Ambição com-medida

Quando eu comecei a fazer flamenco fazia de tudo para ser melhor, queria ir para turmas cada vez mais avançadas. De certa forma, foi isso o que me tirou da primeira escola. Na segunda, entrei em um nível, depois pulei para outro, quis ir pra outro que era um pouco mais avançado e as turmas – que digamos que eram nível 1 e 2 – acabaram praticamente se unindo depois disso, porque as outras meninas quiseram fazer aula lá também. Atualmente, a única turma acima de mim é a do Avançado, a fronteira final. Olhava eles de longe, tão fanáticos por toda cultura espanhola, tão arrasantes em seus sapateados, cada qual com mais de uma década de flamenco, e nunca ousei querer ser um deles. Aí uma amiga minha, com o flamenco que eu mais admiro, largou a turma avançada por motivos pessoais, e um deles foi seriedade dos colegas. Porque pra ela dançar é outra coisa, é amor e diversão; ela não quer se estressar por não pegar passos e coreografias difíceis em níveis estratosféricos. Numa outra conversa, sabendo o quanto sou louca e CDF, ela me disse que eu me daria bem naquela turma. “Tá louca? Não tenho nível pra eles!” “Não é uma questão de ter nível, depois de um certo ponto fica igual, é uma questão de dedicação”. Aí comecei a pensar se realmente gostaria de ir para a turma do Avançado. Eles fazem aula justamente no horário da turma 1, que é a que eu mais gosto.

 

Devo confessar que às vezes me perguntava (ou me pergunto ainda, não sei) se não estacionei, por já fazer um par de anos que não subi mais degraus. Cheguei numa turma e fiquei com ela, sou identificada como uma delas. Nenhuma queixa em relação às meninas, muito pelo contrário. Gosto tanto das minhas colegas que outras pessoas me ouvem com reserva, como se eu fosse daquelas loucas que só enxerga a beleza do mundo, que idealiza todo mundo que faz flamenco. Não é, calhou de nos darmos muito bem apesar das diferenças. Sem querer, por causa das meninas, acabei descobrindo a resposta sobre ir ou não ir pra turma do Avançado. Aconteceu o seguinte: as professoras da turma 1 e 2 estão passando a mesma coreografia, só que pedaços diferentes. Na turma 1 começamos um pedaço que tem uma parte muito legal, que a professora chama de trava-línguas. Bate uma palma, faz um sapateado, depois um ombro, um pulinho pra frente, vira a cabeça, depois dá mais pulinho abrindo os braços pro lado… enfim, só vendo. É mu-i-to legal! Eu e as meninas amamos aquilo, rimos tentando fazer, virou questão de honra pegar, foi aquela festa. Aí, por causa de uma substituição, a professora da turma 1 foi passar esse mesmo movimento pra turma 2. Estavam outras duas alunas. Boa gente, ambas, mas pessoas mais sérias. Passa o movimento pra elas e ao invés de toda diversão da turma 1, o comentário máximo delas foi: “que interessante”. Interessante? Aquilo é a disneylândia, marshmallow com casquinha depois de colocar no fogo, dia ensolarado na praia! É o passo mais legal dos últimos tempos! Não adianta, gente muito séria tem o poder de diminuir a alegria de tudo, até de flamenco.
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Uma ambição para chamar de minha

Planos para o futuro, vejo agora, é pra quando você está bem. Quando você tem o básico, tem a sua rotina e uma certa estabilidade. Pode não ser o ideal, mas tem. Quando o seu mundo começa a ruir, quando você não sabe mais nem pra que lado da cama levantar, as questões ficam mais básicas e conquistar a próxima noite de sono já é desafiante o suficiente. 

Conversando sobre juventude, sobre como é ter vinte e dois anos, constatei o quanto eu era ambiciosa. O céu era o limite. Eu queria tudo, eu queria ser a melhor. Não sabia nem direito o quê, mas eu queria. E estava disposta a trabalhar duro pra isso. O meu céu nunca foi pensando em termos econômicos, o que não me torna menos ambiciosa. A ambição é uma fome de conquista que pode ser dirigida a qualquer coisa, até para atingir o nirvana. Místicos costumam ser o supra sumo da ambição e o mundo não se dá conta.

De lá pra cá, caí tanto e falhei tanto na conquista do mundo, inclusive no sentido material, que me vejo querendo o que antes me soaria como fracasso: conseguir pagar minhas contas, ter quem se importe comigo e paz de espírito. Bah, até escrever isso me parece enorme.

Ao mesmo tempo, eu sei, eu lembro, que a ambição é algo que aquece. É a ambição, o objetivo, a projeção no futuro, que nos permite comer sopa sem sal num quarto escuro e ainda assim achar que aquilo não é nada, que aquela situação não nos define. Quem acredita que faz em prol de algo maior, não se importa em ter pouco, estar só ou não ter tempo livre. Ambição é uma mescla de sonho, esperança, determinação e crença. Disso eu tenho saudades.

