Intensivo

Eu fiz um curso que durou um dia inteiro, que pelo jeito foi um sucesso, e recebi uma correspondência falando que ele agora dura dias, não lembro se dois ou mais. Depois eu reparei que não é só o curso, tem uma estadia num retiro, é como uma vivência. Aí eu pensei: não basta ter tolerado perguntas bestas durante um dia inteiro, eu tenho que encontrar com as pessoas de manhã, de tarde e de noite, fazer refeições com elas, dividir quarto com uma delas, repetir tudo no dia seguinte. É um curso ou um BBB, prova de resistência? Quando o monstro desinflou, pensei que a maioria das pessoas acharia uma experiência linda.

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Feminista, eu?

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Eu não costumo ser “confundida” com feminista. No início, algumas amigas quiseram me colocar em coletivos feministas, mas aos poucos elas foram mudando de ideia e pararam de me convidar. Já postei contando experiência ruim em congresso feminista, já me coloquei contra a escolha do termo Vadia como bandeira para marcha. A vigília constante e exagero de algumas me cansa. Sou uma velha para os apedrejamentos das redes sociais; a faixa etária predominante é muito jovem, e jovens costumam julgar e condenar com muita rapidez. Em algumas colocações, essas feministas me parecem simplesmente não ter vivência para falar do que estão falando. Outras vezes, as reclamações me parecem mau humor puro e simples. Vejo essas coisas e não me posiciono. Então não sou feminista, pra ninguém.

Se dizer feminista é carregar uma bandeira e não sou de carregar bandeiras. Depois de namorar várias ideologias sem jamais aderir, refleti que não é possível que o mundo inteiro esteja errado e eu certa. Por isso digo que meu problema não é com a agenda feminista ou grupos feministas e sim eu com qualquer agenda e grupo. Nossa, que ódio quando os professores não me deixavam fazer os trabalhos sozinha! Era uma tortura, vai totalmente contra minha personalidade. Grupos exigem um grau de negociação que me desgasta demais. Não acho bonito – pelo contrário, é extremamente desvantajoso ser assim. Então, digo com relação ao movimento feminista aquela frase que pra fim de relacionamento é pura desculpa, mas no meu caso é sincera: o problema sou eu, e não elas.

Então podemos dizer que eu não sou feminista? Claro que não. Eu acho que nenhuma mulher, em sã consciência, pode se colocar contra o movimento feminista. Só o fato de você poder ler o que estou escrevendo já é a prova disso. Se você gosta de ler e escrever, sair sozinha na rua, escolher seus amigos e parceiros, sentir prazer no sexo, trabalhar, colocar a roupa do comprimento que lhe convém, votar e ter opiniões, você não pode ser contra o feminismo. Ninguém que conheça um pouco de história pode ser contra o feminismo. Cada pequeno direito que as mulheres têm hoje veio de muita reivindicação e luta; já para nos tirarem algo, sempre foi muito rápido e fácil. Toda mulher deve algo ao feminismo.

Eu sou branca, hetero, tenho curso superior e sou parte de uma minoria. Isso não se justifica numericamente, mas ser mulher é ser parte de uma minoria. Por isso, o fortalecimento de discursos reacionários e de ódio me preocupa. É um discurso moralista e que parece razoável para muitos. Para eles, não seria nada mal que o aborto fosse punido com mais severidade ou que as mulheres tivessem um comportamento sexual mais recatado. Não vou discutir isso. O que sei é que a violência costuma ser uma Caixa de Pandora. Leia sobre o Terror, a Inquisição, as revoluções russa, chinesa, golpes militares na América Latina, etc. Você verá sempre o mesmo padrão (é pra isso que se estuda história): a violência, uma vez deflagrada, ultrapassa muito os propósitos iniciais, não consegue mais ser contida, se volta até mesmo contra aqueles que a iniciaram, leva muito tempo para se esgotar. Quem apóia a violência sempre acha que está no topo e por isso está seguro. Só deixa eu relembrar: nenhuma mulher está no topo.

