Tigrada

Se a pessoa, de uma hora pra outra, vê como se fossem mosquinhas, ou luzes, ou perde um quadrante da visão, pode ser descolamento de retina. Neste caso, ela deve ir imediatamente para um hospital de olhos, de onde vai direto pra operação. Imediatamente mesmo, do tipo largar tudo. Se marcar consulta, dormir pra ver no dia seguinte, já era. Muita gente na pesquisa que fiz sobre cegueira perdeu a visão assim, porque marcou consulta, esperou, ou seja, fez o procedimento normal. No descolamento uma membrana no olho se rompe e o líquido invade onde não deveria, então imaginem com que rapidez acontece.

Pois. Fui na super oftalmo para afastar as nóias que de vez em quando me aparecem, apesar de ter um grau de miopia bem baixo. Tudo porque tenho histórico de descolamento de retina na família. E tem que ser ela e não um médico qualquer do plano. Quando eu estava com os olhos dilatados, a médica tirou foto do meu fundo de olho – “só porque eu sei que você está preocupada”. Ela me deu as fotos e me explicou: nenhum fundo de olho é igual ao outro, igual digital. A pessoa albina tem um fundo de olho claro. O fundo do meu olho esquerdo tem um várias linhas, é um “olho tigrado”. Isto quer dizer que lá atrás, de algum lugar que eu não conheço e ninguém nem sabe, eu tenho um ancestral negro.

fundo do olho esquerdo

Fundo do meu olho esquerdo. Olha que foto mais íntima, muito mais do que foto de biquíni.

Fiquei feliz. Que meu ancestral negro me garanta um olho forte e saudável, que me permita fazer tudo o que eu quiser na minha vida.

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Combinação alérgica

lambretas

Estava na praia com meu pai e um dos amigos das antigas dele, da época que ambos eram fodões (Desculpe o termo, mas acho que nada define tão bem esse passado deles). Chegou uma porção de lambretas, iguaria comum naquelas bandas que eu devorava quando era criança. Só eu e o meu pai nos atracamos nela; deu para ver que o amigo também gostava muito. Aí ele me contou que, na época que trabalhava, tinha uma alergia persistente nas mãos. A mão era tomada pela coceira e ele ficava constrangido, evitava ao máximo estender a mão para cumprimentar as pessoas. Isto, somado à função que exercia, contribuía para deixá-lo com fama de antipático. Ele procurou tudo quanto é médico, fez testes alérgicos, e o mais próximo que conseguiram chegar é que ele tinha alergia a frutos do mar. Ele não aceitou aquilo pacificamente, não apenas por gostar muito de frutos do mar, mas também por comer muito e perceber que não era tudo o que fazia mal. Cansado de ficar com a mão daquele jeito, fez experiências, cortando ora uma coisa e ora outra, até que ele descobriu que o caso dele era bem específico: ele tinha alergia a misturar lambreta com outros frutos do mar. Se ele comesse só a lambreta, tudo bem. Mas se tivesse comido outro peixe, como havíamos acabado de fazer, ele ficava pipocado. Depois que descobriu e criou esse regra, nunca mais teve problemas e a mão dele estava limpa.

Eu descobri sem querer que o extrato de tomate estava me fazendo mal. Cólica, enxaqueca, sintomas digestivos. Eu tinha uns três alimentos na lista de prováveis causadores. Parei com o molho sugo e, além de nunca mais passar mal, vi minhas alergias de pele recuarem mais de 90%. Estava uma catástrofe por causa da eleição. Não sei se é tomate em geral, se com tomate não-orgânico eu teria problemas, se é com o molho enlatado, não me dispus a sofrer mais e apenas parei. Quem tem alergia de contato sabe o quanto é difícil; quem sabe meu caso ajude alguém.

