Festa da turma

festa idosos

Eu nunca fui numa festa de ex-formandos, nem quando foi logo em seguida de termos nos formado, ou seja, nem quando ainda não havia se transformado num evento potencialmente depressivo. Aí quando recebi o convite para ir na próxima de vinte anos de formada (mas já?), eu quis mostrar que sou uma pessoa melhor. Tudo dentro de mim disse que não queria ir, mas eu me deixei adicionar no grupo de whats (oh lord, mais um grupo) e ver no que ia dar. Quando vi a fotinho e mensagens novas, já me incomodei. Aí fui olhar as fotos dos membros e juro que não reconheci pelo menos as cinco primeiras fotos, podia jurar que nunca vi na vida. Uma delas provavelmente nem a mãe conhece mais depois de tanto botox e preenchimento. Depois reconheci: alá, aquela que logo no primeiro ano tentou me ferrar num trabalho em grupo porque não me passou os dados; alá, aquela que eu achava super legal de longe e na primeira vez que eu lhe dirigi a palavra foi um nojo comigo; olha, essa eu até gostava, mas não lembro do nome; Fulana, ok; alá, aquela que era da turma descolada e abortou… Mas embora ver as fotos de pessoas que eu gostaria de jamais ter me lembrado não tenha me feito bem, também me questionei: sou um ser humano tão ruim assim, que só se fixa nas piores lembranças? Aí apareceu gente comemorando, que bom vê-los, etc. Que bom por que, sen or, iluminai-me. Surgiu lista de contatos. Aí alguém falou mais uma frase alegre sobre ser bom ver todo mundo de volta e um corajoso com DDD de São Paulo saiu logo em seguida. Achei afrontoso e segui o exemplo.

Gratidão mas

… muito mais fácil falar em perdão se você foi pedra, e não vidraça. Que pessoa maravilhosa, que nunca pagou na mesma moeda, que nunca reagiu, que continuou sendo boa enquanto eu praticava gostosamente o meu pior lado, quando era filho da puta sem o menor motivo, quando a usava para manifestar todo meu machismo e raiva do mundo mesmo sem ela não ter nada a ver. Que coisa boa que é deixar o passado para trás e nos amarmos como família quando isso significa que cabe ao outro o trabalho de ignorar suas feridas e o meu apenas, quando muito, o de parar de ser uma pessoa horrível. Sejamos todos felizes uma ova, eu era muito novo uma ova, mensagens fofas de whats uma ova!

saudades

O entendimento da mesma idade

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Quando meu pai, no seu novo casamento e nova vida, ganhando bem, saindo, indo a todas as festas e vivendo o auge da sua popularidade, a mim, como filha, não caiu bem. Passou muuuuito tempo e não me caia bem. Como um pai podia se dizer apaixonado em ser meu pai e ao mesmo tempo ter todo um entorno que eu detestava. Mesmo sabendo que não eram o ideal pra mim, ele não largou tudo, como um pai ideal faria, ele lidou com minhas queixas misturando negação, jeitinho, gambiarra, ilusão e empurrar com a barriga – como a vida adulta funciona a maior parte do tempo.

Um belo dia me bateu a luz, talvez pela famosa chegada na mesma idade que ele: eu descobri que ser pai não era a coisa mais gostosa do mundo. Existem pessoas (dizem) que amam a maternidade/paternidade 100%, em cada fralda suja, lição de casa, carona pro colégio – mas isso não se aplica a todo mundo e sem dúvida não se aplicava ao meu pai. Ter filhos demanda muito dos pais, durante muitos anos, fisicamente, financeiramente, emocionalmente, tudo. É um pedaço importante da vida deles, mas tem outras coisas. Eles ainda gostam de amigos, bebidas, aventuras, tudo o que eram antes de serem pais. Como vi uma piada por aí, às vezes a pessoa não estava pensando se queria um menino ou uma menina e sim numa boa bimbada. Foi muito bom quando finalmente entendi que meu pai não fazia coisas para me desagradar, ele fazia coisas para SE agradar e que, como efeito colateral, não eram exatamente o que eu gostaria. Não era o ideal, era o que tinha, e é o que tenho no meu passado e não dá pra fabricar um novo – e, vou te falar, depois de uma fase acho que nem cabe mais ficar choramingando. Ninguém é Vilão de Novela Mexicana, aquele que gasta todas as suas energias e recursos pensando em fazer coisas que atingem o protagonista. Nem por ódio, nem por amor, nem ao menos nossos pais.

