Sujeira

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Na minha cabeça não faz sentido, mas eu estava num curso de Defesa Pessoal para Mulheres e assim que o instrutor começou a nos ensinar os golpes mais baixo possíveis, daquele para fazer o cidadão se contorcer de dor na primeira, uma das alunas disse que não concordava com nada daquilo. Achou a abordagem muito violenta e que seria melhor nós nos propormos ao diálogo. Nós, as outras alunas, nos olhamos, nos perguntando se ela achava que dava para querer conversar com um cara que te leva pra um beco escuro com uma faca na barriga ou se ela pensava que defesa pessoal era para ser aplicada em ambiente corporativo. O instrutor começou assim: “Você saiu de casa tranquilo, o marginal te abordou. A primeira coisa que você tem que ter clareza é: você vai se sujar”. Pois é, sempre lembro dessa frase, do se sujar. Tem o sentido literal, de você ter que lidar com uma fuga ou briga usando justamente o seu suéter favorito. Ou a pessoa sofre um acidente e tem a roupa cortada e, putz, justo o jeans que me cai melhor. Mas o se sujar também tem o sentido de aceitar que pronto, o teu dia não é mais aquele – estragaram teu humor, te colocaram numa briga e você tem que se posicionar. Fingir que não aconteceu não vai trazer o dia de volta.

Activia sabor ameixa

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Acordei cedo por motivos outros, e quando vi fui a primeira pessoa a passar pelo caixa do supermercado da terça. E logo na primeira cliente do dia a caixa precisou ficar parado. Basicamente, fui ao supermercado só para comprar iogurte, mais especificamente, o litrão de Activa de Ameixa. Já fiz intensa pesquisa com vários iogurtes, e único que não me enjoa se eu tomar sempre, por ser menos doce, é esse. Quando fui buscar, tive a feliz surpresa de ter encontrado justamente o Activia Ameixa numa promoção de quase 50%. Só que na hora de passar no caixa, passou o preço inteiro. Devo ter perdido muita promoção, porque geralmente estou ocupada abrindo sacolas e enfiando umas nas outras ou simplesmente não lembro direito do preço para poder afirmar com certeza que não passou. Mas desta vez não teve como não notar. A moça do caixa fez a única coisa ao seu alcance – acionou o aviso que chama alguém. Fiquei lá parada, a única cliente numa caixa, o único número indicando problema, e nada. Se eu não tivesse ido justamente pra comprar iogurte, teria dado as costas e pronto. Depois de uma longa espera surge a moça, que sem dúvida não achou que precisava olhar caixa nos primeiros cinco minutos que o supermercado abriu. Por sorte, estava num caixa ao lado dos iogurtes. Apareceu uma família que não acreditou quando eu aconselhei a procurar outro caixa e ficaram por ali, de testemunhas. A moça do patins foi até a geladeira e de onde estava deu pra ver que ela buscou a etiqueta errada. Ela cancelou a compra e quis digitar o preço do Activia Morango, que estava em promoção mas não tão barato. Não, tem que ser o Ameixa, aí largo todo mundo lá, vou até a geladeira, arranco a etiquetinha de promoção e trago. “Ah, é que essa estava escondida” “Ela estava junto dos iogurtes de ameixa”, disse A Louca do Iogurte de Ameixa.

Às vezes me parece que a vida adulta nos reduz a isso, a batalhas pequenas e constantes apenas para manter o espaço. Como dar a elas a medida exata da nossa atenção, sem deixar passar e ao mesmo tempo não se deixar afetar?

Girafa 5

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A referência à girafa vem daqui.

Está chegando a hora. Em poucos dias falarei com o orto, que me prometeu uma longa conversa sobre as minhas alternativas de retratamento quando eu voltasse. Eu não sinto dor, mas sinto realmente o meu canino direito sendo pressionado para cima e mastigo quase nada desse lado. Não é o mesmo grau de motivação com que coloquei aparelho pela primeira vez – décadas de espera até o tratamento ficar acessível para mim, dentes da frente tortos e encavalados, uma lista de problemas. Meu antigo orto não era bom, mas tenho que reconhecer que trabalhamos. Arranquei dentes, coloquei banda, dormi com aquele “freio de burro”, elásticos de Mun-ra, fiz de tudo. Naquela época me disseram que no começo eu iria estranhar um pouco, mas que depois me acostumaria de um jeito que nem ia querer tirar o aparelho, ia começar a achar bonito. Não sei como é pros outros, mas eu lembro que detestei minha aparência todos os dias durante os três anos que usei aquele troço.

