Trazer alegria

marie kondo

Começou uma onda Marie Kondo quando apareceram os episódios na Netflix e, como sempre parece acontecer na internet, depois das reações iniciais boa, a moda virou e o bacana é detestar a Marie Kondo. Mas mesmo entre aqueles que disseram que não têm paciência com o jeitinho dela, acabam repetindo um conceito fundamental do seu método: trazer alegria. Além de ver os episódios, li o livro, e achei que ele realmente dá dicas valiosas. Percebi que eu me desfaço com facilidade de roupas, mas me dói muito lembranças e presentes. Coisas que nem ao menos gostei quando ganhei, atulham minha vida, e não acho correto me livrar. Ela dá alguns conselhos práticos a respeito e recomendo a leitura – só procurar pelo nome dela no LeLivros, caso você queira baixar.

Conversando com amigas sobre a Marie Kondo interior, eu percebi que consigo me desfazer com facilidade porque minha mãe me fez associar esse descarte com alegria. Limpávamos meus brinquedos periodicamente, e ela sempre destacou que aquele brinquedo que eu nem lembrava mais que eu tinha faria uma outra criança desconhecida feliz. Sempre acabo imaginando que, em algum lugar da cidade, tem uma pessoa com a roupa que não me caía bem ou o bibelô que eu não gostei, e feliz da vida.

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Coisas demais

Todo ano faço limpas. É um hábito que trago de casa. Desde pequena eu era estimulada a me livrar das coisas. Pegava o meu baú de brinquedos e devia me livrar do que eu não queria mais, deixar que outra criança brincasse com aquilo. Lembro que uma vez quis me livrar de uma mini casinha e minha mãe me impediu, porque a achava tão linda! E assim sempre fizemos com roupas, objetos. O critério não é apenas o que está velho, quebrado, fora de moda ou que não serve mais. As pessoas se impressionam quando vêm minhas limpas, com tantas coisas ainda novas e bonitas. Eu me livro do que não uso, mesmo que esteja em ótimo estado. Levo para alguma instituição e penso que alguém usará aquilo com tanto prazer quando eu um dia usei. Não quero e nem preciso olhar para a cara dessa pessoa; alias, a caridade dirigida, em que a pessoa que recebe se sente impelida a ME agradecer sempre me incomodou. Gosto mais da caridade anônima, não quero que ninguém se sinta em dívida comigo. Não sou eu que estou fazendo um bem em dar e sim ela ao receber.

 

A cada ano que passa, tenho sentido mais vontade de me livrar das coisas. Tenho a maior empatia com os sites Casas Pequenas e Menos VC. Ter coisas nos dá prazer quando compramos, quando usamos… só que depois se tornam prisões. Elas nos preocupam por quebrar, por bagunçar, por envelhecer. Precisamos armazenar, limpar, manter. E assim nos tornamos mais pesados, enraizados no pior sentido. Invejamos aqueles que largam empregos, casamentos ou cidades ruins e depois não sabemos o porquê.

 

Ainda estou longe demais de ser uma pessoa que carrega tudo o que tem numa mochila; quem dera ainda tivesse apenas um baú de brinquedos… Embalar minhas coisas requereria muitas horas. Seriam caixas e mais caixas. Mas eu pelo menos me incomodo, estou tentando ser cada dia mais simples.

Menos é mais?

Duas pessoas diferentes postaram no Facebook um tema que me interessa: casas pequenas. O Alessandro até mostrou que existe um tumblr dedicado a esse tema, e que eu já estou seguindo. Esse tumblr é daquelas coisas que quando a gente vê se pergunta porque não fez antes, porque o tema sempre esteve à espera. Também vejo dessas casas e não resisto à vontade de querer entender como funciona, adotar uma dessas, de viver assim também. Gosto da idéia do espaço bem aproveitado, de viver apenas com o essencial. Elas são como caixas de surpresa, o raciocínio contrário da ostentação – quase nada por fora, um tesouro por dentro. Perto daqui tem uns condomínios de casa, com terrenos razoavelmente grandes e quase todos estão ocupados por casas que vão quase de muro a muro. Sempre penso que, idealmente, no lugar dessas casonas, eu teria construído uma casa pequena e feito um belo paisagismo em todo o resto. Uma casa ampla com armários espaçosos acabam sendo um convite à acumulação, às tralhas. Quanto mais temos, mais cuidado essas coisas nos exigem. Ter coisas demais nos engole. Gostaria que as minhas coisas coubessem em algumas caixas, invejo a liberdade dos que têm tudo o que precisam dentro de uma mochila.
Ao mesmo tempo, Andre V expressou sobre essas novas casas pequenas algo que sempre senti:
Sempre que eu vejo essas matérias sobre “como viver num apartamento de 30m” me sinto LESADÍSSIMO. pq a solução sempre envolve o uso maciço de marcenaria que em geral custam MAIS QUE O APARTAMENTO. Dai se você pode gastar 350 mil num apartamento será mesmo que você precisa viver num apartamento de 23m ?
Ou seja, o custo de super casas pequenas da moda acaba pervertendo o sentido de tudo que eu disse acima, não?

Explicação

Volta e meia ainda vejo algum programa sobre Acumuladores. Depois de muitos acumuladores, a gente acaba sabendo antecipadamente se alguns casos tem solução ou não. Alguns procuram o programa realmente exaustos, e se desfazem de tudo como quem tira de si um corpo estranho, um tumor. Outros estão por motivos diversos, geralmente pro pressão da família, e inventam mil desculpas, racionalizam, colocam a culpa nos outros. Esses a gente já vê que vão irritar muito e desacumular pouco. A que eu vi no domingo passado era desses últimos casos, e  foi uma das mais irritantes.

A mulher se dizia uma ambientalista. Ela fez discursos sobre a cultura de desperdício dos EUA, sobre a desigualdade social e a reciclagem. Tudo para justificar a casa imunda que tinha. Quando apareceu com a equipe em casa, se dizia indignada – “Tudo isso daqui estava em caixas, não sei quem veio aqui e jogou tudo empilhado dentro do quarto!” Quando retiraram as suas coisas, o escândalo que ela fez ao ver as coisas na caçamba foi justificado pela sua preocupação com o meio ambiente, que havia muitas coisas de metal em meio ao lixo, e ela não admitia que o metal não fosse separado para reciclagem. Ela conseguiu limpar apenas três cômodos, e no início do programa o genro falou que ela tinha quatro depósitos que não revelava à ninguém onde ficava, e mesmo assim ela terminou o programa com a reflexão de que “é uma missão que eu tenho, de mostrar ao mundo o quanto as coisas podem ser aproveitadas”.

Acho que nunca conheci uma pessoa acumuladora, mas justificativas esdrúxulas me são bem familiares. A pessoa mente tão bem para si mesma que nada consegue convencê-la do contrário. Quanto mais inteligente a pessoa, maior a capacidade de fazer isso, mais bonita a versão. Pouco importa se a vida é um lixo – para muitos uma boa versão é mais do que suficiente.