Láááááá longe

Eu arranjei um bico que vai me obrigar a ir em escolas estaduais durante alguns dias. As coisas não foram da maneira como deveriam. Sabe quando o atrapalho vem desde cima e vai fazendo um efeito dominó e quem está embaixo é que sente mais o impacto? Bem assim. Como pessoa extremamente organizada, correta e tensa, não gostei e reclamei. E fui ficando de mau humor. Não pude me organizar com a antecedência que gostaria, reclamei em grupo de zap, estava quase organizando levante dos insatisfeitos. Aí, finalmente, com muito atraso, chegou a lista das turmas e escolas. Como temia, lidarei com adolescentes, aqueles animais barulhentos cheios de hormônios. Aí fui de puta mau humor procurar o endereço e ver como chego em cada uma. Sou ninja em Google Maps, conheço vários segredos. Um deles é você inverter as rotas de ida e volta. Bem bobo: coloca o endereço de ida e volta, vê o que aparece, e depois inverte os endereços. Às vezes faz um diferença imensa.

Descobri um ponto de ônibus totalmente novo perto de casa, uma linha que nunca peguei. Já senti uma cosquinha. Estudei quando dá pra ignorar parte dos trajetos e ir a pé. Não conheço ninguém que já tenha cruzado a cidade inteira de ônibus como eu. A escola mais longe é num lugar muito bróder, que eu ia quando comprava tecido, conhecia o nome de todas as ruas. Mas o que matou mesmo foi quando entrei nos sites e vi as escolas. Pátio pequeno, as árvores, as paredes feiosas. Eu estudei em Escola Estadual. Toda escola estadual tem um pouco desse combo de falta de manutenção, mesmo quando elas são mais centrais (como a minha era).

Quando fiz segundo grau, não tinha linha de ônibus até a minha escola, e andávamos um montão a pé. Sol do meio dia e aqueles estudantes todos de azul subindo a rua, era uma pernada boa. Garrei afeto vendo a foto das escolas, tudo muito familiar. Assim como já gosto antecipadamente do novo caminho de ônibus que vou pegar. Claro, tô falando isso porque é pouco tempo e vai entrar um dinheirinho… Ter que ir longe e andar tanto sempre fez parte da minha vida; puxei pela memória e percebi que jamais tive o prazer de morar do lado de onde precisava ir. Quem sabe eu vá, ache péssimo, detestável, odeie os adolescente e lamente não estar numa posição que possa recusar dinheirinho, mas por hora eu tive um insight cheio de afeto: isto que é o que todos querem distância – o ônibus, o esforço, a escola pública – está entranhado em mim. É esta vivência que me faz nunca olhar o “povo” como “eles”. Nós nos olhamos nos olhos, nós balançamos juntos no ônibus lotado de manhã.

(E viva Chile!)

