A grandeza de Saturno

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Há algumas semanas, recebi um e-mail, desses de spam que a gente se inscreve e depois se surpreende quando recebe a newsletter, falando que era um dia especial para louvar Saturno. Era bom para quem tem um Saturno fraco no mapa (o meu não é dos melhores), estivesse passando por um período de Saturno ou apenas quisesse melhorar sua relação com o planeta. Sugeria jejum, um mantra que eu procurei no youtube e achei bacana e ler os trechos de um livro chamado “A grandeza de Saturno”. Não sei se tem em português, achei em inglês (The Greatness of Saturn) num site com livros de graça. Vi muitos vídeos de astrólogos, védicos e ocidentais, falando do quanto a maturidade os fez gostar de Saturno, que o tal retorno de Saturno – que a astrologia védica chama de Sade Sati – não é nenhuma desgraça, que é só ser uma pessoa bacana e fazer tudo certo que Saturno te trata bem.

Como o livro é em inglês, estou levando muito tempo e consigo ler pouco por vez. Começa com a entrada de cada planeta, personificado com um Deus, e acho o desenho de cada um tão bonito que me dá até vontade de um dia fazer quadrinhos. Agora que eu cheguei na parte de Saturno propriamente dita. Um rei fala mal de Saturno. Saturno desce, indignado, e fala que ele estava justamente entrando na constelação de virgem, 12º casa contando a lua do rei, ou seja, o rei ia entrar em Sade Sati e experimentar sete anos e meio de provação e aprender a não desrespeitar os deuses. Poucos dias depois, o rei vai comprar um cavalo, que sai voando e abandona o rei numa floresta. Ele anda muito e vai parar numa cidade onde ninguém o conhece. É acolhido por um comerciante muito gentil, e a filha do comerciante resolve testar o rei (lembrem-se que ninguém sabe que ele é rei) pra ver se casa com ele. A moça entra num quarto todo perfumado e tenta seduzir o rei, que até dorme com a cabeça coberta com um travesseiro de tanto medo do que Saturno pode lhe aprontar. No meio da noite, um cisne sai dum quadro e come o colar de pérolas da moça. Na manhã seguinte, ela diz que o rei, além de impotente, é ladrão. Revistam o rei e, apesar de não encontrarem o colar com ele, ele tem as mãos e os pés cortados (!!!!) e passa os resto dos sete anos como pedinte. Na outra história, Saturno conta que fez mal ao seu próprio Guru, que lhe pediu pra reduzir o período de sete anos em algumas horas. Pra tentar escapar incólume do seu curto Sade Sati, o Guru/Rei foi tomar um banho inocente no rio e colheu dois melões no caminho. Enquanto isso, dão falta do filho dele e do filho do primeiro ministro, e quando o Guru/Rei retorna, abrem a mochila dele e os melões haviam se transformado na cabeça dos dois rapazes. O Guru/Rei é condenado à morte. A esposa, diante de tanta desgraça, decide se atirar numa pira funerária. Todo mundo não morre por questão de minutos, porque o Sade Sati acaba e Saturno desfaz tudo – as pessoas voltam a ver melões e os rapazes retornam, eles só tinham dado um passeio. E nas duas vezes Saturno diz: “só fiz isso porque você é orgulhoso”. Eu me pergunto: e quem não é? Se o objetivo do livro era não ter mais medo de Saturno, acho que não entrei bem no espírito…

Caso haja leitores influenciáveis aqui: Saturno governa outsiders, subalternos, idosos, pessoas em fragilidade social. Tratar bem estas pessoas é tratar bem os seus representantes na Terra. Alimentar e vestir quem precisa é ainda mais excelente. Alias, descobri que fazer caridade como “chantagem” com os céus, que eu jurava que tinha inventado, é uma recomendação constante dos astrólogos hindus. E, por favor, nada de falar mal de Saturno por aí. Vai que ele está passando justamente pela 12º casa da sua lua e…

