O cortejamento

pavão

Uma amiga foi pra Inglaterra e se queixou que o mais próximo que chegou de ser cantada foi um nativo que fez uma onda imensa para chamá-la de funny. Aí minha mente doentiamente analítica pensou no quanto os nossos rituais de acasalamento consistem no homem nos elogiar até o último, ser uma metralhadora de elogios, para que assim nos sintamos seguras, lindas, interessantes, especiais e desarmadas. Que bom que ele gostou do vestido e não que essa roupa me deixa gorda, que gosta do meu cabelo assim e não acha que está muito ressecado, que adivinhou que os olhos são a parte do meu rosto que eu mais gosto. É humanamente impossível continuar receoso quando alguém nos elogia muito. O ingleses no bar não fizeram isso com a minha amiga, lá deve ser diferente. Todo mágico sabe que o segredo do truque é a sua aura de mistério. O homem deve parecer sincero – pelo menos naquela noite, sob aquela luz e aquele banco alto. É um truque, é infantil, é uma suspensão da realidade. Mas será que, como brasileira, basta assumir que isso é uma mentira para se libertar dela? Não pareceria que ele nem se esforçou?

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Fantasia

elefante voador - Natu Bieby

Acho que ele percebeu quando eu voltei a sorrir e a contar piadas que estava melhor da separação. Nos conhecíamos a algum tempo e até então ele jamais havia tentado nada. Os nossos horários subitamente começaram a coincidir e ele se sentava ao meu lado e perguntava, de forma nada sutil, sobre o meu fim de semana. Se eu havia ido a algum barzinho. Se havia bebido. Se havia voltado tarde. Se estava saindo com alguém. Eram tantas perguntas e tão longe da minha realidade – passar cal no muro, atravessar a cidade de ônibus ou colocar as leituras em dia – que comecei a brincar dizendo que ele é que deveria me dizer como foi meu fim de semana, que eu gostava muito mais da versão dele do que da minha.

Dividi isso com pouquíssimas pessoas porque tinha certeza que me chamariam de trouxa. Ainda mais se eu mostrasse uma foto dele. Idade regulava (um pouco mais velho do que eu), aparência regulava (bonitão), temperamento regulava (meio reservado, meio brincalhão); a única coisa que não regulava era o meu papel nessa história: casado, muito bem casado, obrigada. Não havia nem papinho de mulher doente, o que ele queria mesmo era cama, no máximo uma amante, quem sabe até remunerada. Pois é, além das qualidades que eu já mencionei, é rico. Nunca rolou uma baita afinidade, mas eu o acho simpático. Quem sabe eu pudesse dizer que se as circunstâncias fossem outras, etc. Mas, sinceramente falando, se as circunstâncias fossem outras, eu não acredito que ele estaria preocupado comigo e sim atrás de uma gatinha com menos de trinta e frequentadora do Clube Curitibano.

Um dia eu lhe disse, espontaneamente:

-Eu pensava que quando me separasse eu iria aprontar, fazer tudo o que eu não fiz na adolescência. Que agora, sem as travas e a timidez da época, madura e inteligente, eu faria diferente e poderia aproveitar tudo o que não aproveitei antes. Aí eu me separei e não fiz nada disso: fico tanto em casa, faço minhas coisas, leio meus livros, igualzinho o que eu fazia antes. Eu não tenho vontade de fazer diferente, não tenho vontade de sair e aprontar. A gente é o que é.

Ele me deu uma resposta sensata qualquer, concordando. Depois nossos horários pararam de coincidir e ele parou de perguntar sobre meu fim de semana. Alguma coisa no meu discurso – a sinceridade, a moralidade embutida? – quebrou a fantasia. Continuamos amigos.

Mimo

quem-e

Uma amiga saiu de casa de manhã e teve que parar para conversar com o pintor. O cachorro aproveitou uma deixa e fugiu quando ela não estava olhando. O pintor chegou a ver e não conseguiu avisar e nem pegar o cachorro. Ela só foi descobrir o que aconteceu quando chegou em casa, bem mais tarde. Ligou para todo mundo, descobriu o que aconteceu, ficou completamente arrasada, não conseguia fazer outra coisa que não chorar. Comentou com o namorado, que está nos EUA e de lá ele fez um cartaz com a foto do cachorro e mapeou que lugares ela poderia colocar o cartaz.

