Curitiba toda dominada

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Eu não sei se com os anos mudei eu ou mudou Curitiba, mas tive durante muito tempo uma relação de amor e ódio com a cidade que foi acalmando e a vontade de ir embora passou. Tem um post antigo meu que recebia recorde de comentários sobre o tema, e no início era até divertido de ler – Desvantagens de morar em Curitiba. Este post me fez ajudar dois estrangeiros a se decidirem sobre vir para cá ou não. Como tudo o que se escreve, ele reflete o que eu pensava na época e mudou, e era bastante estranho ser xingada por algo que não refletia mais a minha opinião, mas a internet tem dessas coisas. Hoje tenho consciência que é muito importante para mim poder me deslocar a pé. Alguns lugares tem uma distribuição de ruas estranhas demais para o meu precário senso de localização; outras são violentas demais; outras são machistas demais; tem as que são quentes demais ou as que exigem dinheiro demais. Uma vez estava no ônibus e ouvi uma conversa que achei muito interessante, de dois rapazes que contavam os lugares mais longe que já foram de ônibus, levando em conta onde moravam. Eu já tinha ido para os mais longe dos dois e mais adiante. Já devo realmente ter rodado essa cidade para todos os pontos cardeais, nenhum lugar me é totalmente estranho. Sem dizer que, no Centro, tenho a intimidade que só os anos são capazes. Um dia estava na XV e precisava comprar uma cartolina preta e soube exatamente onde havia uma livraria pequena e bem especializada em papéis especiais. Meus três itens essenciais numa cidade e que Curitiba me dá com folga: me perder e voltar sem riscos, decidir um longo trajeto à pé e ir resolvendo coisas no caminho, ter a cidade inteira acessível por transporte público.

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Essa barra que é gostar de você

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Pode não ser verdade, pode ser pura desculpa para nossa incompetência, mas a gente sai de Curitiba e se diverte, fica popular, olhado nas esquinas, nos acham inteligentes e capazes. Aí a gente volta pra cá e o telefone não vibra, todas as nossas iniciativas morrem em nuvens e ninguém dá nada pela gente. Tô falando no coletivo porque conheço alguns casos. Tinha uma colega de faculdade que aqui não era ninguém, e quando foi para Floripa virou quase uma embaixadora informal. “Então vai embora!”, diz o curitibano com raiva cada vez que falam mal da cidade dele. Curitiba também tem uma característica estranha de prender as pessoas aqui, como se fossem tentáculos. Costumo dizer que aqui é meio ilha de Lost. A cidade prende e a gente vai ficando, ficando, meio odiando ficar e meio reconhecendo que as ruas são limpas, as pessoas são educadas, a privacidade é um direito. São detalhes, nada que nos faça escolher um lugar, mas que no conjunto melhoram muito a vida. Dia desses me dei conta que se realmente a cidade me largasse – “vai, te liberto desse carma!” – eu já não saberia pra onde ir, ficaria com medo de não gostar: e se eu não gostar de andar nas ruas e onde compra alho poró, lá tem uma boa biblioteca? O amor por Curitiba brota devagar, sem que você perceba, como quem de repente se dá conta que sente falta do tio e sua piada do pavê.

Sem carro

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É uma tendência quase irresistível a de se ver como um núcleo flutuante, como se o que somos e pensamos fosse gerado independente da realidade. Muito pelo contrário, quem aposta que o homem não passa de um conjunto de hábitos – sendo que a maioria deles foi adotada por mera repetição – está muito mais perto da verdade. Uma das coisas que me determina muito é não ter carro. O não ter carro me torna uma pessoa que anda à pé, de ônibus e de bicicleta. Ah, e carona dos amigos. Você pode pensar que isso, então, nada mais é do que um atestado de pobreza. Não é (apenas), eu nunca quis ter um carro. Era pra ter ficado com carro no divórcio e me recusei.

