Viver é levar uma bandeja com água num tobogã

Eu estava conversando com uma amiga dia desses, ela estava tentando mudar seu padrão acumulador. Não sei o quanto a cada dela está abarrotada, não acredito que seja até o teto e com o cadáver de um gato sumido por detrás de revistas, mas ela me pareceu bem culpada. Pelo dinheiro gasto, pelo espaço ocupado, pela inutilidade da coisa, etc. Eu estava no celular e odeio digitar pelo celular, então quem sabe se não fosse isso eu pudesse ter lhe dito que lembrava de outra amiga, que para arranjar o emprego dos sonhos saiu de uma cidade no interior de SC e foi para o Rio de Janeiro e trabalhou com o que amava, mas cercada de muita competição e machismo. Ela passou por um período acumuladora também, gastava uma nota em sapatos. Foram alguns anos de Carrie Bradshaw, que também a chatearam. Eu lhe disse: nova, sozinha, numa cidade estranha, enfrentando tudo o que você enfrentou, queria o que, passar sem nenhuma válvula de escape?

Não sei se isso é vida real para quem vive em país subdesenvolvido econômica e culturalmente, ou se dá pra afirmar universalmente: a vida é dura. É uma crise atrás da outra – ou juntas. Na maior parte da vida, somos aquelas pessoas que descem no tobogã segurando uma bandeja (eu via no programa Silvio Santos, mas o vídeo que eu achei é do Ratinho), com esperança de conseguir manter um tiquinho de líquido ali. Estamos sempre tendo que aguentar alguma coisa, nos compensando de alguma coisa. Alguns fazem isso com sapatos, outras com namoros, sei lá. Quando nova, tinha a ilusão de conhecer meus defeitos e superá-los; hoje sei que quem consegue controlar o mecanismo que dispara um só defeito já fez muito nessa vida. Como disse para as duas: se pra comprar um monte de coisas, você apenas ficou um pouco pobre, ainda está no lucro. O grande desafio na vida é não fazer uma besteira irremediável, a si mesmo e aos outros.

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Constante

mendigo

Agora a cada parada de ônibus tem alguém para “interromper o silêncio da viagem de vocês”. No meu supermercado a segurança não dá conta de tirar todos os mendigos do caminho, então sempre tem algum, em uma das saídas, para causar incômodo com sua falta de banho, roupas rasgadas e falando de fome. O mesmo sujeito me pediu dinheiro no terminal, na ida, e depois me pediu dinheiro no ônibus, na volta. A história de fitoterápico fortíssimo para doença degenerativa talvez não cole com ninguém com o mínimo de instrução, mas ele tinha o rosto retorcido de uma maneira que não é possível fingir então, tanto numa ocasião como outra, as pessoas ajudaram. Eu ajudei na ida e não ajudei na volta. Num supermercado comprei um café com leite pra um, no outro estava espantada diante de uma compra leve que saiu mais de cem reais, então não olhei e fingi que não ouvi, e o mendigo se queixou da minha falta de consideração de nem ao menos olhar para ele. Voltei para casa convicta da minha falta de trocado, que era verdadeira, mas com o coração apertado. Outro dia, naquele mesmo supermercado mas em outra saída, eu ajudei um homem que estava abordando pessoas, uma depois da outra, e elas lhe ignoravam. Eu estava subindo a rua e observava. Quando ele chegou perto de mim, não consegui ser dura com ele, não depois de ver aquela cena se repetir tanto. “Graças a Deus a senhora parou pra me ouvir, eu estou aqui há mais de uma hora…”. Eu não acreditei em uma palavra do que ele disse sobre passagem errada, mas lhe dei uns trocados. Eu tinha trocado e não estava me sentindo pobre. Para mim o tempo também parece estar correndo contra, eu também não sei o que fazer. Será que aquele pra quem eu nem olhei estava realmente com fome? Meu mundo está se desfazendo. Será que eu tinha a obrigação moral de entregar pra ele os meus dez reais? Tudo o que eu acho importante pra sociedade está sendo jogado no lixo, e a indiferença dos que têm posses me enlouquece. Vi um colega num carro todo caro e ao invés de ficar interessada vi naquilo a injustiça do mundo. Quase voltei, o mendigo não ia sair do lugar, mas é uma subida tão difícil. Me dei desculpas até chegar em casa. Vai me fazer falta. Vai mesmo? Não tanto quanto faz a ele, mas vai. Este mês, em especial. Eu também não sei mais o que fazer de mim. Eu estou perto deles, eu também sou eles.

