Curtas aprendizagens

trufas

Uma torneira começou a ficar chata de fechar, até que chegou um ponto que ela pinga sem parar. Já sei que é uma borrachinha que fica bem na ponta da torneira e ela arrebenta com o tempo e tem que trocar. Sei também que pra quem tem o material, é estupidamente fácil. E entrei em contato com o vizinho que troca antes das gotinhas virarem jorro e dei um prazo largo pra ele vir, pra depois não vir me cobrar os olhos da cara.

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Passei muito mal na semana logo após as eleições, um desanimo digno dos dias depressivos das piores fases da minha vida. Aí acabei comentando com uma que me parecia boa pessoa, que estava decepcionada com a espécie humana em geral, e ela falou: agora é torcer. Meu desânimo só me permitiu dizer que torcia para que ele fizesse o mesmo dos seus trinta anos de vida pública, ou seja, nada. Agora ganhei mais uma pessoa que me hostiliza.

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Mas: 1. Há muito tempo eu sei que gostarem de mim é apenas bônus, que as pessoas não têm obrigação desde que ajam com profissionalismo. 2. Isso vai me dar o motivo que eu estava precisando para não ir em confraternização. Como já disse antes, estou decepcionada com a espécie humana em geral.

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Tem uma bandeja com docinhos perto do caixa, vários sabores, todos parecem bons. Pergunte pro caixa qual o mais gostoso deles, ele sem dúvida já provou todos.

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Eu fui num cartomante três vezes. Digamos que foi como se nas três ele dissesse a mesma coisa, com a desvantagem que ele foi falando cada vez menos. Reli essas anotações e é interessante como a gente só ouve o que quer, só dá destaque ao que quer. De lá pra cá, algumas coisas dentro de mim mudaram de tal maneira que o que era ruim agora me soa como algo bom. Estou dizendo para o Universo: agora eu quero, se era isso que faltava, manda!

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Um sonho muito simples

una vida chiquitita y normal

Eu estava conversando com um amigo e ele me contou que tinha uma vontade muito grande de andar naqueles carrinhos com motor no supermercado. Aqueles exclusivos para pessoas muito idosas e/ou com problemas de locomoção. Era mais do que uma vontade qualquer, era um sonho. Mas com seus vinte e poucos, alto, forte e super saudável, jamais iriam deixá-lo fazer isso. “Você quer mesmo andar naquele carrinho, muito, é importante pra você?” Sim, ele respondeu. Eu me senti dentro de um livro do Sidney Sheldon. Como a história do carrinho é pequena, vou contar do livro: a personagem era uma mulher ambiciosa e sedutora, e pretendia ajudar um homem a fugir do país. Acho que era judeu, na época da guerra. Mas ela não sabia como fazer. Aí, numa festa, encontrou um escritor e disse que estava escrevendo um livro e empacou, não sabia como salvar o personagem. Ela contou para ele a sua situação como se fosse um livro. O escritor inventou na hora a saída: colocar o judeu no porta-malas enquanto a mocinha fazia um figurão nazista levá-la para um passeio, atravessando a fronteira. Assim ela fez e salvou o judeu.

Voltando ao caso do supermercado. Eu sugeri ao meu amigo chegar no supermercado mancando, dizer pro funcionário que havia acabado de se machucar no caminho e se poderia, se não fosse muito incômodo, fazer suas compras com um daqueles carrinhos elétricos. Deu certo.

A verdade está lá fora

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Eu achei que com o tempo ia parar, mas continuo ouvindo uma sugestão que para mim não faz o menor sentido: eu deveria largar tudo e ir morar no exterior. Largar tudo. Não tenho nenhum contato ou oportunidade de emprego à minha espera, qualquer vínculo que me puxe para outro país. O que as pessoas esperam é que eu vá, de qualquer jeito, para qualquer lugar, que qualquer país é melhor do que permanecer aqui. Que estar na cidade que eu domino, onde tenho amigos e contatos e a vida toda estabelecida não me serve de nada. Feliz mesmo eu seria em outro país, que subemprego, morar mal e estar cercada por pessoas que falam uma língua que não domino e que não querem saber de mim é muito melhor, apenas por ser estrangeiro. Vê se algum europeu acha que a vida de classe média no país dele não é nada diante da eletrizante experiência de viver mal no Brasil. Eu hein.

Estímulo

Por causa do ódio que eu tinha das aulas de ballet quando criança, bailarinos não em despertavam nenhum tipo de inveja. Não achava nada demais nas habilidades de alguém num palco, que fazia questão de nem prestigiar. Quando ao físico, achava que essa gente precisava ganhar uma pãozinho com manteiga. As coisas começaram a mudar dentro de mim de uma maneira muito sutil, graças à Janine. Ela sempre me elogiou como aluna de pilates, a maneira como eu era concentrada, como aprendia rápido, como tinha boa consciência corporal. Mas ela nunca me confundiu com uma bailarina e nunca me disse que eu seria uma boa bailarina. Percebi que comecei a sentir ciúmes do quanto ela dava importância a isso, passei a ter raiva cada vez que um bailarino aparecia e ela logo percebia “quando vi o pé, a postura”. Passei a desejar que ela me falasse pra fazer ballet, que dissesse que eu levo jeito. Mas ela nunca disse. Hoje eu entendo, porque ballet é muito difícil e é uma tremenda responsabilidade falar isso para as pessoas. Algumas acham que você é fiadora delas para sempre.

Minha energia para ser escultora estava no fim e me recomendaram o programa de um banco, que teria um site de vendas internacionais. Essencialmente, a única coisa que precisava era ter conta lá e pedir pra entrar no programa. Na época, eu tinha uma amiga de orkut, que estava na mesma situação que eu: desempregada, querendo vender seu trabalho (bijoux) e não conseguia. Quando me falaram do programa, fiquei entusiasmada e contei pra ela. Vocês não imaginam a dor de cabeça que isso foi. Ela me enchia de perguntas, não apenas quando eu contei – toda semana ela vinha me encher o saco. No início respondia, depois mandei ela se informar no site mas nada adiantava. Ela queria saber se dava certo, se era garantido, se eu estava vendendo, o que estava acontecendo, ela não ia entrar no escuro, etc. Percebi que o fato de ser sugestão minha, na cabeça da criatura, me tornou responsável. Se ela entrasse, se não desse certo, se gastasse muito ou se a unha quebrasse, a culpa seria toda minha, pra sempre (e se desse certo seria obrigada e benção, claro). Como se não bastassem as minhas próprias dúvidas, tinha que aguentar as dela. No fim, o site e a amizade acabaram. E eu passei a pensar mil vezes antes de sugerir coisas para as pessoas.

Algumas pessoas nascem de bunda pra lua. Elas são apadrinhadas, oferecem emprego pra elas, substituem uma pessoa importante que já estava com toda a clientela feita, olheiros a convidam pra fazer parte de algo super legal. Conheço vários casos e nenhum deles me envolve… As pessoas não apenas não me deram emprego como nem ao menos me sugeriram um caminho. Então, tive que desenvolver uma regra pra mim mesma: quando eu quero muito que alguém me sugira, é porque eu devo ir. Na falta de alguém de fora me dizer, digo eu mesma: VÁ. Porque se for esperar isso do mundo, continuarei deitada na minha cama.