O vampiro pianista

vampiro no piano

Já tentei me dedicar a diversas modalidades artísticas, chegando a ser mediana ou boazinha em algumas. De tudo o que eu fiz, acho que a que eu consegui alcançar um nível melhor é a escrita. E a escrita comprova a impressão cada vez mais forte que eu tenho de que a arte é muito uma questão de tempo. Hoje consigo nos meus escritos uma fluidez e um humor que não conseguia antes, mas, pensem bem, o antes tem quase quatorze anos! Talento existe, e como existe – você vê a pessoa muito talentosa começar a fazer aula quando você é veterano, no ano seguinte vira seu colega de classe e depois segue adiante. Mas se você é formiguinha, insistente, TOC e/ou sem noção o suficiente para insistir apesar de aprender muito lentamente e ter dificuldade de expressar, acaba conseguindo alguma coisa. Esta sou eu, e minha alcunha exasperante de “esforçada”, porque esforço talvez seja o que me resta. Por isso que eu me pergunto se uma pessoa que não tivesse o problema do tempo, como um vampiro, e insistisse o suficiente para enfrentar as todas as barreiras, se ela pessoa poderia chegar à excelência artística. Uns vampiros poderiam demorar “apenas” cem anos e outros quatrocentos, mas eu acho que a resposta é um sonoro SIM.

(Acho que os diretores de filmes estão do meu lado. Fui procurar foto pra colocar no post e me parece que todo vampiro famoso toca piano)

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No piano

Oliver Sacks, de tanto citar música no Alucinações Musicais, me deixou com vontade de ouvir música clássica. E com a mente vagando durante um concerto, eu me lembrei de já ter tocado piano. De manhã cedo fui atrás da prova, quase como se eu mesma duvidasse que foi possível.

pianista

Eu toquei piano por quase seis anos e havia apagado. Quem conviveu comigo na época da faculdade sem dúvida não esqueceu, porque eu amava muito tocar piano. A escola ficava do lado, atravessando a rua, e eu vivia lá. Às vezes eu pegava as partituras no meio da aula, estudava, depois voltava na maior cara de pau. Comecei a pensar se não lembrava disso por bloqueio, porque lembro que encarar os fatos – sem dinheiro, sem escola e sem piano atravessando a rua – e deixar de fazer aulas foi uma das minhas primeiras decisões dolorosamente adultas. Mas não foi isso. Como vocês podem imaginar, a foto me deixou bem nostálgica. Lembro de quem eu era na época, dos meus planos, das minhas prioridades. Pensei no quanto tudo mudou, nos caminhos que segui e que nunca imaginava, nas reviravoltas. Fiquei com aquela certeza de que a vida bem vivida passa muito mais pela variedade de experiências do que qualquer noção burguesa de sucesso. E vi que daquela dor de não tocar piano não ficou nada, porque não foi uma porta que eu fechei ou algo que morreu dentro de mim – tenho vivido intensamente aquela mesma necessidade artística, ao longo da vida ela encontrou outras vias de expressão. Há caminhos, há esperança, as coisas não serão necessariamente como estamos vendo. A vida é muito maior do que a gente.

Retrato

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Eu sempre ficava imaginando uma pessoa que ia ingenuamente pedir pro grande artista Lucian Freud um retrato, ou que fosse convidado por ele a posar. Na minha imaginação, essa pessoa não faria qualquer pesquisa prévia e se veria na obra apenas depois de pronta. Duvido alguma reação que não seja de choque num primeiro momento, um abalo na auto-estima. De se sentir reduzido e retratado da forma mais cruel possível. Eu me sinto nessa situação, como um Lucian Freud, quando alguém tem a expectativa de ser descrito por mim. Eu sou boazinha, vocês dirão. Mas talvez seja ainda pior. Aquele que descreve o bizarro e acaba com a pessoa de cima abaixo, acaba ficando caricato e tudo o que dizer é cortado pela metade. Eu não. O ego é uma coisa frágil, e no meio a uma cascata de adjetivos, pode escapar um ruim. Pior: eles podem ser neutros demais, de maneira que a pessoa se descobre banal – antes ser vilão do que banal! Aí o efeito seria Lucien Freud. O que eu poderia dizer para quem conhece pessoas que escrevem: não queriam ser retratados, tenham medo de ser retratados.

