Três ofensas involuntárias

A primeira é bem antiga. Eu fazia piano numa escola e às vezes ficava lá de secretária. A dona da escola era jovem, fazia Belas Artes e os professores também eram todos jovens. Havia um professor de sax que eu achava gatinho. Claro que eu era muito tímida para arriscar qualquer coisa, ele nem devia saber que eu existia. Um dia eu estava na escola, na hora do almoço e ele apareceu na porta:

– Oi.
– Oi.
– Fulana (dona da escola) está aí?
– Não.
– Fulano? Beltrano?
– Não.
– Então não tem ninguém aí?

É, para ele eu realmente não existia.

.oOo.

 

Minha vizinha é psicóloga, então estou acostumada a ter um monte de jovens e crianças aí do lado. Quando saiu um adolescente de um carro aqui na frente, achei que era mais um, e quando ele bateu palmas pra minha casa, achei que fosse engano. Acho que é filho do marido dela.

– Oi, você recebeu alguma carta da gente?
– Um monte, tenho sempre que…

– É que a gente está esperando uma carta e ela não vem. Não sabemos onde foi parar.
– Eu sempre coloco na caixa de correio de vocês. Aproveita e avisa pra informar o endereço completo nos lugares, especialmente no CRP, porque as cartas vem parar todas aqui.

Humpf.

.oOo.

 

Eu, de carona no carro. Ela, uma advogada muito rica. Vejam bem, eu estava de carona. Sinal de que eu mais tarde voltaria, e não seria dentro de um carro.
– Minhas filhas no começo até me cobravam, queriam andar de ônibus. Hoje elas cresceram e pararam. Eu digo que não, eu proíbo. Primeiro porque é muito perigoso e depois porque elas não precisam. É um risco que eu não preciso correr. Uma vez, quando eu era jovem, eu estava no ônibus vazio e um sujeito baixou as calças. Se ele fosse um tarado e quisesse me agarrar…! Andar de ônibus é muito perigoso, eu e meu marido não queremos essa preocupação. Hoje elas esqueceram o assunto, nem querem mais. Não tem problema, elas nunca vão precisar.

Depois eu não me animo a postar certas posições políticas e ninguém entende o porquê.

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A namorada

Dois adolescentes com o uniforme do Colégio Bom Jesus, dentro do ônibus:
– Cara, que é que você acha da minha namorada?

– Não sei, nunca conversei com ela…

– Então de longe, que é que você acha da minha namorada de longe?

– Não sei, parece ser legal…

– Então fica com ela pra você.

– Hã?

– Fica com ela pra você, eu tô pedindo.

– …? Mas por quê?

– Ela até que é legal, mas é que hoje ela fez uma coisa imperdoável, sem volta. Ela mexeu no meu mp3. Eu sou um músico, um profissional, eu preciso ouvir minhas músicas. Ninguém, ninguém pode tocar no meu IPod Shuffle.

Fica aí o alerta.

Quem precisa de comentários?

Desde que parei de receber comentários no meu blog, passei a ter preguiça de escrever no blog dos outros. E como toda pessoa que abandonou uma atividade, passei a olhar os comentadores frequentes de blogs como pessoas estranhas. Sim, é estranho. É mais prático passar reto, ou recomendar aos amigos, ou comentar com a pessoa que está próxima. Já sentar e escrever um outro texto porque leu um texto é estranho. Às vezes é porque somos virtualmente bastante tagarelas, e gostamos da audiência. Em alguns blogs os comentaristas se conversam e isso acaba sendo mais interessante do que a própria postagem. Mas muitas vezes – percebi depois que deixei de comentar – comentamos em blog por uma certa ansiedade. Ver aquele 0 comentários fazia mal à minha auto-estima, então eu imaginava que todos sentiam o mesmo e nunca queria deixar ninguém no zero. Não que eu seja tão empática e adivinhona assim, existem por todos os lugares queixas contra a diminuição dos comentários, banners que os comentários são a alma do blog e gente que diz claramente “poxa, fiz um baita post e vocês nem para irem lá dizer alguma coisinha”?. Que saco!