Mas.

Quando realmente penso nisso, tudo me parece uma grande bobagem. O aperto financeiro, o incômodo nos dentes, eu me sentir feia, nada é o fim do mundo. Não é o ideal, não é o que planejei… mas tudo bem. Vou reclamar muito, como é de direito – e vai passar. Seis meses, um ano (quero crer que não vai ser muito mais do que isso), parecem muito quando a gente projeta um futuro e quando olha pro lado já foi. Talvez seja idade, cansaço, um tico de sabedoria, tudo junto. Problema mesmo é não poder colocar. Que venha o aparelho.

Momento girafa

Fui fazer minha documentação ortodôntica. Está praticamente tudo certo e encaminhado para eu voltar a usar aparelho os dentes. Imaginem minha alegria. Dez anos e muitas caretas de dentista depois, vou ao ortodontista e descubro que o “acabamento” do ortodontista anterior foi ruim e tenho que recolocar meus dentes no lugar. Estou passada. O Orto vai analisar os exames antes de ver o que é possível fazer. Ele me disse que não vai ser tão ruim quanto eu estou pensando – minha expressão corporal enquanto falava com ele estava ótima -, que os aparelhos melhoraram muito daquela época pra cá. Se eu já me sentia ridícula e teen na primeira vez que usei aparelho, imaginem agora, quase entrando na casa dos enta. Sem dizer que vai ser ó.te.mo para minha autoconfiança, agora que fico encalhada de vez. Mas o que tem me matado é o lado financeiro mesmo: quanto vai custar isso, que cintos terei que apertar, o quanto meu orçamento aguenta? Então digamos assim: estou 4,5 nos estágios da girafa.

As duas caixas

Eu estava sendo atendida por uma caixa muito velha, de cabelo todo branco, preso, o rosto muito enrugado. Sábado, quatro da tarde e uma mulher daquelas não está em casa vendo TV. Embalando as compras estava um velho, que também deveria poder estar em casa vendo TV. No caixa atrás dela, uma mulher com uns quarenta anos. Esta caixa, a de quarenta anos, estava passando compras de um cliente e já havia puxado a portinha que indicava que o caixa estava fechado. Aí surge do nada uma moça, também com o uniforme do supermercado, abre a portinha e passa correndo. Enquanto a moça está atravessando a portinha, a mulher de quarenta solta uma expressão de indignação. Depois, começa a reclamar pra caixa velhinha e pra mim (quem mandou fazer contato visual): aquela mocinha era sempre assim, vivia fazendo dessas, passava voando, não pedia licença, se achava melhor do que os outros e outra apenas outra caixa, de onde ela tinha tirado que podia fazer dessas coisas, etc. Eu pensei, cá com os meus botões, em quantas vezes passei desabaladamente também, sem pedir licença apenas pela ingenuidade de achar que não precisa pedir licença e por ser naturalmente agitada quando mocinha. Quantas antipatias gratuitas no meu passado, quem sabe, podem ser explicadas por isso.
A minha caixa, a velhinha, não ligou pras queixas. Não falou mal da moça, desconversou, sorriu, falou de que sorte a colega já estar de saída. Olhou para as minhas compras e do seguinte na fila e calculou que só nós dois e chegaria quatro e meia, hora dela ir embora. Que bom, ela estava quase indo embora. A outra, não encontrando uma colega pra reclamar junto, ficou quieta.
Às vezes me parece que reclamar virou esporte olímpico e só eu não estou sabendo. Qualquer unha quebrada e o universo que aguente o mau humor. Quando a gente quer dar um feedback pra pessoa, nunca consegue, ninguém nunca sabe o que ela está passando. Você pode ter passado pela mesma situação um dia, pode estar passando por um período foda hoje, mas o outro sempre terá desculpas – “o meu caso é pior”, “pra você é fácil dizer”, “mas é que você é (insira aqui um adjetivo) e eu não”. A verdade verdadeira, como no caso dessas duas caixas, é que há uma margem de escolha sobre ao que dar importância.

