Uma irritação anti-clerical

Isaac Newton, no século XVIII, trancado no seu quarto, teve insights transformados em teorias que ainda hoje poucos são capazes de entender. Sobre pretender ter outros insights desse nível, melhor nem falar. Isaac Newton, tão ser humano quanto nós, só que com acesso a menos informação e quem sabe até menos nutrientes. Mas aí se o assunto é Deus, nego não apenas tem certeza da existência, dos objetivos e dos planos, como pode até dizer a preferência Dele com relação ao comprimento das saias.

vida de pecado

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Newton interno

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Que introvertido não leria isso sem se identificar com Newton?

Collins divulgou alguns trabalhos de Newton para diversos matemáticos, na Escócia, na França, na Itália. Enviou livros a Newton e apresentou-lhe questões: por exemplo, como calcular a taxa de juros de uma anuidade. Newton enviou-lhe uma fórmula para isso, mas insistiu para que o próprio nome não aparecesse caso ela fosse publicada: “Pois não vejo o que possa haver de desejável na estima pública, caso eu a conquiste e mantenha. Talvez isso viesse a aumentar meu número de conhecidos, algo que me empenho em declinar.”

James Gleick/ Isaac Newton: uma biografia, p.80

Acho que o problema é que todos nós que amamos a solidão gostaríamos de ser Newton. Que nossa recusa em aumentar o número de conhecidos, que a vontade de passar mais tempo trancado em si do que no mundo fosse a gestação de algo grandioso. Eu leio sobre o isolamento de Newton e penso que não poderia ser diferente, que a introversão e a genialidade eram uma coisa só. Pena que a relação entre as duas coisas não pode ser invertida… Eu não produzi nada, então as pessoas se veem no direito de me mandar sair da casca. E como posso justificar para elas – e para mim mesma – que não?

Newton pega ninguém

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Um trecho do wikipedia:

Newton, em seus últimos dias, passou por diversos problemas renais que culminaram com sua morte. No lado mais pessoal, existem biógrafos que afirmam que ele teria morrido virgem.

Falando assim até parece Newton chorava escondido de madrugada porque se sentia muito sozinho. Newton encalhado, frustrado, BV (boca virgem). Ah, parem. Assim somos nós, eu e você – quem manda a gente pensar em sexo, por isso que não descobrimos lei nenhuma. Pra mim é claramente incompatível, por pura falta de tempo e energia, que Newton tivesse as mesmas preocupações e frustrações que o homem comum. Sabiam que ele furou o próprio olho num experimento cientifico? Ele queria entender, queria saber se funcionava como uma lente. Claro que ele perdeu a visão daquele olho. Agora me diz se uma pessoa que tão ansiosa pelo funcionamento do olho é capaz de furar o seu próprio é normal, mediana.

Ele era humano, então não me arrisco a crer que ele fosse totalmente indiferente. Mas pense comigo, ou como ele: Newton obteve reconhecimento ainda em vida. Tinha prestígio, dinheiro, até que era bonitão, ou seja, devia ser bom partido. Não devia ser lá muito sedutor e bom de papo, mas naquela época isso não era pré-requisito. Claro que arranjaria facilmente uma esposa, bastava se propor. Acho que o problema se apresentou para ele da seguinte forma: se eu arranjar uma mulher, ela vai precisar de atenção. Ao invés de passar doze horas por dia fazendo minhas coisas, terei que dispensar algumas com ela. Terei que jantar na mesa. Terei que reparar no vestido, falar coisas bonitas e  – horror dos horrores – ter vida social. O pobre Newton aflito para calcular a mecânica celeste enquanto segura um canapé e ouve o sogro falar sobre galgos. Eu, que não penso nada importante, fico angustiada só de imaginar. Aí Newton decidiu que não era viável e afastou o pensamento, pronto.

 

Borboletismo

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Adoro ficção científica. Do Star Wars que todo mundo conhece a Asimov, Arthur Clark. Recentemente comecei a assistir Cosmos; minha geração viu o original do Carl Sagan na TV, mas por algum motivo nunca vimos na minha casa. Acho que nunca calhou de mudarmos a TV naquele horário, não sei. Dizem que o original tem uma beleza e carisma diferentes, mas a versão nova também tem sua graça e os efeitos especiais sem dúvida melhoraram muito. Gosto muito das biografias que o programa apresenta, me emociono bestamente. Tinha ouvido falar e tal, mas até assistir os programas eu nunca tinha entendido direito o quão grande foi Isaac Newton. Li uma frase há poucos dias na revista Caras, que dizia algo como “Não podemos desejar aquilo que não conhecemos” e Newton foi aquele que criou do zero os sonhos que os séculos posteriores se dedicariam a desvendar. Voltei a sentir algo muito antigo, um sentimento que criança expressa com um “quero ser cientista”, que nada mais é do que o desejo de olhar para o mundo com tal encantamento que o aparentemente banal gere em mim uma questão sobre o próprio segredo do universo. Newton e outros cientistas fazem com que eu me sinta pequena de um jeito bom. Só vendo Cosmos eu percebi que o que busco na ficção científica é justamente essa pequeneza. Não temos mais, como o próprio programa disse, a visão do céu estrelado. Num mundo onde a imensidão é apenas o que vemos das janelas dos prédios, a ficção científica nos lembra que existem medidas maiores do que qualquer capacidade de olhar. Existe um mundo maior do que nossa vida, nossa família, nossa cultura, nosso país, tudo o que um dia vimos ou provamos. Nossa tão grande Terra é pequena perto dos planetas vizinhos, que não são nada diante do sol, que dentro da Via Láctea… É tão maior do que o maior, chega um momento que você sabe que aquilo se tornou apenas um número porque a mente humana não consegue fazer tal projeção. O que me leva a pensar: será que existe um tipo de Cosmonismo, considerar o próprio universo como um Deus? Pra mim faria sentido. Gosto de relembrar que a humanidade inteira representa alguns segundos nessa grande história da qual a Terra nem é protagonista. Nós que achamos que a borboleta tem uma vida curta somos nada mais do que outro tipo de borboleta. Desse ponto de vista, a vida humana é tão efêmera, tão sem importância. Ao mesmo tempo, ela é feita de desejos e de uma consciência de si tão aguda, de sonhos que se acreditam enormes, de uma vontade de eternidade. Isso me faz olhar para qualquer atrapalho da minha vida e perceber o seu grau de desimportância. Me dá um amor ainda maior por esse pequeno borboletismo – que meu pouco tempo aqui seja o melhor. Quero ser Isaac Newton e

Não sei como o mundo me vê, mas eu me sinto como um garoto brincando na praia, contente em achar aqui e ali, uma pedra mais lisa ou uma concha mais bonita, mas tendo sempre diante de mim, ainda por descobrir, o grande oceano de verdades.