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Das escolhas que a gente faz quando não faz

Ainda tenho muitos amigos professores, mestrandos, ou ligados à vida acadêmica de alguma forma. E quando eles postam fotos sentadinhos em palestras, sentimentos antigos vêm à tona. Tédio. Bunda doendo. Olhar para a pessoa que fala desejando estar em outro lugar. Claro que não foi sempre assim, claro que ao longo da minha vida me interessei e assisti palestras interessantes. Mas é esse o sentimento que ficou. Olho pras fotos e me sinto aliviada, como quem lembra de um karma que já pagou.

 

Às vezes eu olho pra minha vida e penso que escolhi tudo, que sou responsável por estar onde e como estou. Outras vezes me parece que cheguei aqui levada pela maré. É um pouco das duas coisas. Acho que tem momento na vida que falamos – É isso! e vamos naquela direção. Em outros, escolhemos sem escolher. Não sabemos pra onde vamos, até nem sabemos que existe outro lugar e que gostaríamos de ir pra lá. Aí nos tornamos meio moles, meio sem comprometimento… é aquela vontade de ser demitido porque não temos coragem de nos demitir.

 

Quando estava tudo certo pra eu entrar no doutorado, eu voltei a frequentar o grupo de estudos. Voltei a sentar nas cadeiras. Meu tédio era profundo. Sentava naquela cadeira alta, que me deixava na ponta dos pés e as horas se arrastavam. Eu olhava para aquelas pessoas como se estivesse atrás de um vidro, seus lábios se mexiam em câmera lenta, dizendo coisas sem importância. Eu não tinha a menor vontade de estar ali, mas achava que precisava. Tinha escrito um projeto muito bom, cujo tema me daria prazer de escrever até hoje. Queria ganhar uma bolsa de estudos e quem sabe escrever outro livro. Só que pra chegar lá, precisava estar nas reuniões, precisava fingir que me importava. As reuniões começaram como um grupo de estudos, e nessa época era interessante. Até que o grupo começou a organizar uma Jornada por ano, e isso tem tantos detalhes tudo passou a se limitar ao evento. Um dos membros até se queixou disso, e foi prontamente desqualificado. A verdade é que poucos se importavam com a mudança, porque fazer parte da organização de um evento científico enriquece muito o currículo.

 

Faltavam algumas semanas para a Jornada e decidiram que era preciso fazer um texto, que colocaria no papel o posicionamento do grupo e a ligação de todos os temas que seriam tratados. Seria algo chato e difícil de escrever, levaria várias tardes e não teria a assinatura do autor. Um a um, em fila, todos foram pulando fora. Quando chegou em mim, aleguei que não teria tempo de escrever porque estava estudando para a prova teórica do doutorado, que seria dali poucas semanas. Meu orientador não gostou nem um pouco, mas não insistiu. Os motivos que o levaram a não me aprovar no doutorado serão para sempre um mistério, ele nem ao menos assume que não me aprovou; no entanto, eu sei que a minha recusa em aceitar escrever aquele artigo deve ter pesado na decisão.

 

Por que eu não fui, apesar de saber que pegaria muito mal? No momento, achei que foi preguiça. Mil vezes ficar em casa sem fazer nada do que ir pra universidade escrever um artigo chato pra um evento que eu nem gostaria de estar. Hoje vejo que foi um boicote inconsciente, uma forma de escolher sem escolher. Quando você tem prazer no que está fazendo, quando está no caminho certo, não tem essa de preguiça. Você faz o que é preciso, vira noites, desmarca compromissos, olha para trás e fica impressionada com o que fez. Estar lá, na reunião, já era esforço demais. Que bom que eu tanto não fiz que acabei indo embora.

