O futuro nos filhos

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Sobre ter filhos, fiquei muito aliviada quando vi que no meu mapa astral há um aspecto que: “é possível que não queria. Ou que queira e tenha problemas de fertilidade. Se tiver, que tragam problemas. Os filhos serão um fardo pesado, por eles terem problemas de desenvolvimento, comportamento rebelde ou que não haja amor no relacionamento com eles. Pode ser que crie os filhos dos outros. Se for para ter filhos, melhor ter só depois do quarenta.” Como ler isso e não ficar aliviada por nunca ter desejado ser mãe?

Lembro de ter ouvido o meu pai dizer diversas vezes que os filhos dele teriam que se virar. Ele sempre foi contra esse modelo que os pais enriquecem e dão tudo aos filhos, estragam com excesso de riqueza. Por isso, meu pai tratou de gastar todo seu dinheiro ele mesmo. Hoje os amigos dele invejam seus filhos cheios de iniciativa e razonabilidade, enquanto os dos outros são encostados e irresponsáveis. Eu acho, apenas acho, que quando ele fez esse cálculo sobre não estragar, ele não poderia prever o que aconteceria com o Brasil. Ele vem de uma época que aos quarenta a pessoa com diploma já poderia ter casa, carro e casa na praia. Hoje, nossas pós-graduações não nos ajudam nem a arranjar emprego. Queria poder me dar ao luxo de ser um tiquinho irresponsável, como os filhos dos amigos dele são. A minha responsabilidade e a dos meus irmãos vêm da aguda consciência de que, se você cair, terá que não apenas se levantar sozinho como pode ser pisoteado pela multidão.

Eu vejo o fim da aposentadoria, os ataques à educação e a precarização do trabalho de uma posição mais confortável do que a maioria da população, apesar de não ser confortável a ponto de não me deixar afetar. Mas vou te dizer que não ter descendentes, saber que me preocupo apenas comigo, diminui muito essa preocupação. Eu tenho que garantir o meu e as pessoas mais importantes pra mim vão morrer antes ou mais ou menos na mesma época que eu. Gerações que virão com poucos e mal remunerados empregos, com pouca inteligência corporal e capacidade de concentração, tudo soa tenebroso mas não estarei aqui durante muito tempo para ver. Já sou um ser humano formado e boa parte do meu caminho já foi traçado.

Mas meu irmão cedeu ao imperativo biológico de reproduzir a espécie, a alegria de se ver perpetuado num outro ser, e inventou de ter uma filha. Agora ele está preso ao futuro de uma maneira que nunca estarei e decidirá da mesma forma que nosso pai um dia decidiu. Este não é o mundo que eu gostaria de deixar para alguém que eu amo.

O sol, a praia e a filha

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Naquela época não se falava de efeito estufa e câncer de pele. As mulheres estendiam as cangas na areia, se besuntavam de bronzeadores e ficavam horas deitadas. Primeiro de um lado, depois de outro, depois volta, deita de bruços e desata o cordãozinho do biquíni. As meninas, ao lado das mães ou com suas próprias cangas e ao lado de outras meninas, faziam a mesma coisa. A areia escaldante da praia era um mar de gente, de mulheres ao sol, homens protegidos por guarda-sóis ou nas barracas, vendedores ambulantes de comida, mais bronzeadores, picolés. Meu pai, que sempre quis ser pai de muitas meninas, só teve a mim, e olha que foram cinco tentativas no total. A praia era o seu quintal, seu ponto turístico, seu restaurante, o local de reunião com os amigos, nunca vi alguém gostar tanto de praia. Sem exagero, meu pai passava tranquilamente dez horas por dia na praia no fim de semana. Aí a filha dele vinha e se recusava a deitar na areia. Eu juro que tentei, mas ficar deitada no sol me dava aflição, ficava entediada em poucos minutos, como alguém podia gostar de sentir tanto calor ao invés de ir pra sombra. Eu ia para a praia porque amava o mar, amava pegar onda e almoçar acarajé. Ele tentou me obrigar ao ritual da areia, apreendia a prancha, me fazia me estender e cronometrava o tempo. Se todas as mulheres se adaptavam e diziam adorar tostar ao sol, por que eu não? Ele via que minha aflição de ficar deitada era verdadeira. Não que eu voltasse das férias branquinha, de jeito nenhum, eu pegava tanto sol que descascava por cima do descascado, não conseguia dormir por causa das queimaduras. Só que eu me bronzeava muito de ficar na água, ficava com a marca camiseta que me protegia quando pegava onda pra lá da arrebentação. Talvez a raiz fosse a falta de vaidade, a maldita falta de vaidade, a mania de me misturar com os moleques pra brincar na rua. Quando ele tentava me fazer ficar amiga das crianças mais frescas da vizinhança, as filhas dos amigos dele, ficava pior, eu as detestava. Mas pelo menos eu ia à praia, ele tinha que reconhecer que eu era a que mais gostava de praia, como nenhum dos outros filhos, tudo por causa do mar. Talvez se o destino tivesse permitido que o meu pai tivesse tido outra filha, qualquer outra filha, ela seria um tiquinho mais vaidosa, teria gostado de pegar sol. A outra voltaria pra casa cedo, pra tomar banho e vestir roupa bonitinha, andar calmamente, orgulhosa do cabelo bonito e da atenção dos meninos. Com outra filha ele não teria brigado tanto, uma guerra que às vezes era aos gritos, mas que na maior parte do tempo era um jogo de forças: ele querendo que eu fosse o que uma mulher devia ser, eu querendo ser quem eu era, independente da concepção dele de mulher. Não foi fácil pra ele ser meu pai, não era nisso que ele pensava quando dizia querer ter filhas. Mas tenho certeza nenhuma outra teria mostrado a ele, com tanta intensidade, que força e teimosia também são características femininas.