O barato que saiu caro

Controle da mente, pra mim, é o poder de não se deixar levar pelos pensamentos inúteis que nos atormentam. Não me importo que a minha mente voe por aí na velocidade da luz, desde que ela não o faça de maneira masoquista. Percebo que a minha tem um tema recorrente – quando estou começando a ficar aborrecida, seja por um motivo verdadeiro ou uma queda hormonal, ela volta ao mesmo tema, o tema sem solução que me aborrece a meses: o meu sapato de flamenco. Venho tentando ser fina e guardar esse aborrecimento para mim, mas não consigo mais. Encomendei esse sapato em dezembro do ano passado, porque uma amiga virtual gentilmente se ofereceu para buscá-lo em Barcelona. Pois bem, ela e o sapato estão juntos, em Recife, desde fevereiro. Depois disso, muitas coisas aconteceram na vida dela (na minha, na sua, na da Dona Teresinha…), com direito à gravidez de risco. E o meu sapato foi ficando. Ela já me explicou e eu já fui compreensiva, só que façam os cálculos de há quanto tempo foi isso. Já pedi, já relembrei, já fui sutil, já fui nada sutil… Não há impedimentos que expliquem que durante quase um ano ela ou qualquer pessoa não possa, somente, postar um sapato no correio. As despesas seriam por minha conta, era só ter o trabalho de embalar e mandar. Mas não, tem sido im.pos.sí.vel. Oras digo pra mim mesma encarar os fatos e dar esse sapato de quatrocentos reais (o melhor sapato de flamenco do mundo, investimento pra uma vida, presente de natal de 2012) como perdido, oras digo pra mim mesma que devo ter fé, que algumas pessoas são assim mesmo. Semana passada, depois de mais uma cobrança, pela milionésima vez ela disse que ia me mandar o sapato sem falta. Segunda, por SEDEX, “com cartinha de pedido de desculpas e lembrancinha”. Nem preciso dizer que não recebi nada.

 

Se pudesse voltar atrás, não teria feito nada disso. Teria pagado o correio, a taxa da receita federal, quem sabe comprado outro sapato numa loja. Achava essa operação toda muito cara, hoje não mais. Caro é perder um monte de apresentações, ter que contar com a falta de compromisso dos outros, se aborrecer mil vezes ao longo do ano e se sentir uma idiota. Eu nem ao menos posso comprar outro sapato, porque, afinal, já gastei uma fortuna naquele que nunca vi. Não me importo com lembrancinha, cartinha, porra nenhuma. Eu só queria o meu sapato.

Incômodo

Um dos meus vizinhos, uma família, é ultra sensível a barulhos. Parece que os vizinhos deles, do outro lado, são uma família que tem o costume de bater as portas ao invés de fechar e isso os deixa loucos. Da minha parte, não sou do tipo que curte música altíssima, nunca ando de sapatos em casa e não tenho crianças, o que me faria a vizinha perfeita. Mas, às vezes, gosto de praticar flamenco. Faço isso de chinelo e bato fraquinho, mesmo porque prejudica a coluna. Pra não incomodar ninguém sapateando, testei vários horários. Tentei estudar três horas da tarde, tentei estudar dez horas da manhã, fim de semana nem pensar. Em poucos minutos, ouvi batidas enfurecidas na parede, imitando o som do meu sapateado. Sou uma pessoa de paz e ouvir essas batidas me faz parar. Ao mesmo tempo fico com raiva – que tipo de pessoa fica em casa o dia inteiro e acha que tem direito de não ser incomodado com barulho nenhum? Isso é apenas parte das atitudes desagradáveis dessa gente, que já destratou o filho do jardineiro, o carteiro e todo mundo de quem eu tenho notícia.

Vocês podem achar essa associação meio distante, mas esses meus vizinhos às vezes me lembram a vida na internet. A qualquer hora, qualquer atitude pode gerar uma reclamação. Você cita um exemplo distante, tem o cuidado de dizer que não são todos os casos, só falta falar que está se referindo aos esquimós errantes do século XV, e mesmo assim sempre aparece um incomodado. Um que toma aquilo como se fosse dirigido especialmente pra ele, com nome e endereço, e “se defende” de maneira enfurecida. Aí você tem que relembrá-lo que aquilo não foi pra ele – embora, convenhamos, talvez tenha sido pela velocidade com que vestiu a carapuça.

