Viagem de ego

Se me permitem um baita spoiler de um livro que ninguém lerá, tem um trecho do Os resíduos do dia que mostra direitinho uma coisa que eu chamo de “viagem de ego”. É daqueles conceitos que a gente tem de si para si, sabe como? Igual apelidos que damos pra estranhos e eles nunca vão ficar sabendo – “olha lá o Tartaruga Ninja”, “o Chef Gostosão não veio hoje”, etc. O que eu chamo de viagem de ego é quando a gente acha que tomou uma grande decisão, que está sendo disciplinado, controlado e/ou racional, mas na verdade está apenas fazendo uma grandissíssima besteira. Está pisando nos próprios sentimentos e se privando do que lhe seria mais caro. Mas faz, geralmente tendo como base um orgulho, uma crença de que somos melhores assim. É como se fosse um prazer masoquista de se fazer mal. Quem sabe o trecho do livro explique.

 

O livro está melhor apresentado no meu outro blog. Nesta cena que representa a viagem de ego, o mordomo narra como, só pra variar, os acontecimentos dramáticos da vida dele acontecem no meio de acontecimentos profissionalmente importantes. Então ao invés de cuidar das coisas dele, ele fica tendo que se alternar e acaba sempre escolhendo ser um bom profissional. Um exemplo é quando o pai dele morre e o sujeito não apenas não está perto como nem se permite chorar para servir os convidados. Outro momento, Miss Kenton fala para ele que vai se casar. A única mulher que esse homem amou. Ela dá as deixas, diz que estava na dúvida, e ele nada. Aí ela lhe diz que vai casar sim, e ainda o provoca, diz que imitá-lo lhe rende muitas risadas junto ao noivo. Ele nada, de novo. Depois ela pede desculpas, ela se tranca no quarto, ele fica parado no corredor com vontade de bater na porta e a certeza de que ela estava chorando. Aí você pensa que o cara vai lamentar o que não volta jamais, a chance de ficar com a mulher que ama, e o que o filho da mãe escreve? Uma baita viagem de ego.

 

Atravessando o hall de novo, retomei minha posição usual, debaixo do arco, e durante a hora seguinte – ou seja, até os cavalheiros finalmente irem embora – não aconteceu nada que me obrigasse a deixar meu posto. Mesmo assim, aquela hora que passei ali ficou viva em minha mente ao longo dos anos. Primeiro, meu espírito estava – não me importa admitir – um tanto abatido. Mas, permanecendo ali parado, uma coisa curiosa começou a acontecer; isto é, uma profunda sensação de triunfo começou a brotar dentro de mim. Não consigo me lembrar de até que ponto analisei aquele sentimento à época, mas hoje, olhando para trás, não me parece difícil de entender. Eu havia, afinal de contas, encerrado uma noite extremamente exigente, ao longo da qual havia conseguido preservar uma “dignidade condizente com minha posição”, e o fizera, além disso, de um jeito que teria deixado meu pai orgulhoso. E ali, do outro lado do hall, atrás daquelas portas sobre as quais pousava meu olhar, dentro da sala onde eu havia acabado de realizar minhas tarefas, os cavalheiros mais poderosos da Europa estavam conferenciando sobre o destino do nosso continente. Quem haveria de duvidar, naquele momento, que eu de fato chegara tão perto do eixo das coisas quanto um mordomo poderia desejar? Acho, portanto, que ali parado, ponderando sobre os acontecimentos da noite – os que haviam se desenrolado e os que ainda estavam por acontecer-, eles me pareceram uma espécie de resumo de tudo o que eu havia conquistado até então em minha vida. Não encontro outras explicações para a sensação de triunfo que me elevou aquela noite*.

IDIOTA!!!!

*ISHIGURO, Kazuo. Os resíduos do dia, seguido de “Depois do anoitecer”. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p.248

Anúncios