xadrez

Acabarão as fitinhas

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Eu faço controle de contas, tenho caderno de citações, cadernos de anotações diversas. E todos eles são marcados com uma fitinha do Senhor do Bonfim. Um dos cadernos acabou, e fui com urgência na livraria comprar outro bem bonito, porque seria mais um dos que vai me acompanhar durante anos, passeando entre os cômodos, recebendo anotações no sofá. Escolhi com todo carinho e quando cheguei em casa e fui correndo colocar a fitinha. Aí me deu aquele agridoce: eu tenho vários pacotinhos de fitinhas porque meu pai me enviou. Um dia – não sei nem dizer há quantos anos – eu mandei uma mensagem pro meu pai dizendo que estava sem fitinhas e se ele poderia me mandar algumas. Pouco tempo depois chegou uma caixa de correio com uma quantidade tão exagerada de pacotes, cada um deles com umas dez de cores diferentes. Tenho usado há anos sem me preocupar em contar, sabe quando você tem tanto de alguma coisa que é como se nunca fosse faltar? Foi um gesto de carinho de quem estava longe, de quem gostaria de oferecer muito mais e já não tinha como. “Acabaram as fitinhas”, eu pensei, como se já fosse passado. Não acabaram fisicamente, mas acabou. Já disse, assim que ele morreu, acabou Salvador, acabou tudo. Não que eu não tenha como comprar, não que eu não tenha quem me envie, mas acabou. Quem já se despediu de uma fase da vida sabe como é ver, pouco a pouco, as coisas se renovarem – peças de roupa que perdem cheiros, eletrodomésticos que ficam superados, lugares e hábitos totalmente inéditos. A cada mudança, vai embora uma testemunha da nossa história que nunca mais voltar.

Lembrar e projetar

memória e imaginação

Se a pessoa tem removida ou prejudicada a parte do cérebro relativa à produção de memórias recentes, ela também está condenada a não conseguir fazer planos para o futuro. Não apenas porque os planos são a projeção de memórias, mas também porque as nossas memórias são plásticas. Pesquisaram memórias de várias pessoas relativas ao que elas estavam fazendo no 11 de setembro e, à medida que o tempo passa, as memórias não apenas perdem detalhes como podem até se confundir com outros dados, relatos de outras pessoas, memórias do que aconteceu na época. As partes do cérebro ativadas com lembrar e imaginar o futuro são praticamente as mesmas, como mostra o print aí em cima.

De multiversos ao fato de na astrologia védica ler mapa do ponto de vista da Lua (que representa a mente), tudo me parece apontar pra necessidade de fazer as pazes com o passado. Terapia, meditação, florais, ho’oponopono, perdão – no fim desses estudos científicos sempre descobrimos que não é coincidência que esses sistemas antigos nos deixam tão mais felizes. Ocidentais e pretensamente científicos que somos, tendemos a achar que os fatos são os fatos, regidos por leis da física, cuja flecha do tempo vai apenas numa direção. Mas nós não somos rochas, somos mentes, somos versões de fatos mediados pela linguagem, e dentro de nós passado, presente e futuro são uma coisa só. Se você cada vez que você reconta a lembrança ela fica diferente, no fim ela pode ficar totalmente irreconhecível. Sem dúvida existem limites, mas a possibilidade de recontar também é a possibilidade de tornar nosso passado um lugar melhor. Lembranças diferentes também mudam as peças que usamos para projetar o futuro. Curar o hoje muda passado e futuro ao mesmo tempo.

No piano

Oliver Sacks, de tanto citar música no Alucinações Musicais, me deixou com vontade de ouvir música clássica. E com a mente vagando durante um concerto, eu me lembrei de já ter tocado piano. De manhã cedo fui atrás da prova, quase como se eu mesma duvidasse que foi possível.

pianista

Eu toquei piano por quase seis anos e havia apagado. Quem conviveu comigo na época da faculdade sem dúvida não esqueceu, porque eu amava muito tocar piano. A escola ficava do lado, atravessando a rua, e eu vivia lá. Às vezes eu pegava as partituras no meio da aula, estudava, depois voltava na maior cara de pau. Comecei a pensar se não lembrava disso por bloqueio, porque lembro que encarar os fatos – sem dinheiro, sem escola e sem piano atravessando a rua – e deixar de fazer aulas foi uma das minhas primeiras decisões dolorosamente adultas. Mas não foi isso. Como vocês podem imaginar, a foto me deixou bem nostálgica. Lembro de quem eu era na época, dos meus planos, das minhas prioridades. Pensei no quanto tudo mudou, nos caminhos que segui e que nunca imaginava, nas reviravoltas. Fiquei com aquela certeza de que a vida bem vivida passa muito mais pela variedade de experiências do que qualquer noção burguesa de sucesso. E vi que daquela dor de não tocar piano não ficou nada, porque não foi uma porta que eu fechei ou algo que morreu dentro de mim – tenho vivido intensamente aquela mesma necessidade artística, ao longo da vida ela encontrou outras vias de expressão. Há caminhos, há esperança, as coisas não serão necessariamente como estamos vendo. A vida é muito maior do que a gente.