A maioria dos leitores são os silenciosos. O fato de serem silenciosos não quer dizer que eles não acharam muito bom, não mandaram pros amigos, que não refletiram por causa de um texto. Comentários dizem muito mais à necessidade de aplauso dos próprios autores. É como aquele amigo chato que está sempre dando deixas para ser elogiado – o resultado disso não tem tanto valor assim.

Os foras

Imagine que combinação: eu faço o gênero super-sincera e o Luiz dá foras homéricos. Ele é daquelas pessoas que não consegue fazer cara de paisagem e solta as exclamações de surpresa, ou que faz a brincadeira na hora e na frente da pessoa errada. A primeira vez que eu percebi isso nós ainda éramos namorados. Uma amiga minha estava namorando um cara com idade pra ser seu pai. O coroa cheio de botox, a quem chamavamos de Esbagaçado, nos recebeu no seu apartamento enorme e bem localizado. Tudo lá cheirava novo, caro e decorativo. Comeríamos comida japonesa. No meio de todo aquele clima, o Esbagaçado pediu aos convidados (nós) irem até a coleção de CDs pra achar uma boa música ambiente. Quando o Luiz vê coleção cheia de Leandro & Leonardo, Daniel, Família Lima e afins, não se contém e solta um “Nossa!”, acompanhado pela cara de nojo correspondente.

Aí eu me vejo obrigada a tentar alertá-lo com antecedência. “Olha, nós vamos pra casa da Fulana e a família é muito brega, então segura a cara quando enxergar o coqueiro entalhado!”. Quando eu aviso, tudo sai bem. Mas tem coisas que só da pra decidir na hora. Ele sabe, por exemplo, que não gosto de encontrar com um primo, que insiste em frequentar os mesmos lugares que nós. Mas o Luiz nunca lembra da cara do meu primo, diz que “se visse, passaria por cima”. Um dia estavamos no Shopping Barigui, andando naquela parte do meio e vejo que cruzariamos com meu primo há poucos metros. Agarro o braço do Luiz e tento levá-lo discretamente para a outra direção. Ele resiste e fala em voz alta: “Não, por aqui fica mais longe, nós vamos ali em frente!”, eu continuo puxando e começamos um cabo de guerra no meio do shopping. Discretíssimos.

Agora a pior de todas as vezes mesmo, foi o caso de um amigo que tinha passado uma temporada sumido. Depois soubemos que ele tinha ficado internado numa clínica psiquiátrica. Nunca soube direito o porquê, só sei que ele deu uma surtadinha. Fomos a uma reunião com vários amigos, conversamos a tarde inteira e na volta demos carona a esse amigo. No caminho, passamos pelo Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora da Luz, o Luiz resolve ser engraçadinho e diz:
– Olha lá o Hospital de Louco. Alguém quer ficar por aqui?

Dicas pra arranjar emprego

Quando nos conhecemos, eu estudava psicologia e ele já era psicólogo. Nossa diferença de idade nem era tão grande, mas as nossas realidades eram: enquanto eu lutava pra conseguir me formar, ele era filho de um médico conceituado, tinha pós, carro e trabalhava numa empresa da mesma especialidade dele e do pai – sexualidade. Ele era o que deu certo e eu a que tinha potencial. Ele dizia que se eu não fosse tão marxista, seria uma excelente analista de RH. Não entendi direito se esse SE era um elogio, mas de fato eu não gostava da idéia da trabalhar numa empresa. Simpatizava com ONGs ou com o atendimento clínico. O que tínhamos era amor, amizade, um tiquinho de sexo e uma intensa admiração intelectual pelo senso de humor e a cultura inútil um do outro. Ele adorava minha teoria sobre a futura simplificação do vestuário no ambiente de trabalho – a prova disso era o fato de todos estarem sempre de pijama em Star Trek. À medida em que meu curso chegava ao fim, o tema trabalho começou a ficar cada vez mais presente. Durante a faculdade a gente acha que quer trabalhar numa área e não na outra; quando a água começa a bater na bunda, tudo o que a gente quer é ser empregado, em qualquer lugar.

