalmente, falta de profissionalismo é uma das coisas que me deixa virada no jiraia. Me disseram que levaria quinze minutos e eu normalmente me levantaria e iria embora no dezesseis. Aí pensei na quantidade de vezes que me atrasei, a ansiedade dos minutos escorrerem e você sem ter como acelerar o mundo. Decidi esperar, ser compreensiva, tratá-la bem. Decidi não tratá-la com a crueldade que pratico comigo mesma.

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Descobri de onde minha dificuldade com pedintes em geral: eu olho nos olhos deles.

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Curtas muito adultos

muito adulto

Não ir ao médico é muito adulto. Quando eu ainda estava na curva ascendente da vida, achava um absurdo a pessoa perceber que tem algo errado com o seu corpo e não correr pro médico. Depois, alguma coisa passa a estar sempre errada com o nosso corpo. E sabemos que o médico nunca nos dirá nada agradável.  Eu e minha lombar, por exemplo, ele não vai me dizer que ela dói porque está bem encaixada e eu faço tudo certo.

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Eu saí do armário com essa história de fazer vídeo e tenho visto outras pessoas saindo também. Pessoas que tem algo a dizer sobre seus livros, sua carreira acadêmica, o que estuda. Que não sabem mexer direito em câmera, têm cacoetes estranhos, rugas, erram palavras. Que tem consciência de que daria pra fazer uma lista imensa de pessoas mais habilitadas do que elas pra falar do assunto em questão. Mas é o que tem, somos o que tem.

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Numa das primeiras vezes que eu dancei em tablado, foi justamente com a minha ex-professora. Fiquei surtada durante uma semana inteira. Minha fantasia era que, se um dia ela voltasse a me ver, eu estaria super poderosa, com todas as falhas técnicas que ela via na época que me conhecia sanadas, enfim, queria provar que ela estava cem por cento errada em não me achar um fenômeno.

Lembrei dessa história porque tive algumas idas e vindas na minha vida e em nenhuma foi como eu fantasiei. Não sei se é porque não alcancei nenhuma das minhas metas ou se é porque somos pra sempre aquela mesma pessoa meio desajeitada de sempre e o tempo só nos acrescenta quilos.

Eficiente, adulta e guilhotina

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Já aceitei que talvez seja inevitável que a Dúnia precise usar o cone da vergonha uma vez por ano, no verão. Mesmo com o anti-pulgas, talvez por ela viver fora de casa, algum bicho a morde e ela não deixa a ferida cicatrizar. Eu me sentia tão mal em colocar o cone que a mimava mais, e ela em pouco tempo percebia e começava a ficar manhosa, me deixava totalmente sem autoridade. Como não se derreter com um cachorro que fica o tempo todo acertando sua perna com um plástico duro porque sempre tenta chegar perto, roça o cone na parede e no chão quando se movimenta, precisa ficar com a casinha sem teto senão não dá pra entrar. Eu também acabava tirando o cone antes do tempo, quando não estava totalmente cicatrizado, o que fazia com que ela voltasse a abrir a ferida, e eu tinha que colocar o cone de novo. Uma vez de tanto colocar e tirar acabei estendendo a situação por um mês, ela ia passear e andava ondulando, estava até com a percepção espacial alterada. Agora não: enfio a mão nos pelos da ferida, mesmo ela se esquivando. Cortei a parte dura, onde está o sangue coagulado e casquinha, verifiquei que ainda tem mais o que cicatrizar. Tudo com precisão, apesar dos protestos dela, apesar de ser chato, apesar de morrer de dó. Estou como uma enfermeira ultra-experiente que não se comove mais. Sempre achei tão bonito e procurei ser uma pessoa em contato com seus sentimentos, mas, ao mesmo tempo, tenho a impressão de que amadurecer é ficar implacável, ser capaz de ignorar o primeiro impulso e se preciso infligir dor, a si mesmo e/ou no outro, em nome do correto. Como se a gente fosse bisturi. Ou como quando você fica sabendo que a guilhotina foi considerada extremamente humanizadora na sua época, porque matava de maneira rápida e eficiente. Ou como quando você percebe que é mais fácil nem começar a chorar. Como endurecer por fora e continuar suave por dentro, como adultecer apenas o suficiente para não se partir em mil pedaços em contato com o mundo?

