A morte não gosta

p02-01

Lígia, com G, não D. Ela não entende qual a dificuldade das pessoas em pronunciar o G no nome dela. A Lígia é uma dessas mulheres sozinhas, independentes, aferradas à sua solidão, sem papas na língua. Que de tanto nunca terem que negociar dentro de casa acabam não negociando com ninguém. Ela teve um relacionamento há décadas, e depois que ele a deixou nunca mais se envolveu com ninguém. Até pouco tempo a sua minguada aposentadoria era destinada a participar de campeonatos de natação master pelo Brasil. Fez as contas e descobriu que estava caro demais pra ela e agora só vai nos regionais. Para pessoas que participam há anos, como ela, esses campeonatos são a oportunidade de rever amigos do Brasil inteiro. Num desses, anos atrás, encontrou outra nadadora, de uma faixa etária avançada, e que apesar do ambiente de saúde que os campeonatos transpiram, começou a reclamar. Estava cansada de viver. Pra ela tanto fazia estar viva ou morta. O que ela queria mesmo é que a morte a buscasse logo. “Ah, mas aí é que não vai!”. Lígia expôs pra ela a teoria que quanto mais a pessoa reclama, mais a morte demora pra vir. A pessoa alegre, pum, morre jovem, enquanto o que odeia viver dura pra lá dos oitenta anos. Depois, não sabe se foi por acreditar na teoria ou por saber que ali não teria ouvidos compreensivos, Lígia nunca mais ouviu a mulher reclamar.

Anúncios

Querer

cachorro buraco da minhoca

Há anos eu li um livro que era um sujeito fazendo perguntas pra Deus, como se fosse uma entrevista. O livro começou bacana, ele fazendo as perguntas mais fundamentais. Depois vai indo, me parece que tem até o volume quatro, e só falta ele perguntar porque Deus criou as baratas. Não cheguei a tanto, li no máximo até o fim do volume dois. O que eu mais gostei do livro foi quando, no início do segundo livro, ele reclama que Deus sumiu, não ligou mais, visualizava e não respondia no Zap. Aí Deus fala que ele, o autor, é que estava sempre ocupado. O autor diz: a gente não tinha combinado de escrever livro juntos, você não perguntou se eu queria e eu disse que sim? Aí Deus falou: combinamos, eu perguntei, você disse que sim, mas aí você acorda tarde, vê Netflix, vai pra academia… Autor: Mas eu disse que sim. Deus: mas você sumiu. Autor: era só chamar. Deus: mas você… Enfim: Deus diz que não bastava falar que Sim uma vez e depois partir pra outra, que ele precisava escolher o tempo todo a mesma coisa.

Algo que para uns vem de berço, para outros é depois de uma vida inteira de luta, e vice-versa. O que eu aprendi em 2017 foi a querer, querer, querer obsessivamente, querer de todo coração, ser monotemática, querer de forma insana e repetitiva.

Un manoir à Neufchatel, ce n’est pas pour moi

Todo mundo já foi lá, então não sabiam me indicar certinho o endereço. “É uma casa na frente do Parque Barigui”. A localização não é ótima apenas por ser um parque – morar na frente do Barigui significa morar, no mínimo, numa casa muito boa. Mais provavelmente numa mansão. Aí me deram umas indicações, fica no meu caminho quando passo de bicicleta, eu apenas não sei qual delas. Voltando da aula, com minha roupa de pedalada e mochila nas costas, passei reparando e achei. Pode ser uma casa enorme que fica à esquerda ou uma mansão estonteante que fica à direita. Só vai ser meio chatinho à noite, se ninguém me der carona. Cada vida tem suas características, seus desafios, e eu percebo que a minha me faz conviver com grupos muito diferentes. Há pessoas que dizem: “não conheço ninguém que voltou na Dilma”, ou “todos meus amigos são do mundo artístico”, ou “somos um grupinho dos que estudaram no Colégio Tal”. Eu nunca, sempre foi tudo muito misturado, tão misturado que jamais poderia colocar todo mundo no mesmo ambiente. Um dia ouço uma mulher falar do período que passava fome e no outro a que reclama de ter ir a Europa de novo. Olhei para a casa que ainda conhecerei, e lembrei de um amigo que reclamou que eu não o levava junto quando tinha convite high-society. Ele queria ir mesmo sem conhecer ninguém, via como oportunidade. Em compensação, tem outra que poderia e faz questão de não ir. Olhando as mansões de bicicleta, lembrei que muitos de lá dentro tem a mesma idade que eu, de carne o osso também, quem sabe até menos qualificados. Em algum lugar, quem sabe, eu devesse desejar estar lá, lutar para isso, não perder tão feio quando sou comparada aos meus primos. Deveria não estar tão feliz apenas montada numa bicicleta, com dinheiro contado e escrevendo coisas que caem sem efeito no mundo. Mas eu realmente nunca quis, nunca fiz por onde, é como se em algum momento tivessem dado o sinal de largada e eu não ouvi. Não sei se é porque nunca quis ter filhos e não tenho que deixar um legado. Talvez seja porque a gente aprende desde cedo a não sonhar com o que está longe demais – sou de humanas, curso de humanas não enriquece. Zaz, pensei. A moça que ganhava dinheiro cantando nas ruas. A música que me soou tão adolescente. Quem sabe também me diga respeito.