Eu me formei e comecei a receber de todo mundo recortes e dicas de como arranjar emprego. Como se portar na entrevista, o que escrever no currículo, o que vestir no ambiente de trabalho, como fazer network, essas coisas. Para minha frustração, meu amigo psicólogo também passava longos períodos no telefone me dizendo o que fazer. Nas nossas ligações regulares, eu era obrigada a dizer que nada tinha surgido e ele se sentia na obrigação de me dar uma luz. Lembro que ele me contou o caso de um que passou meses aparecendo na empresa onde ele trabalha, até que um dia a vaga abriu e nem pensaram em outro nome. Eu levava muito à sério as coisas que ele me falava, por mais que não conseguisse colocar em prática – eu nem ao menos era chamada para entrevistas. Depois de muitas dicas, um dia quis que ele me falasse de sua experiência pessoal – como é que ele tinha ido trabalhar lá, como ele ficou sabendo da vaga, como é que foi a entrevista, enfim, que lições eu poderia tirar. Ele ficou muito sem graça e acabou respondendo:

– Na verdade foi o meu pai que me indicou. Você sabe, ele é médico especialista na área e pediram pra ele dar um nome… Mas ele só fez isso quando eu estava preparado, eu estudei muito antes!

Foi a última vez que ele me deu dicas.

No casamento

Sabe como são os casamentos, a gente tem que dar graças aos céus se consegue sentar com alguém conhecido. Eu era amiga da noiva e muito próxima a uma das madrinhas. Mas sabe como são os casamentos, cheios de rituais sem sentido e bregas. Um deles é colocar os “protagonistas” em uma grande mesa separada, por isso mal as vi durante toda festa. Na minha mesa ficamos eu, a Vanessa e mais dois casais. Naquela mesma festa, horas mais tarde, ela conheceria o homem com quem quase se casou. Um carioca todo bom partido, que ocupava um cargo importante num banco e se encantou com ela sentada sozinha enquanto os outros se esbaldavam na pista de dança (isso é para provar, Milton, que nem sempre quem dança se dá bem). E mais de um ano depois, por diferenças religiosas, eles se separariam e ela sofreria muito. Porque a religião dela – que não sei qual é, porque essas denominações cristãs me confundem – guiava todos os seus passos e era a essência de sua própria vida. Foi por causa da religião que ela havia parado, há tão pouco tempo que eu nem sabia, de comer carne. Nunca entendi como alguém passa a vida inteira frequentando uma igreja e comendo bife pra um dia decidir que aquilo (o bife, e não a igreja) era ruim. Nos intervalos das aulas, nunca a vi com problemas porque as coisas da cantina tinham carne. Naquele dia, no casamento, passou a ter. Vai ver os pastores tinham descoberto há poucos meses que os animais também são criação divina.

 

Mas eu ainda não sabia que ela havia parado de comer carne. Só descobri isso quando voltamos todos do buffet e ao ver os pratos das pessoas cheios de frango e filet, ela começou a falar. Começou de mansinho, com aquele papo de que carne não faz bem, vocês sabem, né? Avançou sobre o argumento de que os homens são animais herbívoros, que o tamanho dos nossos intestinos prova isso, e foi para detalhes escatológicos como a carne apodrecendo dentro do corpo. Os outros também começaram a se defender de maneira tímida, dizendo que sentem falta e não conseguem conceber a sua vida sem carne. A coisa foi avançando e no fim da história os homens estavam rindo muito, dizendo que gostam muito de bois desde que bem passados e no espeto, que comem salada terceirizada e digerida, e coisas do tipo.

 

Massacrada numericamente e pelo bom humor dos outros convidados, a Vanessa lançava olhares insistentes para mim. Ela queria que eu a ajudasse ao invés de só achar tudo muito engraçado. Porque se alguém olhasse para o meu prato, notaria que eu também não tinha me servido de carne. E se alguém me perguntasse, eu diria que não comia carne vermelha há mais de cinco anos.

Só na humildade

Acredito que a Fernanda deve ser uma das instrutoras de krav-magá mais jovens do Brasil. Ela começou a praticar krav-magá cedo, porque seu pai foi o responsável por trazer o krav-magá para Curitiba.