No piano

Oliver Sacks, de tanto citar música no Alucinações Musicais, me deixou com vontade de ouvir música clássica. E com a mente vagando durante um concerto, eu me lembrei de já ter tocado piano. De manhã cedo fui atrás da prova, quase como se eu mesma duvidasse que foi possível.

pianista

Eu toquei piano por quase seis anos e havia apagado. Quem conviveu comigo na época da faculdade sem dúvida não esqueceu, porque eu amava muito tocar piano. A escola ficava do lado, atravessando a rua, e eu vivia lá. Às vezes eu pegava as partituras no meio da aula, estudava, depois voltava na maior cara de pau. Comecei a pensar se não lembrava disso por bloqueio, porque lembro que encarar os fatos – sem dinheiro, sem escola e sem piano atravessando a rua – e deixar de fazer aulas foi uma das minhas primeiras decisões dolorosamente adultas. Mas não foi isso. Como vocês podem imaginar, a foto me deixou bem nostálgica. Lembro de quem eu era na época, dos meus planos, das minhas prioridades. Pensei no quanto tudo mudou, nos caminhos que segui e que nunca imaginava, nas reviravoltas. Fiquei com aquela certeza de que a vida bem vivida passa muito mais pela variedade de experiências do que qualquer noção burguesa de sucesso. E vi que daquela dor de não tocar piano não ficou nada, porque não foi uma porta que eu fechei ou algo que morreu dentro de mim – tenho vivido intensamente aquela mesma necessidade artística, ao longo da vida ela encontrou outras vias de expressão. Há caminhos, há esperança, as coisas não serão necessariamente como estamos vendo. A vida é muito maior do que a gente.

Algumas recomendações

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Eu já ouvi falar que não se é mais jovem quando a gente olha pra um velho ciente de que vai ficar também. Antes disso, o que existe é um sentimento de juventude eterna e inabalável; lembro que eu dizia que acreditava na ciência, que até eu chegar à idade de decidir se faria reposição hormonal ou não, ela já não seria mais necessária. Talvez por já ter passado – ou alcançado – metade da régua da minha vida, hoje gosto da biografia olhada de trás para frente. Gosto de pensar em legado, no que fizemos com o que tínhamos. Como a Teoria do Fruto do Carvalho (o nome do livro é O código do ser), que diz que nossas experiências atendem a um anseio pré-existente, e não que somos moldados por ela. Ou, de uma maneira bem mais dura, quando Günter Grass, na sua autobiografia, se envergonha de ter sido da SS porque, quando jovem, aquilo representava apenas uma imagem de heroísmo e força; ele fez o que lhe pareceu conveniente sem pensar no peso que sua atitude geraria na consciência dele mesmo mais velho. A série Merlí (Netflix) também me fez pensar nessas questões, mas não avançarei nisso pra não dar spoiler – eu tenho uma teoria a respeito do fim dela, quem ouviu achou interessante. Tem o discurso de George Saunders sobre gentileza, que mandei pra tanta gente por ter me tocado de maneira praticamente religiosa.

O que me fez pensar em tudo isso foram as prateleiras vazias, porque as pessoas correram para comprar comida. Também cresci ouvindo falar que há muito não vivemos uma guerra, que ela molda o caráter. Deve ser verdade. É como a pessoa que, durante uma conversa sobre o efeito estufa, disse que se garantiu porque tem ar condicionado em todos os cômodos da casa. Lamento informar, mas ninguém conseguirá ser uma ilha fresquinha e bem alimentada em meio ao caos.

Um Eu melhor

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Eu acho que os textos estão melhores e sem dúvida hoje eu sou muito mais independente. E intransigente. Aprendi a não precisar dos outros para minha estabilidade emocional. Antes eu tinha uns descontroles, as coisas perdiam a perspectiva e eu ficava agitada e pessimista, sem saber direito como sair daquele estado. Minhas opções eram uma conversa racional que só uma ou duas pessoas no mundo eram capaz de ter comigo, ou passar dias em loucura, até cansar. Achava normal e hoje acho um saaaaaco quem age assim, quem procura em mim esse esteio. Sou a minha própria estapeadora que grita pra me acalmar, sou o cachorro da foto com a própria guia da boca se levando pra passear.

Descobri que há quem me considere melhor hoje do que quando eu era casada. Eu não consigo pensar nesses termos. O meu ponto de vista é a realidade ter se tornado mais dura e reajo a ela. Antes eu era um molusco pelado e agora sou um molusco de carapaça.