Eu sou do tempo do purgante

purgante

Constatei mais essa velhice em mim. Eu sou do tempo que se entendia que era preciso purgar. Que quando algo chegava ao fim, nunca era abrupto. É como se tudo deixasse um rastro atrás de si, uma sujeira, e era preciso se livrar dela antes de colocar outra coisa no lugar. Que depois de perder uma criança, o útero precisava passar um período quietinho antes de tentar gerar mais uma ou que depois do resfriado era normal ficar com o nariz cheio de coriza. Ou seja, a gente aceitava que havia um sofrimento e que fazia parte da natureza. O período de purgação era algo que não podia ser apressado, ele nos ensinava a paciência. Por ser do tempo do purgar, a mim soa estranho quebrar a cara num dia e no outro já se enfiar no novo como se nada tivesse acontecido. Purgar pode levar anos. Eu sei, a vida tem nos exigido pra ontem, mas repito: eu sou de outro tempo. O que hoje tende a se chamar de desistência e passividade, eu chamo de purgação. É tanto medo de perder seu lugar, tanta pressão pra sair correndo, que se dar um tempo é nadar contra a corrente. Só depois de uma purgação bem feita – nós, os antigos, acreditamos – é possível colocar algo realmente novo, belo e forte no lugar.

Sala de exame

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Acho sempre muito estranho quando eu saio do elevador e me vejo de uma vez no ambiente, acho que foram anos de condicionamento entrando em corredores. É como nos filmes de ficção científica que a pessoa salta em outra dimensão. Mais surpreendente ainda porque fui parar numa sala de exames lotada e na última vez que tinha feito ele, um exame totalmente feminino, não foi daquele jeito. Esperei minha senha, meio ansiosa porque cheguei nos dez minutos antes que manda o protocolo mas até me chamarem já daria o horário. Aí vi que a sala estava lotada daquele jeito por causa dos acompanhantes. Saia gente de lá com o andar típico de quem tinha tido AVC e não conseguia mover direito um lado do corpo. Pessoas que torceram o pé. Idosos que mal se moviam. Dois entraram homens na sala, ignoraram a senha e se desentenderam entre eles e com uma das atendentes, justamente a que eu tinha achado antipática. Um queria fazer um exame que fica em outra unidade, praticamente do outro lado da cidade. Aí ele virou pro outro e era daquelas pessoas que fala sem mover a boca, o movimento acontece todo por detrás dos lábios imóveis. Ele hesitava em deixar o outro – provavelmente haitiano – lá, achava que não saberia voltar sozinho. Mas deixou. O haitiano trouxe o resultado de uma colonoscopia, não sabia dizer onde estava a guia, se tinha guia, a atendente que eu achava que era antipática pegou a carteirinha e não pediu para ele ir para a fila. Não havia nenhum registro no número e ele disse que precisava fazer outro exame. Ela quis saber quem, como, onde e ele não sabia responder. Eu fui chamada antes da história terminar. Fiz meu exame, esperei o resultado com a bolsa no colo e sem ânimo de pegar o Kindle. Depois de longos minutos, a assistente foi até a impressora que fica atrás das atendentes e pegou folhas que estavam espalhadas lá faz tempo, ou seja. Peguei o exame, agradeci, fui a passos largos até o elevador. Meus passos eram largos, bem informados, saudáveis.

A indesejada das gentes

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Eu li o Montanha Mágica quase inteiro, enfrentei as páginas que se considera mais difíceis e larguei num mal estar que eu desconfiei ser inerente ao tema e não ao livro em si. Para quem não conhece, a ação do livro se passa numa clínica de tratamento de tuberculose. Depois daquilo li mais algumas coisas sobre o assunto. Na biografia de Nelson Rodrigues ela aparece bem, com Nelson angustiado por ir e voltar para o tratamento. Só que por mais que a biografia fale da angústia dele, eu nunca li – pode ser que tenha e apenas eu que nunca tenha lido – o próprio Nelson falar da rotina desses tratamentos. O nosso Manuel Bandeira foi um que conviveu com a tuberculose, sempre à espreita, e no fim das contas acabou sobrevivendo a quase todos seus amigos saudáveis e morreu aos 82 anos. Mas não foram 82 anos comuns, foram 82 sentindo a morte em cada tosse, cada ventinho, cada febre.