Ovelhíssima

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Essa é uma da série das “Verdades que eu disse que não sei se fiz bem ou mal em dizer”. Ela se considerava ovelhíssima negra, daquelas que não se mobiliza nem com funeral. Deixou a família pra lá e foi viver bem longe e, como já disse antes, nem morte era capaz de arrancar dela um gesto de conciliação. Um dia ela estava me falando no quanto era um desgosto para seus pais, o quanto era má, o quanto…

– Na verdade você não é tanto assim. Você saiu de casa, teve família, filhos, vive sua vida, não depende deles pra nada. Eles devem olhar pra isso e pensar que, no fundo, não te fizeram tão mal. Filho que realmente faz mal é aquele que fica inútil, que não consegue sair de casa, não tem vida, não casa, não tem profissão, etc. Esse sim, com a sua presença, está sempre jogando na cara dos pais que eles fracassaram com ele.

Os deuses estão vendo

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Meu ex era plastimodelista e montava modelos de uma escala bastante pequena. No seu imenso capricho, ele pintava detalhes ínfimos que mal se viam na ponta dos dedos, e quando montados num modelo pronto, menos ainda. E quando eu lhe disse que ninguém veria aquilo, ele já tinha uma resposta na ponta da língua: um tal escultor fez estátuas que ficavam no topo de um templo, lá no alto olhando para o púlpito. E para cada uma delas, ele fazia um ser de corpo inteiro, em todas as dimensões. Aí lhe falaram da inutilidade de esculpir aquelas figuras completas – já que estava ficariam no alto e de costas para a parede, não era mais prático fazer apenas a frente, já que o que tinha atrás ninguém veria mesmo? “Os deuses estão vendo”. A Suzi conta uma história que acho deliciosa e sempre quis contar, mas nunca achei as luzes piscantes o suficiente para dar o destaque que ela merece. Seu filho estava no colégio, os amiguinhos todos burlando as regras para conseguir alguma coisa. E ela disse para o seu filho não fazer aquilo, que o que os amiguinhos faziam era errado e que ele deveria fazer direito. “Mas se está todo mundo fazendo errado e só eu vou fazer direito, isso quer dizer que eu vou me dar mal sempre”. Ela teve que concordar que sim, ele faria certo porque era o certo e ele iria se dar mal sempre. Esses dois casos são, para mim, a essência mais pura da ética.