Astrologia e tudo mais

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Dia desses estava num bate papo animado on line, o assunto foi para signos e comecei a dar uns pitacos nos mapas das pessoas. Olhava o desenho e falava o que havia me chamado atenção. Foi a primeira vez na vida que li o mapa de outra pessoa – tudo o que sei de astrologia tenho usado para consumo próprio. Aqueles cujo mapa eu li se impressionaram com minha precisão e mesmo quem não foi analisado achou que sei muito. Uma me perguntou, reservadamente, se eu conhecia algum curso on line de astrologia. Eu lhe indiquei o livro que li a vida toda – Curso Básico de Astrologia. Em casa chamávamos de O Livro Rosa. Os aspectos de cada um estavam marcados com uma bola colorida no canto. Até hoje, quando releio, percebo que sei os trechos de cor. A pessoa que queria curso me perguntou, eu respondi, ela me agradeceu e o assunto encerrou. Mas o que eu teria a dizer, sobre qualquer livro ou curso, sobre astrologia ou misticismo, ou escrever, ou o que minha professora de flamenco fala sobre flamenco, ou quem sabe mais o que na vida e o que há sob o céu: a coisa vem com o tempo. Cresce com você, se mistura com quem você é, amadurece com a sua maturidade. Há o que você leu e só entende profundamente depois, há o que não está escrito e nunca estará escrito e vem, como uma verdade que se revela. Quando a gente descobre isso, deixa de sofrer e até mesmo gosta do que não vem de primeira.

Os conselhos

Acho que não tem mesmo jeito – apesar da História, estamos condenados a cometer sempre os mesmos erros, enquanto espécie, até a autodestruição. Como mudar os grandes fatos se somos incapazes de mudar nossas pequenas trajetórias individuais. Um exemplo muito concreto é a série da Elena Ferrante*, com personagens que abraçam erros que o leitor percebe e sofre capítulos antes de acontecer. Quantos erros não cometemos nós também nas nossas vidas, apesar de serem tão claros para os outros, os que tentaram nos alertar, geralmente mais velhos? Mas não, quando é com a gente é sempre diferente: “ele me ama de verdade”, “chegando lá vai dar tudo certo”, “é porque nunca tinha aparecido alguém como eu”. Um erro alertado e cometido mostra dois lados: a estupidez juvenil doida para fazer o que bem entende; que no dia que formos o lado maduro, também seremos ignoradas, taxadas de invejosas e praguentas. Aprender com os erros sem dúvida é melhor do que ficar preso nele, num looping infinito – mas não nos ajuda em nada a poupar os outros. Seres humanos são muito apegados ao seu direito inalienável de cometer cagadas. Tenho chegado à conclusão que a única alegria que a experiência nos dá é a possibilidade de puxar a cadeira e esperar com calma, porque sabemos que vai explodir.

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*Juro que ainda vai sair texto no Caminhando por Fora. Semana puxada…

Velha

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Às vezes eu tenho a impressão que apenas no dia que me olhar no espelho e eu for tão enrugada a ponto de quase não encontrar o branco dos olhos ou a jovem que um dia fui, é que vou sentir que o interior e o exterior se encontraram. A todos que insistem em dizer que meu cabelo branco me envelhece, meu argumento é que quem diz a verdade é ele, o resto é que me rejuvenesce involuntariamente. Sempre gostei da companhia de pessoas mais velhas, sempre me senti muito bem com elas; quando estou com os da minha idade, sempre esqueço que não são mais novos e acho que é todo mundo criança, que sou a mais madura do grupo. Chega a ser até difícil pra mim não querer virar e usar argumento de autoridade, apelando para uma vantagem de anos que eu de repente nem tenho. Talvez por isso me pegue defendendo a velhice. Baladas me dão bocejos e homens que se aproximam de mim com cantada sempre me fizeram rolar os olhos para cima – garçom, me vê uma fralda geriátrica porque acabo de envelhecer cem anos . Sei que soa triste e anormal, mas o que eu sempre gostei mesmo foi de trabalhar. Gosto da concentração, de fazer as coisas certas e bem feitas e de pensar que ajudo o mundo a se tornar melhor. Psicologicamente, não descarto que a irresponsabilidade do meu pai tenha matado minha juventude antes mesmo dela chegar. Meu mundo deixou de ser macio já cedo. Não lamento, não seria a primeira e nem a última. Há quem me ame assim. Eu amo.