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A guerra sem vencedores

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“Que valor pode ter conquistar um reino e pra isso matar quase toda sua família?” – essa é a pergunta que Arjuna num dos clássicos fundadores do hinduísmo. Ela é a essência da essência. É assim: tem um livro grande, uma cosmologia, chamado Mahabharata. Conta a história da família Bharatha, que num certo momento começa a ter uma confusa sucessão ao trono e dois clãs declaram guerra: os Pandavas e os Kuravas. Arjuna é Pandava, o lado bonzinho. No meio do livro, quando os exércitos estão perfilados, ele pede a Krishna – que seria uma encarnação de Deus – levar a quadriga dele para frente, para observar a formação dos exércitos. Quando ele vê o lado oponente e reconhece lá seus primos, mestres e amigos, Arjuna se entristece e diz não estar mais disposto a lutar. Que aquela guerra não seria vitoriosa nem pra quem ganhar e nem pra quem perder, porque quem ganhasse não ia realmente ganhar e quem perder… (/Dilma). Além do desgosto, ele se pergunta qual o dever dele naquele momento: guerrear, porque era um guerreiro e o outro lado havia declarado guerra e criado aquela situação, ou respeitar o sangue familiar e abrir mão do que lhe era direito em benefício da continuidade do seu clã. Esta conversa, em que Krishna explica a Arjuna o conceito de Dharma, é o Bhagavad Gita.

Os períodos de crise são reveladores. Eu imagino que é a diferença entre ter muito dinheiro e se ver com pouco, e com esse pouco todos os gastos desnecessários são cortados e se parte pro básico. E assim descobrimos: qual o básico? Sem ter energia para tudo, tendo que escolher muito bem o que fazer e como fazer, para que direção corremos? De tanto me preocupar com o que tem acontecido e não saber o que fazer, me vi pensando de novo no Gita, livro que eu consultava na adolescência e mantive na biblioteca quase que apenas por motivos emocionais. Como Arjuna, no que vivemos agora, me parece que a vitória perdeu o sabor e minha vontade é me abster porque sou pequena demais diante dos fatos. Para quem quiser spoiler sobre a resposta de Krishna, ela é: aja e abstenha-se do resultado da ação, a ação deve ser um fim em si mesma. O dever é tentar agir de forma justa, honesta, correta e se vai dar certo ou não, se seremos aplaudidos ou ignorados, aí não é mais problema nosso. Se você não age buscando resultados, a linha de conduta deixa de estar fora e passa ser o que está dentro, agir da melhor forma em consonância com quem você é. Isso combina com uma citação de Shakespeare que eu adoro:

Se fôsseis tratar todas as pessoas de acordo com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? Tratai deles de acordo com vossa honra e dignidade.

Hamlet/ ato II cena II

Ou, dito ainda numa terceira forma: não se torne mau porque o mundo é mau.

Hábitos de veado

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Tem nakshatra de elefante que avança furiosamente, tem nakshatra de tempestade, tem nakshatra de flecha que atinge o alvo. Um dos meus principais nakshatas tem como símbolo um veadinho. Sério. Ele é o mais frágil dos 27 nakshatras. Um dos astrólogos que eu sigo, o Vic Dicara, faz uma reflexão de vida sobre cada um dos nakshatras, e o do meu é, basicamente, “como sobreviver sendo frágil“. A sorte é que tem uns de cobrinha pra me ajudar. Mas, apesar de eu estar aqui reclamando, eu adoro esse nakshatra. A palavra que o define é “buscador”. Tal como o veado que fica pela floresta cheirando as folhas, as pessoas que tem esse nakshatra forte adoram estar sempre à procura. Eles gostam tanto de estar à procura que gostam mais de procurar do que encontrar. É um nakshatra ótimo quando se fala de estudos ou de busca espiritual, porque a pessoa nunca se contenta com o que tem e se enriquece cada vez mais de conhecimento; ao mesmo tempo, é ruim quando essa busca se volta par ao lado amoroso, porque aí a pessoa pula de parceiro em parceiro, sem jamais se contentam com ninguém.