Cores do mundo

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Do filme “Com amor, Vincent”.

Já é sabido que a depressão atua de uma forma específica nos neurotransmissores responsáveis pelos sentimentos positivos, e nesse estado o mundo parece cinza e sem gosto. Se é fato para a depressão, podemos extrapolar esse raciocínio e concluir que também há aqueles que sentem mais prazer e vivem num mundo mais colorido. Quando lemos Cartas a Theo, concluímos que a pintura de Van Gogh mostra exatamente como o mundo era aos seus olhos, que ele via e sentia com mais intensidade do que nós. Sempre pensei nisso nos ônibus lotados de manhã, as pessoas espremidas na porta, sem conseguir nem se segurar, caindo umas por cima das outras cada vez que o ônibus partia pra outro ponto, e algumas pessoas começam a gargalhar do seu próprio ridículo. Ou a amiga de anos, cuja vida já mudou tanto desde que a conheci e sempre que eu pergunto como ela está sua resposta é um “é…” desanimado. Às vezes as coisas estão bem enroscadas, assim como às vezes seguem a rotina ou aparecem surpresas boas. Mas ela tem o dom de encarar com normalidade qualquer prêmio de loteria e ver na unha encravada a prova de que a vida não a deixa em paz e nada melhora para ela. Por isso que o “oh, vida, oh azar” é irritante, porque dá pra perceber que ele não é uma consequência direta da realidade.

E muito pior do que os queixosos, essa onda de ódio. Indignação no café, medo no almoço, ódio no jantar. Touros furiosos à procura de vermelho para ficarem mais furiosos ainda. É como andar o dia inteiro no esgoto e reclamar que só vê ratos. Há certas escolhas que escapam à minha compreensão.

A árvore que cai na floresta vazia

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Antes de mais nada: a atitude mais antifilosófica que pode existir é a resposta imediata. Este é um dos grandes males do nosso mundo hoje, talvez a origem: a necessidade de responder de uma vez que sim ou que não. O zen – pelo menos o zen com que sonhei a minha vida inteira através dos livros – trabalha justamente com a atitude contrária. Ele tem os chamados koans, que são perguntas que podem não fazer muito sentido e que servem de objeto de meditação para o discípulo. Num deles, se perguntava se Buda realmente existiu. Acho forte pedir para alguém que largou tudo e se propôs a uma vida monástica colocar em dúvida se o ser que teria dado origem à sua religião. Aqui, do lado cristão, as pessoas agem como se Deus fosse ficar ofendido.

Depois de anos sem ler sobre o zen, me pego com este koan dançando na mente:

Se uma árvore cai numa floresta e não tem ninguém lá para ouvir, será que ela faz barulho?

Eu vi e testemunhei momentos lindos. Tive uma professora de balé que quando se aproximava da barra para mostrar um exercício modificava a ar à sua volta de uma forma que céu e terra se encaixavam. Conheci uma recepcionista com um bom humor invencível e que conseguia tirar o melhor de quase todo mundo que cruzava seu caminho. Eu vi carinho e generosidade de quem não tem nada ou quase nada, vi lágrimas de amor em ponto de ônibus, desconhecidos que se ajudam na rua cientes de que nunca mais se verão. Eu me pergunto sobre performances artísticas com energia de mudar o mundo e que tiveram meia dúzia de parentes como público. Eu já vivi, como tantos outros já viveram, estalos internos e arrebatamentos que não podem ser descritos em palavras. As estrelas olham para nós e eventualmente olhamos para elas no mesmo momento. Amazônias inteiras. Como, aonde?

Frustração, frustração e Chico

Eu descobri uma vez um escritor frustrado, que era amigo de outro escritor frustrado. Era – pouco tempo depois da descoberta, eles devem ter tido alguma briga e se bloquearam no face. Tanto que depois não descobri mais o Fulano, porque o nome era comum e eu contava com o outro para encontrá-lo. O fato é que ele tinha algumas coisinhas publicadas no mural, e na impossibilidade de julgar a qualidade delas, coloquei num grupo de amigos, sem qualquer introdução. De primeira, gostaram, acharam que embora escatológico era interessante e bem escrito. Na segunda – “é o cara do cocô de novo? Já deu!”. Não sei o que pensa um escritor da Finlândia, eu sei que aqui é muito fácil dizer que a culpa das edições pagas com o próprio bolso não venderem é de temos um pouco inculto, que mal abre um livro, etc. Tenho muito medo de ficar assim, de verdade.

