Apenas mais um

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O “apenas mais um” é um problema que atinge todo mundo que tem algum dia uma pretensão criativa, não digo nem artística. Fiquei tão impressionada pelas primeiras páginas do remorso de baltazar serapião, que pensei: Pra que é que eu escrevo mesmo? (Porque se parar fico louca). Me deu aquela sensação de inutilidade, a certeza de que jamais conseguiria algo tão lindo, que o mundo já tinha o Mãe e eu não tenho nada a dizer. E mesmo o Mãe, tão original, tem muito de Guimarães Rosa. Tem um trecho de uma carta do Van Gogh – tenho a citação em algum lugar, se estivesse com mais paciência buscaria – em que ele diz que é tão difícil produzir algo bom, que o fazer demanda dele de tanto tempo, gasto e dedicação, que seria muito mais fácil comprar um quadro pronto de uma vez. Eu tenho contemplado muitos horizontes e tentado me convencer de que isso me basta, porque duvido muito da minha capacidade de colocar no papel uma profundidade que nem tenha.

Enfim. Tudo isso pra dizer, que apesar do desespero e do pessimismo, de vez em quando surge uma luz. Estou lendo a incrível biografia do Richard Burton e ele está num momento pessoal difícil e vai passear nos EUA. Ele já era famoso e polêmico, autor de alguns livros e era do tipo que escrevia sem parar. Como não poderia deixar de ser, ele escreve sobre esta viagem e:

Burton foi transferindo suas notas para uma versão definitiva à medida que prosseguia a viagem – sua capacidade de trabalho é sempre admirável! – , e sua visão dos Estados Unidos é viva, fresca, aguda, procedente. The city of saints é uma de suas melhores obras, mas infelizmente não veio a receber grande atenção. Quantos leitores de língua inglesa estavam interessados em mais um relato de viagem pelo Novo Mundo por mais um inglês? No entanto, o livro é uma narrativa preciosa de um viajante experiente, atento a todos os detalhes, à língua, às nuances, de uma nação em desenvolvimento dinâmico que apresentava um alto grau de civilização na costa leste e uma barbárie crescente à medida que se avançava para o oeste. Ali se encontravam os imigrantes, os soldados, os criminosos, os andarilhos, as mulheres arraianas, as tribos de índios, os funcionários do governo, os santos e os malandros, as belas jovens de sempre (índias e brancas). As condições sociais, as visões da democracia, conselhos ao exército sobre a maneira de tratar com os aborígenes (os índios eram, para Burton, uma espécie de beduínos), relações de rotas e paradas, o sistema jurídico e a justiça de fronteira, análises de matérias-primas e águas alcalinas, as nascentes dos rios, o tempo, as condições do solo – são os Estados Unidos dos meados do século XIX em quinhentas páginas de texto e apêndices, que raramente se tornam enfadonhas.

Edward Rice/ Sir Richard Francis Burton: o agente secreto que fez a peregrinação a Meca, descobriu o Kama Sutra e trouxe As mil e uma noites para o ocidente, p.345

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A Oportunidade

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Uma das cenas mais tocantes do Mente Brilhante é quando, já maduro, aparece um professor que vem lhe oferecer a Nash aquela honraria que ele sonhou a vida inteira. Tantas coisas já haviam acontecido, e a convivência com os seus delírios era um fato consumado. Então ele se vira pra uma pessoa qualquer e lhe pergunta se aquele professor que estava lá existia mesmo. Eu acho que quando A Oportunidade – que para cada um tem um nome e simboliza alguma coisa – aparecer, se um dia ela me aparecer, vou precisar fazer a mesma coisa.

Kefir e generosidade

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Uma vez uma amiga disse que tinha uns kefir, que eram tipo uns bichinhos transparentes que a gente criava em água com açúcar mascavo. No dia seguinte, a gente bebia aquela água, que tinha gosto de cerveja choca, e ela fazia um bem danado. Ela me deu alguns copinhos de kefir. Pus os bichos num vidro de biscoitos e naquela época fazia o meu própria açúcar mascavo com rapadura ralada. Era um açúcar realmente de primeira e em uma semana minha população de bichinhos tinha triplicado. Ela me disse que era assim mesmo, que a graça é que eles cresciam e estimulavam a generosidade. Consegui alguém pra minha primeira “fornada” de bichinhos, talvez para a segunda, aí chegou uma época que não tinha mais pra quem dar o vidro de biscoito era pouco pra eles. Isso sem falar que era cerveja choca demais. Naquela época eu fazia pão integral (vejam, segunda indicação do quão prendada e naturalista eu era) e descobri que aquela água era ótima, afinal já era fermentava. Mas era muito pão, muito bicho, muita água. Comecei a usar os próprios bichos de adubo pra minha grama em frente de casa. Criei um tópico numa comunidade de kefir no orkut perguntando o que as pessoas faziam com o excesso de bichos. Foi aquele silêncio eloquente, eu falei o que ninguém tinha coragem. A população de bichos começou a ficar tão grande e eu tão culpada por não conseguir distribuir que parei. Depois soube que isso aconteceu com mais gente que criava kefir.