Auto-ajuda e timidez

Eu li muito livro de auto-ajuda na vida e acho que eles têm sua utilidade. O que eu gosto nesses livros é a idéia que está por detrás deles: a gente não É e sim que Está. Ao invés da postura Gabriela diante de vida – eu nasci assim, sempre fui assim, vou morrer assim, Gabrie-eela! – parte-se do pressuposto que se uma coisa que te incomoda, você pode tentar mudanças de hábitos e comportamentos até se tornar uma pessoa diferente. Pra algumas coisas pode ajudar, eu usei. O pressuposto da Programação Neurolinguística de que o inconsciente aceita qualquer coisa que a gente repita muito, mesmo que seja meio brincando, é algo que eu percebi que funciona. Passar o dia inteiro repetindo “eu tô gorda” só porque não gosta de algumas gordurinhas na barriga faz um mal tremendo…

Há algo muito forte em mim, que provavelmente tentei mudar, mas que terapia ou programação nenhuma consegue mover: minha timidez. Na adolescência, aquela fase que a gente se odeia, eu (provavelmente) lamentei pensar que nunca seria popular, nunca seria o centro das atenções nas rodinhas, nunca chegaria longe em funções que exigem que a pessoa fale com a maior naturalidade diante de qualquer platéia. Hoje não apenas não desejo essas coisas como sei que gosto muito de ser quem eu sou, e que ser extrovertido é uma faca de dois gumes. Chegar num grupo estranho cheio de segurança pode ser ótimo, assim como pode estragar tudo. A linha entre ser extrovertido e sem noção é muito tênue. Cansei de ver gente que chega num grupo novo e senta no melhor lugar, se mete a dar opiniões sobre o que está ouvindo pela primeira vez e já sai falando em nome da turma. Depois, quando nada dá certo, reclamam que as pessoas que sempre foram hostis com ela. Eu, como qualquer pessoa tímida, tenho necessidade de sentir o ambiente. Nunca me torno logo aquela que todo mundo gosta; em compensação, por observar antes de falar, não falo besteira, por ficar no meu canto não invado o espaço dos outros sem querer. Sempre dá certo. A extroversão é hiper-valorizada, isso sim.

Participação zero

Uma desvantagem a meu respeito que as pessoas não demoram a perceber é: não me envolvo em grupos. Quem lê o blog e me vê repetir tantas vezes que sou antissocial já adivinha isso, mas na vida real não é tão simples. Porque às vezes eu teria tudo para me envolver. Concordo com as idéias, tenho o perfil, conheço as pessoas, me beneficiaria. Ou até faço uma tentativa, vindo de um sentimento momentaneo de “todo mundo está achando legal, vai que eu também acho legal”. Mas eu não acho. Pelo menos não a ponto de investir a quantidade de energia que deveria, ou seja, não se tiver que repetir muito.

O que me falta? Não sei, porque só conheço o meu lado. Nele, faltam coisas nos outros. Sob o meu ponto de vista, minha casa é um lugar delicioso. Tem cama quentinha, computador com acesso à internet, TV à cabo e livros. E as duas companhias que mais aprecio no mundo. Então pra mim é incompreensível deixar de usufruir desse paraíso particular pra sentar em cadeiras desconfortáveis, ouvir estranhos em discussões que chegam a lugar nenhum e/ou conversar bobagens pra fazer social. Eu reconheço a importância, mas a ambição de escrever o meu nome na História ou fazer parte de algo duradouro me motivam menos do que fazer pipoca. Eu sei que, enquanto todos estarão (ou parecerão) super envolvidos, eu estarei sonhando com a minha casa; então, o espírito prático e empreendedor que me anima já pula todas essas etapas e nem me inscrevo.

O que eu não entendo é quem gosta, gente que é arroz de festa. Entram em grupos, organizam reuniões, investem seu tempo e dinheiro. Eu acho que esse tipo de atividade deveria receber remuneração de domigo, porque me seria tão custoso quanto. Claro que não são pessoas com o meu perfil que alimentam os movimentos sociais deste país. Se todos fosse iguais a mim, não existiriam sindicatos, grupos de estudos, reuniões, partidos, nada do gênero. Ao mesmo tempo – tenho quase certeza – se todos fossem iguais a mim, talvez nem existe a necessidade de fazer essas coisas.

