O gramado

grama-esmeralda

Nunca mais olhei grama da mesma forma depois que Harari – posso quase jurar que foi no Homo Deus – contou brevemente a história dela. Grama é um símbolo de status. Lembre-se que antigamente quase a única profissão possível era trabalhar com a terra e a maior riqueza era ter terra. Imagine que alguém era tão rico, mas tão rico, que podia se dar ao luxo de ter um monte de terra inútil. Terra coberta de um verde que não serve pra nada. E que pra ficar bonito precisa de manutenção constante. E manutenção de gramado não é só cortar, precisa ver o mato. Antes de mudar pra casa, eu achava um crime que as pessoas tampassem a parte com terra, achava que se fosse eu, manteria tudo o que pudesse com grama e plantas. Aí você coloca a grama e com o tempo, por mais que você cuide, o mato se prolifera de um jeito que a grama original já não existe mais, você precisa arrancar tudo e trocar por uma grama virgem. Lembrei disso porque choveu e corri pra arrancar os matos que crescem na minha calçada. Mandei cimentar pra não ter trabalho e praticamente nasce uma forragem nova de mato todo mês. Corri porque finalmente choveu bem é quase impossível arrancar mato quando a terra está seca, de modo que esperei, vingativa e rancorosa, enquanto o sol castigava e eles se fortaleciam. E lá, acocorada e estragando minha coluna, me dei conta de que quem inventou a grama não arrancava mato.

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Carta de amor

grão comercial

Ainda escreverei sobre Mo Yan no outro blog. Por enquanto, neste mundo cheio de desamor, deixo uma carta de um camponês apaixonado em plena Revolução Cultural chinesa. Uma explicação prévia: como era uma região agrícola, todo mundo produzia o que comia, ou trocava com os vizinhos. As pessoas das poucas profissões que não eram ligadas a terra, compravam sua comida com cupons. Não ser responsável pela sua própria comida era visto como sinal de status. Isto que é “comer grão comercial”.

Minha amada, sou filho de camponês, nascido em berço humilde, tu, por outro lado, és uma ginecologista que consome grão comercial, a diferença social entre nós é enorme, talvez me desprezes e, ao terminar de ler minha carta, deixarás escapar um riso de desdém da tua delicada boquinha antes de rasgar esta carta em pedaços; ou ainda, quem sabe, nem te dês ao trabalho de ler minha carta: vais mandá-la para o lixo tão logo a recebas. Mesmo assim, quero te dizer, minha amada, minha adorada, que se aceitares o meu amor, serei como um tigre alado, um corcel ajaezado, encontrarei uma força inesgotável, estarei revigorado, lépido como se tivesse tomado uma injeção de sangue de galo novo, não te há de faltar pão, nem leite, acredito que, com teu incentivo, poderei mudar de posição social e me tornar alguém que consome grão comercial, para poder ficar do teu lado…

Se não me responderes, minha adorada, não vou recuar, não vou desistir, vou seguir-te em silêncio. Aonde fores, irei também, vou me ajoelhar no chão para beijar tuas pegadas, e ficarei em pé diante da tua janela fitando a luz de dentro do quarto, do momento em que ela se acende até o momento em que se apaga, quero ser uma vela e queimar por ti, queimar até o fim. Minha adorada, se eu morrer por ti cuspindo sangue e me concederes a graça de lançar um olhar à minha sepultura, já estarei realizado. Se derramares por mim uma lágrima que seja, já não terei morrido em vão, tua lágrima, minha adorada, há de ser o elixir milagroso que me devolverá à vida.

Mo Yan/ As rãs, 5. posição 1800 de 6018

Café universitário

Quando a Luciana esteve aqui, tomamos um café num café que fica perto de dois mundos bem diferentes que eu frequentei: o mundo acadêmico e a dança. Disse a Lu que evitava ir pra lá porque não queria encontrar pessoas da faculdade, e dei a entender que era porque eles não gostavam de mim. Ela aceitou minha explicação e na hora senti que aquela não era a verdade.

Eu mesma demorei pra entender qual seria a explicação que eu não soube dar para a Luciana. Quem já viveu vai sabe: é duro encontrar com alguém que não dá o menor valor ao que você está fazendo. Quando você revela que não está trabalhando na área, não está numa carreira promissora e não está ganhando bem, no geral dirão apenas um “ah” bem murcho – que não consegue ocultar a surpresa e o desprezo pelo que você está fazendo. Pior ainda quando o interlocutor se preocupa com você: ele se sentirá na obrigação (ou se dará ao direito) de te aconselhar. Uma amiga, uma vez, espantada em saber que eu estava dançando e não dando ou fazendo aula, ligou na hora para um professor amigo dela, no meio do almoço. Por infelicidade, o sujeito atendeu, e depois de uma curta conversa (“estou aqui com uma amiga muito competente e sem emprego), ela me fez falar com ele pelo celular. Ficamos os dois muito sem graça. A situação de estar num limbo, em si, já é toda difícil, toda constrangedora. Mas eu acho que isso não seria nada se eu conseguisse colocar convicção na minha voz, e batesse no peito dizendo que tudo é temporário, que estou nos primeiros passos de uma grande jornada. Só que eu não consigo. Eu não sei se um dia o caminho que eu escolhi me dará o status e dinheiro que se espera de mim.

Alguns encontros me fazem pensar no Enéias, com apenas quinze segundos pra resumir toda uma vida. Nem eu consigo entender direito o que estou fazendo, quanto mais resumir e passar certeza. Para esse tipo de contato, há de se ter uma armadura brilhante à disposição. Eu tenho preferido evitar certas regiões da cidade.