Local ermo e tranquilo

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Já apelidei o campinho que tem aqui perto, com árvores e um caminho que antigamente não dava em nada (agora tem um condomínio fechado) de maconhódromo faz tempo. Um atleta que eu conheço meio de vista, que mora por aqui desde sempre, não simpatizou muito com o termo, quase me desmentiu, mas meu faro quando eu vou passear com a Dúnia não mente. Digo mais: a Boca não é muito longe, fica numa rua pra cima. Eta lugares para terem aquele cheiro característico. A Boca não sei onde é e como é, mas o maconhódromo foi claramente escolhido pela privacidade do lugar. E agora que a rua que não dava em nada melhorou, o local foi descoberto por casais dentro de carros. O problema, como já disse, é que passo sempre por ali pra passear com a Dúnia. E ela tem uma paixão toda especial pelo cheiro de rodas de carro. Faço o possível pra evitar, puxo pra longe e tal, porque atrapalhar casal em carro é até pecado – afinal, quem nunca?

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Essa casa brasileira

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Quando eu e o ex namorávamos, nós vivíamos praticamente nos extremos da cidade: ele morava e trabalhava no Leste e eu vivia no Oeste e trabalhava no Norte. Quando decidimos buscar uma casa, o primeiro impulso foi procurar no Leste porque era mais perto do trabalho dele. Eu tive resistência a isso e questionei se ele pretendia trabalhar naquela empresa a vida inteira. Como a resposta foi negativa – e ele acabou saindo de lá poucos anos depois de casados -, disse que não fazia sentido centrar nossas buscas apenas no Leste. Virou quase uma competição, cada um torcendo que a casa ideal para os nossos sonhos e orçamento ficasse na sua região. Os corretores ficavam loucos, porque quando nos perguntavam que bairros estávamos dispostos a ver, eles contemplavam três pontos cardeais e os do meio. Mas na verdade enchemos pouco o saco dos outros porque vimos quase tudo sozinhos. Na sexta-feira já marcávamos as casas em potencial que veríamos naquele fim de semana e, além dessas, seguíamos qualquer placa que víssemos no caminho. Foram meses fazendo isso, vendo dezenas de casas por dia em todos os cantos que se possa imaginar, um daqueles feitos que quando a gente olha pra trás se pergunta como teve paciência. Vimos muita coisa, muitos absurdos. Lembro de um sobrado pequeno, com todos os cômodos apertados, cujo grande atrativo era a banheira da suíte, que cabia umas sete pessoas sentadas. É de se perguntar pra que tipo de consumidor aquela planta foi pensada. Vi casas que para resolver o desperdício de espaço com corredores o tinham simplesmente omitido: as portas dos quartos ficavam coladas na lateral, formando um triângulo cuja base era a escada. Ou seja, se você saísse do quarto um pouco sonolento ou distraído, poderia morrer.

O que realmente me marcou nos absurdos que vimos naquela época foi o seguinte: fomos parar naquele conjunto de sobrados por uma das muitas placas que seguimos no meio da rua. Quem estava lá para vender foi o próprio sujeito que construiu os sobrados. Eram uns seis sobrados de dois tamanhos diferentes: o maior tinha cerca de 150m² e estava mais de vinte mil acima do orçamento (no mercado imobiliário se fala dez, vinte e trinta mil com um desapego que é de deixar deprimido) e o outro tinha 110m² e estava menos acima do orçamento. Ele queria, claro, que a gente se propusesse a vender as mães e ficar com o maior, por isso nos fez visita-lo primeiro, mesmo a gente dizendo que não poderia ficar. Pois bem, fomos e ficamos babando. Quartos, suítes, banheiros, sala, cozinha, tudo muito bem distribuído, iluminado, espaços bem aproveitados, um projeto muito bom. Era de fechar o negócio ali se não estivesse realmente acima do orçamento. Fomos animados ver o de metragem menor. Nos perguntávamos como seria, se de repente só tivesse tirado um dos três quartos, ainda assim seria bonito, a gente não precisava mesmo de uma casa tão grande. Quando entramos… olha, não tenho nem palavras, aquilo foi inacreditável. O sujeito pegou a planta da casa de 150m² e passou a régua na lateral da planta e com isso cortou os 40m² de diferença. A casa menor era idêntica à anterior, só que com os cômodos de todo lado direito mutilado. Ficou horrível, burro, não quisemos ver mais nada.