Eu li em algum lugar, acho que dito pelo Osho, que generosidade não é isso que a gente pensa, de se programar pra ser bom. Que a gente pensa generosidade meio como: tenho dez reais, vou aí separar cinquenta centavos, um real, cinco reais e dar pra alguém. Dito assim, dar aos outros dói, faz falta. A verdadeira generosidade seria um transbordamento, quando o sujeito sente que tem demais e ainda lhe sobra. Tive o privilégio de conhecer algumas pessoas generosas na minha vida, e realmente elas distribuíam sem sentir, porque eram elas próprias a encarnação do conhecimento – ou beleza, ou doçura, ou arte – e lhes saía pelos poros. Então, muito mais do que ter deizão e doar, acho que ser generoso se parece mais com os kefir nos potes de biscoito.

Passeio

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Eu sempre levo a Dúnia para passear, desde sempre. Ela foi parar no adestramento, principalmente, porque levou um certo tempo pra se acostumar com a corrente. Ela se jogava no chão, eu tinha que arrastar o cachorro pelo pescoço, era uma sessão. Aí, apesar dela ter vindo adestrada por um sargento do exército e o certo seria ela andar ao meu lado, jamais na minha frente, ele mesmo me disse para não ser rigorosa nisso com ela, porque era um cachorro que já vinha com uma tendência a não gostar de sair. Nossos passeios é ela que comanda, cheirando com paixão todos os matinhos e comendo inesperadamente lixo como se não tivesse nada em casa. Então, vejam, ela sai desde que pôde sair, e isso já faz mais de dez anos. Tinha dias que eu saía pra ter aula às 7:30 da manhã e chegava pra lá das 18h, cansada, irritada e com vontade de ir ao banheiro. A caminho de casa já ia me programando para não levar a Dúnia para passear, estava me arrastando demais e merecia aquela folga. Aí ela me via da esquina e começava a ficar eufórica no portão e eu não tinha coragem de deixar pra lá e entrar em casa. Às vezes chove o dia inteiro e abre um tempinho seco no fim da tarde e corro pra sair com ela, nem que seja só pra dar uma volta na quadra. Isso tudo é pra provar pra vocês que foram poucas vezes, de verdade, que ela não saiu, e sempre foi por motivos próximos ao apocalipse zumbi. E não é que apesar de tudo isso a bicha chora cada vez que se aproxima o horário de saída, como se ela lutasse dia a dia por isso?

Um pequeno dilema moral

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Perdi meu cadeado de segredo na academia. Levei tempo pra perceber, falei com a faxineira quase uma semana depois. “Um de segredo? Achei sim, está no meu armário”. Ela me traz um cinza e o meu era preto. “Fica pra você, está perdido mesmo.” “Ah, nem daria, é um cadeado de segredo”. “O segredo é” e me diz a sequencia de números. Será que fico com o cadeado alheio perdido ou compro outro?

Ela leu a tentação nos meus olhos e prometeu: “Guardarei mais alguns dias. Se ninguém reclamar, é seu”.

Armadilhas

Ela quer ser mãe. Mas a biologia está dizendo que lhe resta pouco tempo. Homens costumam ser muito fáceis – sei de vários casos de mulheres que arranjaram doadores involuntários. Um pouco de sexo no dia certo e ela estaria grávida. Mas o seu sonho inclui não apenas marido como até igreja. Isso torna o seu tempo ainda menor: é preciso conhecer um homem, casar com ele e só depois engravidar.

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Ele quer acreditar. Quer ter uma crença e dela conseguir rumo e consolo. Outras pessoas da sua família conseguem e é bom pra elas. Já leu de tudo, passeou por várias filosofias, conheceu comunidades. Mas, ao mesmo tempo que um lado seu acredita, o outro começa a duvidar. Por ter lido de tudo, as coisas começam a ficar iguais. Por já ter visto muito, duvida das afirmações categóricas. Mesmo quando sente que toca o sagrado, depois se pergunta se não foi apenas uma impressão.