Borra que não pode ser extinta

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Foi quando escrevi sobre O Tambor que soube que Günter Grass chocou os fãs ao contar que fez parte da juventude hitlerista. Quando li aquilo, não tinha a menor intenção em me aprofundar no assunto; mas, quanto terminei O Linguado, percebi que não estava preparada para abandoná-lo, com a sua imaginação delirante, escatológica e engajada, e me vi pegando mais dois. A autobiografia me prendeu logo nas primeiras páginas. O mea culpa que ele faz é tão profundo, tão sem escusas, que fico surpresa dele ter “apanhado” por isso. A dureza com que Grass olha pro seu passado, ao se acusar de não fazer perguntas, se negando até a alegar que foi seduzido, me lembrou do livro (que inspirou o filme) O Leitor e alguns documentários que vi sobre a maneira como os alemães lidam com seu passado: o horror pela sua participação, a necessidade de olhar e o problema insolúvel da normalidade. Os mesmos avós e tios amorosos dos doces e natais em família participavam de um sistema que matava.

Eu não consigo culpar Grass com tanta dureza porque também me parece que me calo demais. Não tem Hitler, gueto ou câmara de gás, mas olha o que está acontecendo – esse golpe, essa corrupção, esse imenso absurdo de perda de direitos. Também diremos:

Palavras invocam outras palavras. Dívidas materiais e dividas morais, culpa, dívidas e culpa, Schulden e Schuld. Duas palavras tão próximas uma da outra, tão arraigadas no solo da língua alemã e ainda assim as dívidas – mesmo que seja em parcelas, conforme faziam os clientes de minha mãe que compravam fiado – podem ser amortizadas com tanta facilidade ao passo que a culpa, tanto a culpa demonstrável quanto a oculta, ou mesmo aquela que é apenas presumível, permanece. Ela tiquetaqueia sem parar e mesmo em viagens a nenhures ela já se adianta para ocupar lugar aonde ainda nem chegamos. Ela diz-se ditadinho, não teme repetições de nenhuma ordem, faz-se esquecer, clemente, por algum tempo, e hiberna em sonhos. Permanece na condição de borra, ao fundo da xícara, não pode ser extinta em sua condição de mancha nem lambida até secar sua condição de poça. Ela aprendeu desde cedo a procurar refúgio em uma concha de ouvido quando confessada, a se fingir prescrita ou perdoada há tempo, menor do que pequena, como se fosse um nada, e então volta a se levantar de novo, assim como a cebola diminui, membrana a membrana, inscrita duradouramente nas peles mais jovens: às vezes com letras maiúsculas, outras, na condição de oração subordinada ou de nota de rodapé, de quando em quando perfeitamente legível, em seguida mais uma vez em hieróglifos que, se é que podem ser decifrados, podem sê-lo apenas com muita dificuldade. Para mim vale, legível, a inscrição breve:

Eu me calei.

Günter Grass/ Nas peles da cebola, p.31

Cone da vergonha

980x

Fui passear com a Dúnia e logo que ela virou vi uma clareira nos pelos atrás e um buracão de pele exposto. Já passeei chateada, teria que colocar o cone. Na primeira vez que coloquei, ingenuamente quase joguei fora assim que não precisou mais. Teria sido desperdício de dinheiro, porque ela já usou várias vezes. Na última ficou muito tempo, muito mesmo, porque eu fiquei com dó e tirei antes de ficar totalmente cicatrizado, o que fez ela abrir outra cratera. Eu tinha tanta pena de vê-la com o cone e sentia tanta culpa que passei a tratá-la diferente, dava mais ossinho, qualquer coisa achava que ela estava infeliz. Esperta do jeito que é, ela notou logo e ficou dengosa e chorona. Agora aprendi a lição e faço de conta que é super normal, que não me incomodo dela arrastar aquilo no chão quando tenta pegar o osso, que está ok ela não conseguir entrar na própria casinha se eu não tirar o teto, que eu não me pergunto se aquilo não faz com que ela sinta dor no pescoço. Olho a bicha nos olhos e falo como se nada estivesse acontecendo, aquela cara feliz de orelha pra cima cercada de branco. Mas sabe qual o momento que realmente parte meu coração? Eu tiro o cone na hora do passeio, apenas na hora do passeio, porque ali posso controlar que ela não se machuque. Aí quando voltamos pra casa e eu tiro a corrente, ela estende o pescoço e me ajuda a colocar o cone de volta. Cachorro é puro amor mesmo. Um gato me arranharia inteira e eu entenderia.

Caio e me levanto

Júlio Cortázar, La vuelta aluno día en ochenta mundos

 

Ninguém pode duvidar de que as coisas recaem. Um senhor adoece, de repente numa quarta-feira recai. Um lápis na mesa recai seguido. As mulheres, como recaem! Teoricamente não ocorreria a nada ou a ninguém recair, mas dá na mesma, está sujeito a isso, principalmente porque recai sem consciência, recai como se nunca antes. Um jasmim, para dar um exemplo perfumado. Essa brancura, de onde vem sua penosa amizade com o amarelo? O simples permanecer é recaída: o jasmim, então. E não falemos das palavras, essas recaientes deploráveis, nem dos bolinhos de chuva frios, que são a recaída em pessoa.