Nunca consegui convencer ninguém sobre as vantagens do não ter carro. O único argumento que faz as pessoas realmente balançarem é dizer que a vida sem carro é mais magra. No mais, nada posso contra o evidente conforto, rapidez e status (principalmente o último). Sem falar da lista de motivos, todos excelentes, que fazem com que meu interlocutor, por mais que admire a vida sem carro, não possa abrir mão de um – é filho, é distância, são horários impossíveis, fascite plantar… Tudo bem que meus amigos muitas vezes sejam mais jovens e moram mais perto do que eu, mas eu sou eu, eles são eles, e eu ando de ônibus e eles não, fim.

Eu acho que a vida sem carro nos modifica de uma maneira profunda, é uma vida slow. Quando eu digo que emagrece não ter carro, isso para mim não é apenas uma questão de gasto calórico. Andar faz com que a pessoa tenha uma outra relação com seu tempo, seu corpo e seus pensamentos. O aborrecimento vai embora no passo apressado. É um momento de perceber o horizonte, sentir o contato da pele com o tempo, olhar para as pessoas, ser parte da lenta mudança de cenário. Claro que de carro costuma ser mais rápido, que ônibus lotado e acordar mais cedo é uma vida que ninguém quer. O transporte coletivo não é ruim apenas por ser coletivo, ele é sucateado por estar relegado à “pobreza”. Quem não dirige demora mais a chegar, mas tem mais chances de chegar tranquilo. O lento é uma maneira diferente de lidar com o tempo, de não ficar tão focado no fim e sim no caminho. Carro deixa o sujeito trancado; os outros meios de transporte levam a dividir mais o espaço, participar, negociar com um tempo alheio à você. Acho que temos precisado muito disso: ser arrancados de nós mesmos, não estar constantemente envolvidos no próprio inferno. Por isso que digo que não ter carro fala de quem eu sou. É um cotidiano que exige de mim mais paciência, tolerância e empatia. Empatia, esse sentimento que tem feito tanta falta no mundo.

Viajante

Não sei se é a adrenalina da própria caminhada, ou se são os dias agradavelmente quentes, mas às vezes estou por aí com olhos de viajante e tudo me parece fresco e novo. Vegetações misteriosas, calçadas que mudam de cor, fachadas históricas, cenários de fotografia ignorados. Passo na frente de uma casa e alguém tira um chinelo da varanda, ou na mesinha dos fundos se prepara uma comida, e me sinto tão íntima deles que parece que a pessoa vai sorrir e dizer “Venha, entre”. Com a mesma naturalidade eu abrirei o portão e me sentei para ouvir histórias a tarde inteira, com o mesmo comprometimento de quem sabe que nunca mais vai voltar. Outra possibilidade é que na pausa para o lanche ou diante de uma vitrine uma observação seja feita, talvez por mim; isso gerará um sorriso, que gerará uma conversa cada vez melhor e um carinho que se enraíza por todos os lados, até no passado. Outro louco também por aí como se fosse turista, desarmado e de olho na copa das árvores. Porque não é com esse espírito que estamos quando vamos às cidades dos outros, abertos e disponíveis para os milagres?

Maresia

Nunca me considerei uma pessoa olfativa, e talvez não o seja em relação a todo resto da minha vida. Mas Salvador me pega pelo cheiro. O cheiro de coentro misturado ao azeite de dendê. O cheiro delicioso de acarajé, presente nas ruas, denunciando que em algum lugar, dobrando alguma esquina, há uma baiana. O cheiro da maresia, assim que a gente chega um pouco mais perto da orla. E essa maresia, tão poderosa, faz com que nada cheire como cheira em Curitiba. Ela se mistura aos produtos de limpeza e os deixa com outro cheiro. Ela se mistura à madeira e faz com que a madeira em pouco tempo adquira o cheiro de madeira perto da maresia. A maresia se mistura à poeira, e faz com que seja uma poeira mais grudenta, e não aquela poeira solta que podemos soprar. Acho fascinante a maneira como aqui tudo seca muito rápido, pelo calor. Você lava roupa e quase pode vê-la secar em poucas horas no varal. As coisas sujam e basta jogar uma água em cima pra limpar. O sol e o calor inclemente (na concepção daqui está apenas agradável) se encarregam do resto. Lá embaixo, a gente tem que passar rodinho, pano, álcool, estender bem, e as coisas ainda assim podem levar dias segurando umidade. Mas aqui, quando seca, não seca igual. Meu cabelo está com uma textura diferente, tudo fica diferente. Olho para as plantas, para o verde abundante e as praças reluzem; mas não sinto desejo de estar nelas, porque preciso de sombra e, aparentemente, os outros também. Então esses lugares lindos servem apenas de passagem e as pessoas se juntam onde há pichações, cadeiras de plástico e bebidas geladas. Os lugares limpos e cimentados estão vazios; os lugares onde se vê gente são justamente os de ar decadente, acabados por essa maresia e esse sol; tudo necessitaria de tantas lavagens, tantas demãos de tinta, tanto verniz, tantas vassouradas e inseticida, que tudo fica como está. Não sei como as roupas resistem, coloridas, como as coisas se mantém nessa luta constante contra a natureza. A maresia, sente a maresia, que penetra todas as coisas, que altera a textura da pele e nos torna diferentes, outros.