Evito ao máximo dar pitacos políticos aqui, mas essa reforma da previdência me parece igualzinha. Tem muita gente boa escrevendo e sendo entrevistada sobre o assunto, então não vou ousar tentar explicar o que não entendo. O que sei é que todos temos ciência de que é preciso mudar, que não dá pra seguir no atual modelo. Mas com tantas outras possibilidades e torneiras abertas, precisa ser uma matemática tão óbvia e burra que pune justamente quem menos pode se defender?

Cris e Jorge

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Mesmo ainda bonitona e com tudo em cima aos quarenta, Cris se sentia uma encalhada. Fez colégio, duas faculdades, tinha muitos amigos, participava de campeonatos de natação, era uma pessoa divertida, de bem com a vida, tudo certo, mas o tal príncipe não aparecia. Tinha tido seus namoros, claro, mas nunca deu aquela liga. Os amigos diziam não entender o motivo, que ela era maravilhosa e tinha tudo para encontrar alguém, mas não acontecia. Parecia que o seu destino era mesmo ser casada apenas com seus cachorros, que ela adorava.

Mas Jorge não poderia imaginar isso e estava prestes a mudar esse destino. Ele a via passar apressada pela garagem do prédio todo domingo de manhã cedo e voltar na hora do almoço e ficava por ali, esperando ela voltar. Ficava trancado no carro ouvindo música e da sua vaga via quando o carro dela chegava, dava um tempo e depois saia, simulando uma coincidência. Também gerava mais coincidência quando ficava em casa com o lixo, de olho no olho mágico da porta, para levar o lixo para fora na mesma hora que ela passava pelo corredor. Às vezes ouvia o barulho e ia correndo abrir a porta e cruzava com outra vizinha. Sem saída, ele cumprimentava, colocava o lixo e quando não tinha ninguém olhando trazia o lixo de volta para casa. Quando encontrava a Dr. Cristina – o porteiro já tinha passado toda ficha para ele, ela era advogada e aparentemente não tinha namorado – ela era sempre simpática, sorria para ele, mas nunca passava disso porque nem tinha muito como passar disso. O que ele queria também, que ela o convidasse para tomar uma xícara de café? Jorge pensou muito e decidiu que precisava de um plano. Um dia, no elevador, perguntou se ela gostava do Zeca Baleiro, ela disse que sim, claro, adorava, e ele perguntou se ela não queria ir pro show com ele, que seria na próxima semana. Ela topou, ele comprou os ingressos e ficou tentando reeencontrá-la para combinarem a saída. Eles não se viram mais e ele, desgostoso, foi pro show com a filha.

“Esses homens, todos uns bananas mesmo”, Cris reclamou para si mesma, sábado à noite, depois de esperar por ele a semana inteira e finalmente ter certeza de que o show estava rolando e eles não iriam juntos. Claro que ela, pelo seu lado, havia notado aquele vizinho tímido, mais velho e bem apessoado que cruzava com ela pelos corredores de vez em quando. Após tudo perdido, ela encontrou com Jorge no elevador e cobrou o show que não foram ver juntos. Ele ficou sem graça e Cris perdeu a paciência com aquela lenga lenga. Bateu no apartamento dele e o convidou para sair. Foi o que ele precisava para entender e finalmente tomar a dianteira. Jorge levou Cris para jantar, para cama *, para o altar, para uma casa com amplo jardim e cachorros, onde vivem até hoje, mais de dez anos depois.

*”Ela me levou pra cama e me fez homem!”

Poupança

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Cinquenta, sessenta? Era difícil dizer a idade dele. Professor de educação física, desses que nunca havia parou de cuidar do corpo e puxar ferro quando nem era modinha. Os mais novos o acusavam, quando perto de gente discreta, de “obsoleto”. Mas também podia ser apenas inveja, porque alguns alunos não queriam fazer a série com qualquer outro. Eu, que fazia musculação só pra constar, fazia com ele porque era do meu horário mesmo. Naquele dia, o primeiro após um feriadão, ele estava cabisbaixo, o que nunca acontecia. Foi inevitável perguntar o que é que ele tinha.