Fêmea

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Do mesmo modo que quando somos jovens a gente olha pros velhos e acha que nunca será daquele jeito, que até lá a ciência vai estar evoluída, que não teremos que fazer escolhas como tomar ou não estrogêneo, que de certa forma aquelas pessoas se entregaram, que com a gente vai ser diferente, que o vigor da nossa alma impedirá o corpo de envelhecer; desse mesmo modo, eu fui uma menina que olhava para as mulheres mais frágeis e, antes de saber que existia algo chamado adolescência e seus hormônios, achava que de certa forma as mulheres se entregavam, se deixavam ser mais fracas do que os homens. A psicanálise me indignou logo no começo da faculdade, e me recusei a estudar como se fosse sério que um homem, por ter um órgão reprodutor externo, podia ser tão mais do que nós. Eu fui indignada e auto-determinada o quanto pude; quanto mais os anos passam, mais vejo o gênero determinando minhas escolhas, minha conduta, minhas inseguranças. Sim, eles têm o falo. Não acho que seja físico e inevitável, mas reconheço que essa construção é poderosa demais. Não tenho grandes provas teóricas pra oferecer, penso na auto-confiança inabalável de todos os homens que eu vi no teste prático do DETRAN, que quanto mais provocados pelos instrutores mais faziam direito pra mostrar pro fdp, enquanto as mulheres iam condenadas, se arrastando e desmoronavam à menor insinuação. Uma amiga minha define com “chega o cara velho, horroroso, caído, da mau hálito e vem te cantar na maior autoconfiança, num estado que se fosse uma mulher nem ao menos sairia de casa”. Me vejo assim, me percebo assim, precisando de aprovações, estudando o ambiente, pisando com cuidado, passos que homens não hesitariam em dar. Já ouvi que escrevendo como eu, Fulano faria um estrago. Faria mesmo, Fulano e qualquer outro Fulano, desde que homem, desde que com seu falo mágico. Falos que amam outros falos, porque sabem ser tão auto-confiantes e viris, fazer o que se mulheres coincidentemente são menos talentosas? Falo que lhes permite centrar nos seus desejos em busca do próprio prazer, enquanto as criaturas sem falo se perdem ao analisar tudo o que as cercam antes de pisar no chão. Aí tem que fazer, como fazia uma amiga quando trabalhava num meio masculino: visual impecável, tudo no lugar, tarefa de casa estudada, estatísticas, meia calça extra na bolsa. Não por vaidade, e sim para não ter com que se preocupar, para a partir daí ter voz. Fêmeas, fêmeas. É como se a nossa linha de largada estivesse metros atrás.

Formigas

Estou vendo um longo documentário sobre o Darcy Ribeiro e estudar a história desse homem é estudar a história do Brasil. São cinco episódios e estou no quarto. Agora, ele está com Salvador Allende. Antes disso ele já foi discípulo do Rondon junto com os índios, lutou com Anísio Teixeira pela escola pública, fundou a UNB, foi ministro da casa civil do Jango, estava lá quando ocorreu o golpe de 64 (offtopic: bastante angustiante acompanhar o golpe de 64 e relacionar ao que vivemos hoje. Nas semelhanças e nas diferenças), foi preso, exilado no Uruguai, na Venezuela, Chile e fez contribuições para a antropologia de todos esses países… Onde o homem punha o pé criava um agito, revolucionava, produzia. Vejo que ele foi um péssimo aluno de medicina, pois gostava muito mais do social do que da sala de aula e dou risada de mim mesma. Rio porque toda vida sempre fui CDF mas, ao mesmo tempo, eu achava que pertencia à mesma categoria de pessoas que o Darcy. Acho que todo xóvem se vê assim, ai de quem nos contrarie. Mesmo entre aquelas que ocupam cargos importantes e entram para a história, me parece que existem dois tipos de pessoas: as que se destacam e realizam um trabalho apenas por serem a pessoa certa na hora certa. Sua presença é circunstancial. Darcy é o outro grupo, muito mais raro do que se faz crer, de gente que você pode colocar em qualquer canto e vai se destacar, vai revolucionar e subir. É provável que eu e você nunca tenhamos conhecido alguém assim. Adivinho que tem que ser inquieto, extrovertido e definitivamente bom de papo. Novamente rio: tenho uma necessidade aguda – característica dos introvertidos – de sentir o ambiente, saber onde estou pisando; alguém com tanto cuidado com os sentimentos alheios e senso de adequação jamais seria um tipo desses. Claro que cada Darcy precisa de várias formigas para não deixar que seus planos se desvaneçam, tudo tem seu lugar no mundo. Apenas que a maturidade é assim: a gente não investe mais naquilo que não somos.