Bem naquela época eu estava viciadinha nesta música do Chico. Tem aquela brincadeira que nenhuma mulher diria não pra ele, né? Ouvindo esta música, mergulhando nesta música, colocando história e rosto na música, pensei no quanto o Chico é doce. Talvez seja o momento que tenha me dado um Eureka. Cresci ouvindo Chico e às vezes um artista está tão sempre na nossa cara, tão dado e normal, que perdemos a dimensão da sua genialidade. O Chico é um doce. Uma música de fala de sexo de uma maneira intensamente terna. A gente se sente lá, naquele momento que depois pode não dar em nada, ou em crime, mas que é lindo, confuso, apaixonado e se carrega pela vida inteira. Pensei que era esse o problema do primeiro e do segundo escritor frustrado: um grande artista nos leva para o mundo dele. Queremos estar com ele, pulsar ele, ver com os olhos dele. Pra ficar no rame-rame ou pensar em cocô, ninguém precisa de ajuda.

O engenheiro de obras do Niemeyer

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Meu pai é engenheiro e meu irmão é arquiteto. Esse meu irmão me ensinou a apreciar o trabalho de Niemeyer, a radicalidade do seu trabalho que não se parece com mais nada, nem com seu entorno. Meu pai diz que a questão não é o Niemeyer e sim o engenheiro de obras do Niemeyer. O Niemeyer desenha a curva fabulosa e é o engenheiro que tem que fazer o cálculo de como tornar aquela curva viável, resistente, usável. Voltei esse comentário com o meu irmão, que rebateu:

É verdade. Mas se depender do engenheiro ele faz uma reta e pronto, faz tudo reto. É o Niemeyer que joga pra frente, que obriga a fazer o que de outra forma ele jamais faria na vida. Niemeyer lança o desafio e o engenheiro tem que correr atrás.

Vocês viram This is it? Viram documentários sobre o Darcy Ribeiro? Trabalhar com gente assim dói no lombo e é bão.

Batalha

Há poucos dias uma artista que eu sigo no Facebook, e com quem não tenho intimidade, postou a notícia de uma performance que teve na USP de uma moça pintada de preto e era mijada por um rapaz. Ela estava indignada com o absurdo, convocou um amigo negro e disseram que aquilo era apologia à violência e ao racismo. Junto com outra amiga dela, eu disse que não via assim, que era justamente o contrário: o choque era para mostrar as relações entre negros x brancos, homens x mulheres. Ela não disse nada e eu, por ver nela uma pessoa envolvida com arte, interpretei seu silêncio como concordância. Dias depois, a vi compartilhar um texto com a mesma posição sobre a tal performance. Aí eu entendi que ela não concordou e sim me ignorou. Que não quis discutir comigo por achar que não vale a pena entrar em discussões – política que eu também adoto na maior parte do tempo -, mas que meus argumentos não mudaram nada. Eu acho chato problematizadores enfurecidos, então entendi a posição dela. Ao mesmo tempo, fiquei decepcionada e desativei as notificações.

Este vídeo não tem, por parte do Porta dos Fundos, nenhuma mensagem subliminar. Mas ele representa como eu tenho me sentido diante da mais nova mentalidade medieval brasileira.

Amor sem a pobreza de usar a palavra Amor

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Toda forma de arte com um propósito definido acaba se tornando pobre. Tenho sentimentos religiosos com livros, raios de sol, ar puro, café quentinho, acariciando o pelo da Dúnia… se deixar até mesmo no ônibus ou escolhendo legumes, mas nunca, jamais, ao ouvir uma música gospel. Uma música ou forma de arte com propósitos claramente moralistas. Percebo a mensagem e minha inteligência se ofende porque dão a pergunta, a resposta e ainda por cima me descrevem as etapas. A boa literatura sabe faz tempo: a melhor forma de falar de um sentimento é transportar a pessoa para lá.