Encontro fugaz

Era um dia sem nada especial. Estava voltando tranquilamente para casa. No meu caminho, há uma via rápida sem sinalização. Só é possível passar lá porque tem uma lombada por perto. Quando cheguei, a rua estava praticamente vazia. O único carro que passava era um velho, que andava devagar, cheio de coisas dentro. Ele diminuiu ainda mais a velocidade pra passar na lombada, e eu atravessei calmamente porque ainda dava tempo. Eis que do nada surgiu um carrão, desses utilitários. Ele veio a toda, e pra desviar do carro que vinha lento, veio pra cima de mim e ficou muito perto de me atropelar. Eu olhei para a motorista e ergui os ombros, indignada. Aí essa mulher olhou bem para a minha cara e me imitou. Ela ergueu os ombros também e fez umas caretas horríveis, como se estivese fosse eu me queixando. De tranquila passei a louca da vida num instante. Se tivesse algum sinal por perto, alguma parada, alguma maneira, eu teria moído aquela criatura. Teria riscado o carro, partido pra briga, jogado uma pedra, feito qualquer coisa. Porque era o cúmulo quase ter sido atropelada e ainda assistir aquilo.

Mas eu estava de pedestre e ela em alta velocidade, então não pude fazer nada. Minha vingança é ter certeza de que a criatura bebe muito suco cuspido por aí.

Em baixa

É difícil ficar em baixa. Depois daquela amizade intensa e conversas sem fim, perceber que a pessoa começou a fazer outros amigos. Passada aquela fase de declarações de amor e sexo ardente, sentar ao lado do outro sem ter nada o que dizer. Receber um prêmio, ser elogiado, ter o mundo inteiro em suas mãos e depois voltar para a rotina. Precisar de um conselho pra tomar uma decisão importante e justamente a pessoa cuja opinião importa não se mostrar muito interessada. O pior é que às vezes a gente está tão em baixa que o mundo inteiro parece murchar com a nossa presença – os amigos estão ocupados com outros amigos, ninguém do lado pra te dar colo ou dizer que te ama, não receber um agrado. É duro.

Mas sabe o que é mais duro? É não pode ficar cansado ou quieto em paz. Estar numa fase mais calada e o amigo descompensar, que só porque não recebeu toda atenção que gostaria cria uma DR ou se vinga de você (!?). Querer ficar no sofazão vendo TV sem pensar em nada – porque a semana foi dura – e o outro começar a reclamar que você está frio e que não o ama mais. Ter que aguentar gente magra dizendo que é gorda, ou linda dizendo que é feia, ou rica dizendo que é pobre só porque quer ouvir elogios. Ser solicitado pra resolver o problema dos outros quando mal consegue dar conta dos seus. Na hora de dizer que ninguém é feliz e animado todos os dias do ano, todo mundo concorda. Mas poucos conseguem encarar período de baixa com equilíbrio.

Fúria irracional

Não é difícil extrair essa fúria. Não nos dias apressados e cheios de rostos estranhos que vivemos. Passar por ruas cheias de gente quando se está com pressa, nos faz ter vontade de sair acotovelando. O mesmo para ônibus apertados, daqueles que ficam vazios no fundo e ninguém nos dá espaço pra andar até lá. Médicos que nos fazem esperar horas. Lerdos que atrapalham o andamento da fila no buffet e atrasam nosso horário de almoço. Isso sem falar quando há uma interação negativa mesmo – gente que esbarra no ombro, pisa no nosso pé, esbarra na barriga com a bandeja, atira o copo de matte leão nas nossas pernas quando tencionava jogar na rua (ou seja, um delito duplo). A fúria assassina cresce instantaneamente, mais rápida e incontrolável se a semana já não estiver essas coisas todas. Vontade de xingar, de bater de volta, de gritar.