-Lembra que eu te falei que tinha o casamento do meu filho?

Claro que eu lembrava, ele estava eufórico há meses. Não era surpreendente que ele um dia tivesse tido filhos, mas até então ninguém sabia da existência. Foi um casamento na juventude, mulher foi morar em outra cidade, levou o filho pra longe, perderam contato, essas coisas. Apesar de tudo, o rapaz o procurou agora, já adulto, queria o pai no casamento, entrando no altar. Ele ficou animado, não esperava, depois de uma vida afastado receber um convite daqueles.

-Não fui. Foi esse fim de semana e eu não consegui ir.

Era muito simples, bastava comprar a passagem e ir. Não se preocupou, há anos ele tinha uma poupancinha. No mês que sobrava, colocava dinheiro lá e pronto, nem olhava. Aí ele me conta que vive com uma mulher há anos, coisa que eu acho também que ninguém sabia. Uma vez eu fui numa balada de dança de salão, ou seja, de gente velha que gosta de dançar e lá estava ele; a sensação de vê-lo caçando foi a mesma de abrir a porta do banheiro e ver o avô pelado. Então, pra mim ele era um eterno “na pista”.

-Aí eu fui comprar passagem e não tinha mais nada na poupança. NADA. Ela gastou todo meu dinheiro, torrou anos de economia.

-Mas como assim, pelamordedeus, ela gastou tudo? O que essa mulher fez com o dinheiro, comprou um carro, jóias, você nunca desconfiou de nada?

Pior que ela não tinha gastado em nada demais. Ele brigou, pressionou, chorou, falou do desastre e que não teria como explicar pro filho, onde tinha ido parar o dinheiro. Ela gastou tudo ao longo do tempo, em besteira: uma roupa aqui, um salão mais caprichado ali… Ele estava arrasado, sem coragem de ligar pro filho. Não sei se ligou. E, caso tenha ligado, se o filho entendeu.

Dois flagras sobre dois

O tubo que fica na favela é um verdadeiro point. Não apenas pelo bar que abriu bem na frente há pouco tempo. Mesmo sem o bar, as pessoas costumam se reunir lá em grupos e ficar conversando. Geralmente com cerveja, às vezes uma moça ou outra, e sempre com o cobrador . Naquela noite tudo estava em silêncio e vazio, então não pude deixar de procurar as pessoas com o olhar, de dentro do ônibus. Aí eu vi que haviam apenas duas pessoas por ali, quase em frente ao tubo: o cobrador e uma moça. Eles estavam em silêncio. Ela tinha o cabelo longo e claro, que descia em poucos cachos bem desenhados nas pontas. Estava usando um vestido curto, de alcinha, que valorizava seu colo grande, ficava bem solto por cima da barriga e deixava as pernas finas à mostra. Nos pés, um saltinho. No rosto, uma maquiagem suave e um batom rosa que deixavam seu rosto ainda mais juvenil. O cobrador, de uniforme, a observava de perfil. Ele já tinha mais de quarenta e uma barriguinha. Naquela altura já estava claro para mim que o tubo estava vazio para eles. Ela olhava para o horizonte, impaciente, batendo os pés. Aquele silêncio, aquele impasse, aquele biquinho – será que ele disse algo de errado, será que ignorava que ela estava lá, toda arrumada, só para ele? Meu ônibus se afastou e tive que quase me pendurar na janela para ver: sem dizer nada, o cobrador a enlaçou e eles se beijaram.

.oOo.

Era estranho. Estar ali, na casa dele. Se fosse há poucas semanas, era um lugar que ela podia ir entrando, tirando o sapato, a roupa. Uma conversa impensada, uma crise de ciúmes incontrolável e tudo havia acabado de maneira… estranha. Acabou porque ela teve ciúmes e teoricamente não teria, porque o acordo que ela tinha proposto não previa ciúmes, muito pelo contrário, mas com o tempo a coisa mudou pra ela, que se apaixonou, e o namoro virou realmente um namoro, por mais que eles não tivessem re-conversado, porque ela achou que não precisava, não estava óbvio? Não, não estava. Então era estranho – ela no apartamento dele, conversando sobre o mesmo livro que começaram quando namoravam, tão íntimos e ao mesmo tempo não mais. Ela com vontade de pedir para voltar ao que era antes, mas ela já pediu e seria tão constrangedor levar outro não. Horas de conversa inocente, ele sem dar a menor abertura, ela com cada vez menos coragem e vontade. Aí, no meio de uma conversa na cozinha, ele abre a geladeira e lhe estende uma couve. “Pega, comprei pra você”. Semanas depois do fim do namoro e ele havia lembrado dela na feira. Na feira de sábado, que ele ia sozinho, e comprava coisas para os dois. Uma couve orgânica a mais na geladeira dele, esperando e certa do próximo encontro. Ela não resistiu e lhe abraçou, e pediu de novo. E ele novamente disse não.