O que eu quero, Mário Alberto?

Tenho que reconhecer: quem diz que a gente alcança o que procura tem razão. Reconheçamos, é assim sim. A gente tende a achar que todo mundo busca o que nós buscamos, ou que todo mundo busca a excelência, e quando vê que uns conquistam e outros não, começa a duvidar. Mas alcançamos sim, o que nós buscamos, num sentido muito profundo. Veja o caso do Eri Johnson, por exemplo. Sim, aquele ator da pinta, que só faz papel dele mesmo. Acham que ele é infeliz, que ele liga de falarem que ele é um mau ator? Não acho que seja. Ele é o ator que ele pretende ser, o cara que joga na praia, que frequenta festas, é famoso e trabalha na Globo. Tá louco de bom. Entrar pra história como um grande ator, se desafiar num papel, entender profundamente a arte de atuar… isso é o sonho dos outros. E isso não tem a ver com ter papéis garantidos nas novelas de Glória Perez. Na mesma atividade cada um pode sonhar coisas diferentes.
Vejo e falo por mim: plantei onde estou. Nunca desejei, claro, chegar na idade que eu estou com a vida profissional tão nula. Mas, ao mesmo tempo, nas minhas escolhas, nunca priorizei isso. Trabalhei por amor, por conhecimento, por gostar de quem estava no meu lado, por um monte de coisas. Nunca trabalhei em prol de carreira ou dinheiro. Claro que, durante uma boa parte da minha vida, achei que uma coisa acompanhava a outra – que minha paixão e dedicação se converteria automaticamente em dinheiro. Mas eu sei: em momentos pontuais da minha vida, eu poderia ter escolhido lugares onde ia ganhar mais, onde teria status, onde poderia plantar um futuro profissional melhor. Se dinheiro e carreira fossem a minha meta, eu teria feito por onde, teria me aproximado de certas pessoas, me omitido e engolido coisas que não omiti nem engoli, teria deixado de lado as atividades que me davam prazer. E não o fiz. Se fosse colocar em palavras, talvez o que sempre tenha me motivado seja a vontade de conhecer, de me aperfeiçoar e me sentir bem. O que me faz concluir: eu alcancei o que eu buscava. Não o que eu achava que buscava, não o que na época eu diria que buscava, mas o que eu buscava num sentido muito profundo.

O justo e o melhor

Ser justa era uma preocupação muito grande pra mim e parece que isso era muito claro para os outros. Digo que parece porque essa vontade de ser justa foi usada contra mim inúmeras vezes. Eu era acusada de ser injusta, ou diziam que o mais justo seria fazer tal coisa, e lá ia a trouxa quebrar a cara, enfrentar sozinha o dragão e receber o ônus de quem fala a verdade enquanto os outros apenas assistem. Mas lutar para ser sempre justo, como todas as vezes que as pessoas tentam aplicar um grande princípio na vida diária, é também de uma arrogância e onipotência tamanha. Quem sou eu, que vejo apenas o meu lado e sei o que é melhor para mim, para decidir que caminho a questão deve tomar. Ou seja, eu me sacrificava à toa. Não sei quais eram as intenções no passado e muito menos quais as consequencias no futuro. Às vezes, algo muito ruim e doloroso no presente pode ser revelar libertador; ao contrário, passar a mão na cabeça no momento errado pode ajudar a manter uma atitude nociva. Então abri mão da justiça e passei a fazer o que é coerente comigo. Eu faço o que eu posso, dou até onde consigo sem me fazer falta. Não quero fazer mal aos outros, mas cuido primeiro do meu umbigo. Ainda assim não é simples, mas é muito mais fácil de aplicar do que a justiça.

Ser boa, muito boa, fazer um trabalho excepcional sempre foi uma preocupação muito grande pra mim e parece que isso era muito claro para os outros. Nos trabalhos em grupo, eu era uma praga, daquelas exigentes que carregam o grupo nas costas e brigam com as pessoas no fim de semana, mas com quem todo mundo queria trabalhar porque tirava dez. Era desgastante levar tudo à ferro e fogo e já na adolescência eu tinha crises de gastrite. Só que eu conseguia. E consegui durante muito tempo, enquanto meus trabalhos tinham um alcance pequeno, enquanto eu me comparava com quem estava do meu lado. Só que a maturidade e a internet abriram meu mundo de tal forma que nunca mais poderei ter a ilusão de ser a melhor. Nem ao menos de estar entre as melhores. É como se eu precisasse de uns vinte anos a mais no meu passado para obter a cultura literária, a capacidade de análise, a profundidade do trabalho e até mesmo o conhecimento flamenco que eu gostaria. Hoje eu me vejo como uma blefadora. Se fosse lutar para alcançar os padrões que gostaria, as qualidades que vejo nos que admiro, não escreveria mais nem uma linha, não dançaria nunca mais. Então abri mão de fazer o melhor e procuro pelo menos não passar vergonha. Corrijo os erros, faço o básico, ouço os conselhos de quem entende e vou. O suficiente pra estar no jogo, sem a menor chance de ir pro pódium.

