Curtas sobre fragilidade

É sempre a mesma coisa: eu nado há anos e nado bem. Aí aparece um homem na turma, que nada mas não está acostumado com o ritmo puxado da aula. Começa uma série, digamos que dez tiros de cem metros. Além de conhecer o meu ritmo, as séries de resistência são as minhas preferidas, o meu desempenho vai melhorando com o esforço. No primeiro tiro, eu nado mais rápido do que o tal aluno novo. Do segundo em diante, o sujeito faz de tudo pra ganhar de mim. Eu chego na raia tranquila e ele está com os pulmões pra fora. Até que ele não consegue manter mais e nos últimos tiros está quase uma piscina inteira atrás de mim. Por que tudo isso? Porque eu sou apenas uma mulher, eles precisam ganhar de mim.

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Aplicativo de karaokê: quase todas as letras de música são cantadas numa primeira pessoa do sexo masculino. Eu canto a letra tal como ela é, todas as mulheres que eu ouvi cantando fazem a mesma coisa. Só que de vez em quando, muito raramente, aparece uma letra com uma primeira pessoa no feminino. Dá pra perceber: o sujeito vai cantando normalmente, aí chega na parte feminina – “estou apaixonadA”, “estou sentidA” ou “você é meu queridO” – , e o sujeito tem um mini ataque de pânico. A palavra sai atrasada, num tom diferente – e no masculino. Vai que uma pessoa o ouve interpretar uma música num aplicativo, de nickname irreconhecível, e conclui que se ele canta música de mulher no feminino é porque gostaria de ser uma? Sempre lembro deste vídeo:

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Já comentei o caso aqui. Eu ia na loja quando era casada e o dono ficava conversando com o ex. Fui na loja recém-separada e o dono passou a me virar a cara. Depois, inesperadamente, me tratou bem. Pediu abraço de fim de ano e até aí ok. Na vez seguinte foi mais explícito na cantada – se eu percebi é porque só faltou a pessoa anunciar em carro de som. Não fiz nada, apenas na vez seguinte fui para as prateleiras; se tivesse interessada, teria ido falar com ele. Ele me cumprimentou, entendeu, tudo muito sutil. Pois bem. Voltei. O sujeito me deu um sorriso tão agressivo que foi como se eu tivesse corneado o sujeito e voltado na loja pedir produto de graça? Minha vontade foi dizer pra ele: Percebe que você criou uma história sozinho, que EU NUNCA TE FIZ NADA?

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Estou espalhando esta raiva por aí. LINK DA NOTÍCIAUma mulher ultrapassou homens que partiram 10 min antes de bicicleta e decidiram para-la e todas as outras mulheres por sete minutos – tudo para que os pudessem recuperar a vantagem e os seus egos não sofressem danos permanentes. É uma metáfora tão clara sobre o que é ser mulher. Feliz dia. Reclamemos.

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O que elas estavam pensando?

Eu entendo uma mulher não se identificar como feminista por aí, mas não entendo uma mulher que, do fundo do seu coração, não se identifique em algum nível com o feminismo em si. Mulheres que chamam feministas de “aquelas peludas” e que se alinham contra. Toda mulher tem na sua vida algum episódio grande de injustiça, de uma clara preferência por uma pessoa de igual ou até capacidade inferior apenas porque ele tem pinto. Mesmo quando a sua mãe se esforça para não ser machista, quando ela lhe diz desde criança que você deve buscar sua independência, talvez ela esbarre ao insistir que você arrume a casa e do seu irmão não cobre tanto, ou que as regras de moralidade sejam rigorosas apenas do seu lado. Uma outra experiência da qual se fala pouco, e acho que é nela que “perdemos” algumas mulheres é quando você percebe que é fácil agir como esperado. Que se ao invés você lutar com sua competência e esbravejar as injustiças, as coisas podem ser mais fáceis se você jogar o cabelo pro lado ou se fingir de burra. Me parece que muitas mulheres contra o feminismo se deixaram vencer por essa ilusão, a do favor, a do “você acha que me pegou e eu já me adiantei aos seus movimentos”. É a tática do ser tão bonzinho que o seu opressor vai perceber o que está fazendo e te erguer e colocar ao lado dele. Spoiler: jamais funciona.