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Um mistério insolúvel por ser real

 

Eu estava no tubo. Em Curitiba é assim, pelo menos por enquanto: as estações tubo ficam frente à frente. De uns tempos pra cá, alguém começou a achar que isso é ruim, que os dois ônibus se encontram e trancam a rua, e de vez em quando pode ser que uma ambulância queira passar nas ruas exclusivas, ou um ônibus precise desviar, aí é ruim que eles fiquem emparelhados. Então, em alguns lugares da cidade, estão desemparelhando as estações tubo, e quem sabe chegue o dia que essa informação que eu coloquei aqui se torne vintage. Mas eu estava na estação tubo, diante de outra estação tubo, na que tomo ônibus com frequência. Eu estava de pé em frente à porta, que estava aberta. É comum elas ficarem abertas, ok? Aí parou um ônibus na estação tubo da frente, indo para a outra direção. De dentro do tubo, bem na minha frente, eu vi um casal dentro do ônibus. Eram adolescentes e conversavam. Aí a moça, sabe lá Deus porquê, olha para trás e me vê. Aí ela vira para o namorado, fala alguma coisa pra ele, aponta, ele olha para trás e me procura com o olhar. E fala alguma coisa para ela. Ou seja, ela me mostrou para ele e começaram a falar de mim. Eu arregalei os olhos e tive vontade de gritar de lá do tubo “Ei, o que é que tem eu!?”. Consultei meu arquivo mental e não faço a menor ideia de quem eram. Será que ela estuda no colégio que tem no caminho, será que ela me conhecia de algum lugar, será que o assunto era unicamente sobre o que eu estava vestindo ou fazendo? – eu consultei minha roupa e minha pose com o olhar e não encontrei nada demais em ambos. Aí o ônibus partiu. Morrerei sem saber. (A não ser que você, moça que me mostrou pro namorado, seja leitora do blog. Por favor, dê notícias, manda um e-mail!)

Na volta para casa

Já era noite, pra variar. Estava no biarticulado. Um cara sentado na minha frente no ônibus atende o celular:

– Alô!… Estou onde o boi se esconde.
(Sonoro, né?)

Quando passei nos prédios perto de casa, tudo meio vazio, as calçadas mal iluminadas pela folhagem das árvores, avisto um casal se beijando no meio da calçada. Bem no meio, daquele jeito que não sobra espaço pra mais nada. Eles se beijavam num abraço e com um entusiasmo que só um primeiro beijo ou uma grande paixão explica. Passei longe, pisando na grama, rapidinho, pra não atrapalhar a cena. E ter visto essa cena e ter ficado feliz por eles me fez bem. Passou o tempo que ver casais se beijando doía.
(insira aqui um sorriso)

Devagar com o andor

Eu preciso retomar o blog, mas também acho que não dá pra simplesmente fingir que a última postagem não aconteceu porque deixei muitos amigos preocupados. Então, seguem duas reflexões:

 

* Nunca fui boa conselheira de casais que iam e voltavam. Achava estúpido e pronto. Se a pessoa resolvia de verdade, ela tinha que bancar sua decisão. Doer sempre doía e dor de amor exige paciência mas acaba. Eu podia até adotar uma linha compreensiva no discurso, mas internamente eu nunca entendi.

 

Desculpa a todos cujas dores de amor me pareceram bobagens durante todos esses anos. Eu descobri que há um nível de angústia que é inegociável, um verdadeiro pânico. Pra dor, não dá pra pedir paciência. A gente só quer que pare.