Consoada
Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Mas de tudo o que eu li sobre a doença, Bernhard é o que mais me toca. Ele tem um modo de escrever intensamento autobiográfico, e não apenas nos deixa saber que é doente, ele descreve o tratamento por dentro: como é ser internado, verificar a secreção cuspida numa garrafa, os meses iguais e sem perspectiva de melhora, o olhar da equipe de enfermagem que crê que a qualquer momento você não estará mais ali, os pacientes que um belo dia somem e seus lençóis são trocados. Bernhard me faz entender que a rotina da Montanha Mágica realmente me angustiava. Eu sou irritamente saudável; há alguns dias me resfriei, acordei com a cabeça pesada e fiquei me perguntado se aquilo era apenas resfriado ou gripe – eu não me resfriava há tantos anos que nem lembrava mais como era. Fico me perguntando a sede de vida que passar tanto tempo trancado dá a alguém; para mim, é a combinação dessa vontade urgente com – ironicamente – a cultura que adquiriu nos meses de imobilidade que tornam Bernhard um autor tão incrível.

Quando me foi possível novamente levantar e ir até a janela, e finalmente até o corredor e depois, com todos os outros condenados à morte capazes de andar, de uma extremidade à outra do pavilhão e que finalmente, um belo dia, pude até sair do Pavilhão Hermann, tentei chegar até o Pavilhão Ludwig. Porém eu superestimei minhas forças e fui obrigado a parar diante do Pavilhão Ernest. Tive que me sentar no banco fixado ao muro e retomar o fôlego antes de poder continuar por meus próprios meios para o Pavilhão Hermann. Quando os pacientes passam semanas ou mesmo meses na cama, eles superestimam suas forças assim que se vêem capazes de levantar, eles querem simplesmente fazer tudo e em certos casos acontece de esse tipo de besteira fazer com que retrocedam semanas, e alguns, numa dessas aventuras irrefletidas, foram atingidos pela morte da qual tinham escapado com uma operação. Apesar de ser um doente escolado e de ter, durante toda a minha vida, convivido com as minhas doenças mais ou menos graves, depois gravíssimas e, finalmente, sempre com minhas doenças ditas incuráveis, sempre tive regularmente essas recaídas de diletantismo em matéria de doença, fiz besteiras, besteiras imperdoáveis. Primeiro alguns passos, quatro ou cinco, depois dez ou doze, em seguida treze ou quatorze, finalmente vinte ou trinta, é assim que o doente deve agir, e não levantar logo, sair e ir embora, o que, na maioria das vezes, vem a ser fatal. Porém o doente trancado durante meses, durante meses só sonha em sair, e mal consegue esperar o momento em que terá o direito de deixar o seu quarto de doente e, naturalmente, não se contenta em dar alguns passos no corredor, não, ele sai para o ar livre e ele mesmo se destrói. (O sobrinho de Wittgenstein, p.13-14)

Girafa 5

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A referência à girafa vem daqui.

Está chegando a hora. Em poucos dias falarei com o orto, que me prometeu uma longa conversa sobre as minhas alternativas de retratamento quando eu voltasse. Eu não sinto dor, mas sinto realmente o meu canino direito sendo pressionado para cima e mastigo quase nada desse lado. Não é o mesmo grau de motivação com que coloquei aparelho pela primeira vez – décadas de espera até o tratamento ficar acessível para mim, dentes da frente tortos e encavalados, uma lista de problemas. Meu antigo orto não era bom, mas tenho que reconhecer que trabalhamos. Arranquei dentes, coloquei banda, dormi com aquele “freio de burro”, elásticos de Mun-ra, fiz de tudo. Naquela época me disseram que no começo eu iria estranhar um pouco, mas que depois me acostumaria de um jeito que nem ia querer tirar o aparelho, ia começar a achar bonito. Não sei como é pros outros, mas eu lembro que detestei minha aparência todos os dias durante os três anos que usei aquele troço.

Mas.

Quando realmente penso nisso, tudo me parece uma grande bobagem. O aperto financeiro, o incômodo nos dentes, eu me sentir feia, nada é o fim do mundo. Não é o ideal, não é o que planejei… mas tudo bem. Vou reclamar muito, como é de direito – e vai passar. Seis meses, um ano (quero crer que não vai ser muito mais do que isso), parecem muito quando a gente projeta um futuro e quando olha pro lado já foi. Talvez seja idade, cansaço, um tico de sabedoria, tudo junto. Problema mesmo é não poder colocar. Que venha o aparelho.