O sol, a praia e a filha

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Naquela época não se falava de efeito estufa e câncer de pele. As mulheres estendiam as cangas na areia, se besuntavam de bronzeadores e ficavam horas deitadas. Primeiro de um lado, depois de outro, depois volta, deita de bruços e desata o cordãozinho do biquíni. As meninas, ao lado das mães ou com suas próprias cangas e ao lado de outras meninas, faziam a mesma coisa. A areia escaldante da praia era um mar de gente, de mulheres ao sol, homens protegidos por guarda-sóis ou nas barracas, vendedores ambulantes de comida, mais bronzeadores, picolés. Meu pai, que sempre quis ser pai de muitas meninas, só teve a mim, e olha que foram cinco tentativas no total. A praia era o seu quintal, seu ponto turístico, seu restaurante, o local de reunião com os amigos, nunca vi alguém gostar tanto de praia. Sem exagero, meu pai passava tranquilamente dez horas por dia na praia no fim de semana. Aí a filha dele vinha e se recusava a deitar na areia. Eu juro que tentei, mas ficar deitada no sol me dava aflição, ficava entediada em poucos minutos, como alguém podia gostar de sentir tanto calor ao invés de ir pra sombra. Eu ia para a praia porque amava o mar, amava pegar onda e almoçar acarajé. Ele tentou me obrigar ao ritual da areia, apreendia a prancha, me fazia me estender e cronometrava o tempo. Se todas as mulheres se adaptavam e diziam adorar tostar ao sol, por que eu não? Ele via que minha aflição de ficar deitada era verdadeira. Não que eu voltasse das férias branquinha, de jeito nenhum, eu pegava tanto sol que descascava por cima do descascado, não conseguia dormir por causa das queimaduras. Só que eu me bronzeava muito de ficar na água, ficava com a marca camiseta que me protegia quando pegava onda pra lá da arrebentação. Talvez a raiz fosse a falta de vaidade, a maldita falta de vaidade, a mania de me misturar com os moleques pra brincar na rua. Quando ele tentava me fazer ficar amiga das crianças mais frescas da vizinhança, as filhas dos amigos dele, ficava pior, eu as detestava. Mas pelo menos eu ia à praia, ele tinha que reconhecer que eu era a que mais gostava de praia, como nenhum dos outros filhos, tudo por causa do mar. Talvez se o destino tivesse permitido que o meu pai tivesse tido outra filha, qualquer outra filha, ela seria um tiquinho mais vaidosa, teria gostado de pegar sol. A outra voltaria pra casa cedo, pra tomar banho e vestir roupa bonitinha, andar calmamente, orgulhosa do cabelo bonito e da atenção dos meninos. Com outra filha ele não teria brigado tanto, uma guerra que às vezes era aos gritos, mas que na maior parte do tempo era um jogo de forças: ele querendo que eu fosse o que uma mulher devia ser, eu querendo ser quem eu era, independente da concepção dele de mulher. Não foi fácil pra ele ser meu pai, não era nisso que ele pensava quando dizia querer ter filhas. Mas tenho certeza nenhuma outra teria mostrado a ele, com tanta intensidade, que força e teimosia também são características femininas.