Shmuel olhou para ele e descobriu naqueles momentos o quanto seu rosto monolítico – um rosto cujo escultor tivesse desistido dele no meio do trabalho de esculpi-lo, com o queixo afilado se projetando à frente e o bigode grisalho e desgrenhado – de repente lhe era caro. A feiura do velho lhe parecia uma feiura atraente, cativante, uma feiura tão marcante que era quase uma espécie de beleza. Foi tomado de uma imensa vontade de tentar consolá-lo. Não de fazê-lo esquecer sua dor, mas, ao contrário, tomá-la para si, de arrastar com força para si mesmo algo dessa dor. A grande e sulcada mão do velho homem estava pousada sobre o cobertor, e Shmuel, delicadamente, hesitantemente, pôs sobre ela a sua mão. Os dedos de Guershom Wald eram grandes e quentes e circundaram, como num abraço, a mão fria de Shmuel. Por alguns instantes a mão do velho abraçou os dedos do rapaz.

Amós Oz/ Judas, 36.

Encontrar a sua Drag

Em primeiro lugar: Ru Paul´s Drag Race é o máximo. Netflix.

Antes eu pensava que o objetivo de toda drag era ser uma grande diva. De certa forma é, mas não dá forma que eu imaginava. Não é escolher Cher ou Beyonce ou qualquer outra e querer ser igual a ela. Para algumas é realmente ficar o mais parecida o possível com uma modelo, com as impressionantes drags deste (meio desatualizado) vídeo – a número 1 é linda num nível de dar ódio. Mas existem físicos de todos os tipos por detrás das drags, assim como personalidades e gostos. Nem todas ficariam bem tentando enganar que nasceram mulheres e o que vejo nas Drags é um profundo conhecimento de si mesmas. Têm as que amam glamour da Hollywood dos anos 50, têm as que gostam de algo meio creepy, as engraçadas, as nerds, as fashionistas… E a graça do programa é que, mesmo não se montando, a gente se identifica tanto com elas. Eu vejo essa busca da “minha drag” muito clara dançando, porque depois de algum tempo a gente percebe que não basta ver um vídeo e escolher a sua bailaora preferida, que há uma maneira própria de cada um se mover e o que é preciso é achar a maneira mais bela de fazer o que você já faz – e ficar pelo menos aceitável no que você não faz. E mais pra baixo do dançando, vejo isso como mulher, quando procuro a maneira de ser mais bonita com o físico que tenho, com o que desejo que os outros vejam em mim, com a minha vida e quem eu sou. Pras drags é uma jornada descobrir as suas divas, como dar tridimensionalidade na hora de se maquiar, como andar de salto, que cabelo fica melhor… e pra nós também.  E como pessoa, me pergunto: o que eu tenho, o que me torna única? No meio dessa mistura de experiências, temperamento, objetivos, visão de mundo, defeitos, qual sabor prevalece, para onde caminhar, para que lado fica mais memorávellegendário?

Abaixo a minha drag preferida: a poderosa e hilária Bianca del Rio.

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A grandessíssima forma cultural mais elevada

Tem a história que todo mundo já deve meio conhecer, do sujeito que encontra outro dormindo debaixo da árvore e quer convencê-lo a trabalhar. As perguntas vão indo e, no final, o cara da árvore leva o raciocínio até o fato de o grande privilégio de ter muito dinheiro era fazer exatamente aquilo que ele, sem dinheiro nenhum, já estava fazendo. Com suas ressalvas, eu me pergunto se o discurso em torno da cultura letrada, acadêmica e elevada não é um pouco assim, como se fôssemos o primeiro cara da história, o capitalista. Ler, ouvir música e meus vários envolvimentos com a cultura podem realmente me engrandecer como pessoa, mas isso é um efeito secundário. O que leva alguém a um livro ou uma música é o prazer – acredite em mim, quem diz que lê para melhorar vocabulário ou se informar nunca é um grande leitor. Com a cultura buscamos um prazer que vai além do simples comer e fazer sexo; existe um prazer etério, fora do chão, uma imersão em algo maior. Não me parece que a cultura seja um fim em si mesma, talvez seu grande objetivo seja nos tornar mais humanos. O que eu sinto ouvindo Schumann o outro pode sentir com coisas diferentes, eu não tenho como saber. Então, muita calma nessa hora de classificar as pessoas.