É engraçado o poder que um “desculpe” tem nessas horas. Mostra que o outro percebeu que nos fez um mal, que ultrapassou a nossa linha. É a melhor coisa de se ouvir, porque nos dá razão. Pode ser um desculpe instintivo, fruto mais de um hábito do que de um arrependimento real. Ele joga água fria na nossa fúria e a coisa não parece mais tão grande. Sorrimos, respondemos “de nada” e tudo volta à normalidade. O poder de um pedido de desculpas é tão grande; é uma pena que ele seja usado com economia.

Para matar a curiosidade

Eu havia pensado em colocar as fotos das casas vizinhas, mas achei que ninguém se interessaria. Como eu vi que as pessoas se compadeceram do meu sofrimento (SNIF!), resolvi mostrar do que falei no post anterior:

Essa é a visão da casa da vizinha da esquerda, a Favela. Observe que eu tinha visão de árvores ao fundo – é para esse lado que minha rede fica virada. Tem a parabólica desproporcional e as cortinas de boxe rasgadas tremulando ao vento.

Este é o muro, visto de baixo. O sol que está batendo nele é o de final da tarde, ele fica à leste.

O muro visto da janela do escritório. Desproporcional e feio pra caramba. Aquela mancha preta e branca é o Bingo, o cocker dos vizinhos. Nessa casa e na minha tem alarme monitorado – ladrão nenhum entraria por aqui. Mas a vizinha ameçou construir o muro dentro do terreno dela caso eu não permitisse. 😥

Entre a favela e o presídio.

Curitiba é uma cidade mofada. Grande parte dela foi construída sobre um pântano. O clima é úmido ao extremo. Os banheiros não secam, as toalhas de rosto fedem. 100% da população sofre de rinite alérgica. O sol, quando aparece, pouco resolve. Daqui, vejo a Dúnia dormir na fresta de sol que faz no portão. À medida em que o tempo passa, ela fica cada vez mais à esquerda – ela se move em busca dos últimos raios.

Assim sendo, o mais lógico seria buscar e valorizar o sol ao extremo não é? Seria, mas os curitibanos parecem ter mofo na cabeça. As pessoas compram apartamentos com sacadas para fechá-las. Colocam porcelana em todos os lugares que deveriam ter grama, porque consideram mais limpinho. Com paredes e com cortinas, fecham toda abertura para o exterior. Metáfora das suas personalidades, quem sabe.

Somos aqui em 4 sobrados identicos, com um que fica na esquina e no fundo de todos eles a mesma casa de terreno enorme. Quando vim pra cá, somente o da esquina estava ocupado e escolhi aquele que dá para a maior parte dos fundos do vizinho, ou seja, o mais ensolarado. Sem dizer que tirei uma porta da frente da cozinha e transformei numa janela, porque a cozinha era muito escura. Não coloquei cortinas no fundo, e sempre que posso deixo tudo aberto. Tenho horror à úmidade e mofo.

Qual não foi meu desgosto quando a vizinha que mudou para a esquerda colocou um horrível toldo nos fundos. E arrematou o seu péssimo gosto colocando cortinas de boxe para cobrir as laterais do toldo. Minha visão ficou obstruída pela coisa mais favela que minha imaginação alcança. Para não deixar dúvidas: não foi falta de dinheiro, foi puro mau gosto mesmo. Os pais dela tem muito mais dinheiro do que eu, juro. Eles eram donos da casa enorme que fica nos fundos e compraram o sobrado apenas para a filhota estudar na capital.

Agora a vizinha do sobrado da direita resolveu fechar o próprio sol, colocando 1,20 de muro por toda a extensão. Justifica isso com o fato de que pela esquina roubaram as bicicletas dos filhos. Das mil e uma alternativas possíveis, que passam por alarme, cachorro que ela já tem e espetos no muro, resolveu a mais idiota e mofante de todas. Hoje cheguei em casa cansada e surpreendi os pedreiros jogando cimento nas minhas pedrinhas. Ela disse que avisaria o dia desse crime. Fiquei puta, impedi que continuassem, queria ir pros tribunais se fosse preciso. No fim, tenho que me conformar. Ela viverá numa casa sem fundos, escura e com tudo mofado. E eu viverei ao lado de um presídio, nascido bem no lado onde nasce o sol.

Acho que detesto Curitiba.