Rigor

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Eu vi que tenho que me controlar, senão acabo virando fiscal de colegas de flamenco. Fico doida quando tem férias: somos avisados semanas de antecedência, por todos os meios possíveis; somos avisados durante as férias; somos avisados dias antes; somos avisados no dia. E todo ano aparece uma: Nossa, não sabia que tinha aula hoje, saí de casa despreparada, já marquei compromisso, etc. Ou tem aqueles que simplesmente faltam. Eu sou daquelas loucas que nunca falta, que se atrasa alguns minutos todo mundo acha que morreu, porque não é possível. Além de ser uma das minhas muitas características TOCs, é lição aprendida nos tempos de dureza. Eu fazia faculdade e tive que deixar inúmeros cursos interessantes passarem porque não tinha dinheiro. Os que tinham que viajar e pagar mensalidade, claro que nem pensar; o mais triste é quando o curso era gratuito e eu não tinha dinheiro para ônibus e lanche. Quem sempre teve grana acaba não tendo noção disso, que o gasto de transporte e comida, somado a outros, pesa. Então eu sei que nem sempre conseguimos unir tempo, dinheiro e possibilidade para fazer algo. Quando posso, quero aproveitar ao máximo – e me irrita quando as pessoas não têm noção do que estão desperdiçando.

Xadrez

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Eu cito muito uma frase do Millôr que diz “jogar xadrez desenvolve muito a inteligência de jogar xadrez” não apenas pela crítica que ela faz aos que extrapolam ao dizer que certos hábitos ou atividades – ler, não comer carne vermelha,etc – mostram que o indivíduo é superior em coisas que não tem nada a ver. Cito esta frase porque tenho um problema especial com o jogo de xadrez. Acho cansativo demais pra uma diversão, não sei. Em casa nós jogávamos; conheço os movimentos desde que me entendo por gente, mas levei muito tempo derrubando tudo no chão quando começava a perder. Claro que era a pior jogadora da família. O que eu gostava mesmo era um jogo que aprendi no Manual do Escoteiro Mirim que consistia em fazer o cavalo andar por todos os quadrados do tabuleiro, sem repetir – ou seja, um desafio individual. Quando aprendi a lidar melhor com a minha frustração e comecei a empatar as partidas – o meu rei era um verdadeiro atleta – minha mãe e meu irmão pararam de jogar comigo. Mas trauma mesmo eu fiquei por causa de um namorado que adorava jogar xadrez e me obrigava a jogar com ele. Quando eu me recusava eram tantas reclamações pela minha falta de espírito esportivo, que eu era assim mesmo, que eu era egoísta, que eu isso e aquilo, que o jeito era jogar. O problema é que, mesmo detestando, eu ganhava a maioria das partidas. Aí ele me obrigava à revanche.

Ex-colega

pedras

Eu desenvolvi uma paranoia de que todos os que já foram aqui citados leram, me odeiam e querem a minha morte, de maneira que quando minha ex-colega de faculdade começou a trabalhar aqui do lado, rapidamente pensei que era o caso. Nossa amizade não terminou bem, pra nenhum dos dois lados: eu me senti perseguida por uma amiga que queria manter um grude que eu não era mais capaz; ela não deve ter gostado de se ver no papel de quem insiste e é cada vez mais ignorando. Olhando para trás, me parece que ela pode até ler como bullying algumas brincadeiras que eu e outras do mesmo grupo fazíamos, vai saber que olhar ela lança sobre ao passado. Porquê bullying: sabe aquela pessoa que rende histórias ótimas? Era ela. Por outro lado, as outras amigas ficaram num preconceito feroz e muito sério pelo namorado (futuro marido) dela não ter curso superior e etc., e fui a única a defendê-lo. Enfim, eu não sabia a que pé as coisas estavam porque, ao contrário do que imaginei, a sua reação ao me ver jamais foi de correr pra falar comigo, nem um informal “e aí?”

No dia em que eu vi True cost, eu fiquei muito mal. Uma combinação do que eu vi no filme e minha vida no dia. Era sexta-feira à noite quando finalmente terminei e vi que naquele estado lamentável era melhor sair de casa, ver gente. Decidi ir no supermercado comprar uma bobagem. Coloquei correndo um casacão enorme – fazia frio – e quando estava de saída, ouvi o barulho do outro portão. Pelo carro estacionado, eu já sabia que era ela. Não dava mais para recuar. Quando estávamos lado a lado, meu olhar concentrado no cadeado, ouço um “Boa noite!”, naquela voz muito familiar. Já imaginei suas perguntas, que nunca eram apenas sociais: eu estaria bem, e o fim do meu casamento, e o que fiz depois de desistir da profissão? Eu senti que não tinha condições naquele momento, nem pra resposta social, nem pra mentir, pra nada. Estava uma ameba, no chão, e qualquer coisa faria com que eu me sentisse tripudiada. Respondi o boa noite com um sorriso sem dentes, só puxando os lábios, me virei e fui embora. Nesse rápido movimento, ainda deu tempo de ver que ela vinha em minha direção. Pelo que conheço dela, iria me dar um abraço.