Dois curtas do inconsciente

sombras

Eu não devia ter nem 10 anos quando as crianças que brincavam comigo em Salvador disseram que sabiam umas palavras em inglês. Cadê era “queidi”, o que dá pra adivinhar que pode vir de uma pronúncia americanizada. A expressão mais importante era aquela que tinha um sentido de “toma!”, “se ferrou”, “bem feito”, que era CHÉPO. Não faço a menor ideia de onde veio isso. Só sei que até hoje, quando me dá aquela alegria schadenfreude, me soa de novo aos ouvidos: CHÉPO! CHÉPO com coca-cola!

.oOo.

Estava costurando e do nada lembrei de um sonho que tive há dias. Nele, eu era amante de um sujeito com quem simpatizo mas não cheguei a trocar nem dez palavras na vida. Não é que eu esteja omitindo a parte caliente – era assim, um fato consumado, éramos amantes. Não acontecia nada, eu apenas tinha aquela informação íntima, daquelas que às vezes a gente chega a se perguntar se é realidade. Agora fico me perguntando: eu o desejo e não sei? Ele me deseja e eu só li isso inconscientemente? Se não é tesão, de onde meu inconsciente resolveu inventar essa história?

Academia, triathlon e escrita

Runner athlete running on road

Não faz muito tempo esse negócio de frequentar academia não tinha a legitimidade que tem hoje e, dependendo do meio, dava até vergoinha de falar. Dizer que você fazia academia era se confessar fútil. Lembro de um dos meus professores da faculdade, um que era especialmente gato, dizendo com o maior desprezo que frequentar academia era tão oposto a ele. Que ano isso, século passado, quarenta anos? Não, já estávamos na primeira década do século XXI. Quando eu comecei a frequentar academia, foi uma descoberta pra mim: como era legal, como todas as aulas eram divertidas, como a gente sai energizado! Tive época de ficar internada lá dentro. Depois fiquei seletiva, e só gostava de poucas aulas, os professores mais mais… agora não suporto nem passar na frente. Hoje conheço um povo que faz triathlon e lembro que uma época tinha vontade de fazer. Eles treinam, sabem seus tempos, comem certinho, sonham com Iron Man. Olho para eles e acho que entendo perfeitamente, que é a mesma euforia que vivi assim que comecei a fazer exercícios e, mais tarde, assim que comecei a dançar. A gente quer ser o melhor, começa a se ver como alguém que “se eu tivesse começado na idade certa, hoje seria…” Acho que essa é a energia que faz movimentar todos os esportes: o entusiasmo de muitos, que um dia sonharam em ser profissionais e se tornam grandes admiradores.