No vuelan

Eu não diria que é uma dor, não uma dor no sentido de dizer Ai, uma pontada ou uma pequena morte. É um incômodo, um não esquecer nunca, uma vontade de arrancar com a mão. Semanas e semanas tendo que fazer a parte chata da vida adulta de ter que ser responsável, reivindicar, correr atrás, tira dinheiro daqui e coloca em acolá. Me vinha à cabeça o dito que a vida adulta vale a pena somente pela permissão que temos de beber álcool e fazer sexo – eu me repetia, então, que diabos estou fazendo, já que não tenho praticado nenhum dos dois. Agora, espero sinceramente, a coisa está se acalmando, e tomara que suma a sensação crescente de que a passagem dos anos é como naqueles filmes que os protagonistas ficam presos entrem paredes que não param de se aproximar. Quase todos os dias me proponho a continuar o Guerra e Paz, mudo de lugar, coloco na bolsa, mas só tenho mesmo levado o livro para fazer turismo. Enquanto isso a amiga ainda vai casar e quer confirmação, as alfaces precisam ser colocadas de molho antes que eu possa comê-las e o mundo insiste em ignorar meus sábios conselhos, que dirá as minhas dores. Mesmo com o incômodo do aparelho, o arrasto fora da cama quando o alarme toca, as disputas insanas entre coxinhas e petralhas, eu quero escrever. Não tenho saco, não tenho inspiração, não tenho tempo, tenho dor e solidão. Tenho dúvidas e lentidão, choro vendo Cosmos e me sinto insuficiente. Mas um dia eu sei que nem vou conseguir lembrar de nada disso que hoje me espreme tanto. Que não vou entender o que havia de tão difícil num conjunto de telefonemas, caras feias e contas que se renovam mês a mês. Eu quero e preciso escrever, nem que seja apenas para justificar todo meu desajuste social. A vida não espera e a gente precisa fazer o nosso com e apesar de tudo.

no vuelan

Trouxa

“Como eu era trouxa.” – eu dizia para mim mesma, quando pensava na minha adolescência – “Ficava o tempo todo trancada no quarto, lendo, ouvindo música. Era insegura, tinha mil complexos bobos, me achava feia. Se naquela época eu tivesse a confiança e a cabeça que eu tenho hoje, teria aproveitado, saído, namorado bastante”. Adivinhem, agora, o que esta mulher madura e confiante faz todas as suas noites?

A gente é o que é, não adianta.

Curtas de meia idade

“O seu cabelo está branco assim ou você faz luzes?”. Bem, pelo menos as pessoas ainda ficam na dúvida.

 

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“As pessoas mais velhas que acham que já sabem tudo, que nem ouvem o que você tem a dizer a elas – entrei naquela fase de achar que não apenas achar elas têm toda razão, como super quero exercer esse direito.

 

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Quando a pessoa te fala de princípios morais, autocríticas gigantescas e boas intenções e você só consegue ver, por detrás de tudo aquilo, que ela ainda não passou por nada.

 

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Quando você passa do estágio do perdão e começa a entender os teus pais de uma maneira profunda. Entendê-los como só um adulto pode entender.

 

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Me pego numa atitude de colecionador, de quem gosta de coisas vintage. Objetos que na época eram tão banais, agora para mim viraram símbolos, ficaram caríssimos. Não pode ser qualquer um, tem que ser aquele, pelo simples motivo de que ele estava lá.

 

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Por Deus, como eu sou lenta na hora de digitar uma mensagem no celular. Eu tentei correr atrás, mas a tecnologia cruzou a esquina e eu fiquei presa no sinal.