Ambiciosos

Vocês certamente desculparão o post preguiçoso e farão vista-grossa ao nome do livro e o tom religioso que cerca esta citação. Independente de tudo isso, ela foi a coisa mais sensata que já li sobre como lidar com quem quer subir a todo custo:

Não será sobrepujando o nosso semelhante que nos elevaremos. Pelo contrário: sempre que alguém muito afoito vem subindo, o melhor a fazer é afastar-se da passagem e deixá-lo seguir seu célebre rumo ao topo tão desejado, pois, se tiver apto a ocupá-lo, se assentará. Mas se este não for o caso, de bem mais alto será a queda do afoito, que demorará mais tempo caindo, e assim terá tempo suficiente para refletir sobre as causas de sua tão longa queda.

Os comuns

Toda escola acaba formando o seu grupo profissional; ou nasce a partir do trabalho de alguns, que mais tarde incorporam seus próprios alunos. Receber um convite desses é uma honra. Todo mundo quer fazer parte da Companhia, não apenas da Escola. É mais do que ser alçado à condição de profissional ou ser pago para dançar – ser da Companhia é um “cheguei lá”, um atestado de capacidade e talento. Tem a ver com o tempo de estudo – geralmente os que começam a dançar cedo já podem crescer bailarinos. Mas existem também as exceções, pessoas que se destacam com poucos anos, que desde sempre mostram uma facilidade e uma expressão fora do comum. É isso que todo iniciante ambicioso quer para si: se destacar rapidamente, queimar etapas.

Nem todos os alunos são assim. Tem quem se sinta feliz em aprender, apenas em estar lá, em se ver fazendo algo que antes não parecia ser capaz. Os que querem se destacar, em algum momento, decidiram que levariam tudo à sério. É uma decisão que muda tudo, por dentro e por fora, e se torna uma forma de vida. Viver assim é estar imerso em fúria. Leva a horas de estudos silenciosos em casa, a fazer aulas extras, à exigir mais de si mesmo. Por isso tantos estimulam esse sentimento. Ao mesmo tempo, cada colega de turma é um concorrente em potencial. Cada vez que alguém se destaca, ou ganha um elogio, ou consegue algum benefício, se torna um concorrente. Quem já viu ou já viveu isso, sabe reconhecer esses sentimentos só de olhar.

Claro que eu estou, também, falando de mim. Ou estava. As coisas adquiriram outra dimensão pra mim à medida que conheci as história de outras pessoas que dançam comigo. Um dançou num grupo que se desfez, e nessa decepção parou de dançar também. Outra dançou durante a adolescência e largou pra fazer faculdade. Teve que esperar terminar o curso, se formar, arranjar emprego e ser dona do próprio nariz pra finalmente voltar. Muitos precisam se afastar por causa dos filhos, por problemas de saúde dentro da família, ou ao entrarem em fases diferentes. Em comum, o fato de amar dançar e nem sempre ter ajuda das circunstâncias.

Foram eles que me fizeram perceber que não deixa de ser injusto esse discurso de talento. Ser destaque, o fenômeno, aquele que entra e logo vira solista, é muito fácil. É uma combinação feliz de fatores, tanto da parte pessoal como de todo universo. É ter dinheiro, tempo, transporte e saúde pra frequentar as aulas. Amor de verdade, um louco amor, possui aquele que continua sem que ninguém faça questão que ele continue. Garra mesmo tem aquele que, apesar de todas as dificuldades, sempre volta. Mesmo sem virar solista, sem nunca entrar para Companhia. Os destaques enchem os olhos, mas são os comuns que fazem o show continuar. Muitas palmas para eles.

Clube dos insensatos

Nós, os insensatos, nunca somos ambiciosos. Dificilmente escolhemos carreiras lucrativas; se chegamos a fazê-lo, conseguimos transformar isso num trabalho social, voluntário, gratuito ou abandonar tudo sem dó. Mesmo que ateu, um insensato é sempre uma pessoa de fé – em Deus, no destino, na humanidade ou no dinheiro de papai. Todo insensato acaba aprendendo que o orgulho é um privilégio acessível apenas àquela outra classe de pessoas que se preocupa com o futuro. Outra maneira de definir a insensatez é a linda expressão carpe diem.

Se quiser um amigo que nunca te aponte o dedo, procure um insensato. Pra nós, o argumento de que rende rios de dinheiro é tão válido quando eu sinto prazer fazendo isso. De onde se pode concluir que o capitalismo só existe porque ainda somos em muito poucos nesse mundo.