Taí, essa é a parte que mais me faz falta (aquilo maravilhoso é au concours, não se discute) em ser acompanhada, esse mimo. Quando a gente se vê sozinha, se descobre capaz de independências inimagináveis antes. Faz seu café, joga seu lixo, carrega peso, mata a barata, percorre a cidade inteira. São minhas coisas, minhas escolhas e se num dia eu marquei dois compromissos, cada um num período diferente do dia, em lugares opostos da cidade e cada um deles mais de uma hora e meio de ônibus da minha casa, a escolha é toda minha. Se gasto demais ou de menos, se corro riscos, se decido que é demais gastar em tintura de cabelo e de menos gastar num curso, eu eu eu eu. Mas eu sinto falta desse se importar gratuito, de alguém que seja capaz de pensar e agir quando não estou em de. Que se preocupe, mesmo que não faça diferença.

O cachorro passa bem.

Eu matei barata

Eu matei barata. Não apenas matei, como depois recolhi. Assim como também recolhi vários passarinhos que a Dúnia matou. Tive que contratar pedreiro, paguei, fiquei meses no vermelho. Lidei com problema de vazamento na privada, duas vezes, três vezes, quase tive o banheiro inundado numa –  na outra tive o sangue frio de esperar o fim de semana passar antes de dar um jeito. Percorro a cidade inteira de ônibus, em qualquer horário. Já despistei tarado no terminal. Caí da escada, caí de bike, fiquei encolhida de dor no sofá; passei eu mesma remédio nos roxos, preparei meu chá, esquentei a água da bolsa de água quente. Nas noites desse prolongado inverno, me esquentei apenas com cobertor; já nas noites frescas, dispensei carona e andei por ruas desertas observando o céu apinhado de estrelas. Eu não entendia qual era a relação de ser independente e mais seletivo na hora de querer companhia. Agora eu sei.

una vida chiquitita y normal

Guilhotina

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Hoje a guilhotina nos parece algo bárbaro, mas quando ela foi criada era um ato de misericórdia. Ela permitia matar com muito mais facilidade e impunha um sofrimento menor ao condenado. Antes dela os recursos eram amarrar os membros em cavalos ou golpear a pessoa com um machado. Às vezes o carrasco errava a mão e quebrava a mandíbula do sujeito, ou deixava membros pendurados, ou quebrava o pobre coitado todo sem matar e ele sentia tudo, estrebuchava, sangrava até morrer. Com a guilhotina não – com ela não havia problema de mira, força ou habilidade, quem ia lá tinha a morte garantida, rápida. Não é o que qualquer um preferiria?

Algumas situações na vida se tornam tão insustentáveis que a única misericórdia possível é a da guilhotina: mate sim, mas seja eficiente e definitivo.

Um conselho sobre uma paixão no divã

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De acordo com ela, o psi se entregou porque numa sessão ela comentou de uma música obscura de uma banda mais obscura ainda, e na sessão seguinte ele citou uma outra música da mesma banda, o que mostrou que ele anotou, pesquisou em casa e também ouviu. Foi a demonstração que faltava para se convencer de que o psi estava interessado nela. O que eu faço, ela me perguntou. Eu tenho uma teoria sobre ser confidente (e, por consequência, conselheira): o bom confidente é aquele que não gosta de ouvir confidências. Nunca pergunto, e depois que sei, nunca me interesso em voltar ao assunto e nem ouvir o final da história. Eu não quero ouvir segredos e os segredos que pulam na minha frente. Mas já que fui colocada nessa posição, tive que perguntar se, caso sim, o que ela sentia por ele. Sua resposta foi um vago “ele é legal, bonitinho, a idade regula”. Meu conselho foi algo que hoje faz com que eu me sinta meio Violet Crawley, mas fez sentido pra ela, que me agradeceu e disse que foi mesmo a melhor escolha. Eu lhe disse: então não vá. Porque um cara legal e bonitinho pra ter um caso você encontra facilmente, já um bom psicólogo…

Com inveja de Simone de Beauvoir

O filme mostra que Sartre se interessou por Simone porque ela estava sempre lendo, estudando, escrevendo. Tanto que a apelidou de “Castor”.

 

Eu sempre sou aquela que defende os não-leitores da detração dos leitores, a que se coloca contra essa maneira de dividir o mundo. Sempre sou contra que coloquem o número de livros como medida de inteligência. Sou a que no meio de uma discussão sobre a incultura nacional, no meio de gente onde citar Machado de Assis é coisa de principiante, fala: “Vocês são uns elitistas. Estão colocando algo que sabem fazer bem como medida de superioridade só porque isso os beneficia”. E cito uma frase do Millôr que diz que jogar xadrez desenvolve muito a inteligência de jogar xadrez. Mas ninguém me leva à sério. Talvez não devam mesmo, não sei.