Cantareira

Li sobre o problema da Cantareira: ó, se chover o correspondente à dez metros, não quer dizer que o nível da água lá vai subir dez metros. Secou muito. Então, as primeiras águas que caírem vão pra terra que está seca, umidificar, molhar as plantas, serem sugadas… Depois que chover bastante, molhar bastante, a terra ficar saturada de água, aí sim vai começar a subir. De dez metros de repente só vai aparecer um, todo resto foi pra forrar a base.

 

Quando me dá uns piripaques, lembro da Cantareira. Porque tenho feito tudo tão direitinho, tenho dado para mim todo o colo e tempo, todas as mensagens positivas, proteínas, vitaminas e sais minerais, e ainda assim a sensação ao acordar raramente é boa. Levanto, faço minhas coisas, luto pra caramba pra ficar felizinha, e dia seguinte é a mesma coisa. Parece que todo esse esforço está indo pra lugar nenhum. Está, está, está, só não é visível ainda.

Idade

Somos três. Luiz é quatro anos mais velho do que eu e mora em Salvador. André é um ano mais novo do que eu e mora aqui em Curitiba mesmo, num apartamento no centro. Parece que foi ontem a época que seis horas de vôo separavam as duas cidades e nós dele. Naquela época a Varig existia, tinha travesseiros de pena, o lanche era servido numa linda maletinha de plástico e tinha talheres de metal com logomarca. Nessa época eu e o Luiz tínhamos brigas sempre homéricas e as pessoas achavam que eu e o André éramos gêmeos. A distância em quilômetros continua a mesma, mas antes não apenas não havia celular, como as ligações custavam muito caro. Pra ligar pra longe a gente tinha que esperar pra depois das 22h; se pudesse esperar pra depois das 24h era melhor ainda. Viajar de avião era coisa de rico – mas, olha, desde que eu me entendo por gente os vôos atrasam e eles nos deixam mofando nos aeroportos sem a menor dó. O mundo ficou mas perto só que a gente acaba esquecendo disso. No dia dos pais, Luiz resolveu arriscar o meu número de celular e deu certo. Os deuses foram favoráveis e foi a ligação mais clara que a TIM me proporcionou até hoje. Conversa vai, conversa vem, entramos no assunto colesterol. Herdamos, nós dois, o colesterol de papai; já o André herdou a tendência ao diabetes. Recebi do meu irmão a recomendação de comprar óleo de linhaça dourada e passar a usar no lugar da manteiga. O colesterol dele havia baixado dez pontos com esse óleo e o fim da batata frita.

– Luiz, que coisa mais de velho. Quem diria que um dia trocaríamos dicas para baixar o colesterol.

– É mesmo. Isso porque estou conversando com você. Se estivesse conversando com o André, falaríamos sobre calvície. E exame de próstata.

Flamingo

Ouço falar dela, da tal da escoliose, há mais de dez anos. Todo exame físico que eu ia fazer, viravam pra mim e diziam – não sei se você sabe, mas você tem uma pequena escoliose bem aqui… Sim, eu sabia. Eu sabia mas era uma informação meramente teórica, porque ela estava ali, me deixava pouca coisa torta em algumas posições, mas jamais havia me incomodado. “Mas um dia vai incomodar”. Pense que além dessa tendência hereditária e bípede, eu comecei a dançar e estraguei articulações outrora eram novinhas porque eu não me exercitava na adolescência. O flamenco, das danças com sapateado, é a que mais força a lombar. Se você reparar bem, nos outros sapateados – americano e irlandês – o tronco da pessoa fica subindo e descendo. No flamenco, o bailaor sapateia e se mantém sempre no mesmo nível. Quem segura essa onda toda é a perna, que fica mais flexionada, e a coluna. Então, depois de tantas ameaças, mês passado aconteceu. Finalmente, eu e meu destino nos encontramos – agora eu sinto minha escoliose.
O que me acontece é que às vezes vou me inclinar para pegar alguma coisa e AHHHH, que delícia! fico por ali mesmo. A posição encurvada é a que mais relaxa minha lombar. Então às vezes vou pegar uma coisa e pego mais outra e mais outra e fico andando pela casa igual o corcunda de Notre Dame. Ou aproveito que estou abaixada e abraço as coxas por trás e conto um minuto, e faço ali meu alongamento. É gostoso pra minha coluna mas meio esquisito enquanto cena. É como se eu tivesse virado um flamingo.

