Explicação

Volta e meia ainda vejo algum programa sobre Acumuladores. Depois de muitos acumuladores, a gente acaba sabendo antecipadamente se alguns casos tem solução ou não. Alguns procuram o programa realmente exaustos, e se desfazem de tudo como quem tira de si um corpo estranho, um tumor. Outros estão por motivos diversos, geralmente pro pressão da família, e inventam mil desculpas, racionalizam, colocam a culpa nos outros. Esses a gente já vê que vão irritar muito e desacumular pouco. A que eu vi no domingo passado era desses últimos casos, e  foi uma das mais irritantes.

A mulher se dizia uma ambientalista. Ela fez discursos sobre a cultura de desperdício dos EUA, sobre a desigualdade social e a reciclagem. Tudo para justificar a casa imunda que tinha. Quando apareceu com a equipe em casa, se dizia indignada – “Tudo isso daqui estava em caixas, não sei quem veio aqui e jogou tudo empilhado dentro do quarto!” Quando retiraram as suas coisas, o escândalo que ela fez ao ver as coisas na caçamba foi justificado pela sua preocupação com o meio ambiente, que havia muitas coisas de metal em meio ao lixo, e ela não admitia que o metal não fosse separado para reciclagem. Ela conseguiu limpar apenas três cômodos, e no início do programa o genro falou que ela tinha quatro depósitos que não revelava à ninguém onde ficava, e mesmo assim ela terminou o programa com a reflexão de que “é uma missão que eu tenho, de mostrar ao mundo o quanto as coisas podem ser aproveitadas”.

Acho que nunca conheci uma pessoa acumuladora, mas justificativas esdrúxulas me são bem familiares. A pessoa mente tão bem para si mesma que nada consegue convencê-la do contrário. Quanto mais inteligente a pessoa, maior a capacidade de fazer isso, mais bonita a versão. Pouco importa se a vida é um lixo – para muitos uma boa versão é mais do que suficiente.
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Eu não sei brigar

Acho que existem dois sentimentos meio excludentes com relação aos desafetos: rancor e vingança. Tenho notado que quem é vingativo tende a não ser rancoroso e vice-versa (das pessoas que são rancorosas E vingativas quero muita distância). Eu não me vingo e guardo rancor. Todos os meus desafetos acabam descobrindo isso. Não me dou ao trabalho de prejudicar e nem ao menos de sair falando mal – eu apenas me reservo ao direito de ignorar que a pessoa existe. Quando me perguntam, falo o que aconteceu, e se for o caso até ressalto que o outro tem suas qualidades – “veja bem, foi o que aconteceu comigo, mas profissionalmente ele é muito bom”, etc. Só que o que geralmente acontece é quem é amigo de ambos geralmente não quer perguntar. A pessoa vê, estranha, e eu deixo que estranhe. Resultado: tenho acumulado ao longo dos anos a fama de ser uma pessoa de trato muito difícil, que por qualquer bobagem eu corto as pessoas da minha vida.

Tenho descoberto que o que me falta é uma certa propaganda ou, em outras palavras, que eu sou é burra. Enquanto eu acredito que uma briga minha diz respeito apenas ao que aconteceu comigo e com o outro, alguns fazem disso uma publicidade muito boa para si. Elas escondem os seus erros, já se adiantam e criam uma versão dos fatos, fazem com que as pessoas jamais me perguntem algo que elas acham que já sabem o que foi. Eu, num misto de ingenuidade e orgulho, acho que quem me conhece deve ter senso crítico o suficiente pra não me reconhecer em certas atitudes. Sobre o que me fizeram, apenas eu e o outro saberemos; já os meus erros serão espalhados e aumentados ad infinitum. Se eu esperneasse, levasse a público e me vitimizasse, quem sabe fosse diferente. Agora vejo que não importa como e porque acabou, e sim a maneira como a história é contada. Os que agem como eu sempre são os vilões.