Se textos e bullying não causaram o ódio da minha ex-colega, isso deve ter bastado.

Uma conversa após ver fotos antigas

vida saiu dos trilhos

SC: outra vida. Mesmo.

FM: por isso que eu digo – na minha outra encarnação… tem coisas que é quase como se fosse outra pessoa

SC: considerando que a gente agia e reagia de forma diversa da de hoje, é outra pessoa mesmo

FM: agora ´cê imagina gente que fez a mesma coisa a vida inteira e com as mesmas pessoas

SC: deus me livre

FM: eu não gostaria de ser assim. Isso me consola com relação à ideia de não ser um sucesso

SC: esse negóz de sucesso eu já sublimei

FM: eu acho que o ideal é igual ter diploma – se um dia alguém tenta te pisar por isso, você saca da gaveta

Trouxa

“Como eu era trouxa.” – eu dizia para mim mesma, quando pensava na minha adolescência – “Ficava o tempo todo trancada no quarto, lendo, ouvindo música. Era insegura, tinha mil complexos bobos, me achava feia. Se naquela época eu tivesse a confiança e a cabeça que eu tenho hoje, teria aproveitado, saído, namorado bastante”. Adivinhem, agora, o que esta mulher madura e confiante faz todas as suas noites?

A gente é o que é, não adianta.

Riscos

Naquela última temporada que eu e minha prima passamos em Salvador, decidimos não ficar em casa morrendo de tédio e saíamos à noite. Era um programa bem inocente. Basicamente íamos num shopping à beira mar, comíamos fast food, olhávamos o movimento. O ponto de ônibus ficava quase em frente e quase todas as linhas nos levavam de volta, poucas paradas depois. Aí voltávamos andando tranquilamente pelo condomínio.

 

Em frente a casa do meu pai tem um campinho de vôlei e um quadra de futebol. Estávamos voltando e de longe vi a silhueta do meu pai pela sala. Àquela hora ele normalmente já estaria dormindo e me deu a impressão de estar dando voltas. Pouco depois as luzes se apagaram e quando chegamos a casa já estava tão vazia e silenciosa como se todos dormissem há horas. Achei que ele tocaria no assunto no dia seguinte, mas não, foi como se não tivesse acontecido.

 

Eu já passava dos vinte e na minha casa, com a minha mãe, já era muito comum que eu voltasse tarde. Mas para ele foi uma experiência nova. Lembro que comentei com ela, que falou algo como “ah, agora ele sabe o que eu passei!”. Meu pai se sentiu inseguro, assim como minha mãe já se sentira. E, como ela, teve que se acostumar. Os filhos iam sair sozinhos e ver a rua. Chegariam na hora que desse vontade, ou seja, tarde. Lá fora, sem controle. No meio de estranhos, decidindo no momento para onde ir e o que fazer. Seria bom, ruim, novo. Correriam riscos. Porque é inevitável. Porque a vida é assim. Ou era.

Uma angústia antiga

Eu estava procurando um endereço – e me afastando cada vez mais dele – numa rua e horários que nunca vou, e encontrei o Hamilton. Tenho com ele a mesma dinâmica que tenho com outro amigo, que estudou comigo no segundo grau (por falar nisso, por onde andará o Luciano?): nos encontramos por acaso, conversamos intensamente, juramos manter contato e só o fazemos anos depois, quando nos encontramos de novo na rua, sem planejar. Eu o Hamilton seguimos o ritual: encontramos o endereço que eu estava procurando, andamos até lá, gastamos, cruzamos o centro de sacolas na mão, tomamos um prolongado café e ele me acompanhou até o ponto de ônibus. No apartamento novo, ele me mostra os quadros que tem feito, as obras que comprou de amigos e artistas que admira. E que pretende voltar a esculpir, naquele mesmo atelier onde nos conhecemos, há mais de dez anos. E eu, não sinto falta de esculpir?