 

Sempre gostei muito de ler, desde criança. Ao longo da vida, passei por fases em que lia mais ou que lia menos, mas mesmo nas fases de baixa eu sempre li mais do que a média – o que, convenhamos, não é difícil no nosso país. Eu me acostumei, aprendi a não esperar, sei que as pessoas a minha volta não leem. Das descobertas incríveis que faço nas minhas leituras, eu sei que não apenas não terei interlocutores, como nem ao menos posso tentar comentar – é um saco o teatral ar culpado de “ler é tão importante, eu deveria ler mais!”, que logo se transforma num “pobre de mim, não leio porque não tenho tempo pra na-da!“. Não discuto, não tento converter ninguém, cada um sabe de si e deixa pra lá. Só que a ideia de alguém se aproximar de mim – quanto mais romanticamente! – por ser leitora e estudiosa é tão impossível que fiquei triste quando vi o filme. A leitura sempre me tornou intimidante para os outros e pessoalmente solitária.

Armadilhas

Ela quer ser mãe. Mas a biologia está dizendo que lhe resta pouco tempo. Homens costumam ser muito fáceis – sei de vários casos de mulheres que arranjaram doadores involuntários. Um pouco de sexo no dia certo e ela estaria grávida. Mas o seu sonho inclui não apenas marido como até igreja. Isso torna o seu tempo ainda menor: é preciso conhecer um homem, casar com ele e só depois engravidar.

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Ele quer acreditar. Quer ter uma crença e dela conseguir rumo e consolo. Outras pessoas da sua família conseguem e é bom pra elas. Já leu de tudo, passeou por várias filosofias, conheceu comunidades. Mas, ao mesmo tempo que um lado seu acredita, o outro começa a duvidar. Por ter lido de tudo, as coisas começam a ficar iguais. Por já ter visto muito, duvida das afirmações categóricas. Mesmo quando sente que toca o sagrado, depois se pergunta se não foi apenas uma impressão.

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Ela quer companhia. Também quer estar junto, dar risada, chegar num lugar e todos saberem o seu nome. Ainda mais num lugar onde todos são calorosos e apenas ela parece não ter amigos. Mas é uma pessoa ultra competente, inteligente, pega as coisas rápido. Sua dedicação é total e ela não tem tempo a perder. Quando alguém menos do que isso chega perto, ela não consegue disfarçar sua impaciência. As pessoas notam e se sentem tensas.

My heart is broken in a million pieces

Ligia,

Naquele dia, quando nos encontramos, eu já estava retomando o fôlego para, mais uma vez, me esquivar do assunto separação. Eu tinha enfrentado duas semanas de fugas, e antes disso enfrentei tantas outras. Meus amigos vinham, pessoalmente e por mensagem, dispostos a ouvir. Que eu reclamasse, que eu chorasse, que dissesse tudo. E eu me recusava. Quando estou triste, minha vontade não é a de falar, e sim de voltar para o meu casulo. Posso te dar várias explicações pra isso, que vão desde não gostar de ser vista como uma pessoa pesada, como achar que falar aumenta ao invés de diminuir as dores, da minha criação…há pouco ouvi até uma explicação astrológica, a de que nós, os geminianos, somos assim. O fato é que eu já não gosto, e para o nosso primeiro encontro, de uma amiga virtual que nem era tão próxima assim, eu estava pronta, para mais uma vez, vestir a máscara da conversa social.

 

Assim que me encontrou, você disse que havia descoberto há pouco tempo que eu havia me separado, porque eu demorei a dizer isso com todas as letras no blog. E antes mesmo que eu tivesse tempo de desviar do assunto, você começou a me contar da tua separação. Uma vez nós quase nos encontramos em Curitiba, nós duas ainda casadas, mas eu estava com viagem marcada para o Festival de Joinville e aquele acabou sendo um mau momento e não nos vimos. Pelos meus cálculos, não foi muito depois do nosso quase-encontro que você se separou. E que foram justamente esses anos de instabilidade e luta pessoal que fizeram com que você às vezes emergisse e submergisse entre os meus contatos, de maneira que a nossa amizade não encontrava meios de se aprofundar.

