Segredos

Eu fujo de segredos e eles me perseguem. As pessoas se impressionam com a minha falta de curiosidade e eu digo que não é nada disso, é que já sei demais. Não preciso e não quero perguntar mais nada. Na verdade, estou fazendo errado, porque quem não se interessa é sempre o candidato ideal para ouvir. O que está sempre querendo que lhe contem, passa a idéia de que fará alguma coisa com essas informações. Aquele que age como se ouvir ou não ouvir não lhe faz a menor diferença, parecerá o depositário ideal das maiores confidências. Eles – os segredos – me aparecem sem aviso. Como farejo uma confidência de longe e nunca faço a pergunta que puxaria todo o fio de histórias – as pessoas desembestam a falar sozinhas, sem maiores introduções. Pode ser quando estou comendo um sanduíche, ou dou uma passadinha no computador pra verificar meu e-mail e lá está: o segredo, a bomba, a confidência. Quando a pessoa quer contar, ela conta, mesmo que ninguém lhe pergunte.

Não é tão divertido quanto parece. É meio como ser o narrador onisciente; posso até ter uma visão ampla dos fatos, mas isso não me faz ter poder sobre eles. Ouvir segredos nos torna parte do problema; o confidente pode ser colocado diante de questões éticas muito difíceis – é diferente ser o que faz ou ser aquele que sabe que o outro fez. Lembro da história de um casal, amigo de outro casal, com filhos em idade em comum. Numa época, a amiga passou a deixar os filhos a tarde inteira com eles, o que era ótimo porque as crianças se adoravam. Até que eles descobriram que o compromisso que a fazia deixar os filhos lá era um amante. Até então, eles a estavam ajudando sem saber – mas o que fazer agora que sabiam? Depois de passarem uma noite inteira em claro, vendo os prós e contras da situação, decidiram não ficar mais com os filhos, mas também não revelar o segredo ao marido traído. No fim, o casal acabou se separando e acho que a mulher foi viver com o amante. Difícil foi quando o ex-marido soube que eles sabiam. Ele se sentiu mais traído com isso do que com a própria traição da esposa.

Deveria existir um código de ética para confidentes informais.

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