Um colega de faculdade soube que ela era instrutora e quis ter mais informações:

– Se eu começar a praticar krav-magá agora, em quanto tempo eu viro mestre?
(Minha vontade seria terminar o texto aqui, mas eu sei que vocês querem saber o que ela respondeu – “Que tal a vida inteira?”)

Unfollow é o novo preto

Eu li e concordei com muita coisa que Bauman escreveu sobre as mudanças da modernidade : velocidade, mudanças descartáveis, consumo exacerbado, incertezas, relações superficiais. Ao ler o livro, é inevitável ficar meio pessimista e achar que perdemos muito de alguma coisa que só tempos mais calmos nos traziam. Que, quem sabe, fosse bom colocar uma pitada de lentidão no que é tão rápido, ser mais tolerante.

Aí eu encontro por acaso uma pessoa a quem dei unfollow no twitter. Foi assim: eu fiz uma brincadeira que ninguém na timeline deu bola; pra minha surpresa, ela me respondeu com um comentário grosso. Sabe daquelas pessoas que te seguem e você nem sabe se realmente te lê, por que nunca te dizem nada? Era dessas; só fui descobrir era lida com a patada. Unfollow e nunca mais pensei no assunto. Meses depois, a encontro por acaso e fui cumprimentar. “Achei que você tinha me dado unfollow”, foi a resposta irritada. Não sei se eu é que sou louca, mas pra mim deixar de seguir uma pessoa no twitter quer dizer apenas que eu não desejo mais lê-la, e não quero que ela morra de maneira lenta e dolorosa. Ela perguntou se levou unfollow “apenas” por causa do comentário e me fez explicar meus motivos. Eu no meu tom normal e ela cada vez mais agressiva. Teve um “nossa, então mil desculpas se você ficou ofendida com aquilo” (aka, “você é uma completa idiota por ter se importado com o comentário doce e inocente que eu fiz”) e terminou com um “é uma pena então” (aka “você jogou fora nossa amizade fora por um motivo idiota”).

Quando acabou, saí querendo respirar um pouco e até receber um passe. Bauman querido, o problema não é dar unfollow no twitter – o problema é não poder dar unfollows na vida.

Irritações

Parece que quando você está irritado e com vontade de matar o mundo, o mundo começa a fazer coisas irritantes pra ser morto. Quinta, eu me sentindo um tigre em jejum por causa da TPM, e aí…

Irritação 1:

A única esteira boa vazia é justamente ao lado da velhinha mais redundante e conversadora da academia. Espero, espero, até que me rendo e vou naquela. Meu problema com essa velhinha é que a encontro toda segunda, quarta e sexta. E toda segunda, quarta e sexta elas me diz as-mes-mas-co-i-sas:

 

– Oi. Você é animada, né? Você vem aqui e corre.

– Você sabe mexer com esses aparelhos, né? Vocês da mocidade sabem ligar. A gente de idade não consegue, é até perigoso…

– Você chega cedo, né? Eu também chego cedo.

– Você faz uns cinco, seis quilometros, né? Hoje eu quero ver se consigo fazer três. A gente tem que ir aumentando. Eu paro quando meu pé começa a formigar.
– Eu olho pra você e me admiro. Eu também já fui assim, atlética, quando mocinha.

Eu juro que eu tento, mas o fato de eu não responder e mal olhar na cara dela não a desestimula.

Irritação 2:
Pessoa cruza a sala e já chega perguntando:

– E aí, a “alimentação natural”, você vai?
– Hein?
– Você vai ou não vai na palestra?
– Que palestra?
– A palestra sobre alimentação natural.
– Que palestra sobre alimentação natural?
– A de sábado.

– Mas que palestra de alimentação natural de sábado é essa? É aqui, onde é, eu nem ouvi falar!

– A palestra do Dr. Mauro.

Semanas antes eu descobri que minha mãe vai ao mesmo médico homeopata dessa senhora. Mas daí eu ficar sabendo que o sujeito vai dar uma palestra sobre alimentação no sábado já é uma certa distância.

