A guerra sem vencedores

krishna-e-arjuna

“Que valor pode ter conquistar um reino e pra isso matar quase toda sua família?” – essa é a pergunta que Arjuna num dos clássicos fundadores do hinduísmo. Ela é a essência da essência. É assim: tem um livro grande, uma cosmologia, chamado Mahabharata. Conta a história da família Bharatha, que num certo momento começa a ter uma confusa sucessão ao trono e dois clãs declaram guerra: os Pandavas e os Kuravas. Arjuna é Pandava, o lado bonzinho. No meio do livro, quando os exércitos estão perfilados, ele pede a Krishna – que seria uma encarnação de Deus – levar a quadriga dele para frente, para observar a formação dos exércitos. Quando ele vê o lado oponente e reconhece lá seus primos, mestres e amigos, Arjuna se entristece e diz não estar mais disposto a lutar. Que aquela guerra não seria vitoriosa nem pra quem ganhar e nem pra quem perder, porque quem ganhasse não ia realmente ganhar e quem perder… (/Dilma). Além do desgosto, ele se pergunta qual o dever dele naquele momento: guerrear, porque era um guerreiro e o outro lado havia declarado guerra e criado aquela situação, ou respeitar o sangue familiar e abrir mão do que lhe era direito em benefício da continuidade do seu clã. Esta conversa, em que Krishna explica a Arjuna o conceito de Dharma, é o Bhagavad Gita.

Os períodos de crise são reveladores. Eu imagino que é a diferença entre ter muito dinheiro e se ver com pouco, e com esse pouco todos os gastos desnecessários são cortados e se parte pro básico. E assim descobrimos: qual o básico? Sem ter energia para tudo, tendo que escolher muito bem o que fazer e como fazer, para que direção corremos? De tanto me preocupar com o que tem acontecido e não saber o que fazer, me vi pensando de novo no Gita, livro que eu consultava na adolescência e mantive na biblioteca quase que apenas por motivos emocionais. Como Arjuna, no que vivemos agora, me parece que a vitória perdeu o sabor e minha vontade é me abster porque sou pequena demais diante dos fatos. Para quem quiser spoiler sobre a resposta de Krishna, ela é: aja e abstenha-se do resultado da ação, a ação deve ser um fim em si mesma. O dever é tentar agir de forma justa, honesta, correta e se vai dar certo ou não, se seremos aplaudidos ou ignorados, aí não é mais problema nosso. Se você não age buscando resultados, a linha de conduta deixa de estar fora e passa ser o que está dentro, agir da melhor forma em consonância com quem você é. Isso combina com uma citação de Shakespeare que eu adoro:

Se fôsseis tratar todas as pessoas de acordo com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? Tratai deles de acordo com vossa honra e dignidade.

Hamlet/ ato II cena II

Ou, dito ainda numa terceira forma: não se torne mau porque o mundo é mau.

Anúncios