Conversão

Sempre digo que beber e fumar são duas coisas que ou você começa na adolescência ou não faz mais. Acredito que ninguém um dia decida virar fumante. Parece que todos os fumantes começam a fumar aos poucos, só entre amigos. No meio da turma, começam a filar um cigarro aqui e outro ali. Como está sempre entre amigos, o hábito se torna cada vez mais freqüente e prazeroso. Chega o dia em que o sujeito tem que comprar sua própria carteira e… A pessoa se torna um fumante por simplesmente não levar à sério, por achar que poderia fumar um ou outro cigarro sem se envolver.

Sem querer julgar o mérito, vejo que algumas pessoas que se convertem à religiões o fazem com a mesma confiança. Começam a frequentar igrejas por influência de amigos, por gostarem de um Grupo específico ou por sentir falta de alguma espiritualidade. Vão lá mesmo não concordando com várias coisas que são ditas. Consideram que aquela igreja é apenas a mais cômoda naquele momento, que denominações não são importantes. Se propõem a frequentar sem se tornarem pessoas “de igreja”. A mudança é tão sutil, que pode ser que o próprio convertido nem note a diferença. Ele passa a repetir conceitos que claramente não compartilhava antigamente. Ou ouvir coisas que antes classificaria como intolerantes com a maior naturalidade. Isso sem falar na diferença no modo de vestir, de falar, de se portar e toda uma forma de classificar o mundo. De uma maneira ou de outra, ele se torna tão crente quando àqueles que ele se via tão diferente – e porque não superior – antes de entrar.

Não é à toa que a frequencia a grupos é essencial. Igrejas são insistentes nesse ponto. Também não é por acaso que para fazer parte de um meio – religioso, artistico, profissional, familiar, etc – é preciso conversar com as pessoas, ter acesso às mesmas informações, ir aos mesmos lugares. Se você praticar e ler sozinho em casa, não se tornará um verdadeiro [insira uma denominação aqui]. A capacidade de se manter à parte de um grupo é menor do que imaginamos. A mente não écapaz de filtrar toda a informação que recebemos; uma parte dela penetra no inconsciente sem que a gente se dê conta. Não é que o senso crítico deixe de funcionar – a questão é sobre que referências ele é usado.

A volta

Eu nunca quis entrar no Grupo de Estudos mas meu orientador me obrigou. Não foi nada explícito – quando eu mandava e-mail e dizia que precisava conversar, recebia um “depois da reunião a gente conversa”. E assim fui ficando. Por falar em troca de e-mails, ela quase sempre me fazia chorar. Primeiro porque eu estava muito sensível e depois porque durante quase todo mestrado eu e meu orientador não nos bicavamos. Eu, querendo fazer tudo pra ontem. Ele, resistiu tanto pra ler o meu trabalho que quando o fez a dissertação estava pronta. Só a partir daí ele começou a ver meu valor.

Na verdade, estranho mesmo era o fato de eu não fazer questão de estar no Grupo. Eles realizam encontros, estudam, centralizam contatos. Isso sem falar que meu orientador vai se aposentar e há uma disputa não-declarada pela vaga. Disputa que achavam que eu era favorita, por ser uma das poucas do grupo com diploma de sociologia. Mas minha cabeça estava em outra. E estava tão em outra que acabei indo embora. Mandei um e-mail ao meu orientador dizendo que estava largando tudo pra dançar. Dei tchau a ele, ao Grupo, à sociologia.

Isso foi há mais de dois anos – anos intensos, marcantes, essenciais. Aí eu tive que entrar em contato com ele para dar um exemplar do livro. Ele ficou feliz e disse que precisava de mais um, para entrar na avaliação da CAPES. E finalmente nos encontramos pessoalmente. Muito papo e digo para ele que pretendo voltar para a sociologia. Ele, tirando sarro, me perguntou se eu ia largar a dança. Eu disse que não, e comecei a ensaiar explicações sobre o quanto a área é difícil, etc, quando ele me interrompeu:

– Você é muito jovem ainda, tem tempo pra viver essas coisas.

Não tem nem o que dizer. Só amor.