Infância comum

Não era aquele um bom momento para nascer. Os pais eram novos, ainda queriam curtir. Ou a situação financeira estava ruim. Já tinham o outro filho. Haviam perdido eles mesmos alguém e estava de luto. Estavam em crise, quase se separando. Não, era um bom momento. Mas queriam um menino ao invés de uma menina. Aí veio você, fraca, insuficiente, sem levar o nome adiante. Ou você, fraco, insuficiente, sem as grandes qualidades másculas que o seu pai valoriza. Que você fosse a extroversão, ao invés de ser a introversão em pessoa. Que fosse a encarnação da beleza e popularidade, ao invés de um bicho esquisito e arredio. E com graus maiores ou menores de crueldade, a infância seguiu. Com uma mãe que deixava a sogra ou a empregada cuidando do bebê choroso, ou o pai que estava sempre nas festas ou no trabalho em outras cidades. Ou com uma mãe trancada em casa cheia de rancor, olhares críticos, insatisfeita. Um pai que, pelamor, cada vez que ele chegava o ar se tornava pedra. A comparação sempre negativa com irmãos ou primos, as palavras rudes, a incapacidade do carinho. E aquele sentimento constante de inadequação, de falta. Quem sabe o amor dos seus pais, entre eles, fosse um clube exclusivo onde não cabia mais ninguém, ou a relação soltasse tanta faísca que todos à volta ficavam machucados, a ou falta de um deles fosse irremediável. Crianças que foram amadas na infância se melhores em qualquer coisa, em tudo o que fazem, em tudo o que tocam. Crescem por aí com seus dentes perfeitos, estrelas entre os muitos amigos. Elas se propõem e fazem com tanta segurança e imediatismo que é quase como se o universo colocasse uma almofadinha debaixo dos seus pés. Mas esse não é você, claro. Nunca será, nunca foi, ser com um rombo no peito. Você, que nasceu na família, país e época errada. Você, comum.

Filhos

Inspirado nela
Não sei se vivo meio fora da realidade, ou se tenho um temperamento tão claramente alheio a conselhos que ninguém mais perde tempo comigo. Provavelmente as duas coisas. O fato é que há anos as pessoas não me perguntam mais sobre filhos. Senti uma pressão muito grande quando casei, tão grande que cheguei a pensar com sinceridade no assunto. Me surpreendi um dia vendo posts antigos e está lá, por escrito, que eu via a possibilidade de ser mãe. Todo mundo me dizia tanto pra ser mãe que eu tentei voltar atrás, tentei olhar para crianças e achar fofo, pensei em como eu os criaria, pensei no meu futuro. E a decisão de não ser mãe deixou de ser um sentimento vago pra se tornar uma certeza. Num futuro distante, é provável que eu seja uma viuva solitária, que não receberá um único telefonema no seu aniversário. Eu sei e aceito.

 

Sempre que leio posts sobre o assunto, por mais racionais que eles sejam, os comentários dos pró-filhos beiram à intolerância. O que me chama atenção é que os que mais defendem o instinto de procriar são os homens. Vi uma entrevista do Keith Richards dizendo que não é preciso estar sempre presente pra ser um bom pai. É verdade. Imagino ele chegando em casa, após meses de tourneé, com a bolsa cheia de presentes. Os filhos contando os dias até ele chegar, orgulhosos porque o pai é rockeiro. Isso só foi possível porque havia uma mãe muito presente. Foi ela quem corrigiu as lições das crianças e se preocupou com o horário delas dormirem. Ela estava lá cuidando dos detalhes, todos os dias, enquanto ele curtia a carreira (nos dois sentidos). É possível ser um bom pai ausente, ficar apenas com a parte divertida, mas uma mãe não. Pensando assim, eu acho que seria um excelente pai; pena que esse papel não está disponível pra mim.

 

Eu não tento argumentar com essas pessoas. Percebi que o raciocínio delas é muito semelhante ao dos crentes que saem por aí tentando converter os outros. Existe aí uma boa vontade, um idealismo. Eles fizeram uma escolha, e a partir daí sua vida adquiriu um sentido e uma qualidade grandiosos, algo inédito. Foi uma das melhores decisões que já tomaram, eles não podem mais imaginar a vida deles de outra maneira. Como isso os tornou melhores, imaginam que o efeito vai ser o mesmo se os outros escolherem igual. Para eles, não se converter – assim como optar por não ter filhos – é como ganhar uma viagem para Paris com tudo pago e decidir ficar em casa. É como abrir mão de um paraíso particular em troca de nada. Um tipo de doença, de cegueira, de incapacidade de perceber o que é melhor. Eles não aceitam, eles não entendem. Não passa pela cabeça dessa gente que algo que foi maravilhoso para os outros não será necessariamente maravilhoso para mim.

 

É raro alguém simplesmente aceitar quando eu digo que não quero ser mãe. O que mais ouvi até hoje foi:

 

-Eu pensava como você. Eu era do tipo que não queria ter filhos de jeito nenhum. Um dia começou a surgir um desejo tão grande, uma coisa, uma vontade muito grande de ser mãe. Eu olhava as crianças, eu queria, não podia viver sem aquilo. Aí eu engravidei.

 

Minha resposta, gentil – porque entendo que ela quer o meu bem – e conciliadora -porque acho cansativo brigar por uma questão dessas- é:

– No dia em que surgir um desejo assim, eu engravidarei. Até hoje não aconteceu.