Despedida com bolinhas

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Eu li em algum lugar do Facebook que é meio chocante pensar que, em algum momento da infância, você saiu para brincar com seus amigos sem saber que aquela seria a última vez. As pessoas comentaram que era um pensamento meio perturbador. Da minha parte, tenho muito limpa na lembrança a minha despedida. Foi com meu irmão e eu acho que tinha 14 anos e ele 13. No lugar mais central de Curitiba, no início da década de 90, inauguraram uma loja que ocupava vários andares de um edifício de esquina, chamado Garcez, e a loja tinha o mesmo nome. Quando inaugurou, era muito bonita, quase um shopping. Depois não deu certo, virou várias lojinhas, virou faculdade quando ficou fácil abrir faculdade e hoje me parece que é um prédio administrativo. Todo mundo que mora aqui sabe de que prédio estou falando. Eu e meu irmão fomos passear no centro, adultamente, e aquilo era parte do passeio. As escadas eram de mármore branco e o dourado predominava na decoração. Cada era dedicado a um segmento – feminino, masculino, infantil, eletrodomésticos, etc – e na parte central aberta era possível olhar toda loja. Quando chegamos na sessão infantil, havia um parquinho, uma porta branca com uma piscina de bolinha em cada ponta. Eu lembro que elas eram bem rasas, o parque havia sido pensando para crianças muito pequenas. Mas quando eu era uma criança muito pequena não existiam piscinas de bolinhas. Eu lembro que minha sensação quando elas surgiram foi: Pooooxa, por que não inventaram isso antes? Não lembro como foi o acordo, se alguém propôs; gosto de imaginar que apenas nos olhamos e entendemos tudo. O que eu lembro bem é de cada um na sua piscina, som de bolinhas, bolinhas escorrendo para os lados, guerra de bolinhas. Adultos com ar de reprovação eram apenas inveja. Só fomos embora depois de esparramar e jogar todas as bolinhas que quisemos e a nossa felicidade era completa.

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Pra dizer adeus

diante da imensidão do tempo

“Custava ela me dizer que” é sempre a queixa de quando as coisas terminam. O outro lado sempre poderia ter jogado mais limpo, ter confiado mais, dito de maneira mais clara o que queria. Como se não bastasse o rompimento em si, fica a mágoa por ter ouvido uma versão pobre, de um problema ter se multiplicado porque agora há climas e mal entendidos. No término descobrimos no outro um lado pequeno, mesquinho.

Eu acredito que algumas pessoas têm papeis específicos para desempenhar nas nossas vidas; alguns são mais longos do que outros, quase ninguém é pra permanecer a vida inteira. Não tem a ver com afinidade ou a vontade das partes, não tem a ver nem com amor. Tem gente que não nos desce direito e fica toda vida aí, e outras que queremos e admiramos tanto e já vão embora. Uma vez, no tempo da internet à lenha, um amigo estava com um amigo que queria fazer um site falando da doença rara da filha. Na mesma semana eu comecei a trocar mensagens com um cara, e ele trabalhava com isso. Nós encontramos uma única vez. Não sei nem dizer o motivo, foi uma tarde agradável mas nenhum dos dois sentiu vontade de mais. Comentei a história do site e ele se ofereceu pra fazer de graça. Fiquei com a clara impressão de que havíamos nos encontrado só pra isso.

Mas assim é fácil, né? Uma tarefa clara, um contato rápido e sem expectativas. Na maior parte das vezes os benefícios de um relacionamento são internos, as vidas se misturam, obrigações são criadas. É raro que os dois estejam no mesmo ritmo, geralmente um sente que já deu e o outro ainda quer ficar. Eu imagino os rompimentos como uma ordem da presidência, dada num mundo ideal, e na hora que ela chega na sua mão é um “te vira e tem que estar pronto até sexta”. Por isso, desista: no término, ninguém nunca diz ou age como deveria.

Adeus

Fica parecendo que a iniciativa do adeus é de quem foi embora. Nem sempre, porque ir embora é o fim de um processo. Às vezes o outro quer que a gente vá, mas por algum motivo – dinheiro, culhões, imagem – não o faz. Então manda mensagens, manifesta seu desagrado diariamente com picuinhas. O outro tem uma sensação estranha, percebe uma coisa aqui e outra ali. Primeiro, acha que foi um dia ruim, que é uma interpretação maldosa, que foi coincidência. E vai levando, ignorando e relevando muita coisa. Até que um acontecimento sem importância une todas as peças, e a verdade cai no colo como uma fruta podre. Não dá mais pra fugir de uma decisão.

Sim, dá pra ser político à espera de algo melhor. Alguns decidem ficar só pra provar o seu valor, pra reverter o jogo e aí sim ir embora. O que não deixa de ser uma maneira de reconhecer o fim sem dizer adeus. Ficar quando tudo conspira para que você saia, é entrar numa queda de braço sem se divertir. Será que não é mais saudável colocar um The End antes dos silêncios se tornarem mais freqüentes e constrangedores? Melhor partir; antes das relações começarem a azedar, antes dos danos na auto-estima se tornarem irrecuperáveis, verdadeiros traumas. É um direito dos mais sagrados o de dizer adeus, porque não é pra tudo na vida que a gente pode dar as costas.

Adeus, ballet.