 

Você me encontrou com distância o suficiente de quem havia superado aquele mesmo inferno, mas não tão longe a ponto de não se lembrar. Eu vestia um casaco que minha tia havia me dado de presente, porque não havia levado roupa o suficiente pra São Paulo. Era uma parca verde escura em estilo militar, uma combinação de três itens – parca, cor verde, estilo militar – que não tem nada a ver comigo. Mas eu a usava sem preconceito nenhum, porque eu apenas carregava as roupas como se fosse um cabide ambulante. E você sabia como era isso. Naquele dia te achei tão linda, e nada parecia denunciar que você também andara por aí feito zumbi. Meu rosto estava chupado, minhas calças despencavam, eu havia emagrecido uns cinco quilos no espaço de alguns dias. Comer não passava de uma obrigação. Você me contou que também havia perdido o sabor dos alimentos no começo. E que quando o prazer de comer voltou, deu até uma engordada.

 

Eu já te agradeci por essa conversa, lembra? Eu já te falei o quanto ela foi importante para mim. Você me contou das tuas muitas paixões pós-separação, todas enlouquecidas, todas frustrantes, todas desproporcionais. Que você sofria pelo fim delas e também pelo fim do casamento, que ao invés de curar as dores, os novos relacionamentos cavavam buracos maiores. E no meio a tanta coisa, tantas idas e vindas, tantos choros, homens complicados, falta de esperança e não saber onde colocar o amor, foram uns dois anos para finalmente conseguir um equilíbrio, um relacionamento bacana. Coincidência ou não, minha terapeuta me deu um prazo semelhante: dois anos. Dois anos pra realmente estar recuperada e conseguir ser inteira antes de me relacionar com alguém.

 

Retomo agora nossa conversa porque me vejo, novamente, como você descreveu. Decidi por um fim a um relacionamento que vem me sugando há semanas. Nem vou te falar dele; ele é um homem sem rosto, tal como o marido do Lanternas Vermelhas. Ele é alguém em quem projetei coisas. Ele é um homem que apesar de me conhecer bem, e de ter todos os elementos pra me achar uma mulher maravilhosa, não acha. E eu estava tentando provar que sim. Consegue imaginar coisa mais triste? Ainda não tenho clareza o suficiente para descrever onde começa a loucura de quem, o fato é que estava doendo. Antes dessa história, eu vinha me sentindo tão ótima, tão recuperada, tão pronta pra tudo – até mesmo para coisas de que nunca fui capaz, como me envolver sem me envolver. Aí vem essa história e me diz: lembre-se da Ligia.
Hoje penso novamente em você e novamente me sinto grata. Lembro de você tão linda e tão bem, me falando do teu longo caminho, que também seria um pouco do meu caminho. Você me deu perspectiva. Me falou das feridas e da cura pela homeopatia do tempo. Essa minha recentíssima ex-relação era algo que eu precisava viver para aflorar alguns medos que, graças à você, tenho certeza de que são normais e que vão passar. “Não faz nem um ano que eu me separei!”, digo a mim mesma, “está tudo bem”. Há menos de um ano, meu coração estava partido em um milhão de pedaços. Como um soldado levando os companheiros nos ombros, eu consegui juntar os caquinhos e passar por coisas quem olha não adivinha. Mas ainda tenho mais trabalho pela frente. Ainda tem mais o que limpar, ainda tem mais o que aprender, ainda tem mais o que acolher.

 

Métrica

 

Dar ao outro apenas e tão somente o que ele também nos daria, em circunstâncias semelhantes. Dispor para o outro apenas e tão somente o tempo que não nos fará falta, que não lamentaremos ter perdido, que não será comparado com o que queríamos fazer, que não será relembrado depois em forma de cobrança. Não querer mais do que cada um pode nos dar, sem tentar obter por outros meios, criar novas situações ou arrancar de alguma maneira. Eta medidas difíceis de achar. Eta como dói enquanto a gente não acha.

Curtas de idiotices amorosas

Sexo, essa sacanagem que a natureza inventou para nos obrigar a trazer o outro para nossas vidas. Senão, bastava assinar a HBO e estava todo mundo feliz, cada um na sua casa.

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Miguinha sofredora não cansa de escrever que quando o Fulano perceber o que perdeu, ah, aí sim hein, que dolor. Não dá pra jogar na cara, mas se tem uma coisa que nunca acontece no mundo é essa: a pessoa que nos dispensou “acordar”. Porque quem dispensou sempre sabe o que está fazendo. Ele não viu, não quer ver e nem nunca verá nada demais em você. Simples e duro assim.