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Ela quer companhia. Também quer estar junto, dar risada, chegar num lugar e todos saberem o seu nome. Ainda mais num lugar onde todos são calorosos e apenas ela parece não ter amigos. Mas é uma pessoa ultra competente, inteligente, pega as coisas rápido. Sua dedicação é total e ela não tem tempo a perder. Quando alguém menos do que isso chega perto, ela não consegue disfarçar sua impaciência. As pessoas notam e se sentem tensas.

Fronteira

O pessimismo desenfreado, de achar que se nada vejo na minha frente é porque não há nada, me parece sem sentido. Basta olhar em volta, ou olhar para o próprio passado. A nossa visão é limitada até para a nossa própria vida, planos e dimensões do Eu; que dirá sobre o que vem a seguir, das mudanças dos outros, das conjunturas mundiais e acidentes de percurso. O impensável e louco de um dia pode ser o totalmente natural e viável de amanhã. Crer que sabemos e controlamos todas as variáveis é de um sentimento de onipotência muito burro. Se nada sabemos do que vem à seguir, por que não acreditar que vem algo bom e que nos fará felizes? Dizem que pensamentos positivos atraem coisas boas.

 

Acho que o termo que melhor explica esse otimismo é . A fé é um apegar-se ao invisível e acreditar que seu fim nos será favorável, certo? Essa crença pode nos fazer rejeitar o mais ou menos por acreditar que o que vem pela frente é muito melhor. Com fé podemos olhar para o nosso presente medíocre e não nos deixar afetar por ele, porque andamos olhando o horizonte. A fé pode ser a única coisa que temos, quando o mundo inteiro desacredita de quem somos e do que ainda podemos. Mas – não pergunto retoricamente e sim na minha própria vida – até que ponto levar a fé, qual a fronteira entre o otimismo legítimo e a simples loucura? Eu não sei.

Um mistério insolúvel por ser real

 

Eu estava no tubo. Em Curitiba é assim, pelo menos por enquanto: as estações tubo ficam frente à frente. De uns tempos pra cá, alguém começou a achar que isso é ruim, que os dois ônibus se encontram e trancam a rua, e de vez em quando pode ser que uma ambulância queira passar nas ruas exclusivas, ou um ônibus precise desviar, aí é ruim que eles fiquem emparelhados. Então, em alguns lugares da cidade, estão desemparelhando as estações tubo, e quem sabe chegue o dia que essa informação que eu coloquei aqui se torne vintage. Mas eu estava na estação tubo, diante de outra estação tubo, na que tomo ônibus com frequência. Eu estava de pé em frente à porta, que estava aberta. É comum elas ficarem abertas, ok? Aí parou um ônibus na estação tubo da frente, indo para a outra direção. De dentro do tubo, bem na minha frente, eu vi um casal dentro do ônibus. Eram adolescentes e conversavam. Aí a moça, sabe lá Deus porquê, olha para trás e me vê. Aí ela vira para o namorado, fala alguma coisa pra ele, aponta, ele olha para trás e me procura com o olhar. E fala alguma coisa para ela. Ou seja, ela me mostrou para ele e começaram a falar de mim. Eu arregalei os olhos e tive vontade de gritar de lá do tubo “Ei, o que é que tem eu!?”. Consultei meu arquivo mental e não faço a menor ideia de quem eram. Será que ela estuda no colégio que tem no caminho, será que ela me conhecia de algum lugar, será que o assunto era unicamente sobre o que eu estava vestindo ou fazendo? – eu consultei minha roupa e minha pose com o olhar e não encontrei nada demais em ambos. Aí o ônibus partiu. Morrerei sem saber. (A não ser que você, moça que me mostrou pro namorado, seja leitora do blog. Por favor, dê notícias, manda um e-mail!)

Uma dúvida sobre caráter

Digamos assim, eu estava conversando com um amigo. E nós temos um conhecido em comum. Digo conhecido porque esse fulano, cujo nome eu nem pronuncio, já foi um canalha comigo. Esse amigo sabe que já fomos amigos, mas não imagina o porquê do rompimento e fiquei com medo dele querer saber. Não é preciso entrar em detalhes e jamais entrarei no detalhe, mas a minha dúvida sincera é se eu poderia dizer: “Realmente, não somos mais amigos. O que posso dizer é que ele não é uma pessoa confiável.” Minha dúvida é porque, quando digo isso, estou condenando o caráter do sujeito como um todo. Estou dizendo que esse meu amigo deve manter toda distância possível. Mas, na realidade, talvez não, porque a canalhice que o fulano fez comigo é do tipo que apenas um homem pode fazer a uma mulher apaixonada. Alguém que fere uma mulher que estava apaixonada é um mau caráter no geral ou apenas um mau caráter no campo amoroso? Será que dá pra separar as duas coisas? Essa é a dúvida.