(Não acho que ele se importe mas não custa dizer: o Milton Ribeiro que indicou este vídeo)

Arte degenerada

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Quando eu vi Arquitetura da Destruição, uma das coisas que me assustaram no filme foi perceber que eu e Hitler, no campo artístico, tínhamos ideias parecidas. Assim como ele, eu também gosto mais da arte clássica, renascentista, e tendo a ver a arte moderna pura e simplesmente como arte ruim. O filme me fez pensar que se por acaso eu fosse alçada à condição de semi-deusa, que qualquer coisa que eu pensasse ou dissesse foi levada tão à sério que adquiriria o status de dogma, minha ignorância e limitações estéticas trariam um período de ignorância e obscurantismo artístico. Porque é isso o que vemos no filme, a exaltação de uma arte voltada aos ideias nazistas de força e perfeição e empobrecida de outros aspectos – o que dá uns 95% da própria essência da arte. Quando vemos a arte produzida por períodos ditatoriais de outros países – penso na China Comunista e URSS, mas devem haver outros exemplos por aí – há o mesmo fenômeno.

Eu não sou uma pessoa tão inculta e condenável assim por ter minhas limitações de gosto artístico, vai. E nem Hitler. Todos nós temos gostos limitados, ninguém dá conta da totalidade da existência. O que para mim é sujeira e ruído, para o outro pode ser a forma de expressão possível. O que eu vejo como erro e pecado, para o outro pode ser liberdade ou redução de danos. O erro está em um gestor ter tanta certeza da sua posição que a transforma em verdade para uma cidade ou país, quando transforma em lei ou atitudes. Para decidir sobre o corpo dos outros, a escolha dos outros, a arte dos outros, o melhor ainda é perguntar pra eles.

Apenas mais um

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O “apenas mais um” é um problema que atinge todo mundo que tem algum dia uma pretensão criativa, não digo nem artística. Fiquei tão impressionada pelas primeiras páginas do remorso de baltazar serapião, que pensei: Pra que é que eu escrevo mesmo? (Porque se parar fico louca). Me deu aquela sensação de inutilidade, a certeza de que jamais conseguiria algo tão lindo, que o mundo já tinha o Mãe e eu não tenho nada a dizer. E mesmo o Mãe, tão original, tem muito de Guimarães Rosa. Tem um trecho de uma carta do Van Gogh – tenho a citação em algum lugar, se estivesse com mais paciência buscaria – em que ele diz que é tão difícil produzir algo bom, que o fazer demanda dele de tanto tempo, gasto e dedicação, que seria muito mais fácil comprar um quadro pronto de uma vez. Eu tenho contemplado muitos horizontes e tentado me convencer de que isso me basta, porque duvido muito da minha capacidade de colocar no papel uma profundidade que nem tenha.

Enfim. Tudo isso pra dizer, que apesar do desespero e do pessimismo, de vez em quando surge uma luz. Estou lendo a incrível biografia do Richard Burton e ele está num momento pessoal difícil e vai passear nos EUA. Ele já era famoso e polêmico, autor de alguns livros e era do tipo que escrevia sem parar. Como não poderia deixar de ser, ele escreve sobre esta viagem e:

Burton foi transferindo suas notas para uma versão definitiva à medida que prosseguia a viagem – sua capacidade de trabalho é sempre admirável! – , e sua visão dos Estados Unidos é viva, fresca, aguda, procedente. The city of saints é uma de suas melhores obras, mas infelizmente não veio a receber grande atenção. Quantos leitores de língua inglesa estavam interessados em mais um relato de viagem pelo Novo Mundo por mais um inglês? No entanto, o livro é uma narrativa preciosa de um viajante experiente, atento a todos os detalhes, à língua, às nuances, de uma nação em desenvolvimento dinâmico que apresentava um alto grau de civilização na costa leste e uma barbárie crescente à medida que se avançava para o oeste. Ali se encontravam os imigrantes, os soldados, os criminosos, os andarilhos, as mulheres arraianas, as tribos de índios, os funcionários do governo, os santos e os malandros, as belas jovens de sempre (índias e brancas). As condições sociais, as visões da democracia, conselhos ao exército sobre a maneira de tratar com os aborígenes (os índios eram, para Burton, uma espécie de beduínos), relações de rotas e paradas, o sistema jurídico e a justiça de fronteira, análises de matérias-primas e águas alcalinas, as nascentes dos rios, o tempo, as condições do solo – são os Estados Unidos dos meados do século XIX em quinhentas páginas de texto e apêndices, que raramente se tornam enfadonhas.