Argila no pé

Uma vez eu estava no ônibus e duas velhinhas estavam conversando sobre argila. Uma dizia que sempre que estava com dor de garganta a avó fazia ela ficar com argila no pescoço durante alguns minutos e a dor passava. Outra disse que tinha um inchaço não sei aonde e curou colocando argila. E coisas assim. Fiquei curiosa e depois fui dar uma pesquisada no google. Na época achei uma página ótima (que não existe mais) sobre argiloterapia, dizendo que ela era boa para todas as ites possíveis. Achei a informação curiosa e interessante, sem imaginar que um dia ela me seria essencial.

Lembro perfeitamente que estava atravessando a Mariano Torres, perto da Federal, quando errei o meio fio e chutei ele com tudo, com os dedos do pé. Na hora doeu, depois continuou doendo e inchado, depois passou a doer num ponto muito específico. Meu acupunturista disse que o ideal seria não usar aquele músculo durante um mês, mas como eu estava andando normalmente me recusei. Então que eu evitasse salto alto. Eu que nunca fui fã de salto, aboli os poucos que tinha. E assim fiquei bem durante quase dois anos, com o pé inchando um pouco, parando um pouco. Até que eu comecei a fazer ballet, e ficar na meia ponta forçava justamente o tal músculo. Chegou um ponto que meu pé começou a inchar e não desinchava. Primeiro eu não conseguia mais colocar o dedão no chão, depois não conseguia mais andar descalça, até que não conseguia andar normalmente de jeito nenhum. Tomei antiinflamatório e não fez o menor efeito. Eu não sabia o que fazer.

Aí lembrei da conversa das velhinhas; eu já estava meio desesperada mesmo, não me custava nada fazer aquilo. Eu tinha umas argilas aqui por causa das esculturas. Eu pegava a argila e punha no pé antes de dormir, coberta por gaze e com uma meia pra não sujar a minha cama. O resultado foi um verdadeiro milagre: em uma semana o meu pé ficou totalmente desinchado e curou uns 90%. Depois disso, usei a argila uma ou duas vezes e o problema acabou. Olha que depois disso eu ainda fiz muito ballet pela frente.

Solidariedade estranha

Quando uma mulher está com um cisto enorme no seio, faz biópsia e ela dá um resultado chocante e muito ruim, e a mulher tem que tirar o seio, é sinal de que ela está com um tumor maligno, né? Se sim, eu conheço uma mulher que está com um tumor maligno. E finjo que não sei. Na verdade essa história se arrasta há quase um ano, quando apareceu no seio um inchaço que deixou a mama tão sensível que não dava para encostar. O inchaço foi crescendo e se tornou tão grande que ocupa quase o seio inteiro. Ela foi à vários médicos, usou de métodos alternativos e a parte inchada endureceu e parou de doer. Os médicos não estavam muito seguros pra operar, por causa do tamanho. Entre tirar ou não tirar, outro médico pediu outra biópsia e a partir daí eu apenas vi e ouvi coisas. Vi-a recebendo a solidariedade de muitas pessoas, vi dizendo que foi um choque e que agora se conformou, que a operação já está marcada. Como não nos encontramos em horários que normalmente nos veríamos, não sei se ela não me contou por simples desencontros ou decisão não me contar. Acredito na primeira hipótese, porque ela não também nunca escondeu. E eu não perguntei.

 

Pode parecer puro comodismo ou insensibilidade, mas faço isso por solidariedade. Uma solidariedade estranha, eu sei, mas na qual eu acredito. É que quando meu irmão sofreu acidente de carro, foi parar na UTI, quase morreu e etc, minha vida ficou interrompida. Fui eu quem assumi essa carga durante os primeiros meses. Era eu que o visitava, era eu que falava com os médicos, era eu quem passava a notícia para os outros. Por isso todos à minha volta sabiam o que estava acontecendo – minha família, a família do meu noivo, meus amigos, os vizinhos, os porteiros, pessoas que eu nem conheço. Sempre que eu precisava interagir com alguém, o outro me olhava com aquele olhar – um olhar solidário, um olhar de pena, um olhar de alguém de quem olha pra alguém numa fase difícil. Não que isso tudo não fosse verdade e eu não chorasse todos os dias, mas ver o meu drama refletido no olhar dos outros às vezes me era pesado demais. Às vezes eu precisava, e outras vezes não. Momentos de grande sofrimento são assim, nada nunca satisfaz completamente. Eu precisava sim de compreensão, mas em alguns momentos eu sentia falta de ser uma pessoa comum. De que me tratassem normalmente, que me falassem trivialidades, que em algum momento do meu dia eu não fosse aquela-cujo-irmão-está-entre-a-vida-e-a-morte.