Desejo

Você está louca, não aguenta mais de desejo, quer ligar pro Fulano. Ok, podemos ligar. Ele pode até estranhar, talvez pergunte se eu tenho mesmo certeza, mas ele não vai se recusar. Ele vai achar ótimo. E se você quer sexo, só sexo, você sabe que vai ser ótimo. Ele chegará rápido, vai estacionar o carro lá na frente, pode até colocar na garagem. Um carrão, a vizinhança vai botar olho. Ele vai sorrir, te dar um abraço, quem sabe uma conversinha no sofá e todo resto você já sabe. E vai ser bom, sempre foi bom. Se é isso o que você quer, um sexo bom, então vá em frente e peça. Mas só se for só sexo. Porque você sabe que ele vai embora. Você até poderia pedir pra ele passar a noite com você, e quem sabe ele até passasse, mas na manhã seguinte ele iria embora. E você sabe o que o ir embora dele significa. Depois de sair pela porta, o que aconteceu será apagado da memória dele. Ele viverá a vida dele, mais relaxado e tal, mas sem se sentir nem um pouco mais ligado a você. Para ele, tudo continuará na mesma, um sexo consensual entre adultos – e para você? Porque se vê-lo atravessar aquela porta for doloroso, se você estiver esperando que os sentimentos ou a relação de vocês mude depois, não é só sexo que você quer. Você quer algo mais. Você está pensando no sexo como um meio e não como um fim. Esse algo mais ele não é capaz de te dar. Ele não quer te dar e ponto final. Quem sabe outro dia, em outro momento, com outra mulher… mas isso não vem ao caso. Não esta noite, não com você. Então é melhor ficar quietinha. Não é só sexo.

Notas mentais pra pra lá de julho

* Preciso comprar jeans.
* Preciso comprar partes de cima mais elegantes do que camisetas.
* Preciso superar o tal desapego ou processo depressivo em relação a comprar roupas, antes que passe a ficar vergonhoso. Ou: vergonhoso demais.
* Encontrar mulheres divorciadas que já estão “muito tempo há procura” é tão…
* Investir numa situação meio (nhé) não-é-como-eu-queria porque (nhé) ele-é-legal e (nhé) quem-sabe-com-paciência-e-insistência a coisa fique aceitável (nhé nhé nhé) ou esperar (quanto?) uma situação mais o meu número em todos os sentidos?
* Serei eu ainda capaz de me apaixonar da forma como quero que se apaixonem por mim?
* Permitirá o destino que eu possa me dedicar à escrita ou… ?
* Meu Deus, a árvore continua empurrando o meu portão. Mais um pouco ele não abre. Ou cai.
* Amanhã eu resolvo. Amanhã, amanhã.

Na minha idade

Uma vez me disseram que eu tenho Complexo de Peter Pan. Fiquei chocada e concordei. Nunca pensei em mim mesma como alguém que faz um esforço deliberado para não crescer. Ao contrário, em certas coisas me sinto uma verdadeira sexagenária. Mas tenho que reconhecer que pra outras ainda estou no jardim de infância. O argumento que a pessoa usou foi o que meu problema em seguir uma carreira é justamente o complexo. Começo, mudo de área, recomeço, nunca me firmo, porque se firmar numa profissão é uma coisa bem adulta.

 

Várias vezes achei que me tornaria professora universitária, e várias vezes investi em roupas mais sérias pensando nas minhas futuras aulas. E, invariavelmente, essas roupas ficavam paradas no guarda-roupa sem uso, até serem doadas. Calças sociais, blazers, sedas. Há poucos dias desabafei no meu facebook sobre o assunto:

 

Às vezes eu penso se não deveria me vestir de forma mais compatível com a minha idade. Mas, afinal, o que as mulheres da minha idade usam?

 

Os amigos vieram em meu socorro, dizer que uma mulher deve vestir o que quiser, o que for adequado ao seu estado de espírito. Há os que perguntaram afinal como é que eu me visto, e eu acho que me visto igual a uma universitária – coisa que não sou há mais de dez anos! Claro que, sendo meus amigos, apareceu conselhos de que o que me falta é um xale. Pra combinar com a cadeira de balanço.

Eis que de manhãzinha estava saindo cedo de casa, com a minha bike, e encontrei a vizinha. Ela tem mais ou menos a minha idade e é psicóloga. Olhei para ela e descobri o que uma mulher com meu físico na minha faixa etária usa: camisa branca, calça social bege, salto agulha e yorkshire.

