Escada rolante

escada rolante

A verdade é que, depois de uma vida inteira de busca e amor aos princípios morais mais elevados, se a pessoa termina a vida com meio defeito dominado já é muito. Meio, metade, de um defeito. Não que a pessoa explosiva deixe de ser explosiva; se ela aprende qual o seu gatilho e passa a evitar ao máximo situações que o disparem, já é muito. Basta pensar nas pessoas que se conhece na infância, ninguém se torna realmente imprevisível com os anos. Brincando no parquinho, na aula de português, na empresa, pai de família, separado, casado de novo, avô, viúvo, aposentado – em qualquer fase, a pessoa é sempre ela mesma. Por isso me parece que essa luta de se tornar uma pessoa melhor é como alguém que tenta subir uma escada rolante que desce, ela está indo contra o fluxo. O que comprova a minha teoria é quando olhamos aqueles que fazem o contrário, já acham a luta inútil pelo bem inútil e decidem serem mesmo porcaria, dão vazão ao seu egoísmo e vivem para sua satisfação imediata – a pessoa desce rápido e bem fundo, tudo vai à favor. Por isso, apesar de parecer meio inútil lutar tanto pela sua cota de meio defeito, me parece ser o único caminho possível. Tudo quanto é teoria mística que eu já li considera a Terra o lugar mais baixo do universo, o menos evoluído, o pior lugar. Gurdjieff é o único que discorda: pra ele o pior lugar ainda não existe, ele será como um filhote da Terra…

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Quase só animal

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Passei por uma fase lendo bastante sobre Gurdjieff e parei por não encontrei mais livros para ler. Mesmo conhecendo várias teorias místicas, a dele foi uma das que mais me impressionaram. Há uma metáfora que ele usa – que não é nenhuma novidade – e diz que uma pessoa é como uma carroça puxada por um animal. O animal é o corpo, a carroça são os sentimentos e o condutor é a mente. Ele diz que os homens se acham muito racionais, como se a mente fosse um fato dado. Pelo contrário: a humanidade como um todo está dormindo e precisa acordar; a mente é uma conquista e não um fato. Aí ele faz uma estatística, que não me lembro com exatidão, que diz que nos nossos atos somos 80% corpo, 19% emoção e, quando tem mente, apenas 1%. Que pensamos que a nossa mente inicia a ação, sendo que na verdade temos um instinto que nos domina de tal forma que a emoção e a mente vão atrás para confirmar. Quase tudo o que pensamos decidir é, segundo esse raciocínio, mera racionalização dos nossos instintos. Não digo que Gurdjief me consideraria uma pessoa desperta, mas entender esse mecanismo já me ajudou.

Ainda sobre sermos máquinas

Não supero essa fase Gurdjieff, eu sei.

Aceitar que somos muito determinados, determinados em quase tudo é fácil, é fato. Mas a teoria de Gurd não estabelece essa estatística, ela diz que todos estamos dormindo mesmo. Ou se está ou não se está. Quem não está é outro nível, é Mestre; nós somos tudo Zé. Gugu diz que é essa reserva moral do “quase” que faz com que o homem não consiga lutar com todas as suas forças pra sair desse sono, porque no fundo ele acha que não dorme tanto assim. E é o sono que nos torna máquinas, sem a menor autonomia, vítima de tudo o que nos acontece ou nos determinou no passado.

“Eu errei, mas se pudesse voltar atrás, faria tudo da mesma forma”. Eu falo isso, eu sinto isso. Fiz cagadinhas e cagadas homéricas; algumas eu só descobri depois de um tempo, mas noutras eu me sentia um touro correndo em alta velocidade em direção a uma parede. Eu sabia o que ia acontecer, eu sabia que não era a melhor decisão, mas já tinha pegado velocidade. Dentro do contexto, do que estava acontecendo, do que eu sabia e quem eu era, não havia possibilidade de fazer diferente. Eu fiz o que tinha de ser feito. Sofro as consequencias, lamento minhas decisões, não gosto nem de pensar, mas sei tão profundamente que não poderia ter sido diferente. Pra isso eu precisaria ser diferente e eu só sei ser eu.

Se isso não é ser máquina e determinado, não sei o que mais é.