 

Eu sou a que conversa com ela sobre as 25 maneiras de amarrar um lenço, ou coisas da TV. Para perguntar da operação, ela já tem todos os outros.

Prioridade prioritária

Na minha turma tem uma criança que é muito boa, um fenômeno. Ela sapateia como ninguém, pega os passos rápidos, tem um grande futuro pela frente. Isso junto com aquela segurança de quem é filha única, de quem sempre foi o centro das atenções. E se tem uma coisa que encanta o público é ver crianças fazendo as mesmas coisas que os adultos. Ela já tem mais coreografia do que os outros e ainda é destaque na minha; aparentemente, só eu fico incomodada. Pra alguém que já ia chamar atenção de qualquer forma, entende? Tenho meus traumas, pelos outros lugares que dancei. Já me aconteceu de ter me empenhado o ano inteiro e ser deixada de lado só porque sou mais velha. Não sou uma cuticuti mas também pego os passos com facilidade, tenho postura e todas as outras consequencias de ter feito ballet. Tenho meus próprios méritos e não quero ser apenas “escada” dos outros. Quando a professora avisou que na aula seguinte os lugares do palco seriam demarcados, já comecei a me torturar antecipadamente com essas questões.

 

Só que quando a aula chegou, minha saúde estava uma merda. Me obriguei a ir porque tinha a prova do figurino. E ali, fazendo coreografia com a cabeça pesada, dor de garganta, moleza no corpo, entendi que nada daquilo é importante. Se eu estiver me sentindo bem no dia da apresentação tá ótimo.

Mais complexo e mais caro

Eu sempre acreditei nas receitinhas caseiras e tenho muitos livros da Sonia Hirsch. O emplastro de inhame dela tem feito milagres pela minha pele, que de uns tempos pra cá tinha passado a ter espinhas perpétuas sempre na mesma região do rosto. Antigamente eu passaria essa receita pra todo mundo, pra dividir com as pessoas como algo simples e barato pode ajudar. Hoje não faço mais, só falo se me pedem claramente. Porque eu cansei de ser olhada com desdém, como A Pobre ou A Crédula porque gosto de soluções simples. Imagine se uma batata vai cuidar melhor da minha pele do que um tratamento estético carésimo numa clínica de dermatologia…

 

E isso é com tudo. Já recomendei profissionais ótimos, mas que foram desprezados porque são pessoas comuns. Cobram um preço justo por uma consulta e fazem o trabalho deles. Pra esses profissionais, as pessoas acham muito custoso ir – agora, pra um que atende no bairro mais chique da cidade, ou que se diz mensageiro de mestres anões orientais, as pessoas se propõem a pagar fortunas. Ler um livro, fazer em casa ou julgar através do bom senso é simples demais. Parece que as pessoas só sentem confiança naquilo destrói o orçamento familiar e envolve muitas etapas incompreensíveis. Como tratamento, substâncias tão desconhecidas quanto caras. Isso sem falar na pitada de humilhação, pra conseguir finalmente chegar perto do profissional/mago.

 

E depois é a religião que tem culpa de tudo, pff.

Saudável

Eu fui criada com livros de macrobiótica e homeopatia em casa. Cresci lendo que o intestino humano era longo como dos animais herbívoros e que ovo é menstruação de galinha. Tinha sempre à mão um frasquinho de Almeida Prado nº48. Era raro eu tomar algum remédio alopático. As doenças eram tratadas com mudança na alimentação: nada de manteiga, frutas ácidas, comidas pesadas, produtos feitos de farinha branca e doces durante as doenças. Mel com limão para a garganta, maçãs para o intestino solto e laranja para o intestino preso. Isso sem falar na filosofia de deixar o corpo se curar sozinho. Na adolescência eu tinha torcicolos terríveis e só quando casei eu descobri que não precisava passar o dia inteiro deitada porque existe relaxante muscular pra isso. Aliás, nos últimos anos os relaxantes musculares só não se tornaram meus melhores amigos porque não me fazem mais efeito. O jeito é aplicar compressa de gengibre.