 

Contra o que acontece se impõe pacientemente a reabilitação. Nos mais recaídos sempre há algo que luta por se reabilitar, no cogumelo pisoteado, no relógio sem corda, nos poemas de Pérez, em Pérez. Todo recaiente já tem em si um reabilitante, mas o problema, para nós que pensamos nossa vida, é confuso e quase infinito. Um caracol segrega e uma nuvem aspira; certamente recairão, mas uma compensação alheia a eles os reabilita, os faz subir pouco a pouco ao melhor de si mesmos antes da recaída inevitável. Mas nós, tia, como faremos? Como nos daremos conta de que recaímos se pela manhã estávamos tão bem, tão café com leite, e não podemos medir até onde recaímos durante o sono ou o banho? E se suspeitamos do reacaiente de nosso estado, como nos reabilitaremos? Há os que recaem ao chegar ao topo de uma montanha, ao terminar sua obra-prima, ao se barbear sem um cortezinho; nem toda recaída é de cima pra baixo, porque em cima e embaixo não quer dizer grande coisa quando já não se sabe onde se está. Provavelmente Ícaro acreditava tocar o céu quando afundou no mar epônimo, e Deus te livre de um mergulho tão mal calculado. Tia, como nos reabilitaremos?

 

Há quem tenha afirmado que a reabilitação só é possível se alterando, mas esqueceu que toda recaída é uma desalteração, uma volta ao barro da culpa. O melhor que somos, somos porque nos alteramos, porque saímos do barro em busca da felicidade e da consciência e dos pés limpos. Um recaiente é então um desalterante, de onde se deduz que ninguém se reabilita sem se alterar. Mas pretender a reabilitação se alterando é uma triste redundância: nossa condição é a recaída e a desalteração, e eu acho que um recaiente deveria se reabilitar de outra maneira, que por sinal ignoro. Não apenas ignoro isso como jamais soube em que momento minha tia ou eu recaímos. Com o nos reabilitar, então, se talvez não recaímos e a reabilitação nos encontra já reabilitados? Tia, não será essa a resposta, agora que penso? Vamos fazer uma coisa: você se reabilita e eu a observo. Vários dias seguidos, digamos uma reabilitação contínua, você está o tempo todo se reabilitando e eu a observo. Ou o contrário, se prefere, mas eu gostaria que você começasse, porque sou modesto e bom observador. Dessa maneira, se eu recaio nos intervalos de minha reabilitação, enquanto você não dá tempo à recaída e se reabilita como num filme ininterrupto, em pouco nossa diferença será enorme, você estará tão por cima que será uma beleza. Então eu saberei que o sistema funcionou e começarei a me reabilitar furiosamente, porei o despertador para as três da madrugada, suspenderei minha vida conjugal e as demais recaídas que conheço para que só fiquem as que não conheço, e vai ver que pouco a pouco um dia estaremos outra vez juntos, tia, e será tão bonito dizer: “Agora vamos ao centro e compraremos um sorvete, o meu de morango e o seu com chocolate e um biscoitinho”.
(Obrigada de novo, Ernani)

Stress ocupacional

Meu stress está saindo daquela curva ascendente, quando é compreendido como algo bom, que motiva, dá prazer e aumenta a produtividade. Ele está se tornando patológico.

Minha pele está horrível. Meu intestino não funciona como antes. Estou começando a ter problemas para dormir: demoro mais e fico preocupada, fazendo planos ao invés de relaxar. Meu apetite está desregulado. Meu humor está (mais) instável (do que o normal). Acordo mortalmente cansada. Não consigo mais brincar como antes. Sinto um desespero constante de que não vou conseguir dar conta de realizar minhas tarefas.

Isso não é tudo, e nem o pior. O problema é a constante culpa. Sempre que faço qualquer coisa que não seja ler o milhões de textos ou fazer os milhões de trabalho, sinto culpa. E esse qualquer coisa inclui desde comer longe do computador, a dormir à tarde quando chego em casa e desmaio na cama, ou vir para a internet ou ficar no sofá depois de passar quase 10 horas por dia dedicada ao trabalho. Não tenho cérebro pra mais nada, e ainda sim sinto culpa por não estar me dedicando mais, não estar dando 100%…

Eu mato aqueles que dizem que o stress está na cabeça dos indivíduos. Que é possível controlá-lo fazendo cursos bestas por aí e respirando fundo. Essas coisas de psicólogos*. Quando dizem para eu relaxar, respondo: Tá, e é possível eu relaxar e conseguir fazer tudo o que eu preciso fazer?

* smurf Zangado, meu ídolo, diria:
“Eu odeio psicólogos!”