Infelizmente, não me parece que quem tem o segundo perfil um dia vá clicar no documentário Netflix – Feministas: o que elas estavam pensando? O ponto de partida é uma exposição de fotos de diversas mulheres que se identificavam como feministas na década de 70. Alguns rostos são bem conhecidos. Elas contam suas vidas, o que as levou pra esse caminho, o que conseguiram realizar. É simples, é tocante. Imagine o que é prometerem um prêmio de dez mil e resolverem te pagar apenas cinco, ou chamarem para tirar foto dos vencedores o homem de plantão. Eu me vi um pouco em cada história. Que bonito que é sisterhood (traduzida como sororidade), dá um calor bom no peito.

Curtas com pitadas feministas

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Independente do resultado das urnas, depois destas eleições, candidato nenhum vai ousar ser machista. Um assessor vai impedir que publiquem, ele será falso e dirá frases decoradas, o que seja. O que vimos foi um desrespeito total e absoluto, tão grande e evidente, tão certo de que não teria consequências.

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Eu estava no ônibus, sentada, e quando ele chegou no terminal, uma moça que ficou do meu lado falou em voz alta para um rapaz, algo sobre que nunca acontecesse com a mãe ou irmã dele. Ele começou a chama-la de feia, dizendo ela que queria aparecer. Outra mulher levantou a voz, e disse que depois de tudo o que a moça havia passado o sujeito ainda fazia isso, que o marido dela o encheria de porrada se estivesse ali. O sujeito vestiu o capuz e se calou, sentindo o meu olhar e do ônibus inteiro contra ele. Uma cena dessas seria impensável antes.

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Comprei com amigas a camiseta “Lute como uma garota”. Como não foi só comigo, posso dizer: é uma experiência andar com ela. Uns aprovam, outros parecem lançar um olhar quero-ver-se-é-lésbica-abortista. Não sei se a associam com a Manuela D´Ávila ou sabem que faz parte de algo maior. Por outro lado, também dá muito orgulho sair com ela.

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Tô lendo a biografia do Churchill, culto, herói, divertido, aquilo tudo que sabemos. É um livro meio arrastado pela quantidade de detalhes. Não sei se ele muda de ideia depois, mas nas cartas que ele escreveu na juventude, ele é terminantemente contra o voto feminino, porque “elas podem dominar o mundo”. Deveríamos mesmo, viu.

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Apesar de tudo o que eu li e de tudo o que eu já sabia, foi uma experiência muito marcante pra mim ver o filme sobre as Sufragistas. Tem na Netflix. A gente não tem dimensão. O que Churchill, esse filme, o candidato e o movimento #elenão me confirmam é que quem não chora não mama. Não dá pra pedir gentilmente, esperar que se toquem e abram mão da sua posição confortável por nós. Nós, mulheres, aquelas que poderiam dominar o mundo e ainda estão caminhando para se enxergar como coletivo.

Fêmea

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Do mesmo modo que quando somos jovens a gente olha pros velhos e acha que nunca será daquele jeito, que até lá a ciência vai estar evoluída, que não teremos que fazer escolhas como tomar ou não estrogêneo, que de certa forma aquelas pessoas se entregaram, que com a gente vai ser diferente, que o vigor da nossa alma impedirá o corpo de envelhecer; desse mesmo modo, eu fui uma menina que olhava para as mulheres mais frágeis e, antes de saber que existia algo chamado adolescência e seus hormônios, achava que de certa forma as mulheres se entregavam, se deixavam ser mais fracas do que os homens. A psicanálise me indignou logo no começo da faculdade, e me recusei a estudar como se fosse sério que um homem, por ter um órgão reprodutor externo, podia ser tão mais do que nós. Eu fui indignada e auto-determinada o quanto pude; quanto mais os anos passam, mais vejo o gênero determinando minhas escolhas, minha conduta, minhas inseguranças. Sim, eles têm o falo. Não acho que seja físico e inevitável, mas reconheço que essa construção é poderosa demais. Não tenho grandes provas teóricas pra oferecer, penso na auto-confiança inabalável de todos os homens que eu vi no teste prático do DETRAN, que quanto mais provocados pelos instrutores mais faziam direito pra mostrar pro fdp, enquanto as mulheres iam condenadas, se arrastando e desmoronavam à menor insinuação. Uma amiga minha define com “chega o cara velho, horroroso, caído, da mau hálito e vem te cantar na maior autoconfiança, num estado que se fosse uma mulher nem ao menos sairia de casa”. Me vejo assim, me percebo assim, precisando de aprovações, estudando o ambiente, pisando com cuidado, passos que homens não hesitariam em dar. Já ouvi que escrevendo como eu, Fulano faria um estrago. Faria mesmo, Fulano e qualquer outro Fulano, desde que homem, desde que com seu falo mágico. Falos que amam outros falos, porque sabem ser tão auto-confiantes e viris, fazer o que se mulheres coincidentemente são menos talentosas? Falo que lhes permite centrar nos seus desejos em busca do próprio prazer, enquanto as criaturas sem falo se perdem ao analisar tudo o que as cercam antes de pisar no chão. Aí tem que fazer, como fazia uma amiga quando trabalhava num meio masculino: visual impecável, tudo no lugar, tarefa de casa estudada, estatísticas, meia calça extra na bolsa. Não por vaidade, e sim para não ter com que se preocupar, para a partir daí ter voz. Fêmeas, fêmeas. É como se a nossa linha de largada estivesse metros atrás.