 

* Os fins de semana são coisas do demo. Pra quem está feliz, pra quem tem sua família ou sua situação arranjadinha, tudo bem. Mas pra quem está sozinho é interminável. Durante a semana você segue em frente, se cansa, faz suas coisas, assiste a novela. Mas o fim de semana… Não há para quem apelar, todos estão ocupados com suas próprias vidas. A gente sabe que se aparecer, vai atrapalhar. Ou que podem nos dar apenas algumas horas. Pra curtir o fim de semana você tem que estar bem.

 

Acho que quem inventou esses workshops de fim de semana era uma pessoa solitária, querendo arranjar o que fazer. É a melhor coisa. Ou a pior.

Podemos seguir a programação normal agora?

As pernas

Era um casal tão simpático, mas tão simpático, que eles conseguiram fazer amizade com a minha avó e a minha mãe, as pessoas menos dadas a conhecer estranhos que eu conheço. Foi no curto período que as duas moraram no mesmo prédio. Seu Ricardo e Dona Marlene eram de Pernambuco e só estavam aqui passando frio porque as filhas vieram pro sul. Eram casados há mais de quarenta anos. Na sala de estar deles, de frente para tv, havia duas poltronas idênticas, extremamente confortáveis, daquelas que reclinam, tem apoio para os pés e para a cabeça. As poltronas eram individuais, mas ficavam uma grudada na outra. 

Um dia estavam os quatro – Seu Ricardo, Dona Marlene, minha mãe e minha avó – na casa deles, à mesa, tomando um lanche da tarde. Quando eles começavam a falar não paravam mais. O assunto em algum momento foi parar em vaidade, mudanças, coisas da juventude, algo assim. Dona Marlene falou que durante anos teve complexo por causa das suas pernas, que achava que elas eram feias. Pleno calor nordestino e ela escondia as pernas, só usava calça. Um dia cansou dessa besteira e resolveu mostrar as pernas assim mesmo, porque eram as únicas que ela tinha. Aí Seu Ricardo completou: “E eu me interessei por ela justamente pelas pernas”.

Difícil foi segurar a vontade de colocar a cabeça debaixo da mesa e dar uma conferida.

Ainda sobre inverno

Luiz: Sabe aquele lojinha de costura do shopping? Será que eles dariam jeito em blusa de lã?
Eu: Em lã?
Luiz: É, uns blusões de lã que eu tenho.
Eu: Não, lã não tem jeito, não tem como cortar. O que você queria?
Luiz: Eu queria diminuir a manga, porque está comprido, fica sujando…
Eu: Você queria que eles recosturassem a manga? Não dá.
Luiz: Sei lá, de repente eles poderiam dobrar pra dentro e colocar um elástico pra mim.

A gente não quer ser vista como Amélia mas também se ofende com certas coisas.

O bonzinho e o malvado

Às vezes a gente conhece certos casais e não entende. Como ele (geralmente é ele), uma pessoa tão legal, pode estar ao lado de uma megera. Igual novela, uma pessoa boa ao lado de uma pessoa má. Todo mundo vê os defeitos da criatura, será que só ele é que não? E começa a imaginar que bom seria se a pessoa ótima tivesse ao lado dela outra pessoa ótima. Tudo seria ótimo: nada de desacordos, programas desfeitos, cortes e problemas com os amigos. Se você pensa isso, deixa eu dizer uma coisa que vai desiludi-lo: o malvado da relação geralmente o é de comum acordo com o bonzinho.

É como uma divisão de tarefas: o bonzinho delega as tarefas desagradáveis para o outro. Quem foi que nunca usou os pais como desculpa pra deixar de fazer algum programa quando criança – ou até mesmo na adolescência? É a mesma coisa. Os dois concordam com o assunto mas apenas um fica com o nome sujo. Algumas vezes, por mera questão de gênero, por ser papel do homem ou da mulher implicar com algumas coisas. A desculpa do ciúmes é prática pra se livrar de um mala do sexo oposto. Programas chatos e irrecusáveis se tornam fáceis de escapar quando você diz que o outro é que não quer. Isso sem falar nas vezes em que o malvado é eleito de graça, meio como ser o mordomo numa história de assassinato. Meus sogros e minha cunhada têm uma relação muito próxima, de morarem atravessando a rua, se falarem todos os dias e almoçarem juntos todo fim de semana. Eles tinham a expectativa de que com o Luiz fosse assim também. Não é – e adivinha quem tem levado a culpa?

