Tigrada

Se a pessoa, de uma hora pra outra, vê como se fossem mosquinhas, ou luzes, ou perde um quadrante da visão, pode ser descolamento de retina. Neste caso, ela deve ir imediatamente para um hospital de olhos, de onde vai direto pra operação. Imediatamente mesmo, do tipo largar tudo. Se marcar consulta, dormir pra ver no dia seguinte, já era. Muita gente na pesquisa que fiz sobre cegueira perdeu a visão assim, porque marcou consulta, esperou, ou seja, fez o procedimento normal. No descolamento uma membrana no olho se rompe e o líquido invade onde não deveria, então imaginem com que rapidez acontece.

Pois. Fui na super oftalmo para afastar as nóias que de vez em quando me aparecem, apesar de ter um grau de miopia bem baixo. Tudo porque tenho histórico de descolamento de retina na família. E tem que ser ela e não um médico qualquer do plano. Quando eu estava com os olhos dilatados, a médica tirou foto do meu fundo de olho – “só porque eu sei que você está preocupada”. Ela me deu as fotos e me explicou: nenhum fundo de olho é igual ao outro, igual digital. A pessoa albina tem um fundo de olho claro. O fundo do meu olho esquerdo tem um várias linhas, é um “olho tigrado”. Isto quer dizer que lá atrás, de algum lugar que eu não conheço e ninguém nem sabe, eu tenho um ancestral negro.

fundo do olho esquerdo

Fundo do meu olho esquerdo. Olha que foto mais íntima, muito mais do que foto de biquíni.

Fiquei feliz. Que meu ancestral negro me garanta um olho forte e saudável, que me permita fazer tudo o que eu quiser na minha vida.

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Banho no escuro

chuveiro

Há trocentos anos vi o depoimento de um homem que tinha a mãe cega, e ele contou que uma das suas lembranças mais antigas de infância era que ela dava banho nele no escuro. Se eu tivesse que escrever uma história, uma ficção, jamais me ocorreria um episódio desses, mas, ao mesmo tempo, é quase como uma consequência óbvia. Sei lá porque nunca esqueci a imagem. Agora, na academia, eles instalaram aquelas luzes com sensores de movimento. Algumas vezes estou no banho e a luz de repente apaga. A maioria das pessoas faz alguma coisa pra acender a luz, mexe na toalha ou coloca a mão pra fora do box. Eu fico torcendo pra ninguém fazer nada. Tomar banho no escuro é gostoso pra caramba.

Cegueira e matemática

Tem uma música do Alejandro Sanz que eu adorava e que se tornou insuportável pra mim depois que fiz pesquisa e convivi com pessoas que perderam totalmente a visão. É esta aqui, Siempre es de noche:

A história da música é de uma conversa que ele teria visto, o moça descreve para o rapaz o mundo que ele não vê. Quando ela se afasta, ele pergunta para o observador, o Alejandro, num tom apaixonado, se ela é bela. Acho que já disse isso aqui uma vez, que essa pergunta é bastante comum, pelo menos entre aqueles que um dia foram videntes: como ela é, qual é o rosto, que impressão passa? É curiosidade pura, porque para tocar em alguém é preciso intimidade. Saber que a pergunta é comum retira todo romantismo que o Alejandro atribuiu… Mas o pior, pra mim, é o refrão: “o que eu não faria para contempla-la, ainda que fosse um só instante”.

Um exemplo, para depois voltar no Alejandro. Eu era muito CDF quando era criança, do tipo que já passava de ano no terceiro bimestre. Uma das poucas matérias que eu não ia tão bem era matemática. Aí quando entraram física e química no currículo, talvez porque naquela altura eu já estava em escola pública, meu desempenho caiu de uma maneira absurda. Eu senti como se de repente tivesse ficado retardada. Aquilo se tornou um tormento, eu tinha que colar e chutar o tempo todo, por mais que tentasse eu não conseguia entender. Nunca fui de decorar e aquelas fórmulas eram simplesmente impossíveis para mim, símbolos que não faziam sentido. Ao mesmo tempo, eu era apaixonada por trigonometria e logaritmos, gostava de fazer caminhos enormes só com o teorema de Pitágoras, resolvia logaritmos de cabeça enquanto andava até o colégio. Até hoje não sei o quanto eu teria me beneficiado por uma maneira diferente de ensinar matemáticas e afins ou eu estava destinada a ser pior do que os piores porque sou uma pessoa de humanas. Hoje uma das grandes invejas da minha vida é justamente esse tipo de raciocínio. Eu, que mal consigo fazer conta sem olhar para os dedos, se pudesse escolher teria uma mente matemática. Eu sei que para quem o possui o mundo é diferente, existe uma beleza subjacente, uma ordem. Quanto mais abstrato mais legal deve ser, meu deus, babo só de olhar aquelas fórmulas e imaginar o que se imagina para chegar até elas.

Existe um mundo cuja existência eu sei e não entendo, que é o mundo da matemática. Digo que tenho inveja mas, na verdade, é uma desejo bastante abstrato, porque como invejar algo que é tão longe de qualquer coisas que eu já vivi. Lembro que ele existe, penso que bom seria, mas estou bem aqui. Onde outra mente veria matemática, eu não vejo nada ou vejo outras coisas. É mais ou menos assim, acho, que um cego de nascença se sente com a pergunta se ele não sente falta de enxergar. Vários deles me disseram: NÃO, em si. Mais pelos outros, por saber que existe, por viver num mundo organizado assim. Ou seja, “o que eu não daria para contemplá-la blablablá” é coisa de vidente.

Imenso

No período em que estudei cegueira, acabei descobrindo que Imenso é um conceito puramente visual. Sem a visão, o Imenso é muito abstrato. Imenso não é grande, muito grande, não é apenas muito mais do que você pode tocar ou sentir. O imenso é o horizonte, as montanhas, a multidão num estádio lotado. O mar calmo, verde, com ondas; o céu azul de nuvens ou preto picotado de estrelas. O imenso tira o fôlego e nos sentimos pequenos, ele nos recoloca em nosso lugar. Não é à toa que as catedrais góticas eram altas, cada vez mais altas – a mais alta do mundo, de Ulm, tem 161,53 m de altura. Eles queriam esmagar mesmo, queriam ressaltar o quanto o homem é pequeno diante de Deus. Acho que Imenso é a experiência mais próxima e acessível do Divino que nós temos.

Pensei nessas coisas enquanto observava o céu estrelado desta noite, um dos mais belos que já vi nessa cidade. Poucas coisas resistem e continuam importantes sob o brilho das estrelas.

noite