Ela vai ficar bem

Convido algumas pessoas pra me encontrar, em cima da hora. Estava doida pra ir pra casa de uma amiga e nem a procuro, porque ela não me diria não e não gosto de passar lá quando ela recebe a visita dos filhos. Um outro já saiu comigo há pouco tempo. Na noite anterior, vi filme iraninano, me enchi de pizza e série até às 3h da manhã. Acordei quase meio dia, com dor de cabeça, tonta e ciente de que não poderia passar mais um dia inteiro sozinha. Feriados ainda são terríveis para mim. Quase começo a agir com desespero, e aparecer sem permissão, apelar pra uma amizade quase no fim e que me cobraria um preço alto demais. No fim, encontro uns amigos rapidinho, meio no horário deles. Depois prolongo meu programa, como um pedaço de torta num lugar que adoro, ando até o shopping, vejo lojas, ando mais, paro do supermercado, carrego as sacolas até minha casa. Enquanto caminho curtindo a noite – vício que adquiri quando estava deprimida e nunca mais me libertei – lembro de uma amiga em comum que morre de ciúmes de mim com o amigo que encontrei e da minha tia confiante que em pouco tempo da separação estaria bem. Penso em todas as pessoas que quase incomodei. Me dei conta de que uma característica que me faz tão boa amiga é justamente essa: eu dou meu jeito. Meus amigos sabem das minhas solidões, mas sabem também que eu vou dar conta, que eu vou ficar bem. Falando assim, soa egoísta, mas somos todos egoístas. Tem dias que é foda dar-se um jeito; mas maturidade também é isso, saber que os dias fodas são nossos, só nossos. Às vezes calha de sermos salvos pro uma festa ou um programa divertido, às vezes não. E quando não, da-lhe HBO ou o que tiver por perto. Apoio incondicional é algo que vai para a área da religião, pessoas não dão conta. Se eu pudesse dar um conselho universal de como conquistar amigos e homens, ele seria: não seja pesada. Lembro de outra pessoa e me pergunto se ela chorou ou se ficou mal por minha causa e logo afasto esse pensamento. Vai ver que sim, e era justamente esse o problema. Dar-se conta de si é o melhor que se pode fazer pelos outros.

Agora eu realmente entendi

Vou colar aqui um dos meus posts antigos, de 14/julho de 2011:

 

Coração 


De acordo com o Livro dos Mortos do Antigo Egito, a pessoa que morria passava numa prova para testar sua pureza. Seu coração era colocado numa balança, e na bandeja oposta uma pena. Somente aqueles com o coração mais leve do que de uma pena poderiam usufruir do paraíso. Apesar de nunca termos falado disso, foi uma rosacruz que trouxe essa história de volta à minha lembrança. Quando a conheci, ela já era uma vovó. Essa senhora me falava muito do seu ex-marido, de quase trinta anos atrás, um viúvo que tinha o dobro da idade dela. “Nunca case com um viúvo. Viúvo é resto de defunto”. Ele era um médico importante e ela começou a fazer medicina para estar com ele. O grande amor da vida desse homem tinha sido a sua primeira mulher – eles eram vizinhos, cresceram querendo se casar e ainda crianças escalavam o muro para se desejarem bom dia. Pelas coisas que aquela senhora me dizia, esse médico foi uma das grandes personalidades da sua época, dessas que a história não guardou: inteligente, empreendedor, bondoso, grande especialista na sua área, admirado por todos. Ela o amava, o admirava e se sentia perfeitamente feliz ao lado dele. Ele dava aulas, viajava, coordenava um monte de coisas e era um homem ocupado. Ela, muito compreensiva, nunca viu nada de mau nas ausências do marido. Até que – quando ela estava no final da gravidez – a levaram para conhecer a amante dele. A mulher lhe falou tudo, quem era e o que sabia da intimidade de ambos, mas ela não acreditou. Ela só conseguiu aceitar a verdade quando a mulher lhe mostrou todos os presentes que havia recebido. O marido sempre comprava presentes iguais para as duas. Ela saiu de casa para nunca mais voltar. Quando o filho nasceu, irritada com a demora do ex-marido em registrar a criança, ela pediu ajuda a um amigo e o registrou com o nome dele. 


Eu não entendia como ela podia falar desse homem com tanto carinho. Era um canalha. Por esse grande homem ela nunca mais se casou, não aceitou mais ninguém ao seu lado. Sua maneira de ver a situação me remetia ao Livro dos Mortos: “Quando a gente pesa o nosso coração numa balança, e coloca lado a lado tudo o que de bom e ruim que alguém nos fez, se a parte boa ficar um tantinho assim maior do que a ruim, essa pessoa já é alguém para se lembrar com carinho”. Ela guardou a maneira como ele sorria, como a punha no colo e a acalmava, como dedilhava um sambinha no violão.

 

Eu escrevi essa história por ela ser muito bonita, mas na época não havia realmente entendido como era possível que ela amasse tanto um homem que a traiu. Há muitas mulheres que amam e relevam homens que as atraíram, mas se aquele não era o caso dela, como era possível que tivesse essa saudade. Hoje, só hoje, eu a entendo. É um olhar para trás e ser grato pelo que viveu. É entender o papel que cabe a cada um nas alegrias e nas culpas. É saber que o desentendimento de hoje não invalida o carinho de ontem. É, enfim, é saber olhar com mais amor na nossa própria história.