 

A dama (2003?)
Eu peguei meus dois ônibus, voltei para casa, vim fazer minhas coisas. Não sei dizer em que momento a alegria de ter reencontrado um amigo se tornou uma angústia. Aquela conversa que nós tivemos sobre arte. Aquela, essencialmente a mesma de dez anos atrás. “Estou pensando na feirinha, se consigo colocar numa loja aqui perto…” O que antes me parecia um problema peludo e cheio de pernas e hoje defino assim: o problema da circulação. “Esculpir e não ter onde deixar e saber que não iria vender me causava uma angústia muito grande. Eu só voltaria a esculpir se tivesse alguma perspectiva de resolver isso”. Céus, como é importante que alguém veja o que a gente faz, que saia e veja o sol, que se comente. Nem que seja escrever de graça num blog semi-desconhecido. Contei que eu cheguei ao ponto de oferecer minhas peças emprestadas e mesmo assim não aceitaram. “Esse daqui (me mostra uma colagem abstrata com mais de um metro que estava diante de mim) eu ofereci pra uma amiga, mas ela não quis porque essa bordinha dourada não ia combinar com a decoração”. Falamos dos ex-colegas artistas, da minha parte escultores e da parte dele da Faculdade de Belas Artes e curso de museologia, e ninguém continuou artista, ninguém vingou. Nosso profe que não repassava trabalho pra ninguém, será que continua assim? Provavelmente. Vejo os últimos trabalhos do Hamilton e que as peças compradas dos amigos começam a atulhar (de novo) o apartamento recém-decorado. Um monte de colagens, de madeiras, abstratos que eu mesma não sei se gosto. O problema dos preços, do público, da cultura. Estende o braço e mostra, atrás de mim: “Um quadro do (claro que o nome me foge) não pode sair por menos de mil e quinhentos”. Eu lhe falo do jornal é dado de graça porque são os anunciantes que pagam, de músico que lucra com shows e não mais com disco, que escritores escrevem de graça pros sites. “Acho isso que você está falando tão importante, vamos debater esse assunto com outros artistas, vamos nos unir e…”.
O que eu sei é que é bom isso ter passado.

Curtas de queixas vintage

Essas promoções de hoje em dia, que a gente tem que cadastrar código de barra e guardar a embalagem. Não gosto, preferia mandar as ditas pelo correio. Devia ser um problema se livrar de tudo depois que a promoção acabava, mas aí o problema era deles. O meu problema é que eu cadastro as embalagens e elas ficam por aí, estorvando. Quando vejo, joguei fora. Aí fico com medo de ser sorteada.

 

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Uma coisa que deixou de existir e ainda bem: fã que para demonstrar seu amor escreve carta pro ídolo com 10 metros de papel com a frase “eu te amo”. Aí mostrava a quantidade de caneta que a infeliz usou, etc.

 

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Já fui fã dos grandes gestos de desculpas, não sou mais. Sabe igual a cena do Richard Gere pedindo desculpas para a Julia Roberts na escada, em Uma linda mulher? Não me convence mais. Não porque a pessoa já conta com isso, em fazer uma merda muito grande e depois basta um gesto grandiloquente, uma cena pública. Sou mais ter pensado antes e evitado de me magoar.

 

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Fico doida com esses posts que usam nostalgia dos anos 80 como motivos para alfinetar as gerações mais novas. Naquele tempo andávamos na parte detrás do carro, o mertiolate ardia, a TV não tinha controle remoto e nem por isso morremos, etc. Mas se essa geração que está aí é mole, mimada e não tem a nossa firmeza de caráter, a culpa é de quem? Dos seus pais anos 80. Se achavam que os valores da nossa época eram tão bons assim, não deveriam ter criado os filhos dando tudo, levando de carro pra cima e pra baixo e superprotegendo.