Feminista, eu?

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Eu não costumo ser “confundida” com feminista. No início, algumas amigas quiseram me colocar em coletivos feministas, mas aos poucos elas foram mudando de ideia e pararam de me convidar. Já postei contando experiência ruim em congresso feminista, já me coloquei contra a escolha do termo Vadia como bandeira para marcha. A vigília constante e exagero de algumas me cansa. Sou uma velha para os apedrejamentos das redes sociais; a faixa etária predominante é muito jovem, e jovens costumam julgar e condenar com muita rapidez. Em algumas colocações, essas feministas me parecem simplesmente não ter vivência para falar do que estão falando. Outras vezes, as reclamações me parecem mau humor puro e simples. Vejo essas coisas e não me posiciono. Então não sou feminista, pra ninguém.

Se dizer feminista é carregar uma bandeira e não sou de carregar bandeiras. Depois de namorar várias ideologias sem jamais aderir, refleti que não é possível que o mundo inteiro esteja errado e eu certa. Por isso digo que meu problema não é com a agenda feminista ou grupos feministas e sim eu com qualquer agenda e grupo. Nossa, que ódio quando os professores não me deixavam fazer os trabalhos sozinha! Era uma tortura, vai totalmente contra minha personalidade. Grupos exigem um grau de negociação que me desgasta demais. Não acho bonito – pelo contrário, é extremamente desvantajoso ser assim. Então, digo com relação ao movimento feminista aquela frase que pra fim de relacionamento é pura desculpa, mas no meu caso é sincera: o problema sou eu, e não elas.

Então podemos dizer que eu não sou feminista? Claro que não. Eu acho que nenhuma mulher, em sã consciência, pode se colocar contra o movimento feminista. Só o fato de você poder ler o que estou escrevendo já é a prova disso. Se você gosta de ler e escrever, sair sozinha na rua, escolher seus amigos e parceiros, sentir prazer no sexo, trabalhar, colocar a roupa do comprimento que lhe convém, votar e ter opiniões, você não pode ser contra o feminismo. Ninguém que conheça um pouco de história pode ser contra o feminismo. Cada pequeno direito que as mulheres têm hoje veio de muita reivindicação e luta; já para nos tirarem algo, sempre foi muito rápido e fácil. Toda mulher deve algo ao feminismo.

Eu sou branca, hetero, tenho curso superior e sou parte de uma minoria. Isso não se justifica numericamente, mas ser mulher é ser parte de uma minoria. Por isso, o fortalecimento de discursos reacionários e de ódio me preocupa. É um discurso moralista e que parece razoável para muitos. Para eles, não seria nada mal que o aborto fosse punido com mais severidade ou que as mulheres tivessem um comportamento sexual mais recatado. Não vou discutir isso. O que sei é que a violência costuma ser uma Caixa de Pandora. Leia sobre o Terror, a Inquisição, as revoluções russa, chinesa, golpes militares na América Latina, etc. Você verá sempre o mesmo padrão (é pra isso que se estuda história): a violência, uma vez deflagrada, ultrapassa muito os propósitos iniciais, não consegue mais ser contida, se volta até mesmo contra aqueles que a iniciaram, leva muito tempo para se esgotar. Quem apóia a violência sempre acha que está no topo e por isso está seguro. Só deixa eu relembrar: nenhuma mulher está no topo.

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