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Sinopse de um livro de Sidney Sheldon, que li na adolescência: moça ingênua é seduzida por um piloto de avião. Depois de tórridas semanas, o cara some e ela descobre que foi enganada. De mocinha ingênua ela passa a sedutora-predadora profissional e vai conseguindo homens cada vez mais poderosos. Quando está no auge, contrata o piloto que a enganou. “Ela havia imaginado” – fingindo agora que estou copiando o livro – “aquele encontro de várias maneiras. Imaginou ele sem fala, sem saber como reagir diante dela, ciente de que havia desgraçado sua vida. Quem sabe ele nem a conseguisse encarar, quisesse se manter longe, até mesmo pra fugir do desejo de tocar uma mulher que um dia foi dele e agora lhe era proibida. Ou então, cafajeste do jeito que era, podia se sentir confiante e querer reconquistá-la. De todas as cenas, o que ela nunca havia imaginado é que ele simplesmente não a reconheceria. (….) É que foram tantas”. Cara. Cara.

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A Fal, mais que maravilhosa disse: “Bancar o idiota por amor é da vida. Se você nunca bancou o idiota por amor, você não viveu. O que não dá é pra ficar bancando o idiota sem amor. Só pra ser isso mesmo, um idiota. Aí, né. Oi.”

(Preciso continuar escrevendo? Já lhes dei Fal, vocês estão mais do que bem servidos.)

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Preciso complementar a frase anterior, sobre o ser idiota, porque tá frequente demais no mundo. HÁ o direito de ser idiota, de correr atrás, de agarrar no peito, pijama, nos pés e ao pé da cama. Ligar, mandar recado, bolar estratégias, correr atrás, pagar macumbeiro, etc. Só que um dia, por mais que demore, a insanidade amorosa passa. Aí a pessoa se toca das besteiras e de todo tempo desperdiçado. O arrependimento do depois é tãããããão grande. Cada gesto ridículo persegue a pessoa de um jeito chiclete que dói a alma. É de querer mudar de cidade e de nome, querer morrer. Ou que ele morra, só pra deixar de ser a prova viva da nossa idiotice. Então, cuidado.

Namoro?

 

Me disseram que namoro é status, mercadoria rara. Assim como o casamento é, e percebi claramente quando casei. E mesmo agora, que não sou mais, o status permanece em mim, uma marca eterna. Não sou, mas fui. Eu consegui, uma vez na vida um homem me escolheu para ficar o resto da vida do meu lado. Que se dane se não deu certo, sou mais do que as outras que nunca viveram isso. Acho terrível, mas quase todos vocês pensam assim.

 

Por outro lado, já ter vivido é diferente. Eu sei o que ser a “oficial” – agora falo também de namoro – implica. Tem o andar de mãos dadas, o apresentar para os nossos amigos na expectativa que ele se misture, ser apresentada aos amigos dele na expectativa de agradar, a mudança de status no facebook!, o ajuste das agendas, o entrar num ambiente e ser olhada como propriedade daquele homem, a dificuldade em conciliar gostos na hora de escolher um cardápio, a tampa da privada e o papel higiênico, os gostos bestas que você deve amar, e se isso não acontecer, lembrar de jamais jogar na cara. E tem a família. (suspiro). Tem a família.

Não sei se consigo mais. Neste momento, não.

Limites

Eu não sei ser moderninha. Sou muito à favor e consigo entender completamente a reivindicação de sexo livre e sem tabus para as mulheres, é uma luta necessária. Mas eu, falando de uma maneira muito pessoal, não dou conta. Fui programada convencional, sou convencional. Se pudesse me programar, me programaria diferente. Eu tive uma amiga que fez redução de estômago e sua nova magreza fez com que ela tivesse em poucos meses mais parceiros na cama do que eu tive e terei a vida toda. Ela não se conformava, em ter um corpo de redução de estômago (com cicatrizes e estrias) e fazer mais do que eu, que sempre fui magra. Ela me dizia – “se eu tivesse esse teu corpo, você não faz ideia do quanto iria aproveitar”. Mas não “aproveito”. Pra mim afeto e sexo estão tão ligados que me acontecem duas coisas: ou eu olho um homem e acho ele muito bonito e não sinto tesão nenhum, ou gosto de um homem, de estar com ele, de conversar com ele, e fico com tesão. E se formos para a cama, todo esse pacote ficará mais intenso. O que faz com que do zero nunca comece, porque eu nem teria vontade. E uma amizade colorida logo logo me deixaria com vontade de algo sério. Sim, eu sei, é complicado. Eu disse, se pudesse faria diferente. Claro que não sou uma louca que tem que amar pra conseguir ir pra cama, tem que ser pedida em casamento e colocar aliança no dedo pra se soltar. Só não conseguiria ir pra barzinho ou conhecer alguém no Tinder e já ir pra cama com ele.