Uma das coisas que esse nakshatra me jogou na cara foi a tendência aos hábitos. Diz que o veado é um animal de hábitos regulares, ele anda sempre pelos mesmo lugares na floresta. Eu percebo isso claramente quando começo a ser conhecida nos lugares onde eu vou. Quando estava deprimida e detestava ter tempo livre, comecei a inventar programas novos, percorrer padarias e cafés, me obrigar a agendas culturais. Só que de tanto explorar, acabei descobrindo o que combina mais comigo em termos de ambiente, orçamento, sabores. Então, todos os dias da semana e nos mesmos horários, vou para os mesmo lugares e como sempre as mesmas coisas. Nas poucas vezes que tentei mudar, me arrependi. Não é que eu faça amizade com os atendentes porque chegue íntima, ao contrário, sou a que chega muda e saio calada. Mas depois de encontrar quase todo dia chega uma hora que não dá, né?

Uma história de amor quente e ligeira

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Foi assim que conheceu o eremita Durvasas, vestido de trapos e cinzas, e de tal modo lhe agradou com sua bondade que ele lhe ensinou um encantamento mágico. Com esse mantra, explicou, poderia invocar qualquer um dos deuses do céu para amá-la e nela conceber um filho.

Seria verdade?, refletiu Kunti. Estava ao sol, passando e repassando as palavras mágicas em sua cabeça e mirando sua sombra no chão. Dizia a si mesma: “Durvasas brincou comigo!”, e franzia a testa. Mas logo pensava: “Ou talvez não…”

Sentia o sol quente em suas costas. O Surya dos mil raios brilhava sobre ela. E Kunti ficou a imaginar: “O mundo inteiro o vê durante o dia. Mas à noite ele seria somente meu”. Seria ele tão belo quanto a estátua no Templo do Sol?

Naquela noite, Kunti permaneceu acordada em seu leito até meia-noite. Lá fora, a Terra jazia em silêncio; o palácio estava às escuras. Ela levantou-se, foi à janela e, suavemente, recitou o mantra de Durvasas.

E houve luz, o cheiro de metal quente, e uma brisa, quente e seca como o deserto, cantando em seus ouvidos. Brilhava de tal modo que Kunti cerrou os olhos, mas a brisa fez surgir cores por trás das pálpebras. Ela estremeceu e tombou, quedando no tapete como uma vinha partida no chão da floresta.

Surya, o Senhor da Luz, carregou-a de volta ao leito e permaneceu sorrindo sobre ela., iluminando o quarto com sua presença, de modo a não haver sombra em lugar algum. Cingia-o uma coroa alta de ouro, cujas formas se alteravam e se transformavam conforme respirava. Uma faixa de jóias e brilhantes caía do seu ombro esquerdo sobre o peito nu; do cinturão, do colar e braceletes de bronze, e dos longos brincos de ouro, pendiam laços e ramalhetes de gemas luminescentes: todas essas luzes tingiam o quarto com milhares de arcos coloridos. Ao tirar a coroa, seus cabelos dourados encaracolaram-se em torno de seu rosto como um elmo de bronze fosco.

-Princesa, desperte!

Kunti abriu os olhos.

– Você me chamou – disse Surya – , e eu vim.

Kunti recuperou a voz.

-Senhor do Dia, perdoe-me, mas só o chamei para testar meu novo mantra.

-Sei por que me chamou, e sou agora somente seu. Quer que eu parta?

-Não tenho marido, Senhor Surya.

-Logo irá casar-se. Os filhos dos deuses nascem em um dia. Permite que eu fique?

-A luz… meu pai poderá ver.

-Ninguém mais pode ver esta luz, princesa. Crianças podem comandar os deuses; partirei, se quiser, e você me verá novamente apenas no longínquo céu azul.

-Tão depressa! – suspirou Kunti. – Fique um pouco; veio, afinal, de muito longe para ver-me aqui.

