Ex-colega

pedras

Eu desenvolvi uma paranoia de que todos os que já foram aqui citados leram, me odeiam e querem a minha morte, de maneira que quando minha ex-colega de faculdade começou a trabalhar aqui do lado, rapidamente pensei que era o caso. Nossa amizade não terminou bem, pra nenhum dos dois lados: eu me senti perseguida por uma amiga que queria manter um grude que eu não era mais capaz; ela não deve ter gostado de se ver no papel de quem insiste e é cada vez mais ignorando. Olhando para trás, me parece que ela pode até ler como bullying algumas brincadeiras que eu e outras do mesmo grupo fazíamos, vai saber que olhar ela lança sobre ao passado. Porquê bullying: sabe aquela pessoa que rende histórias ótimas? Era ela. Por outro lado, as outras amigas ficaram num preconceito feroz e muito sério pelo namorado (futuro marido) dela não ter curso superior e etc., e fui a única a defendê-lo. Enfim, eu não sabia a que pé as coisas estavam porque, ao contrário do que imaginei, a sua reação ao me ver jamais foi de correr pra falar comigo, nem um informal “e aí?”

No dia em que eu vi True cost, eu fiquei muito mal. Uma combinação do que eu vi no filme e minha vida no dia. Era sexta-feira à noite quando finalmente terminei e vi que naquele estado lamentável era melhor sair de casa, ver gente. Decidi ir no supermercado comprar uma bobagem. Coloquei correndo um casacão enorme – fazia frio – e quando estava de saída, ouvi o barulho do outro portão. Pelo carro estacionado, eu já sabia que era ela. Não dava mais para recuar. Quando estávamos lado a lado, meu olhar concentrado no cadeado, ouço um “Boa noite!”, naquela voz muito familiar. Já imaginei suas perguntas, que nunca eram apenas sociais: eu estaria bem, e o fim do meu casamento, e o que fiz depois de desistir da profissão? Eu senti que não tinha condições naquele momento, nem pra resposta social, nem pra mentir, pra nada. Estava uma ameba, no chão, e qualquer coisa faria com que eu me sentisse tripudiada. Respondi o boa noite com um sorriso sem dentes, só puxando os lábios, me virei e fui embora. Nesse rápido movimento, ainda deu tempo de ver que ela vinha em minha direção. Pelo que conheço dela, iria me dar um abraço.

Se textos e bullying não causaram o ódio da minha ex-colega, isso deve ter bastado.

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Fuga

bicho é tão melhor

Quinta passada, pela primeira vez, a Dúnia fugiu de casa.

Ela foi adestrada pra nunca fugir, nunca tentar ultrapassar o portão. Não sei dizer como essa mágica é feita, ela simplesmente não é de se aproximar da saída quando o vê aberto. Ou não era. Não faz muito nós voltávamos de um passeio e só deixei o portão encostado enquanto ia abrir a porta de casa. Ainda de costas, ouvi aquele agito e quando vi a bicha já estava no meio da rua, cercando pra um cara com um cachorrinho. A Dúnia encostou no portão, ele abriu e ela aproveitou a chance.

Quinta eu estava no meu serviço de preso de ficar levando os pedriscos que estão na minha calçada para dentro do quintal. Fico levando e trazendo baldes, com o portão aberto. Acontece que o quintal estava cheio de cocôs de cachorro e recolhi pra evitar pisar. Foi igual da outra vez, ela se aproveitou enquanto estava de costas, perto da pra porta. Olhei para trás e vi tudo vazio, aquele portão escancarado. Sabe quando você sente o coração parar? Chamei, chamei, cadê o cachorro. Vou para frente da casa, chamo, não vejo ninguém. Aí ela surge, tranquila, e decide cheirar o arbusto do vizinho.

Vou até ela calmamente, conversando, e a abraço por trás. Tento carregar e ela se debate, e não dou conta porque a Dúnia pesa uns vinte quilos. Ela rosna pra mim, elevo a voz, ela se joga no chão, eu a arrasto pelas patas… uma cena. De volta pra casa, a Dúnia fica naquele agito típico de quando ela acha que vai levar bronca. Mas não – fiquei tão exausta, preocupada, aliviada, passada e todos os adas possíveis que não consigo. Apenas passei a fechar o portão.

Uma fuga dissociativa

Existe um fenômeno no campo da psiquiatria chamado fuga dissociativa. Lembro que o meu professor brincava dizendo que pobre tem fuga dissociativa até Ijuí e rico tem fuga dissociativa em Moçambique. É quando o sujeito, sem qualquer propósito, sem malas, planos ou avisos, larga tudo e vai pra bem longe. A família, claro, fica desesperada. Dias ou semanas depois que o sujeito é encontrado ou volta, como quem desperta de um sonho. Durante esse tempo, ele não sabia quem era ou o que tinha feito. Por isso que eu disse que é do campo da psiquiatria, é como um mini ataque de loucura.

 

Pela primeira vez na minha vida, esse ano, eu olhei para a fuga dissociativa e disse – “Hummm, sabe que não deve ser ruim?”. Há ocasiões que precisamos ficar sozinhos. Mas há fases em que toda solidão parece insuficiente e queremos uma pausa da nossa vida. Na vida toda, em todas as referências, em tudo o que construímos. Fiquei muito a fim. Sei até para onde iria. Nessa pausa tão profunda eu não falaria com ninguém, ninguém, deixaria de lado o que amo e o que não amo, passaria alguns dias tolamente sobrevivendo. Sem acesso à internet, sem flamenco, sem família, sem quaisquer obrigações a não ser dormir e comer. Uma vontade tão grande de sumir e todos os motivos de sumir e a fiadamãe da fuga não me atinge. É um saco isso, ser profundamente normal, racional, pés no chão.

 

Lembro de uma tirinha e uma charge. Na tirinha, um funcionário perguntava para o gerente: “Por que você nunca tira férias?” “Por dois motivos. Se eu tirar férias, as vendas podem cair””E o outro motivo?””Elas podem subir…”. Na charge, um Pernalongas está segurando uma pilha de papéis e diz: “Eu só não jogo tudo pro alto porque vou ter que catar tudo depois”. É por isso que não me dou uma fuga dissociativa de presente. Os espaços que tenho na minha vida, ainda que pequenos, ainda que insatisfatórios, só se mantém assim porque todos os dias estou lá, abrindo à golpes de foice. Se eu for embora, o mato invade tudo.

Festas

Nossa, será que posto alguma coisa? A Florzinha já não disse tudo?- o resquício anti-social que odeia festas, que não sabe o que fazer, como cumprimentar, mesas enormes, parentes que não se faz questão de rever, ir embora (ou fugir) sem se despedir. Da tortura dessas festas por causa do amado em que somos medidas o tempo todo, um bando de estranhos, reunidos em uma festa interminável…

{E o beijinho no rosto? Ah, eu odeio essa coisa de beijo no rosto! Um dia tenho que escrever um post inteiro sobre o assunto!}

E a solução – maravilha! – vamos fugir, pra outro lugar, baby! Vamos fugir!