Edward Rice/ Sir Richard Francis Burton: o agente secreto que fez a peregrinação a Meca, descobriu o Kama Sutra e trouxe As mil e uma noites para o ocidente, p.345

Mutilação

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Me disseram que todo grande autor – ou artista – é um mutilado. Neste sentido aqui:

Eu também já fui inteiro e, então, as coisas para mim pareciam naturais e confusas, estúpidas como o ar; acreditava ver tudo, quando na realidade só via a casca. Se você se reduzir à metade de si mesmo, eu lhe asseguro, meu rapaz, passará a compreender coisas que estão além da inteligência comum dos cérebros inteiros. Terá perdido metade de si e do mundo, mas a metade que restar será mil vezes mais profunda e mais preciosa. E então você desejará que tudo seja partido e despedaçado à sua imagem, porque a beleza e a sabedoria e a justiça só existem naquilo que é feito aos pedaços.

Italo Calvino/ Visconde partido ao meio

Ainda estou pensando.

Rei Davi

O estranho é que eu conheço a música não apenas por causa do Shrek, mas também porque a Anne comentou sobre ela no blog, dizendo que amava a versão do Rufus. Lembro que gostei, que fui atrás, até gravei num CD. Mas quando ela foi compartilhada há poucos dias no meu facebook, na versão de Choir! Choir! Choir!, foi como se eu a tivesse ouvindo pela primeira vez, e fui atrás da letra e foi como se estivesse a par do que ela dizia pela primeira vez. Ao contrário de quase todo mundo que eu conheço, a Bíblia nunca foi a referência religiosa da minha casa; conheço as histórias bíblicas por uma questão de cultura geral e nunca pelo viés da fé. Talvez por isso, a história do arrependimento do Rei Davi nunca fez sentido pra mim. Sempre achei uma solução fácil demais, fazer tudo aquilo e depois que alguém joga a verdade na sua cara, “puxa, é mesmo, errei”, faz dancinha e está tudo resolvido. Hallelujah é tão bonita que nos coloca na carne do rei. Agora o arrependimento do Rei Davi não apenas faz todo sentido pra mim como me é muito próximo. Que música!

Imortais

Se eu vivesse eternamente, como os vampiros, o que faria? Na época que gostava do tema – Anne Rice, novela Vamp, Drácula de Bram Socker, Crepúsculo… acho que toda geração tem seu vampiro referência – minha resposta era fácil: aprenderia piano. Tentei aprender piano, amava tanto e era tão ruinzinha. Não tinha nem vinte anos e já estava velha demais, não tinha mais tempo pra sonhar em ser concertista. Para isso, eu precisaria ter começado pelo menos dez anos antes, numa idade que nem seria eu a escolher. Se eu fosse vampira, poderia sanar a educação musical que não tive na infância. Que eu precisasse de vinte, trinta, cem anos pra finalmente conseguir fazer os meus dedos entenderem as teclas, eu o faria. Nessa mesma época eu também achava que até chegar a idade de eu ficar velha, a Ciência teria avançado o suficiente pra evitar isso – evitar que meus cabelos ficassem brancos, que o meu corpo perdesse a vitalidade, que meus hormônios diminuíssem. Não avançou, não avançará.

Já Borges, muito mais inteligente do que eu, imaginou os homens eternos como bárbaros entediados. Depois de experimentar todos os sabores e todas as experiências várias vezes, nenhuma mais teria graça.

A morte (ou a sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por se dissipar como o rosto de um sonho. Tudo entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do casual. Entre os Imortais, por sua vez, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outro que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até a vertigem. (O imortal/ O aleph)

Eu vejo o que o tempo e a prática faz em mim. A gente vai pegando o jeito, os cacoetes, absorve e aprende mesmo sem querer. Só de estar junto e de ouvir falar, de fazer de novo e de novo, vai se tornando outro, aumenta o repertório. Nesse ponto, continuo achando minha teoria corretíssima: com todo tempo do mundo, daria pra ser bom em qualquer coisa.

O talentoso é gente como Liniker, aquele que precisa de pouco tempo. É quem aos dezenove já tem a voz, jeito e projeção que outros levam décadas pra construir. Somos dois gráficos que caminham em direções opostas: uma expressão que cresce, uma vida que decresce. O desafio é o que se consegue fazer no intervalo.