Meus eus

Há uma crônica do Veríssimo que eu adoro, acho que está no Comédias da Vida Privada. É de um homem que vai num bar e encontra diversas versões de si mesmo. Ele começa a perguntar se tivesse defendido ou não um pênalti, e no fim acaba concluindo que o melhor dele era o original, o que havia entrado no bar. Eu também tenho – não um bar, porque não bebo – um café cheio de versões minhas. De perto, os dias parecem todos iguais; mas existem alguns momentos decisivos que a gente sente que a vida poderia ser diferente.

 

Em uma das minhas vidas eu continuei fazendo teatro. Minha mãe não me proibiu, eu apresentei a peça do fim de ano, continuei fazendo oficina no ano seguinte. Não sei se continuaria atriz; a certeza que tenho dessa versão é que teria sido uma adolescente mais livre, teria amolecido minha rigidez mais cedo. Talvez as versões tatuadas e de cabelo colorido venham daí. Tenho versões como psicóloga, algumas de terninho e outras mais à vontade, todas um pouco prepotentes. A versão que trabalha no RH é infinitamente mais envelhecida e quadrada do que as outras. Tenho versões européias, com doutorado na Espanha, com marido ou ex-marido espanhol. Noutra tenho um tórrido caso destrutivo com um português. Em ambas, certamente teria um bom número de viagens no currículo. Não sei se nessa versão eu volto pro Brasil, se descubro o flamenco mais cedo, se mudo tanto a ponto de nem ser mais tímida. Quero crer que exista uma versão escultora de sucesso, mas nunca a vi. Existem versões ainda muito próximas onde sigo pela sociologia -mestrado, doutorado, pós-doutorado, concurso público – sem me desviar. Nela eu não fui arrebatada pela dança, mas minha mãe tem orgulho de mim. Não posso garantir nada, mas acho ouvi alguém falando “Bah!” por aqui…

 

Mais do que todas as versões, e de olhar para as minhas versões, o que eu realmente gosto é de saber que são muitas. Imagino o salão apinhado de Eus: algumas felizes, outras arrumadas, umas solitárias. Aceito, inclusive, a idéia de que algumas versões são melhores do que atual. O que me frustraria seria pensar que quem eu sou hoje era minha única alternativa.

Mundo bizarro

Minha versão no mundo bizarro gosta muito de sapatos. De bico fico e saltos altíssimos, de preferência. Sua longa produção inclui maquiagem impecável, horas no salão, obsessão por espelhos e roupas que mostrem o corpo e a deixem sensual. Basta olhar alguma das suas muitas fotos – auto-fotos, de biquini, com ar blasé, com chapéu, sem chapéu, etc – pra perceber. Porque ela se sente lisonjeada com os olhares masculinos, ao invés de se intimidar ou até mesmo se ofender como eu. Meu eu-bizarro teria uma longa lista de ex ficantes, namorados e cachos porque é capaz de separar sexo e amor. Seu único problema nesse quesito é adorar uma DR…

Ela é uma pessoa muito legal e popular. Gosta de fazer novos amigos, reencontrar os antigos e é bastante ligada na família. Tem coração de mãe e perdoa com facilidade. Como conseqüência, sua agenda é bastante movimentada e ela é figurinha fácil na vida noturna da cidade. Ela adora falar no telefone e é uma excelente companhia pra tomar um chopp. Talvez seja porque ela é uma pessoa muito segura, daquelas que nunca coloca em dúvida o valor que tem para si e para os outros. Acolhedora, gosta de receber os amigos e cozinhar para eles; sempre coisas sofisticadas, daquelas que demoram horas para serem feitas e ficam ruins se certos segredos forem deixados de lado.

No que diz respeito à vida profissional, ela sempre trabalhou. Às vezes em trabalhos mal remunerados, alguns bem entediantes, sempre na sua área. Aguentou chefes chatos, colegas de trabalho invejosos, engoliu muitos sapos, mas sempre teve diante de si um claro objetivo: ser a melhor no que faz. Se o preço a pagar for diminuir o convívio com a família ou ficar sem finais de semana, tudo bem – ela pensa à longo prazo. Porque seu sonho sempre foi ser uma grande… uma grande… Paro por aqui, porque já não sei dizer quem é o bizarro de quem.