Exílio em Paris

Nunca vi alguém no Brasil achar o exílio uma coisa boa, ou dizer que Caetano se divertiu e aproveitou tanto que fez até música. Parece que no Chile é diferente, que a turma favorável a Pinochet diz que o exílio não foi tão ruim. Uma chilena uma vez me disse: “Pra eles foi bom, voltou todo mundo doutor nas melhores universidades da Europa”. Por acaso conheci um que realmente voltou doutor da Sorbonne, em sociologia. Ele me contou que tinha pouco mais de vinte anos quando foi obrigado a sair do Chile. Ele era um típico aluno de classe média, mal saído da adolescência, um porra-louca qualquer. Lia Marx, queria combater as injustiças e mudar o mundo; ele não fazia a menor idéia de onde estava se metendo. No espaço de poucos dias ele deixou de ser o filho da dona Fulana, que levava uma vida pacata, tinha seu quarto, amigos e violão, e se viu exilado em Paris. A cidade lhe pareceu totalmente hostil. Ele não sabia falar francês, não tinha contatos e nenhum lugar pra ir. Do nada, teve que aprender a se virar: falar, ler e escrever em francês, arranjar sub-empregos, um lugar para morar, roupas para vestir, comida para comer. Foram quatro anos pra ele começar a não se sentir tão mal, pra vida finalmente entrar nos eixos. Foi o tempo para começar fazer amigos, ter um pouco de controle sobre a sua vida e voltar a fazer planos. Em Paris ele casou, teve uma filha, descasou, fez o doutorado, voltou para o Chile. Se pudesse escolher, não teria feito as coisas dessa maneira. Daquela época ficou para sempre a dificuldade de chorar e um certo desencanto com a vida.

Quando pessoas falam de Paris, ou Nova York, ou qualquer cidade como o paraíso na terra, quando acham que vale qualquer coisa para morar nelas, que só de estar Lá já é um glamour… só consigo achar burrice. Como a das reportagens sobre Krajcberg que vêem no fato dele preferir morar no interior da Bahia do que na Europa sinal de loucura. Não importa o CEP, ou que lindos cartões postais se faz da nossa cidade; o entorno que nos faz felizes é pequeno: um lar, um emprego que nos dê conforto, as não mais que cinquenta pessoas com que convivemos todos os dias.

Bichos escrotos, FIQUEM nos esgotos

Nesse delicioso ano de 2009, aqui em Curitiba, tivemos frio e/ou chuva e/ou dia cinzento durante uns 298 dias. Como pessoa normal, achei tudo isso detestável. Comecei a pensar seriamente no que pensei a minha vida inteira: sair daqui. Pra ir pra algum lugar mais pra cima – mas não tão pra cima quanto o nordeste. Algum cidade com boa conexão para minha internet, para que eu possa chamá-la de lar.

Aí finalmente esquentou. Além das habitués aranhas marrons, minha casa tem aranhas peludas, aranhas de pernas compridas, pequenas, médias e grandes. Pernilongos famintos não me deixam nem sentar na privada direito. Já matei uma BARATINHA. A Dúnia se diverte imensamente com um besourão que insiste em entrar na garagem.

Não existe meio termo? Ou o tempo nos induz ao suicídio ou cria hordas de insetos?

