Promessas quebradas

vaso quebrado

Tenho pensado muito – apenas pensado, sem respostas – sobre a amargura própria de quando ficamos mais velhos. Eu sempre observo, nas novelas da Globo, que a pessoa deixou de ser galã quando ela ganha papel de vilão; algumas infantilidades, manipulações e horrores não cabem em carinhas de anjo. Não é apenas porque os atores novos não sabem expressar, é porque gente nova não chegou lá. Elas ainda não descobriram que o número de pessoas que realiza integralmente os seus sonhos é pequeno. Eu vejo que a minha geração, do final dos anos 70, é especialmente ferrada. O meu pai nunca pode evitar um sentimento de superioridade diante dos filhos, porque aos quarenta ele era O Cara: conceituado na área dele, sustentava duas famílias, dava festas, viajava o Brasil inteiro. O diploma de engenharia dele rendeu pra tudo, enquanto eu e meus irmãos somos muito mais instruídos e não há perspectiva de um dia chegar perto do que meu pai conseguiu. E estamos todos da gerão 70´s assim, com um longo histórico de empresas falidas, mudanças de área de atuação, ainda precisando de ajuda financeira. Vai chegando a idade que já não somos mais bonitinhos, já não temos muito mais tempo pra errar, e parece que se não conseguimos ainda é sinal de que não conseguiremos mais. Depois de tantas tentativas frustradas, estou aqui tendo que encarar o fato de que talvez o desejado livro nunca saia e meu talento se limite a estas linhas que você está lendo. Na dança, vejo gente que amou e se dedicou intensamente e agora já está “velho”, vendo gente mais nova e talentosa surgir. Vejo a aposta de merecer um grande amor não se concretizar, a dúvida se no fim não era melhor ter ficado na relação morninha mesmo. Com a idade, chega a dura escolha do chinfrim: ficar no emprego que não é dos sonhos, o casamento que não tem paixão, as férias na CVC, os quilos a mais. O que eu me debato, na verdade, não é nada disso, porque à princípio não há nada de ruim no que eu falei. O que me mata é a amargura. O que eu tenho horror e quero fugir a todo custo, e não sei direito como, é da raiva do fracassado diante de quem está chegando agora, diante de quem tem energia e fé. Do novinho que não sabe o que nós passamos e quer que o mundo seja generoso com ele, sendo que na nossa vez ninguém foi. Não quero ser o que desacredita o talentoso e tenta puxar para baixo os que conquistaram o que eu sonhei e não consegui. A pedra no sapato, a que piora o clima, a que usa o sem importância como desculpa para humilhar. Eu não quero ser assim, tenho horror de ser assim, mas à medida que a maré tem trazido meus fracassos para a areia, a possibilidade me acena e entendo cada dia mais.

Anúncios

Amargos

Você sabe como são esses velhos amargos. Eles nem precisam ser propriamente velhos, às vezes são apenas mais velhos. Olhando com hostilidade o novo que entra, apenas por ser mais novo, apenas por ter acabado de entrar. Quando mais entusiasmado o jovem, pior a reação. O velho discursará – em palavras ou só com o olhar – sobre já ter vivido e feito tudo aquilo. Ele já foi jovem, já foi bonito, já foi talentoso; ele já foi muito mais jovem, bonito e talentoso e olha só do que é que deu: em na-da. Hoje ele estava lá, um amargurado que nada denuncia sobre o seu passado brilhante. Esse velho torcerá para que o jovem naufrague em todos os seus esforços, porque é apenas isso que o mundo tem a oferecer aos que se esforçam. Talento? Ele já viu maiores. Ao invés de ser a luz que guia os mais jovens, ele será o primeiro a soltar um “eu já sabia”. Se o reconhecimento – esse milagre – acontecer, isso o deixará mais amargurado ainda, porque com ele não aconteceu e isso não é justo.

Eu fui olhada com esse amargor várias vezes quando era um jovem talento. Não tive apoio quando era “uma promessa”, o contato que poderia ter mudado minha vida nunca aconteceu. Via os que poderiam ter sido mestres para mim e me perguntava porque eles não me estendiam a mão, como podia alguém de tão alto se sentir ameaçado por alguém que estava apenas começando. Era como se eles não tivessem noção do que eram e onde estavam. Até o que o mundo me deu voltas e fios brancos. Na posição de mais velha e mais sábia, diante de alguns jovens talentos, desejei do fundo do meu coração que eles se ferrassem. Porque a segurança dos que nunca foram magoados me irrita; a certeza de que serão reconhecidos me dá vontade de frustrá-los. Percebi que estou ficando igual os velhos do meu passado, que ser generoso quando nos foram mesquinhos é muito difícil. Não escapei de crescer criando sombras e pontos obscuros. Preciso muito de algumas mudanças, para que a esperança que me resta não se transforme de todo em amargura.

clica que cresce