Uma pedra no meio do caminho

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Não sei dizer porque me lembrei disso. Uma colega de colégio, do segundo grau, me encontra no recreio e diz:

Te vi um dia desses! Era de tarde, você estava descendo a rua que vai dar lá no terminal. A rua estava vazia e eu estava dentro do carro, esperando a minha mãe. Tentei te chamar e você não me ouviu porque o vidro estava fechado e você estava do outro lado da rua. Eu tentei acenar e você não olhou, você estava distraída. Ao invés de você andar olhando por onde anda, pra frente, você fica olhando pra cima e não presta atenção direito. Quando estava quase saindo do meu campo de visão, você deu uma topada numa pedra e por pouco não caiu. Aí você olhou para trás e começou a discutir com a pedra! Eu rolei de rir dentro do carro.

Óbvio que eu não discuto com pedras, apenas falo com elas.

Sem carro

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É uma tendência quase irresistível a de se ver como um núcleo flutuante, como se o que somos e pensamos fosse gerado independente da realidade. Muito pelo contrário, quem aposta que o homem não passa de um conjunto de hábitos – sendo que a maioria deles foi adotada por mera repetição – está muito mais perto da verdade. Uma das coisas que me determina muito é não ter carro. O não ter carro me torna uma pessoa que anda à pé, de ônibus e de bicicleta. Ah, e carona dos amigos. Você pode pensar que isso, então, nada mais é do que um atestado de pobreza. Não é (apenas), eu nunca quis ter um carro. Era pra ter ficado com carro no divórcio e me recusei.

Nunca consegui convencer ninguém sobre as vantagens do não ter carro. O único argumento que faz as pessoas realmente balançarem é dizer que a vida sem carro é mais magra. No mais, nada posso contra o evidente conforto, rapidez e status (principalmente o último). Sem falar da lista de motivos, todos excelentes, que fazem com que meu interlocutor, por mais que admire a vida sem carro, não possa abrir mão de um – é filho, é distância, são horários impossíveis, fascite plantar… Tudo bem que meus amigos muitas vezes sejam mais jovens e moram mais perto do que eu, mas eu sou eu, eles são eles, e eu ando de ônibus e eles não, fim.

Eu acho que a vida sem carro nos modifica de uma maneira profunda, é uma vida slow. Quando eu digo que emagrece não ter carro, isso para mim não é apenas uma questão de gasto calórico. Andar faz com que a pessoa tenha uma outra relação com seu tempo, seu corpo e seus pensamentos. O aborrecimento vai embora no passo apressado. É um momento de perceber o horizonte, sentir o contato da pele com o tempo, olhar para as pessoas, ser parte da lenta mudança de cenário. Claro que de carro costuma ser mais rápido, que ônibus lotado e acordar mais cedo é uma vida que ninguém quer. O transporte coletivo não é ruim apenas por ser coletivo, ele é sucateado por estar relegado à “pobreza”. Quem não dirige demora mais a chegar, mas tem mais chances de chegar tranquilo. O lento é uma maneira diferente de lidar com o tempo, de não ficar tão focado no fim e sim no caminho. Carro deixa o sujeito trancado; os outros meios de transporte levam a dividir mais o espaço, participar, negociar com um tempo alheio à você. Acho que temos precisado muito disso: ser arrancados de nós mesmos, não estar constantemente envolvidos no próprio inferno. Por isso que digo que não ter carro fala de quem eu sou. É um cotidiano que exige de mim mais paciência, tolerância e empatia. Empatia, esse sentimento que tem feito tanta falta no mundo.

Viajante

Não sei se é a adrenalina da própria caminhada, ou se são os dias agradavelmente quentes, mas às vezes estou por aí com olhos de viajante e tudo me parece fresco e novo. Vegetações misteriosas, calçadas que mudam de cor, fachadas históricas, cenários de fotografia ignorados. Passo na frente de uma casa e alguém tira um chinelo da varanda, ou na mesinha dos fundos se prepara uma comida, e me sinto tão íntima deles que parece que a pessoa vai sorrir e dizer “Venha, entre”. Com a mesma naturalidade eu abrirei o portão e me sentei para ouvir histórias a tarde inteira, com o mesmo comprometimento de quem sabe que nunca mais vai voltar. Outra possibilidade é que na pausa para o lanche ou diante de uma vitrine uma observação seja feita, talvez por mim; isso gerará um sorriso, que gerará uma conversa cada vez melhor e um carinho que se enraíza por todos os lados, até no passado. Outro louco também por aí como se fosse turista, desarmado e de olho na copa das árvores. Porque não é com esse espírito que estamos quando vamos às cidades dos outros, abertos e disponíveis para os milagres?

Andanças

Escolhi o nome deste blog com tanta simplicidade e acertei tão bem. Muita gente acaba pensando que eu me chamo Camila ou algum nome que começa com Ca. O Caminhante está aí porque eu gosto de caminhar mesmo. Até eu me surpreendo da minha relação com o andar. Andei muito o ano passado pra sobreviver, porque não suportava estar em casa e os meus pensamentos. Agora que estou bem, ando porque estou bem. Ando porque os dias têm sido lindos e seria um desperdício ficar em casa. Eu ando quando preciso de inspiração e ando quando preciso espairecer. Entre pegar ônibus e andar, sempre preferi andar, mesmo quando isso dava mais trabalho ou levava mais tempo. Enfim, eu ando ando ando.

