Arrume três

Quando eu ainda morava com a minha mãe, e o meu quarto estava muito bagunçado, eu criei um método de arrumar três coisas de cada vez. É que quando a bagunça é demais, a gente nem sabe por onde começar e acaba nem começando, porque daria trabalho demais e consumiria muito tempo. O que eu fazia era me propor a arruma apenas três coisas. Cada vez que eu passava no quarto, arrumava as três coisas e pronto. Em pouco tempo, o meu quarto ficava arrumado sem que eu tivesse feito muito esforço. Hoje uso isso na minha casa. Sempre penso que, se fosse para ficar rica, deveria transformar essa ideia simples numa daquelas regras de sucesso. Ao invés de explicar o que eu faço em cinco linhas, eu deveria enrolar em mais de cem e escrever um livro. O meu livro, Arrume Três, seria uma proposta para revolucionar a vida dos leitores. Na capa, eu estaria de terninho e mostrando três dedos. Do insight genial no meu quarto, eu estenderia esse exemplo para o resto da minha vida e provaria por A + B o quanto aplicar o Arrume Três melhora para sempre as nossas relações no emprego, com os amigos, no amor, na família. Atribuiria o meu sucesso (ninguém precisa verificar se sou ou não) a isso. Arranjaria citações místicas e pesquisas duvidosas para justificar a escolha do número três. Criaria metáforas vergonhosamente óbvias entre bagunça e vida, não teria o menor escrúpulo em dizer o que as pessoas devem fazer. Contaria exemplos de vidas que foram revolucionadas por essa simples mudança de atitude. Venderia minha palestra a empresas, e nelas convidaria as pessoas a escreverem três problemas em três pedras e jogarem elas fora. O Arrume Três me faria rica e famosa.

Pra começar tudo isso eu só preciso de três trouxas. Alguém se oferece?

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Daenerys Targaryen II

Isso que dá a pessoa passar semanas lendo e ouvindo a musiquinha do Game of Thrones – só consegue escrever e pensar em metáforas sobre esse assunto. Olha que nem gosto assim da Daenerys, acho o desenrolar da história dela um dos mais chatos e dispensáveis. Mas, vamos lá:
(Contém spoilers da primeira temporada de Game of Thrones. E da segunda, dependendo do ponto de vista)

Durante o livro inteiro lemos como os Targaryen dominaram Westeros com os seus dragões. Um dragão parece ser a solução de todos os problemas: queimam fortalezas inexpugnáveis, voam por cima de torres altas, podem ser montados como cavalos e percorrer grandes distâncias, soltam fogo que combate inverno e pode matar os Outros. Mas os dragões estão extintos e… opa, não estão mais. Daenerys se abraça com aqueles ovos de dragão e os desperta no fogo. Daenerys, que tinha nascido pobre, em fuga, última descendente a reclamar o trono dos Targaryen. Aí quando ela consegue chocar três dragões, dá pra pensar – acabou a história. Ela monta nos dragões, voa por cima das fortalezas, bota fogo em todo mundo e se torna rainha, eba. Só que as coisas não acontecem de forma tão automática – dragões são bichos e como todo bicho eles demoram para crescer. E enquanto os dragões crescem, a vida continua. Daenerys tem que buscar um lugar pra viver, mantimentos para alimentar a si  mesma e seu povo, tem que provar sua autoridade. Os dragões se tornam um problema adicional, porque despertam a cobiça e são vistos como mercadoria. Ela recebe propostas de casamento, de compra, sofre atentados por causa deles. No futuro, eles podem ser uma dádiva, mas apenas no futuro. Danenerys precisa de tempo, eles precisam de tempo. Mas tempo é justamente o que ela não tem, não há um lugar onde ela possa simplesmente sentar e esperar.

Eu tenho cá os meus filhotes, os meus projetos. Quero muito crer que sejam dragões. Nos últimos anos eu comecei muitas coisas novas. Eu demorei pra chegar até elas, percorri milhas e milhas. São coisas me dão prazer, que combinam com quem eu sou e o que quero de uma maneira muito profunda. E, modestamente, faço-as bem feito. Mas são coisas novas. Elas não me dão frutos hoje, não me darão frutos no mês que vem, nem quero me iludir em pensar que daqui há um ano… Só que o tempo está passando. Eu não sou uma adolescente, não sou uma recém-formada, não estou nessas fases da vida que se considera bonito e normal começar. Estou ficando mais velha, e estar mais velha me deixa mais insatisfeita, mais desesperançada. Olho para os meus filhotes e a cada dia tem ficado mais difícil. Até que ponto comprometer o presente em nome do futuro, até que ponto é sensato apostar com a própria vida? E o mais importante: durante quanto tempo mais eu aguento esperar? Não sei.

Ajuda

– O que eu gostaria é que alguém me falasse – você tem dificuldade em tal coisa e precisa melhorar tal coisa. Aí nós trabalharíamos em cima do que eu preciso.

Quando ele me falou isso, fiquei sem resposta, porque as duas coisas que eu pensei em dizer – “quem dera!” e “ninguém vai fazer isso por você” – dariam a impressão de que eu estava falando mal da escola, e não é nada disso. A questão é muito mais profunda. Estávamos falando de flamenco, mas poderíamos estar falando de quase tudo na vida. Ninguém nunca fará de nós um projeto; não há quem possa dizer qual a direção segura a seguir, qual o próximo passo a dar. Os que acreditam que alguém tem esse poder sempre se arrependem. Cada um se vira com o que tem e melhora como pode. É por isso que é tão difícil, é por isso que tem tanto valor.

Baú da leitura

Eu morro de inveja, de verdade, quando vejo as sessões de livros para crianças nas livrarias. Com sofás, bonecos, videos, cores, prateleiras recheadas de livros, e todas na altura delas. Na minha época, mal e mal tinha livro infantil. Criança ainda não era mercado consumidor. E ainda assim, aqui estou eu, escrevendo bem e amante dos livros. Porque de verdade mesmo, nada daquilo é necessário. Basta um livro interessante, um pouco de atenção e já está feito – os livros conquistaram mais um adepto. Por isso que o que eu realmente achei legal no Baú da Leitura foram os 100 livros que serão doados. Tem também mais material, oficinas e etc. Pra isso eu recomendo que você entre no post do Alessandro e veja como participar.

Day After

Continuam os fantásticos e maravilhosos efeitos do destensionamento com o projeto. Estou com um sono danado. A Dúnia não me irrita mais. Voltei a achar as coisas engraçadas. A quantidade de cravos do meu rosto diminuiu. Estou cagando melhor. É um verdadeiro milagre, até parece que estou tomando AG-500!

Só falta eu voltar a deitar sem estar com o coração acelerado. Quem sabe.

A volta

Hoje consegui escrever a nova versão do meu projeto. Versão que tentarei mostrar amanhã para o meu orientador criticar e me mandar refazer. Versão que deve ser criticada pelos meus colegas de mestrado no dia 16. Versão que deve ser criticada pelos professores da linha de pesquisa no início de dezembro. Mas terminei. Estou feliz.

Voltei a ouvir música, a dançar pela casa, a acender incenso, a brincar com o cachorro, a sorrir à toa. Estava com saudades de mim. Em meio de tantas preocupações já não sabia mais onde eu estava.