Trajeto

Eu não gostaria de me teletransportar para os lugares. Sou contra parar de andar de ônibus, parar de caminhar pelas ruas. Gosto do ritual de colocar o braço pra fora da janela e tentar adivinhar o clima do dia inteiro, por mais que isso me faça errar a roupa muitas vezes. No ônibus, faz parte olhar as pessoas e pensar enquanto a paisagem muda lá fora. Melhor do que acelerar o passo, só o prazer de desacelerar quando está sobrando tempo. Conversas soltas costumam ser das mais interessantes, com pessoas que nunca saberemos quem são. Centenas de vidas, de histórias e contingências unidas por um trajeto e um horário. Será que um dia elas se cruzarão? O futuro grande amor pode estar atravessando a rua naquele mesmo instante.

É preciso andar pelas ruas, se perder por elas, descobrir outros mundos há poucas quadras de onde a gente sempre anda. Nelas a gente aprende a avaliar mais as expressões do que roupas na hora de pedir ajuda. Ou nós viramos a ajuda, de caminhos a histórias tristes. Há o velho dilema de dar esmolas ou não – por mais que eu tente padronizar um comportamento, a cada pedido eu sinto uma coisa diferente. Quem vê o mundo através do vidro – por ser rico ou protegido demais – não sabe de tudo isso. Nas épocas boas, o trajeto é uma antecipação da felicidade, é o prazer de estar vivo. Quando o lugar de chegada e de saída são ruins, o trajeto é a única coisa que nos mantém.

Curitiba e seus dedos gelados

Você tem razão, Awks. A cidade ideal até pode ser Curitiba, mas jamais com os curitibanos dentro. É uma cidade muito difícil de estar. O choque é maior para nordestinos do que para paulistas, mas em que outro lugar a gente quer pular no pescoço de pessoas tão polidas? Ao mesmo tempo que é ótimo dominar o centro e os bairros de ônibus, comer maravilhosamente e andar no parque, pode ser que a pessoa dê a má sorte de ter que conviver com gente que – por um motivo qualquer – decide que ele não é uma pessoa legal, e elas vão se calar quando ele chega ou hostilizá-lo francamente, sem direito à apelação. Ou podem simplesmente jamais falar com ela, porque ver alguém todos os dias durante anos não quer dizer que ela não seja uma estranha!

Eu vivi aqui quase a minha vida inteira, e sempre me falam – você não é daqui, né? Com o tempo a gente vicia em ouvir isso. Porque eu conheço muita gente que não é curitibana, se queixa dos curitibanos, mas parece um curitibano perfeito. Porque, sem notar, a gente passa a adotar certas curitibanidades. Eu percebi isso quando vi a paciência dos paulistas com quem está perdido e pede informação. Aqui, o normal é rosnar pra qualquer estranho que nos aborde. Essa cidade tem dessas coisas. Eu a amo e a odeio.

Todo esse histórico foi pra dizer que durante anos eu tentei sair daqui. Poderia ter ido pra Salvador ou para São Paulo. Quis muito ir pra São Paulo. O tal emprego não veio, mas eu sempre tive dentro de mim a certeza de que o dia em que a oportunidade surgisse, eu fugiria de uma vez. Mesmo quando casei, mesmo quando compramos uma casa. O Luiz pode ser transferido pra outros estados, e eu sempre disse para ele estar atento. Agora mesmo, ele poderia ter se oferecido pra ir pra Goiás.

Mas, pela primeira vez em toda a minha vida, tudo está nos eixos. Do academia a turma de amigos, gosto de todos os lugares onde vou. Depois de muito sofrimento, consegui me cercar de apenas de pessoas legais. Almoço em restaurante naturalista, ganho convite pra teatro, tenho acesso a coisas exclusivas porque as pessoas me conhecem e gostam de mim. O mais importante de tudo: estou dançando, dançando e dançando. Tenho medo de perder tudo se sair daqui. Curitiba finalmente conseguiu me render entre seus dedos. A Teca – mais uma que tentou fugir e nunca conseguiu – disse que é sinal de maturidade. Eu sinto medo.