Mahabharata (versão de Willian Buck)

Limpinho e correto

constelações

Eu falei dos ashwinis no último post porque tem a conclusão bacana da parte do meu irmão; se a minha intenção fosse apresentar a astrologia védica, aquele seria minha última escolha. Porque o que eu acho muito legal da história dos nakshatras é justamente eles não serem limpinhos e equilibrados como na astrologia ocidental. Mesmo sem perceber, aplicamos a ela aquela lógica de final feliz de filmes americanos, onde cada ponta solta gera uma resposta. Acho que Ashwini é o que tem a melhor descrição de todos, melhor no sentido de positiva. Mitologia indiana é muito antiga e muito pra lá de politicamente incorreto. Eles não têm a preocupação de dizer que todo signo é igualmente bom e ruim – alguns nakshatras tem descrições tão negativas que você decide que nunca gostaria de cruzar com uma pessoa dessas na sua frente, ou, caso você o tenha, que nunca vai poder dizer pra um indiano que aquele nakshatra aparece no seu mapa, sob o risco dele lhe virar a cara. Na história do Krittika, as coitadas das Plêiades foram expulsas por um adultério que não cometeram e ninguém se deu ao trabalho de desmentir. Tem nakshatra que fala que a vida vai ser muito difícil, de puxa-sacos manipuladores, de bem-sucedidos incapazes de ternura, que predispõe a incesto. Assim como há, quando se vai pensar em mapas para casais, três tipos de pessoas: as que beneficiam e fazem bem a quem quer que esteja do seu lado, as que tem uma troca regular e, por fim, aqueles que se aproveitam e prejudicam o parceiro.

O pressuposto básico da astrologia que uma pessoa é seu local e horário de nascimento, é altamente contestável – mas sabemos que os indianos têm razão, o mundo e as pessoas são mais do que defeitos e qualidades igualmente distribuídos numa balança. Os melhores astrólogos que tenho visto falam a mesma coisa, que a graça não é querer fazer previsões e dizer que é assim ou assado e sim aprender com essas metáforas, entender o que os nossos ancestrais tentaram nos falar, o que temos em comum com pessoas que viveram em outras épocas e também amavam, sofriam e pensavam sobre a vida. Existe algo de atraente nos nakshatras, nos Irmãos Grimm, nas Fábulas Italianas do Calvino; é mais humano do que um autor qualquer possa criar, elas transmitem muito mais do que a nossa mente cheia de tabus é capaz de reproduzir. Tenho me refugiado nos nakshatras porque encontro neles verdade, variedade e tempero, enquanto o mundo lá fora busca a pasteurização, odeia a variedade, nega o diferente.

Ashwinis

ashwini

(Vocês não sabem a dificuldade que tem sido não falar sobre política o tempo todo. Seguimos)

Finalmente consegui baixar um livro que estava a fim de ler faz tempo, sobre nakshatras. Eu tenho uma maneira caótica de estudar, sou obsessiva e consumo tudo, indo e voltando pros assuntos, o que faz com que eu não entenda nada e entenda tudo ao mesmo tempo. Comigo funciona. Algumas coisas que a astrologia védica que eu ao meu respeito são tão dolorosas – e devo reconhecer que acertaram na mosca – que acho que jamais terei coragem de ler um mapa védico pra alguém, caso um dia consiga. Sobre os 27 nakshatras, embora já tenha lido sobre todos, retomo e tento personalizar. É muito mais fácil prestar atenção quando ele fala de você ou de alguém que você conhece. Então o primeiro de todos, o Ashwini, é bastante fácil pra mim porque meu irmão tem a lua em ashwini (o que torna esse nakshatra o seu signo védico, digamos assim) e eu tenho marte e vênus lá.