 

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Quem é de Curitiba sabe que a linha Interbairros ou Inter (ligeirinho) tem os trajetos mais longos da cidade. Ouvi um motorista do Ligerinho Inter II dizer ele cada dia de trabalho corresponde a duas voltas completas. Tenho intimidade com os Inter II, eles dão conta de todos os lugares que eu frequento. De vez em quando vejo um Inter I ou Inter IV e me pergunto quem são essas pessoas, para onde vão e onde vivem. É uma realidade paralela. Tenho um projeto que acabei nunca colocando em prática, que é o de sentar num desses Inter e dar a volta na cidade com ele.

 

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Tem um mercado gourmet perto de casa. Várias pessoas já tinham me falado dele e eu nunca tinha entrado no dito cujo, até que um dia me programei e fui. Tudo bem que era no meio da tarde num dia de semana, mas olha… Quando vejo uns lugares assim tão lindos que surgem no meio do nada, sempre penso naquelas pessoas que têm uma grana de herança ou marido pra investir e inventam de colocar tudo do melhor antes de testar se tem demanda. O lugar é incrível. As cebolas lindamente acondicionadas em cestinhas. Panelas caríssimas, aventais, enlatados franceses. Assim que entrei, fui recebida pelo frescor do ar condicionado e a gerente. Estavam a gerente, a caixa e eu. Morri de sem graça, minha cara de quem compra produtos gourmet. Nunca mais pretendo voltar lá. Lugares assim deveriam pagar uns figurantes, só pra não deixar as pessoas desconfortáveis.

Caminhante

Eu havia saído cedo de casa, e cheguei até mesmo a segurar o guarda-chuva nas mãos. Mas no dia anterior a temperatura havia caído cerca de dez graus, o que me fez voltar para casa batendo os dentes de frio. Pela lógica – lógica do otimismo, claro – achei que a temperatura não cairia absurdamente e choveria ao mesmo tempo. Então, saí apenas agasalhada. Quando voltava no meio da manhã, a chuva forte me pegou desde a saída do ônibus.

 

Parei na padaria que tem no meio do caminho. Naquela padaria eu almoço, eu combino café com amigos, eu compro guloseimas, faço de tudo um pouco, a única coisa que eu não gosto de fazer lá é comprar pão. Todos os funcionários me conhecem de vista e eu a eles. Tenho inclusive acompanhado o engordamento sem fim da gerente, que quando chegou era magrinha e já subiu uns três números no manequim. Nas caixas há mais rotatividade, e tem uma que me chama atenção por ter um ar inteligente. Foi essa caixa, a inteligente, que me atendeu naquele dia.

(caixa) Oi, tudo bem?
(eu) Tudo. Fora o frio e a chuva, tudo bem.

(caixa) É, pra alguém como você que gosta muito de andar, deve ser ruim mesmo.

 

Apesar de não ter demonstrado, eu levei um susto. De onde ela sabia que eu gostava de andar? Se ela tivesse usado o termo “caminhante”, já atribuiria ao blog. Não era por estar sempre lá, porque eles sabiam que eu morava por perto. Ela me disse isso com um olhar significativo, de quem sabe que isso gera a pergunta inevitável:

– Como é que você sabe?

Aí ela me contaria, vitoriosa, que me viu andando sei lá aonde. Pensei num trajeto específico bem longo que faço umas três vezes por semana. Em alguma daquelas janelas, dentre tantos prédios, estaria ela, me observando? Eu queria saber. Poderia ter sido outra pessoa, qualquer um dos outros funcionários, que me viu e contou. Mas como e por que os funcionários conversariam a meu respeito? E se o fazem, eu sou conhecida como: “aquela que vem sempre aqui”, “aquela que conversa com todo mundo”, “a que compra todo nosso estoque de queijo minas”?

 

Uma vez os Thundercats pegaram alguma coisa do Mun-ra e impuseram umas condições para que eles tivessem a tal coisa de volta. Todos pensaram que ou Mun-ra aceitaria os termos – o que seria improvável, pois um vilão tem um nome a ser preservado – ou tentaria atacá-los. Um dos vilões pergunta a Mun-ra qual das duas coisas eles fariam. Ele respondeu: “Nunca faça o que seus inimigos esperam” – e mandou um falso emissário, pra aí sim fazer o ataque, de surpresa.

Eu não tenho (acho) inimigos, mas tal como Mun-ra, não gosto de fazer o que os outros esperam. Por isso não perguntei. Eu disse que realmente, para quem anda muito, quando está chovendo é foda.

Agora ficamos eu e todos para quem contei essa história na curiosidade. Pensei em perguntar quando finalmente reencontrasse a moça, o que aconteceu quando voltei na padaria menos de vinte e quatro horas depois. Ela me atendeu sem me dar bola. Acho que ficou irritada com a isca que eu não mordi. Paciência.