 

Desculpem o desabafo, e acho até que estou sendo repetitiva nesse assunto. É que tenho assistido o sofrimento de uma amiga e estou triste por ela. Ela tem limites parecidos com os meus e não os respeitou. Se envolveu sozinha, foi fundo, e hoje tentou uma atitude extrema. Sim, essa que você pensou. Não tenho nem o que dizer. Limites, temos que conhecer e respeitar nossos próprios limites.

Guapa

Nos dias de espetáculo as pessoas envolvidas costumam ficar o dia inteiro no teatro. Mesmo assim, quando termina, estão todos numa adrenalina tremenda, dessas que nos impede de dormir. Então é mais do que bem-vindo fazer uma reuniãozinha depois, pra fofocar, falar sobre o que acabou de acontecer, estreitar os laços. Foi num desses encontros que minha amiga acabou trocando telefone ele. Ela, separada, com filha, uma grande bailaora e excelente pessoa; ele, outro envolvido no mundo flamenco. Havia uma simpatia mútua, uma atração, as idades batiam, não custava tentar. Vai que ficava interessante, vai que surgia um namoro. Ele ligou e combinaram de se encontrar dali há poucos dias, depois do trabalho, uma coisinha sem compromisso.

 

Ela sabia que ia vê-lo no fim do dia, então deu uma caprichada no visual. Foi trabalhar de saia, sandália, blusa de alcinha. Não tinha problema trabalhar assim, porque tudo ficou coberto pelo guarda-pó; veterinária competente, a rotina dela incluía lidar com vários tipos de animais, aplicar injeções, lavar canil, esse tipo de coisa. Quando terminou o expediente, ela deu a última ajeitada no visual e foi vê-lo. Pegou o carro, foi até o local combinado e quando a viu, ele examinou minha amiga de cima a baixo e lhe disse:
– Como pode, a mulher veio encontrar comigo tão guapa: sandália, saia, blusa bonita… e não fez as unhas!

Não digo que acabou ali porque na verdade nem começou.

Economia

Minha mãe chegou a estudar um ano de Belas Artes, e nesse período ela adquiriu um lindo conjunto de estecas que passaram a ser minhas quando comecei a esculpir. Só que eu não as usava. No atelier tinha um material coletivo, umas estecas muito velhas, faltando, poucas opções. Então eu pegava uma ou duas com um tamanho meio bom e ficava com elas. Achava que assim estava poupando o meu valioso material. Se eu deixasse lá, mesmo com nome, era capaz de alguém usar. Elas poderiam estragar, elas ficariam sujas. Eu queria usar só quando não tivesse mais opção, ou quando fosse realmente importante. Depois de alguns anos, o professor se encheu daquilo e me disse com todas as letras pra usar o meu material, e deixar aquele para o atelier e alunos que precisassem. Só que eu não tive muito tempo: poucos meses depois, resolvi sair do atelier e fui trabalhar em casa. Em casa o meu trabalho não durou muito e acabei parando de esculpir. Minhas estecas estão aqui, novinhas e guardadas.
***
Algumas vezes, apaixonada, eu disse que o adorava. É raro os sentimentos entre as pessoas não serem recíprocos, ainda mais com algum grau de intimidade. Dá para notar pelo olhar, pela necessidade de estar juntos e ouvir a voz. Apesar de todos os sinais mostrarem que ele também me adorava, eu não ouvi. Ao invés de receber a minha enunciação como um presente – porque ser amado é um presente – a minha declaração gerou tudo menos felicidade. Eu havia me colocado em desvantagem: ela está apaixonada, ela está louca por mim, ela quer casar comigo, eu estou ganhando! Como se relacionamentos à dois fossem disputas. Às vezes imagino chegar ao coração de alguns homens como provas do Domingão do Faustão, passando por piscinas de lama, paredões de socos e plataformas altas da qual se tem que saltar. Enquanto a minha manifestação vinha fácil, a dele parecia sempre estar querendo mais e mais provas, mais tempo, mais confiança. Falei o que sentia quando sentia, e quando acabou para mim foi para sempre. O “eu também te adoro”, dele, que eu sei que existia, nunca foi pronunciado.