Exílio

Seria ótimo pensar que o que eu estou vivendo agora é uma espécie de exílio. Pra ter sido exilada, em primeiro lugar, um dia eu fui importante. Eu cresci com um sentimento de importância. No meu passado, eu me sentia tão confiante, tão destinada às grandes realizações, eu não era todo mundo. Mais de dez anos depois, eu me pergunto onde tudo foi parar. Pensar que virei à esquerda quando deveria ter seguido em frente é uma explicação muito madura e banal. Estou falando aqui do que eu gostaria, então me deixem. Quero crer que eu ainda sou aquela que eu me sentia antes, que era tudo verdade: forte, especial, capaz de qualquer coisa a que me propusesse, especial. Especial não por ter nascido com algum sobrenome ou dinheiro, coisas que eu realmente não tive, e sim por ser uma pessoa diferente. Alguém com muita contribuição para dar ao mundo. Pra eu brilhar, era apenas uma questão de tempo.
Se nada disso aconteceu, a culpa foi da bruxa má que me soltou um feitiço. Não, melhor: como no Ramayana, minhas atitudes nobres e a necessidade de salvar o equilíbrio do universo me fizeram abrir mão do meu destino, mas só temporariamente. Por um longo período de anos, aceitei me vestir de pessoa comum e parti em busca da sabedoria. Fui para o exílio. Exílios bons, exílios de raiz, são sempre longos, por isso a impressão de que eu fracassei. As pessoas são assim, elas não enxergam a verdade, elas esquecem. A própria palavra exílio já mostra o quão temporária a minha situação é: só pode ir quem um dia esteve, só pode voltar que um dia se foi. Essa que vocês estão vendo é uma versão exilada, eu sou muito mais, eu garanto…
Pena que o meu exílio não é na floresta. Não há uma plaquinha que indique, não há sinal externo. Já estraguei o sapatinho de cristal, usei o manto real como coberta e todas as jóias se foram para comprar comida. Da minha origem, tenho apenas as minhas lembranças. Ou seriam minhas fantasias? Se pudesse, andaria pelas sombras e cantos, evitaria todos os conhecidos. Ando pelas ruas longe das minhas glórias e de mim mesma.
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Exílio em Paris

Nunca vi alguém no Brasil achar o exílio uma coisa boa, ou dizer que Caetano se divertiu e aproveitou tanto que fez até música. Parece que no Chile é diferente, que a turma favorável a Pinochet diz que o exílio não foi tão ruim. Uma chilena uma vez me disse: “Pra eles foi bom, voltou todo mundo doutor nas melhores universidades da Europa”. Por acaso conheci um que realmente voltou doutor da Sorbonne, em sociologia. Ele me contou que tinha pouco mais de vinte anos quando foi obrigado a sair do Chile. Ele era um típico aluno de classe média, mal saído da adolescência, um porra-louca qualquer. Lia Marx, queria combater as injustiças e mudar o mundo; ele não fazia a menor idéia de onde estava se metendo. No espaço de poucos dias ele deixou de ser o filho da dona Fulana, que levava uma vida pacata, tinha seu quarto, amigos e violão, e se viu exilado em Paris. A cidade lhe pareceu totalmente hostil. Ele não sabia falar francês, não tinha contatos e nenhum lugar pra ir. Do nada, teve que aprender a se virar: falar, ler e escrever em francês, arranjar sub-empregos, um lugar para morar, roupas para vestir, comida para comer. Foram quatro anos pra ele começar a não se sentir tão mal, pra vida finalmente entrar nos eixos. Foi o tempo para começar fazer amigos, ter um pouco de controle sobre a sua vida e voltar a fazer planos. Em Paris ele casou, teve uma filha, descasou, fez o doutorado, voltou para o Chile. Se pudesse escolher, não teria feito as coisas dessa maneira. Daquela época ficou para sempre a dificuldade de chorar e um certo desencanto com a vida.

Quando pessoas falam de Paris, ou Nova York, ou qualquer cidade como o paraíso na terra, quando acham que vale qualquer coisa para morar nelas, que só de estar Lá já é um glamour… só consigo achar burrice. Como a das reportagens sobre Krajcberg que vêem no fato dele preferir morar no interior da Bahia do que na Europa sinal de loucura. Não importa o CEP, ou que lindos cartões postais se faz da nossa cidade; o entorno que nos faz felizes é pequeno: um lar, um emprego que nos dê conforto, as não mais que cinquenta pessoas com que convivemos todos os dias.

Quentinho

Fiz uma viagem de intercâmbio com vinte e um anos. Foi um período curto no tempo e pessoalmente muito marcante. Chegando lá, fui rapidamente integrada ao grupo dos intercambistas, todos latinos. Éramos como uma família, ficavamos juntos o tempo todo. A cidade e os nativos eram apenas cenários para um encontro improvável de brasileiros, argentinos, mexicanos, colombianos, peruanos e chilenos.

Nesse grupo estava um sociólogo chileno que havia se exilado em Paris na época de Pinochet. Ele me contou que se endureceu um pouco para conseguir aguentar o que viveu. Com a idade de quando o conheci, ele se viu com uma pequena mala, sozinho numa cidade que não lhe oferecia luz alguma. Sem família ou amigos, teve que aprender a se virar. Aceitou todo tipo de emprego, aprendeu francês na marra, viveu com pouco, sentiu falta da família. Baseada na experiência dele e no que eu mesma estava vivendo naquele exato momento, lhe perguntei:

– Manuel, na verdade não importa muito onde a gente está, né? Se você tem um trabalho razoável que te permite viver com conforto, e se sente querido pelas pessoas à sua volta, o resto acaba ficando em segundo plano. É isso mesmo?

Sim, era assim mesmo. Ele passou mais de dez anos em Paris. Fez doutorado, casou com uma francesa, teve uma filha. Na prática, ninguém vive em Santiago ou Paris: cada um transita por um número limitado de ruas, encontra sempre a mesma centena de pessoas, freqüenta sempre os mesmos lugares. O importante é conseguir criar um lugar quentinho, se sentir querido dentro do seu pequeno mundo. A diferença entre o exílio e o lar é o aconchego.