Os cafas e os anjos

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Do lado de cá – o lado feminino – vejo minhas amigas sofrerem muito com os homens. De um lado elas, pessoas cheias de qualidades, qualidades que eu conheço e reconheço, e do outro lado homens não percebem, não agem de acordo, não dão valor. Quando é com a gente dói muito, mas de fora é tão claro que… como direi? Tem aquela passagem bíblica (gênesis 19) dos homens que queriam violentar os anjos. Isso pra mim fala duas coisas a respeito deles:

1- que não eram imunes à beleza. Eles perceberam naqueles anjos algo acima da média, encantador, extraordinário. Mas:

2- eles reagiram como sabiam. No caso, com brutalidade.

Estar diante do extraordinário, superior, belo ou diferente é uma coisa, saber reagir à altura é outra. Canso de dizer aqui o quanto o homem (agora no sentido de humanidade) é um ser limitado. Diante de uma situação, se a gente tiver três atitudes diferentes no repertório já é muito. Então, quando penso nas minhas amigas tão especiais que são tratadas como se nada fossem, não me parece que os tais homens necessariamente fizeram por mal ou que não viram o valor que elas têm. Eles podiam apenas ser brutos e limitados demais para reagir diferente.

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Paulocoelhando 2

Eu estava na fila – na porta do teatro – do espetáculo de fim de ano de uma das escolas que eu dancei. Alguns levavam flores, outros estava com filhos. Na minha frente havia um casal. Num certo momento a mulher instruiu o marido:
– Então já sabe: aconteça o que acontecer lá dentro, quando ela nos perguntar o que achamos você vai dizer que adorou, viu?

Como se não bastasse isso, uma mãe que chegou atrasada veio encarecidamente pedir para sentar no meu lugar. Era um teatro sufocante, todo preto, com cadeiras equilibradas sobre pequenas arquibancadas. Eu fiz questão de pegar um lugar perto da porta – para respirar um pouco – e ao lado do corredor – pra sair correndo com facilidade caso tudo despencasse. A mãe queria sentar justo no mesmo lugar porque iria fugir no início da apresentação. Ela só queria prestigiar a filha, que dançaria logo no começo. Depois ela ia embora e o pai ia buscá-la. Ela poderia dizer sem estar mentindo que tinha visto a apresentação da filha.

Eu me livrei de tudo isso quando comecei a dançar flamenco. Mesmo nas coreografias mais simples – que é o que ainda faço – é possível ser interessante, arrancar aplausos sinceros da platéia. É bom dançar algo que impacta sem esforço. É gostoso agradar de verdade, sem que as pessoas precisem programar elogios.

I see psychiatric people

Na época que eu fazia estágio numa clínica psiquiátrica, começava a ver pacientes psiquiátricos por toda parte. Alguns pacientes não ficavam internados ou tinham alta, e eu os via por aí, nas ruas, nos restaurantes, nas filas. Na clínica, eles costumavam nos alertar sobre pacientes que tendências pedófilas ou sexualmente violentas. Lembro de um desses pacientes caminhando calmamente pelo centro e me deu uma certa vontade de avisar, um medo. Esse anonimato, na realidade, é algo positivo para eles. Não vivemos mais a época de estigmatizar na pele ou nas roupas um erro cometido no passado. Mas não eram apenas esses pacientes que eu via, eu enxergava nas pessoas comuns trejeitos e histórias que me lembravam muito alguns pacientes, e me perguntava se elas eram psiquiátricas também.

Continuo vendo comportamentos psiquiátricos all the time and everywhere. Pra mim, o que os caracteriza é a desproporção. Alguém briga comigo e fico enfurecida durante alguns dias. Xingo, penso em vingança, quem sabe até faça alguma coisa. Aí a vida coloca outras coisas no caminho e acabo esquecendo. Ou alguém sorri pra mim e parece estar interessado. Concluo que se sentiu atraído, que quer me conhecer e quem sabe num futuro dê em alguma coisa. Esses são os comportamentos proporcionais. Os que me chamam atenção e me fazem ver psychiatric people são os que demonstram um apego exagerado às próprias fantasias, que levam a reações igualmente exageradas às frustrações: ser colocado numa lista negra, por meses ou anos a fio, depois de ter contrariado alguém; fantasiar que o outro vai largar emprego, cônjuge e filhos pra se casar com você e ir viver em Acapulco depois de um sorriso. E por aí vai.

Pense bem, você conhece psychiatric people.

Desculpa

A melhor maneira de mostrar arrependimento e pedir desculpas é dizer: desculpa. Quando minha mãe exagerava nas broncas, depois ela voltava do trabalho com guloseimas. Quando eu fui reclamar com a vizinha sobre os cachorros dela terem atacado a Dúnia, ela acusou a Dúnia de já ter atacado o filho dela, crente que eu ficaria na dúvida porque quase todos os cães da vizinhança vivem soltos. Quando eu estava prestes a fazer intercâmbio e meu namoradinho não pôde passar o último fim de semana comigo, ele mandou um e-mail coletivo de piadas, cujo título era “Ficarei fora no fim de semana. Eu sei que não era o que vocês estavam esperando mas é o que eu posso fazer no momento”. Quando meu ex-orientador puxou meu tapete, depois de mais de um mês de silêncio, ele voltou a me incluir na lista do grupo de estudos e recebi notícias aleatórias. Quando a Lis, minha colega de faculdade, pisava na bola, logo depois ela vinha me perguntar algo totalmente dispensável e o fato de eu responder a convencia de que estava tudo bem. Quando meu (até então) melhor amigo de orkut me ofendeu e eu pedi pra ele se explicar, recebi como resposta um monte de brincadeiras – porque ele era assim, brincava com tudo. Todas essas coisas só me deixaram ainda mais irritada. A melhor maneira de mostrar arrependimento e pedir desculpas é dizer: desculpa.