Convite infeliz

Eu era monitora de uma matéria na faculdade e ele era meu aluno. Fui imediatamente com a cara ao ver que ele deu um jeito de falar de Star Trek no meio do relatório sobre o rato usado nas experiências. Não tínhamos amigos em comum e nem atração física; sempre que nos encontrávamos era divertido. Um dia disse pra ele que estava namorando sério e – surpresa – ele já tinha estagiado na empresa em que o Luiz trabalhava. Ele morava com a namorada.

Os anos se passaram eu o encontrava pela rua, com a namorada/esposa. Ela não era lá muito falante, mas fícavamos os três conversando alguns minutos onde quer que nos encontrassemos. Anos depois, ele não me reconheceu na academia apesar de continuar a receber e-mails meus regularmente. E foi na academia que ele cometeu o erro de me convidar pra festa de aniversário da mulher dele. Disse que ela não estava lá, mas que sem dúvida iria adorar a nossa presença. Ele sabia que eu e o Luiz detestamos ambientes de balada, mas insistiu, argumentou e jurou uma festa reservada, com pessoas interessantes interagindo. Fomos. E voltamos em tempo recorde.

Foi chato, não rolou interação nenhuma, mas tudo bem. O lugar estava barulhento, não dava pra conversar, gente feia e bêbada se comia com os olhos, mas tudo bem. Perdemos tempo, dinheiro e quase jogamos nossas roupas fora pelo fedor de cigarro, mas tudo bem. Insistir pra obter a presença em um local detestavel para o convidado não é legal, mas também não é imperdoável. O que matou nossa amizade foi a maneira como a aniversariante nos tratou. Não olhou na nossa cara, tirava fotos de todos menos de nós, deixou claro que odiou nossa presença. Ela nos tratou ostensivamente mal e até hoje eu não sei se ele notou. Um climão. Nós não temos culpa se a comunicação entre eles têm ruído.

Não adianta: casal é meio uma pessoa só. Não vou dizer como a mulher dos outros deve se portar. Hoje eu o encontro na rua e finjo que não vejo.

Casamento

Em primeiro lugar, o casamento é feito de um espaço físico. O lar onde o casal vive, com todas as suas quinquilharias. Coisas que podem até ter sido compradas com o dinheiro de um, mas nasceram para fazer parte de dois. Mesmo as coisas da época de solteiro agora servem a dois senhores. Presentes que deram uns para os outros e muitas coisas de casal: cama de casal, lençóis de casal, conjuntos de toalhas de casal, etc.

Depois, o casamento é feito de rotinas e acordos. De que lado da cama cada um dorme e qual dos dois levanta primeiro de manhã. Como são divididas as contas, quais são as prioridades, o que vai ser no futuro? Além do quem sai, quem fica e a que horas, tem a questão do com quem sai e quanto tempo sai. Quem são os amigos, quanto tempo se dedica a eles, que liberdade se tem com eles. Até os momentos de solidão tem que passar por esse crivo.

Por fim, o casamento é feito de sentimentos. Um dia ficar junto foi tão importante que nada foi capaz de interromper essa vontade. Depois de tudo arranjado, depois dos anos terem diminuído o desejo, depois da convivência ter transformado a fascinação em intimidade, o que resta? Dizem que só depois da paixão ter morrido é que surge o amor. Aquele outro está a seu lado sempre – e isso pode trazer uma abertura e um carinho que não tem comparação com qualquer outro tipo de relação.

O sentimento é apenas uma parte do casamento, e nem é a parte maior. É por isso que casamentos resistem a terceiros, a escapadas, ao tédio, a falta de respeito, a rotina. Quem chega de fora, por mais interessante que seja, está sempre em desvantagem – e o casado que se apaixona, sempre o canalha. E todas essas coisas a gente só percebe depois que casa. Eu sou do time que achava um absurdo alguém gostar de outra pessoa e não se separar por causa disso. Somente hoje eu sou capaz de entender o que ela escreveu.

Wall-E

O casal mais fofo dos últimos tempos. A gente chora aquelas lágrimas boas, coisas bonitas e sutis que não precisam de diálogo. Sem dizer que eu me identifiquei pra caramba com o jeitão (?) da Eva.