Grupos

Eu já trabalhei num atelier público. Cada um pagava uma mensalidade e isso nos dava direito a usar livremente o espaço e solicitar ajuda do professor e dos funcionários. Alguns, como eu, tinham no atelier a sua rotina do ano inteiro. Estávamos sempre com algum novo projeto ou encomendas. Cada um já tinha um cantinho onde colocava suas coisas e os instrumentos preferidos. As pessoas se conheciam de nome e sabiam mais ou menos o estilo de trabalho de cada um – qual o seu canto, que momentos era possível interromper, etc. O lugar era público e era nosso ao mesmo tempo.

Apareciam novos alunos o ano inteiro. No final do ano, sempre chegavam uns alunos de design. Se esse pessoal ficava uma semana era muito. Alguns, porque vinham com um projeto bem definido, e quando terminam esse projeto iam embora. Outros, porque achavam que mereciam mais atenção – nosso professor era um grande escultor de Curitiba, com projetos próprios, e não tinha paciência pra explicar passo a passo a cada um que chegava. O fato é que na maior inocência os novos pegavam os instrumentos que os antigos tinham separadado nos cantinhos, ocupavam espaços destinados a outras atividades e – pior e mais freqüente ainda – sujavam tudo e iam embora sem limpar porque achavam que tinha funcionário pra isso (o que não era verdade). A Beth às vezes já chegava indicando onde é que estava a vassoura… Antes mesmo da gente ter tempo de corrigir, esse pessoal já tinha ido embora.

Imaginem essa situação se repetindo toda semana ou todo mês, e certamente várias vezes num ano. Com desconhecidos mexendo nas suas coisas, sentando na sua cadeira, atrapalhando o seu trabalho. Sem maldade, mas invadindo e interrompendo. Nas primeiras vezes, você tem mais paciência para ajudar, ser legal, explicar o que está acontecendo. Mas em pouco tempo dava pra perceber que era uma guerra perdida, porque a gente não vencia falar com aquelas pessoas – pessoas que iam embora, que não pegavam amor àquele lugar. Chegou uma época que todo mundo estava tão de saco cheio que era francamente rude com os novos. Aí surgiu um terceiro motivo pra ir embora: porque as pessoas do atelier eram muito antipáticas.

Claro que quem chegava lá não tinha noção de tudo isso. Para eles, tudo era novo; era o primeiro trabalho, o lugar que aparecia vago, uma mesa que deixou suja. Pros antigos, era a milionésima vez que tudo aquilo acontecia. Os novos recebiam patadas que na verdade nem eram para eles, era contra todos os que vieram e ainda estavam por vir, contra uma situação. Porque as pessoas são assim, grupos são assim: territorialistas, impacientes por natureza e com tendência a proteger os seus e agredir os de fora. Isso acontece em ateliers, em academias, em locais de trabalho e qualquer lugar onde haja pessoas novas e antigas. Não é justo nem bonito – é humano.

Capital simbólico

O grande fio condutor de todas as ações sociais, para Bourdieu, é o desejo de distinção. A sociedade é formada por vários grupos, onde a moeda de troca (ou capital simbólico) é específica de acordo com os valores do grupo. Dentro da universidade, onde me criei, o que importava era o quanto você se sai bem nas provas, se publica artigos, se fez alguma pós, como está seu currículo Lattes, que instituição freqüenta. Ser muito bonito, vaidoso e exibir símbolos de riqueza são até mal vistos – mostram que você investe seu tempo em coisas que não importam.

Agora estou em outro meio e o capital simbólico é totalmente outro. Ter um corpo bonito e jovem agora faz parte da profissão e confesso que esse determinismo genético me parece muito mais cruel do que quem vai ou não para congressos. É claro que eu sabia que o papel de solista não estava reservado pra pessoas que começam tarde. Mesmo assim, sei lá, eu tinha minhas ilusões. Algo como se emagrecesse e me esforçasse bastante. Isso sem falar naquele item maldito (na qual algumas pessoas não acreditam) chamado talento.

Em outras palavras, onde eu fui amarrar meu burro?