Foda-se involuntário

Dias desses li o livro de maior humor involuntário/vergonha alheia que já encontrei: Os mestres de Gurdjieff, de Rafael Lefort (estou numa fase Gurdjieff, me deixem). O autor é, digamos, da segunda geração de discípulos de G. Só que ele acha que tem alguma coisa esquisita, que o ensinamento não está da forma como deveria ser, e decide beber da fonte. Baseado no que o próprio G. contou, Rafael vai ao oriente e começa a procurar pelos mestres do seu mestre. E encontra alguns. Talvez não mestres no mais alto sentido esotérico (quem sabe?), mas com certeza homens que ensinaram algumas coisas a G. Aí o autor, numa mistura de ingenuidade e total incompreensão, chega para esses mestres e faz as perguntas mais estúpidas. Um dos mestres diz que ensinou G. a respirar e ele responde: “Só isso?” É incrível a capacidade dele de fazer colocações totalmente nada a ver. As reações dos mestres variam entre aqueles que ficam desanimados e os que passam um verdadeiro sabão no sujeito. Ainda não tenho certeza se a publicação do livro é prova da honestidade intelectual do autor ou se ele morreu sem ter entendido nada.

Sobre o fato desses homens terem passado um sabão no sujeito, a mim só atesta seu grande valor. Eles pelo menos tentaram. Apesar do que ouviram, ainda quiseram dizer alguma coisa pra ele. Eu, no lugar deles, teria virado as costas e ido embora. Quando a estupidez é demais, por onde começar? Eu desanimo. Tenho ignorado, não explico, apenas deixo como está. Mais por uma incapacidade do que por decisão. Não sei dizer se é melhor ou pior. Por um lado, não me desgasto falando o que não vão entender; por outro, vou deixando as versões tomarem conta. Mas é que até pra levar sabão a pessoa tem que ter uma base, uma experiência de vida, um certo simancol. Só a formulação de certas perguntas já mostra que não dá.

Uma leitura bem torta de Gurdjieff

“A dança é uma forma de meditação muito poderosa”. Ouvi isso apenas uma vez e concordei, mas na verdade eu nunca havia lido nada a respeito e nem relacionado uma coisa com a outra. Mas a frase ficou martelando no inconsciente e um dia estava sem ter o que fazer e decidi buscar no Google alguma linha de pensamento que relacionasse dança com meditação. Cheguei nas Danças Sagradas de Gurdjieff. Adorei a parte teórica – a dança como uma forma de quebrar padrões de movimento, lidar com o controle e a frustração são coisas que vivi muito desde que me embrenhei nesse caminho. De um lado, começar a dançar desde cedo dá uma riqueza muito grande, mas de outro, começar tarde acaba servindo como uma forma de luta e autoconhecimento que eu também considero bonita. Mas nem tudo é perfeito: a execução das Danças Sagradas, pelo menos nos vídeos que eu vi, me pareceu bem decepcionante. São chatas e quadradas.

 

Uma coisa leva à outra e comecei a me interessar por Gurdjieff e querer ler suas teorias. Gostei muito dele; eu e Gugu (ou Gudigudi?) já somos íntimos. Como toda teoria mística, tem coisas que não tem como comprovar e não fazem sentido (com o que vivemos no dia a dia), aí ou você acredita ou desacredita. Acho que sou meio louca, porque quanto mais duro o autor, mais eu gosto. Os que falam de amor e dão lições de moral me enchem de tédio, gosto dos que dizem que o universo é matemático. Gugu e Krishnamurti jogam nós, as pessoas comum, na lama. Pra Krishnamurti, a gente fica o tempo todo com os pensamentos ao léu, perde o momento do que está vivendo, dispersa toda energia em besteiras e com isso perde a iluminação. Para Gurdjieff, somos máquinas loucas, que fazem tudo no automático e “dormimos” o tempo todo. No fundo, me parece que eles falam da mesma coisa.

 

Agora vem a parte da leitura torta: perguntaram para Gurdjieff sobre o livre arbítrio, se existia. Ele disse que sim e não. Que existe, mas não pra nós. Existe para o homem desenvolvido no pleno uso das suas faculdades, pro sujeito que encontrou a iluminação. Para nós, não. É possível dizer que um trem ou uma máquina de lavar têm livre arbítrio? Porque é isso que nós somos, pura e tão somente máquinas, totalmente determinados pelos nossos condicionamentos. Sem a capacidade de formar um Eu constante que realmente escolha para onde ir, as coisas aparecem e nos atingem, nos levam de um lado ao outro, nos decidem. É uma vida regida pelos acidentes. O homem comum não têm a menor influência sobre o seu destino.

 

Quer dizer que eu não tenho a menor influência sobre o meu destino? Nada, nadinha de nada? Tudo que me acontece vai me acontecer e pronto?

 

Então tá liberado relaxar e aproveitar a viagem.