Um pouco do nakshatra: ele é simbolizado por dois cavalos. A esposa do sol precisava de um tempo, porque o marido dela era literalmente muito quente, e fez uma cópia de si mesma para que ele não notasse sua ausência. Mas ele notou, quando a sua clone tratou mal um dos filhos deles. O sol foi atrás da esposa pela floresta, que se transformou numa égua, e ele se transformou num cavalo, e da união deles nesse estado nasceram os gêmeos Ashwinis. Numa das histórias, para descobrir o néctar da imortalidade, eles substituem a cabeça do sábio que tem a receita, porque um deus disse que cortaria se ele revelasse o segredo. Ele revelou, a cabeça foi cortada, mas era a cabeça de um cavalo e os Ashwinis colocaram a cabeça original no lugar depois. Por causa disso, esse nakshatra tem ligação com medicina, cirurgia, dons de cura. Em outra história, os aswinis quiseram casar com uma princesa que havia estourado sem querer, pensando que eram besouros, os olhos de um sábio, e foi viver com ele na floresta. Os Ashwinis eram fortes, jovens e bonitos, enquanto o marido dela era velho e cego, e mesmo assim ela não aceitou. Eles então ofereceram tornar o marido dela jovem e recuperar a visão, mas a princesa teria que escolher um dos três para se casar e eles estariam muito parecidos. O casal topou e a mulher, muito virtuosa, conseguiu saber qual era o marido dela. Essa história fala dos outros dons dos Ashwinis: restaurar a visão (há outra história com o mesmo tema), beleza, juventude e correção de caráter (por terem cumprido a promessa. No mundo das lendas védicas tem cada uma…). Quando um nakshatra é simbolizado por uma animal, conhecer o comportamento do animal é conhecer a natureza do nakshatra. Por serem representados por cavalos, os ashwinis são rápidos, fortes, inteligentes, dóceis e gostam de espaços amplos.

Eu tinha visto várias referências que diziam que era comum que irmãos gêmeos tenham esse nakshatra. Nunca dei importância, porque não sou. Hoje descobri que é possível que a pessoa tenha como se fosse um falso gêmeo, um outro muito parecido com ela. Aí pensei no meu irmão, e a maneira como nos achavam gêmeos durante boa parte da nossa vida, apesar de termos um ano de diferença. Pensei em nós dois de mãos dadas no recreio do colégio na nova escola e me emocionei. Ele é ashwini, eu também, somos mesmo gêmeos um do outro. Aí fiquei emocionada.

Nodo faminto

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Quanto mais leio sobre astrologia védica, mais me parece que não sei nada. E ainda por cima devo estar desaprendendo o que eu sabia da ocidental. Mas tão lindas as histórias! Olha que diferente a maneira como tratam os nodos: os nodos norte e sul existem em ambas, embora a astrologia ocidental dê tão pouca importância ao nodo sul que geralmente ele nem aparece no mapa. São pontos matemáticos relativos à posição do sol e da lua e cobre um eixo de casas opostas, a saber: casa 1 e 7, casa 2 e 8, casa 3 e 9, casa 4 e 10, casa 5 e 11, casa 6 e 12. Se você o nodo sul em uma casa, necessariamente o nodo norte está na direção oposta, nodo sul na casa 1 indica que o nodo norte fica na casa 7 e por aí vai. A astrologia ocidental não gosta de pensar em vidas passadas, então geralmente falam que o nodo sul trata daquele assunto que você já domina, por isso ele lhe é sem graça, enquanto o nodo norte fala daquilo que você deve procurar aprender. Tudo muito limpo e racional.

Agora, à maneira védica: Rahu é o nodo norte e Ketu o nodo sul, também chamados, respectivamente, Cabeça do Dragão e Cauda do Dragão. Ele era uma espécie de demônio, que provou do néctar da imortalidade apesar de não lhe ser permitido. Vishnu tentou detêlo e o cortou – como ele já estava imortal, virou um corpo com dois pedaços. Ketu é a cauda e indica o que já foi feito repetidamente nas vidas passadas. É um corpo sem cabeça, burro; indica facilidade e isolamento, o que vem fácil mas sem o menor sabor, e espiritualidade. Rahu, como cabeça sem corpo, come sem parar porque não tem um estômago pra reclamar que já está cheio. Mais do que o que buscamos nessa vida, Rahu mostra onde temos uma verdadeira compulsão. A sua energia se molda de acordo com o lugar do mapa que ele está, mas numa versão “com esteroides”: exagerado, indomável, apto a tomar atalhos para conseguir o que quer. Enquanto Ketu fica quietinho no canto dele, Rahu quer fama, holofotes, prazeres. Ele é a figura simpática que coloquei para ilustrar o post.

Por mais que os dois termos falem do mesmo ponto matemático, Rahu e Ketu não são muito mais interessantes do que nodo norte e sul?