Resposta

Eu fui ao supermercado quase às 20h no domingo, sem saber que estava quase fechando. Não fui porque era uma compra urgente, fui porque estava insuportável em casa. Eu me debatia com uma questão tão íntima, tão pessoal, que não havia nem como explicar. Poderia definir (beijo, professor Clóvis) como uma questão ética, em que eu tinha pelo menos duas premissas razoáveis e não sabia a qual delas dar prioridade. Depois de tantas mudanças na minha vida, o que manter, o que mandar às favas? O que incluir no pacote do meu novo eu, até onde eu consigo ir? Eram questões dessa natureza. A impossibilidade de me decidir estava me matando. Eu peguei minhas compras e fui para a fila das cestinhas. Só tinha uma pessoa na minha frente, mas os caixas estavam fechando e apenas um estava atendendo. E enquanto eu segurava a minha cestinha, chateada da vida, colocaram uma música no alto-falante do supermercado. Uma música meio antiga, nada a ver com música ambiente e que eu não ouvia há anos. Nossa. Nos primeiros versos a música respondeu de maneira tão perfeita todas as minhas dúvidas que eu comecei a rir. “Essa foi pra mim, Universo, entendi. Muito obrigada!”

Subconsciente, esse deus

 

Eu estava conversando com a Tânia e… Adendo: gosto tanto de pegar carona com a Tânia que ela nem imagina. Sabe o que é se animar pra ir pra um compromisso só porque depois vai ter aquela carona? Mais: ela vive se perdendo no caminho e eu adoro, quanto mais ela se perde melhor. Porque as nossas conversas são sempre tão boas pra mim, sempre tão proveitosas, nunca saio delas sem algo novo pra pensar. Nessa última carona, o assunto caiu no subconsciente. Tão poderoso, tão determinante nas nossas ações, o que sabemos a nosso respeito é tão pequeno. Ainda estava (estou) completamente contaminada pelo exemplo que oprof. Clóvis deu, do consciente ser apenas o facho de luz que sai do farol. Aí ela me disse que o subconsciente é tão poderoso que ele não apenas fala através dos nossos gestos, nossos tons de voz, nossas expressões, que às vezes ele aparece no que nos acontece, em outras pessoas nos dizendo e nos fazendo aquilo que nos pertence. Lembrei na hora do quanto eu fiquei afetada ao não me ver nas fotos do espetáculo do ano passado. Não saiu uma única foto individual minha no palco, e fiquei muito abalada. Minhas amigas viram nisso apenas uma vaidade, mas é que eu li naquela ausência tantas outras coisas. Eu li naquilo meus padrões, minha dificuldade em me fazer marcante, o espaço que cedo pros outros e me faz falta, enfim, eu vi de tudo ali. O fotógrafo não ter me mirado foi totalmente eu, foi o meu movimento. E o subconsciente– ela continuou – é tão grande e poderoso na nossa vida, nas nossas escolhas e ações, que quem sabe a gente lide apenas com ele o tempo todo, que até isso a que chamamos Deus seja no fundo apenas esse grande e desconhecido subconsciente. Pra mim também faz tanto sentido. Eu rezo, eu falo com Deus, eu agradeço, e essa relação tem se estreitado cada vez mais. Só que ao mesmo tempo eu não sou propriamente deísta. Eu faço o que funciona comigo, porque já aprendi que é mais fácil abraçar os símbolos do que tentar, com meu ego fraquinho, influenciar minhas decisões. Acho que quem se nega e tenta ser sempre racional está simplesmente se negando a utilizar o que a humanidade já construiu e funciona tão bem. Oração, astrologia, velas, imagens, tudo já está carregado de sentido e nos influencia de uma maneira maior do que podemos controlar. Ao mesmo tempo, não acredito numa resposta definitiva à questão da existência divina. E caso fosse possível responder com certeza de que Sim, esse Sim significa tão pouco. Ele por si só não explica nada. Sim não quer dizer que Ele tenha livro, filho e detesta cu, ou seja, que a nossa conduta signifique qualquer coisa. Não sabemos se é uma relação de criação, de interdependência, de determinação, não sabemos de nada. E mesmo se pudéssemos ter um manual, de que adianta saber mentalmente sem realmente entender. Se não entendo essa coisa tão pequena, tão limitada e com poucas variáveis que sou eu mesma. E na nossa miudeza, não conseguimos atingir mais do que nós mesmos.

Sorriso

Se uma pessoa sorri pra você, mesmo que apenas por educação, numa troca de meia dúzia de palavras, e isso te deixa feliz, significa que você está interessado nela?