Irritação 3:

A filha da mesma mulher anterior. Acho que é de família. Ela virou pra mim do além e disse:

 

– Eu acho que você devia exprimir.
– Exprimir?
– É, como socióloga.
– O que?
– Dizer as coisas que você pensa, deixar sua posição clara.
– Mas do que você está falando?
– Sobre as coisas que você pensa.
– Mas do que?
– Enquanto cientista social.
– Mas dizer como e o que, do que você está falando?
– Do seu blog.
– Mas eu devo dizer o quê no meu blog?
– Sua opinião política.

Isso porque eu um dia comentei que tinha blog, por alto.

Irritação 4:

Eu estava sozinha no banheiro, me maquiando. Chega uma desconhecida e reclama:

 

– Nossa, mas que silêncio aqui!

 

Na certa ela achou que eu estaria fazendo moonwalker. Ou conversando com um amigo imaginário. Ou fazendo moonwalker enquanto converso com um amigo imaginário.

 

Isso tudo sem falar que eu levei uma baita cotovelada na rua, e a mulher não se deu nem ao trabalho de se virar e me pedir desculpas. Antes que eu a puxasse pelo ombro e a estapeasse, corri pra casa e me tranquei até o dia acalmar.

Desculpe e obrigado

Eu nunca fui uma pessoa de grupos, porque mal e mal sou uma pessoa de pessoas. Quanto mais aquele. Não que eu tenha problemas com adolescentes. Fiquei surpresa em descobrir que não tenho mes-mo. Talvez não tenha porque eu não assumo com eles a postura de mais velha ou mãezona. Seja com celebridades, velhos, gênios, recepcionistas ou molestadores de estátuas, eu sempre trato as pessoas do mesmo jeito. O que eu sentia ao lado deles era uma certa solidão, por uma simples questão de experiência, de coisas que eu vivi e vivo e eles nem imaginam. Eu estava lá e ao mesmo tempo não estava.

No dia da estréia de um espetáculo, depois que tudo está pronto, o diretor da companhia pode virar para as pessoas e falar “vai começar, tchau”. Mas essa não parece ser a regra. No geral, as pessoas gostam de demarcar aquele momento. Cada espetáculo é sempre um nascimento, o ponto final e a culminação de esforços. É um encontro, no sentido psicodramático do termo, algo mágico que nunca mais vai se repetir. O processo de ensaios e escolha do elenco envolve choro, risos, brigas, egos feridos, revelações, disputa de forças, talento. O diretor é a figura catalizadora de tudo isso. Por isso não é incomum o diretor unir todos numa roda, dizer umas palavras de incentivo ou até mesmo puxar uma oração.

Mas até então eu não sabia disso. Era meu primeiro espetáculo grande. E no que diz respeito a brigas e egos feridos, aquela companhia era especialmente intensa. Claro que um dos grandes responsáveis por isso era o diretor, que parecia sentir um prazer sádico com a instabilidade dos bailarinos. Ele fazia questão de eleger favoritos, de ser totalmente idiossincrático nos critérios e fazer com que a companhia o temesse. No ritual antes da estréia, fizemos de tudo um pouco: nos reunimos, ouvimos palavras, rezamos. Aí ele pediu para cada um virar para seu companheiro da direta e dizer “desculpe e obrigado”, porque em cada espetáculo a gente magoava e era magoado pelos outros. Eu pensei “que bom que você tem consciência disso”. Confesso que na hora, daquela roda grande, achei bacana.

O momento totalmente sem noção dessa que vos escreve aconteceu logo em seguida. Minha turma, aqueles adolescentes do primeiro parágrafo, resolveram fazer a mesma coisa, só entre nós: roda, discurso, desculpe e obrigado. Como explicar minha posição? Eu sabia que sairia da companhia assim que o espetáculo acabasse, que nunca mais os veria, que nossa ligação era circunstancial. Que eu era uma companhia muito interessante pra eles, mas que quase ninguém realmente me conhecia. Sabia que nessa idade tudo parece intenso e para sempre, mas eu… já tive grupinho de amigas, já tive grupinho de terapia, já me formei, já casei. Sou mais calejada e um tanto cínica; perdi a ilusão da eternidade. Enfim, estava todo mundo emocionado e eu normal.