Védico e sideral

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A ideia de gostar de um outro país e tê-lo como sua cultura do coração sempre me pareceu meio boba. Sempre tive simpatia pelos argentinos, mas eu sei que diante de um argentino de verdade eu nada mais sou do que uma brasileira, e por aí vai. Então, eu mesma fiquei surpresa quando comecei a ler sobre os nakshatras e sentir uma euforia no coração. Não tenho como explicar, apenas adoro coisas relativas à Ìndia. Passei a adolescência inteira lendo sobre yoga e parei de comer carne por isso, sonhava em ir pra um ashram, ouvia as músicas, enfim, seguia toda cartilha mística.

Em linhas gerais, é assim: existem duas grandes correntes na astrologia. A que se pratica aqui é a tropical e a que se pratica no oriente é a sideral. Sem entrar em detalhes, a diferença de cálculo é porque na tropical a mudança dos signos está ligada às estações do ano, na sideral às constelações. Os pressupostos de uma e outra são diferentes, e querer transportar automaticamente o conceito de uma para outra é igual quando a gente acha que sabe espanhol e se depara com falsos cognatos. Os signos da astrologia védica são quase um signo inteiro para trás. Aqui é signo é determinado pelo sol e lá pela lua. Exemplo: no mapa ocidental, eu tenho o sol em gêmeos e a lua em touro, o que me torna geminiana; no oriental, eu tenho o sol em touro e a lua em áries, o que me torna ariana.

Aqui um signo é sempre igual nos seus trinta graus. Tem os quadrantes, mas na prática ninguém diz que alguém que nasceu no início de um signo é diferente de quem nasceu no fim. Lá, os signos são divididos a cada 13 graus e 20 minutos, que são os nakshatras. E cada nakshatra tem 4 subdivisões, os padas. Cada nakshatra corresponde a um símbolo, um modo de energia, estrelas, deuses. As histórias indianas me fascinam pelos caminhos inesperados, algo que uma mente ocidental jamais conseguiria produzir. Olha que legal esta história (resumida), que corresponde a um nakshatra que fica em câncer sideral.

O grande sábio Kashyapa , o filho nascido em desejos do Senhor Brahma , era casado com as duas filhas Kadru e Vinata . Ambas as irmãs eram de grande beleza e inveja uma da outra. Kashyapa ficou extremamente satisfeito com os dois e ofereceu a cada um deles uma benção.

Kadru disse: “Que mil filhos de incomparável força e valor nascem para mim!” E para Kadru nasceu a raça das serpentes, um total de milhares delas, dotadas de grande força. Quando chegou a sua vez de escolher seu benefício, Vinata disse: “Que dois filhos sejam nascidos para mim, os quais eclipsarão os filhos de minha irmã em força, valor e fama”. Vinata colocou dois ovos. Quinhentos anos se passaram, mas os ovos não nasceram.

As irmãs Kadru e Vinata se envolveram em uma discussão. Kadru perguntou a sua irmã: “Irmã, qual é a cor do cavalo divino Uchaishravas que pertence a Indra ?”

Sua irmã respondeu: “É de uma cor branca impecável, desde o nariz até a cauda magnífica”.

Kadru disse: “Você está errada. Embora seja verdade que seu rosto e seu corpo são de uma cor branca impecável, eu acho que sua cauda só é uma cor preta brilhante. Diga-lhe uma coisa, vamos apostar neste tópico.” Se você estiver certa, eu me tornarei seu escrava. Se eu estiver certa, você deve se tornar meu escrava. “

Vinata aceitou a aposta. Kadru sabia que o cavalo era branco de um lado para o outro, então ela arquitetou um plano. Ela chamou seus filhos e disse: “Eu aposto com sua tia que o cavalo Uchaishravas possui um rabo preto. Você deve fazer as minhas palavras se tornar realidade. Vá em frente e enrosque-se em torno de sua cauda e dê uma aparência preta.”

Retirado daqui.

Só duas cobras não aceitaram fazer parte disso, e são essas duas nagas que fazem parte do nakshatra de Ashlesha.