No armário

Um dia olhei para o meu passado e percebi que sempre tive amigos gays, embora nunca tenha dado preferencia a baladas gays e nem levantado qualquer bandeira. Como disse uma vez a Fal, acho muito esquisito quem fala “o meu amigo gay”, como se fosse um acessório, uma bolsa. Eu era amiga do Juan, do João, assim como hoje sou amiga do André. Eles serem gays é apenas uma de suas características. E eu sei que é dessa forma que o Luiz enxerga meus amigos, porque ele mesmo não tinha convívio com gays antes de me conhecer. Aconteceu naturalmente: quando ia me buscar, quando conhecia quem trabalhava comigo ou encontravamos meus amigos numa festa, lá estava algum gay. Alguns mais simpáticos ou sérios ou engraçados do que os outros, como quaisquer pessoas.

Situação difícil mesmo eu fico com os gays não assumidos. Oras, depois de tanto tempo de convívio, meu gaydar é ótimo e o do Luiz consegue ser ainda melhor. Nós não precisamos que um homem comece a rebolar e falar “amapoammm” pra saber que ele é gay. Em geral, bastam alguns segundos. Com gays, especialmente na hora de dançar, eu me sinto mais livre pra chegar perto, tocar, olhar no olho, deixar que encoste em mim – dá pra sentir quando alguém faz isso sem desejo. E o Luiz não tem ciúmes de quem não se interessa por mim. Só que teoricamente às vezes eu faço isso com um hetero… Nada contra, cada um sabe o que fazer e o que dizer da sua vida. Se alguém se finge de hetero perto de mim, eu finjo que acredito. Um dia o Luiz chega num ensaio, numa conversa ou me vê tirando foto, e me perguntam: “Mas… o seu marido não se importa, ele não vai se aborrecer?” – minha vontade é responder: “Que nada, bee, ele não tem ciúmes de quem é do babado!”

Samsara

Eu fui criada dentro de espiritismo; por isso, o conheço tanto quanto detesto. Foi da yoga que os espíritas pegaram o conceito de karma, também chamado de lei da causa e efeito: você faz algo e recebe de volta. Ao longo de muitas vidas, laços bom e ruins são criados, causando efeitos de acordo com o que fizemos. Por isso, quando um espírita encontra um inimigo, um mau caráter que o prejudica ou simplesmente alguém cujo santo não bate, conclui que ele é um desafeto da vida passada. E, como karma negativo, sua missão na vida é se entender com a pessoa, desfazer os mal entendidos e esgotar – quem sabe transmutar – esse rastro. Por causa dessa linha de raciocínio, kardecistas concordam com os católicos na sua visão sobre o casamento. Para as duas religiões, casar mal é um resgate doloroso que só pode ser desfeito com a morte. Idem a todos os outros que são problemas na sua vida. Me parece uma visão ao pé da letra e bizarra da pseudo-fofa frase de Saint-Exupéry.

No quesito crenças, eu prefiro o conceito de Samsara do budismo. Relações boas e ruins, dívidas e benefícios, num movimento perpétuo como de uma roda, têm a mesma importância: nenhuma. É como levar à sério jogos de crianças. Então, ao invés de tentar pagar karma e suportar heroicamente uma situação, um conselho budista seria: abandone a Roda de Samsara.

Condições adversas

Logo eu! Não há outra maneira de expressar o estranhamento em saber que fiquei 10 dias em alojamento. Logo eu, que sempre fui fresca, que sempre gostei de conforto e odeio grupos. Eu gostaria MUITO de ter ficado num hotel, sozinha e lendo. No alojamento, eu acordava por volta das 7h e não conseguia mais dormir pelo desgosto de estar numa sala de aula com mais 13 pessoas. Andava até o Centreventos, almoçava sanduíche de atum, fazia curso, jantava barra de cereal e ia correndo assistir as apresentações*. Chegava no alojamento por volta da meia noite, tomava banho e ia dormir. Sempre com as mesmas roupas (o %×$♠@☹☂ßæÜ do Climatempo disse que ia fazer calor!) e acompanhada.

Eu achei que teria algum piti. Que a falta de silêncio me irritaria de tal forma, que em pouco tempo me desentenderia com todo mundo e me isolaria. Sempre me vi como uma pessoa difícil e que mantém um pouco de sanidade porque gosta de solidão. A falta desses momentos realmente me deixou triste e apagou minhas habituais brincadeiras. Mas, ao contrário do que pensava, fui uma boa companhia. Me descobri uma apaziguadora, enquanto à minha volta as pessoas perdiam a paciência e se alfinetavam. Ou seja, para os grupos eu sou ótima mas grupos me fazem mal. Isso sem falar que eu estava no meio de artistas – sedentos por atenção e quem sabe ir para a Globo.

Comprovei o que já desconfiava: só brinco quando estou feliz, meus contatos são governados por afinidade e não utilidade, não sei disputar atenção. Então, sem chances de entrar pra Globo, pro CQC ou pra qualquer coisa que dependa de imagem. Devo ter parecido uma pessoa muito tímida, talvez sem importância. Eu sou aquela lá do fundo que não está fazendo a menor força para ser vista. Pra gostar de mim é preciso olhar com cuidado.
* As apresentações foram a melhor parte da viagem inteira. Assistir dança no meio do festival é como assistir futebol no estádio. As pessoas se envolvem, gritam, torcem, é muito divertido! Nunca mais acharei graça em estar no meio de uma platéia silenciosa.