ACHO que eu terminei de escrever o que estava escrevendo. E me vejo sem o ímpeto de publicar que um dia tive. Ser lenta para escrever, demorar tanto e isso se converter em tão poucas linhas e ter sempre algo mais para olhar e nunca ficar bom… tudo isso foi me mudando com o tempo. Talvez eu seja mais uma entusiasta, talvez os únicos que lerão as coisas que eu escrevo são os poucos amigos-vítimas que recebem o arquivo. O mundo não precisa e não sente falta do que eu escrevo. Se um dia eu produzir um único livro bom, isso também não faz diferença. Nossa vaidade quer produção de padaria, um livro ótimo atrás do outro – mas de quantos autores conhecemos apenas um livro, um grande livro, e ele nos preenche por toda vida? Enquanto encontrava as pessoas e elas achavam que eu estou sempre sem novidades, eu sabia que estava cheia delas, cheia de mudanças e planos, vivendo uma vida paralela ao escrever. É um amor e um ganho pessoal difícil de explicar. Publicar e que os outros gostem, não vou negar que deve ter o seu sabor. Mas o processo, ah, que processo!

Abismo III

– O vento, você sente o vento? O coração disparado e a adrenalina?

E se eu te dissesse para não pular? Ninguém disse que você só tem uma semana de vida. Ao contrário, são tão longos os dias que você têm a sua espera. Muitos deles têm bolinhos quentes, cervejas geladas e amigos. Diria até alguns desses dias serão gloriosos. E que… Não, eles não têm esse vento e essa adrenalina. 

Adiantaria se eu te dissesse para não pular?

Abismo II

Meu amigo, você está tão tão ferrado.
Você passeia nas margens, caminha, namora a borda. Sente o vento com cheiro de águas profundas e fecha os olhos, se perguntando qual a temperatura lá debaixo. E quando olha, oh meu Deus, o quanto e como olha!
O que torna o humano um ser tão previsível, máquina: a sua incapacidade de ouvir conselhos quando está cheio de desejo ou a vontade de fazer do próprio desejo e seu desastre iminente uma escolha?

Desejo

Você está louca, não aguenta mais de desejo, quer ligar pro Fulano. Ok, podemos ligar. Ele pode até estranhar, talvez pergunte se eu tenho mesmo certeza, mas ele não vai se recusar. Ele vai achar ótimo. E se você quer sexo, só sexo, você sabe que vai ser ótimo. Ele chegará rápido, vai estacionar o carro lá na frente, pode até colocar na garagem. Um carrão, a vizinhança vai botar olho. Ele vai sorrir, te dar um abraço, quem sabe uma conversinha no sofá e todo resto você já sabe. E vai ser bom, sempre foi bom. Se é isso o que você quer, um sexo bom, então vá em frente e peça. Mas só se for só sexo. Porque você sabe que ele vai embora. Você até poderia pedir pra ele passar a noite com você, e quem sabe ele até passasse, mas na manhã seguinte ele iria embora. E você sabe o que o ir embora dele significa. Depois de sair pela porta, o que aconteceu será apagado da memória dele. Ele viverá a vida dele, mais relaxado e tal, mas sem se sentir nem um pouco mais ligado a você. Para ele, tudo continuará na mesma, um sexo consensual entre adultos – e para você? Porque se vê-lo atravessar aquela porta for doloroso, se você estiver esperando que os sentimentos ou a relação de vocês mude depois, não é só sexo que você quer. Você quer algo mais. Você está pensando no sexo como um meio e não como um fim. Esse algo mais ele não é capaz de te dar. Ele não quer te dar e ponto final. Quem sabe outro dia, em outro momento, com outra mulher… mas isso não vem ao caso. Não esta noite, não com você. Então é melhor ficar quietinha. Não é só sexo.

Eu quero

Acho que foi na entrevista da Nélida Piñon, no Roda Viva, que questionaram do porquê, para entrar na Academia Brasileira de Letras, é preciso se candidatar. Com tanto escritor bom por aí, que nunca concorreu, e a Academia aceita nomes questionáveis, como do ex-presidente José Sarney. Mais coerente seria a Academia convidar grandes escritores para entrar, ou para concorrer. Aí ela disse (ou teria sido Ubaldo?) que é importante que a pessoa queira e assuma esse desejo. Não sei se ela tem razão no que diz respeito à Academia, mas como é diferente dizer: Sim, eu quero.

Sim, eu quero dançar um solo. Sim, eu quero ser escritora. Sim, eu quero amor.