Curtas sobre Fal e Karnal

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A sessão de curtas, que vocês tanto amam, é inspirada na Fal. Tô contando porque olhando assim ninguém diz, Fal é outro nível.

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O último post dela me tocou tão fundo, me deixou tão triste. Primeiro:

Senti uma imensa, imensa falta de ter pra quem contar isso. Entende? De poder ligar e dizer “checa na Ilustrada a figura que Maliu ama!”, e do outro lado ter alguém que também tremelique de rir e comente “Ê, Maliu é chegada num bicho grilo!”. Sinto imensa falta de Alexandre o tempo todo, mas nessas horas chega a doer.

Claro que as pessoas que querem bem a ela -e que são muitas – correram pra dizer que podem ligar pra elas. Mas eu entendi, não dá pra ligar. Não aquele telefonema.

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O outro ponto: “Há algum tempo, um cara me atacou forte, covarde e malvadamente por eu ser só. A única coisa que ele tinha contra mim era minha solidão.” Não tenho o que falar.

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Teve um dia, no tempo que o blog tinha até comentário, que eu fiz um post citando a Fal. Aí uma colega de faculdade me mandou um e-mail, dizendo que o meu blog era tão grande (queria eu!) e o dela tão pequeno, se eu não poderia recomendá-la aos meus leitores. Juro que tentei. Fui lá ver e tinha um monte de posts espíritas. Aí expliquei que tinha que ser espontâneo, que o dia que eu falasse de algo que tinha a ver com que ela tinha postado, eu a citaria. Nunca mais falou comigo.

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Leandro Karnal disse que acorda cinco da manhã, super bem disposto. Minha reação foi a mesma do Clóvis, achei um crime. Hoje, depois de semanas, finalmente pude acordar e tomar meu café com os pés pra cima enquanto ouvia música. Isso me fez tanta falta que não sei nem explicar. Acho que passei a entender o Karnal.

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Grampos

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Os primeiros eram cinza, os melhores. Eles prendiam tão bem que dá até pra colocar a ponta da toalha no gancho da rede. O plástico foi secando com os anos, e faz PLÁ! quando a gente aperta. Aí vieram uns japoneses. Tem três cores, mas são todos iguais – preto, verde e branco. Na embalagem eles prometiam marcar menos a roupa. E marcam mesmo, mas também não prendem muito. Por fim, comprei uma terceira leva, que veio numa cestinha e ficam pendurados. Foi aí que começou. São três cores: vermelho, verde e amarelo. Com eles eu descobri que dá pra combinar as cores na hora de pendurar a roupa. Passei alguns dias assim, só prendendo a toalha com grampos da mesma cor nos dois lados, os biquínis e a touca com a mesma cor e assim por diante. Quando estava organizando as roupas em função dos grampos decidi parar – melhor não dar vazão a mais uma mania. Agora enfio as mãos na cestinha e penduro com o primeiro que me surge na mão. Três peças, três grampos, como vier. Olho para a roupa e a toalha está com um verde numa ponta, um vermelho na outra e a calcinha com verde.

Se a toalha ficasse com os verdes e a calcinha com o vermelho seria melhor, penso.

Ética própria

Eu não me arrisco a responder. Sério, inveja de vocês que sabem das coisas. Eu não sei. Mal sei de mim mesma, das minhas motivações, o que farei no dia seguinte. Quanto mais ter resposta para mistérios da vida – o que é real, o que não é. Vou para giras de umbanda e todo mundo ao meu lado sente chamados, tonteia, é tomado por uma atmosfera diferente. Eu, tal como os mais puros ateus, não sinto nada. Até gostaria de dizer que sinto, mas não me dá nem coceirinha. Minha impressão é mesma de quem vai a uma festa e só assiste à festa – muito diferente de quem sabe quem brigou com quem, quem comeu quem, quem falou algo pra alguém remetendo a uma história anterior. Ou seja, aproveito uns dez por cento. Eu vejo o que está lá e pronto. Também não sei dizer que estranho papel é esse que ocupo, mesmo os envolvidos não sabem. Não sou assistência, não sou médium, não sou parte da corrente. Mas posso ir lá dentro. No início, tudo era porque conhecia os pais de santo. Aí, passei a ter relação com os guias deles. E com outros médiuns. E com os guias desses médiuns. Ou seja, já tô ficando íntima da casa. Existe essa separação, entre a pessoa e o guia? Para quem crê, existe. Eu poderia ser muita amiga de um e não de outro, e vice-versa. Para quem não crê, uma coisa necessariamente levaria a outra, ou seja, óbvio que sendo amiga dos pais de santo eu acabaria tendo privilégios. Como disse, não sei. Eu não sei da permanência da alma, não sei da relação entre espírito e matéria, não sei de facetas de personalidade e de inconsciente. O que eu sei, o que eu vejo, é a sinceridade dos envolvidos. Do tempo que dispõem, da dedicação. Eles oferecem – para mim e para os que freqüentam – o que eles têm de mais importante e sagrado. De onde eu percebo que minha incapacidade – e até falta de vontade – de decidir o que eu acho me leva a uma ética muito própria: o que me é ofertado com sinceridade e carinho eu aceito com sinceridade e carinho.

Se eu pudesse

 

Minha primeira gira de umbanda. Eu sentada, encolhida em casacos, numa das noites mais frias do ano. Recebo os passes e bênçãos das entidades da linha de direita, nada de especial. Começa a segunda parte, da esquerda. Um Exu se aproxima das cadeiras onde estão os que só assistem, uma moça lhe presenteia, agradece e eles trocam algumas palavras. Depois, ele se dirige a mim. Com um olhar afetuoso, o Exu me pergunta se eu desejo pedir alguma coisa. Eu digo que não. Ele me pergunta de novo, se eu tenho certeza de que não quero pedir nada. Eu repito que não. E não digo não por desprezo ou por achar que ele não poderia me atender. Eu respondo que não porque não sei o que pedir. A única que eu poderia talvez pedir fosse para voltar no tempo. Para ter sido mais sábia, para ser maior do que eu sou. Tive também vontade de perguntar o Por Quê, mas meu Por Quê é tão profundo que só Deus poderia responder. Aí Exu me pergunta se eu não desejaria uma consulta com a Pomba-Gira. Agora o estrago já está feito, de que me adianta. Brinco com ele dizendo que não, pois a minha pomba está em recesso. Ele entra na onda e diz que isso é bom, que não convém andar com a pomba aberta por aí. Antes de ir embora, ele resolve falar sério e me diz que eu não devo me deixar afetar pelo que está me acontecendo, que eu sou maior do que tudo isso. “Você já é uma pessoa vitoriosa”. Que a vida tem fases – e nesse instante em faço um gesto de onda com a mão, indicando que estou na fase baixa – e que tudo o que estou vivendo, passará. Ele me diz para não me abalar, pois eu sou maior do que tudo isso. E depois se afasta. Aí que eu comecei a chorar.