Como eu fui criada assim, achei que todas as famílias era assim. Fiquei surpresa em ver que o Luiz só faltava comprar pizza com coca-cola quando eu estava ardendo em febre. Achei que poderia deixar o passado de lado, comer de tudo e usar remédios alopáticos. Descobri à duras penas que quem é criado de forma mais natural não consegue: ou os remédios não fazem efeito ou quase morro com um simples paracetamol. Fico me perguntando o que me aconteceria se eu precisasse de uma anestesia ou um tratamento longo… Agora, quando adoeço, ligo pra minha mãe e pergunto o que eu posso comer. Ou leio um dos livros da Sonia Hirsch, a minha gurua.

Compressa de gengibre

Essa é uma receita muito simples que aprendi com meu acupunturista. Já recomendei pra várias pessoas e tem quebrado muito meu galho durante anos. Por causa dela, sempre tenho gengibre em casa.

Quando: para aplicar calor num local*.

Material: gengibre fresco ralado, gaze e esparadrapo (ou higiporo, ou fita crepe, ou qualquer coisa que prenda a gaze)

Como fazer: colocar o gengibre sobre o local. Fechar com a gaze, de preferência sem deixar muitas saídas de ar.

Como funciona: o gengibre (acho) retém o calor da pele e devolve para ela. Enquanto você estiver com o gengibre, sentirá o calor aumentar e diminuir continuamente. Dependendo do limiar de dor e do local da compressa, você não conseguirá ficar muito tempo com ela. Substitui com vantagem bolsa de água quente ou gel por não esfriar e fazer menos volume. Isso sem falar das propriedades medicinais do gengibre.

Recomendações: dependendo do local, pode ser difícil impedir o gengibre de passear por dentro da gaze. Se isso acontecer, procure aplicar quando sabe que vai ficar mais imóvel. Antes de tomar um banho quente, tire o gengibre com uma certa antecedência senão você pode se queimar.
*Não direi aqui em que situações aplicar calor, pois não sou da área médica e não quero dizer besteira.

Pára tudo!

Quarta passada, na hora do almoço, eu estava me sentindo um pouco tonta. Voltei pra casa e –voilá – estava com quase 39º de febre. O dia inteiro dormindo e dois chás de alho depois, ela baixou para 38º. No dia seguinte eu resisti o quando pude (ou seja, quase nada) mas mesmo assim o Luiz me levou pro hospital. A médica me receitou Cataflan, Paracetamol e um xarope que eu juro que foi feito para bochechos e não para engolir. Assim que comecei a tomar os remédios, uma dorzinha de cabeça e uma leve indisposição surgiram. Com o passar dos dias, comecei a acordar tonta e entendi a tal proibição de lidar com máquinas pesadas. Até que ontem a dorzinha de cabeça virou enxaqueca, a indisposição virou enjôo e a tontura ficou insuportável. Sabe aquelas reações adversas que 1 em cada milhão desenvolve tomando alguns remédios? Então, soy yo.

Por causa dessas coisas, tenho me sentido doente desde quarta. Ontem, enquanto planejava furar a minha testa pra aliviar a dor, senti saudades da febre. Quando a gente está mal, acontecem uma série de coisas, como por exemplo a mudança do meu futuro vizinho e o sujeito que está pintando o sobrado colocar o rádio num volume que torna insuportável ficar dentro do meu quarto. Com dor, comecei a perceber o quanto louça faz barulho, gente faz barulho, carros fazem barulho. No caminho pra cá, peguei uma chuva daquelas que o guarda-chuva só protege o cabelo. Estou molhada, mal-humorada, emputecida e enjoada com tanta intensidade que dá vontade de dar uma desencarnada básica e voltar só no sétimo dia.

Olha, sem saúde não dá.