Na hora do desculpe e obrigado, eu virei pro cara do meu lado – alguém que eu não tinha contato mas que considerava um cara legal – e disse: “Pra você é obrigado e obrigado!” Falei como uma piada, pra quebrar o gelo. O silêncio constrangido de todos e a expressão magoada dele me fizeram perceber que não soou desse jeito. Não tive tempo de consertar nem na hora e nem depois. Foi como se eu o tivesse humilhado publicamente; pode ter parecido que eu fiz isso como uma reprovação por ele não ser um bom bailarino. Espero, sinceramente, que as várias pessoas pra quem eu disse que estava brincando tenham avisado a ele que não foi nada pessoal.

É foda.

Benefício

Uma empresa (cujo nome não revelarei) ofereceu a seus funcionários um plano odontológico no mínimo diferente. O funcionário inscrito nesse plano, ao procurar um dos dentistas cadastrados, pagará apenas… 100% do tratamento. Foi isso mesmo que você leu, a empresa não custeará um tostão. É que fica bonito dizer que oferece Plano Odontológico quando a Exame fizer o ranking das melhores empresas para se trabalhar…

Um dia, quando eu estudante universitária, um psicólogo me disse:

– Se você não fosse tão marxista, seria uma excelente psicóloga da área de RH.

Me chamar de marxista não foi exato. De qualquer forma, valeu pelo elogio!

O filme de sexo explícito mais brochante de todos os tempos

Imagine um filme com atores jovens, bonitos, com cenas reais de sexo. Imagine que você se sentirá menos excitado do que vendo a novela das oito. Duvida? Então o desafio a ver este filme. Dá até pra assistir ao lado da mãe – eu sei porque eu assisti ao lado da minha. Foi ela quem alugou, nesses acessos de aproveitar promoção da locadora e pegar um monte de filmes. Na caixa, dizia ter cenas polêmicas e contava com um elenco estrelado. Uma bala pra quem descobrir a nacionalidade de Romance X.

Aqui havia o video, mas o Google Adsense me mandou um e-mail ameaçador e tive que tirar. Clique aqui para ver o trailer.

Me empreste, eu preciso, eu quero

Uma dessas pessoas que faz pós sabe-lá-deus-porquê me procurou. Essa psicóloga (ops!) cismou que eu deveria ajudá-la fornecendo livros, já que ela precisa de material ligado às ciências sociais. Na primeira vez, ela me abordou perguntando “que livros de Antropologia eu tenho”. Eu disse que nenhum (só xerox), o único livro de Antropologia da casa é O Crisântemo e a Espada do Luiz. Em tom de quem não acreditou no que eu disse, ela ressaltou o quando está precisando de ajuda – porque não tem tempo, não sabe lidar com o computador, não sabe fazer referência bibliográfica, porque não consegue bibliografia e outras queixas do mesmo nível. Dentro do que ela estava precisando dizer no trabalho, recomendei O Normal e o Patológico, de Canguilhem.

Outro dia, fui abordada da seguinte maneira:

Me empreste o livro sobre cultura da Ruth Benedict. Aquele que tem cultura no título, não sei o quê de Cultura.

(explicação sobre não possuir esse livro porque não era uma autora relevante para mim. Aliás, nem para qualquer trabalho de Antropologia escrito nas últimas décadas)

Eu preciso do livro para o meu trabalho. Eu pesquisei e esse livro tem o que eu quero. Eu não vou comprar porque já gastei muito dinheiro no Canguilhem e não posso gastar* com mais um. Sem falar que o Canguilhem é muito profundo e difícil de usar.

– Faça o seguinte, então: vá na Biblioteca da UFPR e procure o livro lá. Aí você seleciona as partes que precisa e xeroca.

(cara de quem não gostou)
Ser legal dá nisso, neguinho acha que está escrito Idiota na minha testa.
* viajar pro exterior todo ano é muito caro.