Exílio em Paris

Nunca vi alguém no Brasil achar o exílio uma coisa boa, ou dizer que Caetano se divertiu e aproveitou tanto que fez até música. Parece que no Chile é diferente, que a turma favorável a Pinochet diz que o exílio não foi tão ruim. Uma chilena uma vez me disse: “Pra eles foi bom, voltou todo mundo doutor nas melhores universidades da Europa”. Por acaso conheci um que realmente voltou doutor da Sorbonne, em sociologia. Ele me contou que tinha pouco mais de vinte anos quando foi obrigado a sair do Chile. Ele era um típico aluno de classe média, mal saído da adolescência, um porra-louca qualquer. Lia Marx, queria combater as injustiças e mudar o mundo; ele não fazia a menor idéia de onde estava se metendo. No espaço de poucos dias ele deixou de ser o filho da dona Fulana, que levava uma vida pacata, tinha seu quarto, amigos e violão, e se viu exilado em Paris. A cidade lhe pareceu totalmente hostil. Ele não sabia falar francês, não tinha contatos e nenhum lugar pra ir. Do nada, teve que aprender a se virar: falar, ler e escrever em francês, arranjar sub-empregos, um lugar para morar, roupas para vestir, comida para comer. Foram quatro anos pra ele começar a não se sentir tão mal, pra vida finalmente entrar nos eixos. Foi o tempo para começar fazer amigos, ter um pouco de controle sobre a sua vida e voltar a fazer planos. Em Paris ele casou, teve uma filha, descasou, fez o doutorado, voltou para o Chile. Se pudesse escolher, não teria feito as coisas dessa maneira. Daquela época ficou para sempre a dificuldade de chorar e um certo desencanto com a vida.

Quando pessoas falam de Paris, ou Nova York, ou qualquer cidade como o paraíso na terra, quando acham que vale qualquer coisa para morar nelas, que só de estar Lá já é um glamour… só consigo achar burrice. Como a das reportagens sobre Krajcberg que vêem no fato dele preferir morar no interior da Bahia do que na Europa sinal de loucura. Não importa o CEP, ou que lindos cartões postais se faz da nossa cidade; o entorno que nos faz felizes é pequeno: um lar, um emprego que nos dê conforto, as não mais que cinquenta pessoas com que convivemos todos os dias.
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