Garantias

Na época do acústico do Ira!, vi uma entrevista do Nasi em que ele dizia que antes acreditava no poder do grande hit. No início da carreira, algumas músicas lhe pareciam tão boas que ele jurava que aquela ia estourar, que faria um grande sucesso, que era impossível as pessoas não se apaixonarem. E não acontecia, ou acontecia com outra, ou não acontecia com nenhuma, e que hoje ele não acredita mais nesse poder do grande hit – e completou o raciocínio dizendo que ele era mais feliz na época que acreditava. Eu gostava muito de irritar enxadristas citando uma frase do Millôr, que diz que o xadrez é um jogo que desenvolve muito a inteligência de jogar xadrez. Porque quem joga xadrez tem essa vaidade, de que xadrez desenvolve outros tipo de inteligência, como se jogar xadrez garantisse o sucesso em outras áreas, como se o colocasse numa categoria especial de pessoas. Essa crença está tão arraigada nos grandes leitores, que ai de você se disser que ser culto é apenas ter uma grande memória… Acreditar em sobrenomes e famílias tradicionais também é assim, um gesto de fé: a pessoa crê – seja pela genética ou pela educação – que podemos esperar de um indivíduo as coisas desejáveis que atribuímos à família dele só porque ele nasceu nela. Quando não corresponde, a pessoa é uma “ovelha negra”, ou seja, ainda mantemos a crença na família e permitimos que existam exceções. A coisa mais atraente de ter um credo religioso é ilusão de controle sobre a realidade, o conjunto de regras e ações muito claros, que se seguidos prometem manter a pessoa à salvo. Quem não crê é obrigado a avaliar todas as possibilidades, a encarar a situação como um problema único, e carregar para sempre a responsabilidade sobre as consequencias. O apelo às estatísticas, dos torcedores aos médicos, me parece sempre um desejo de garantias; “em cada cinco jogos em casa contra aquele adversário nas finais, em três deles conseguimos ganhar”, “em oitenta por cento dos casos que esse remédio é administrado nessa fase de sintomas com pessoas da sua faixa etária, a cura é completa”. O problema é que cada jogo é um jogo, e mesmo o mais inteligente dos jogos não passa de um jogo; cada pessoa, música ou doença tem a sua própria história. O passado não nos diz nada, o que aconteceu com os outros não nos garante nada.
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