Estratégias

 

Eu vejo estratégias o tempo todo. Estratégia de usar os argumentos mais sólidos possíveis. Sugestões suaves, que indicam que a solução é rápida, fácil e leva à realização de todos os sonhos depois de uma pequena curva. Ou de usar os mais assustadores, os que mexem com os medos atávicos de morte, fome e violência. Se não por ser melhor e por convencimento, que seja por acreditar que é o melhor caminho para se manter vivo. Vejo muito a estratégia de calar, de omitir o que realmente pensa, para só soltar no momento apropriado. As respostas vagas só se mostram à luz do dia quando a pessoa estiver aberta para ouvir, estiver frágil e duvidando da sua própria capacidade. Que momento melhor pode haver para enfiar ideias novas do que quando as de sempre estão agonizando? Então é melhor esperar, calar, fingir que está tudo bem. Presas experientes exigem caçadores experientes. Deixa o outro chegar, comer do seu pão, se sentir à vontade, pra só aí então…

Gostar com sinceridade seria mais fácil.

Anúncios

Canina

Faz parte da minha rotina chegar em casa e cumprimentar as duas cadelas que me esperam: a Dúnia e a Laika, a minha e a vira-lata da vizinha. Ainda mais agora, que sei que é uma questão de dias pra eles se mudarem e eu nunca mais vou ver a bichinha de novo. A Dúnia não gosta e nunca vai gostar dessa história. A Laika fica até gemendo de ansiedade no portão à espera do meu carinho. Tento apresentar as duas, a Laika tenta se aproximar da Dúnia, mas nem olha na cara, chega ao cúmulo de sentar de costas pra outra.

Dia desses estava chegando em casa normalmente, e como de praxe a Laika correu para o portão quando me ouviu chegar. Só que a Dúnia, ao invés de vir também, ficou meio escondida. Eu a chamava e ela parecia querer não vir, ficou se enrolando. Aí eu fiquei preocupada. Quem tem cachorro sabe que eles se escondem quando ficam doentes. Eu já havia visto uma falha de pelo com casquinha no dia anterior. Com muito custo ela veio, de cabeça baixa, e já me deu as costas de novo. Preocupada, eu fechei o portão e fui logo atrás dela. Quando a Dúnia viu que eu fechei o portão e vim atrás dela, ou seja, que não ia mais voltar pra fazer carinho na outra, ficou saltitante como se nada tivesse acontecido.

Até cães podem ser manipuladores.

Líder

Já comentei aqui que sei que pra ser líder do cachorro nós nunca devemos ficar atrás dele no passeio. E que, apesar disso, deixo a Dúnia ficar longe de mim, na frente. Em outros momento atuo como lider, nesse momento não. Talvez por isso ela seja rebelde e arranje uma maneira de subverter as minhas ordens que chega a ser engraçada: mando ela ir pra casinha e ela vai. E sai logo em seguida. E mando de novo. Às vezes ela até fica, mas se demoro pra chamar, ela vem até mim verificar se é aquilo mesmo, se não esqueci dela. Aí eu mando de novo e assim sucessivamente. Até que ela mesma se cansa disso e vai pra casinha e fica – não sem antes uivar em protesto.

Como já estabelecido que no passeio é ela quem manda, adotei um procedimento diferente nos dias que estou com pressa. Antigamente eu ficava puxando cada vez que ela parava, era uma luta. Hoje eu acelero o meu passo de modo a ficar lado a lado com ela. Como a Dúnia tem que ser a líder, ela acelera mais ainda, e volta a ficar na minha frente. Se quero ir mais rápido, eu aperto o passo e fico do lado dela de novo. E ela acelera ainda mais. A coisa vai de um jeito que já corremos as duas no maior pique pela rua, sempre com ela na minha frente.

Quem é a verdadeira líder? Isso me lembra demais relações entre pessoas.

Eu não sei brigar

Acho que existem dois sentimentos meio excludentes com relação aos desafetos: rancor e vingança. Tenho notado que quem é vingativo tende a não ser rancoroso e vice-versa (das pessoas que são rancorosas E vingativas quero muita distância). Eu não me vingo e guardo rancor. Todos os meus desafetos acabam descobrindo isso. Não me dou ao trabalho de prejudicar e nem ao menos de sair falando mal – eu apenas me reservo ao direito de ignorar que a pessoa existe. Quando me perguntam, falo o que aconteceu, e se for o caso até ressalto que o outro tem suas qualidades – “veja bem, foi o que aconteceu comigo, mas profissionalmente ele é muito bom”, etc. Só que o que geralmente acontece é quem é amigo de ambos geralmente não quer perguntar. A pessoa vê, estranha, e eu deixo que estranhe. Resultado: tenho acumulado ao longo dos anos a fama de ser uma pessoa de trato muito difícil, que por qualquer bobagem eu corto as pessoas da minha vida.

Tenho descoberto que o que me falta é uma certa propaganda ou, em outras palavras, que eu sou é burra. Enquanto eu acredito que uma briga minha diz respeito apenas ao que aconteceu comigo e com o outro, alguns fazem disso uma publicidade muito boa para si. Elas escondem os seus erros, já se adiantam e criam uma versão dos fatos, fazem com que as pessoas jamais me perguntem algo que elas acham que já sabem o que foi. Eu, num misto de ingenuidade e orgulho, acho que quem me conhece deve ter senso crítico o suficiente pra não me reconhecer em certas atitudes. Sobre o que me fizeram, apenas eu e o outro saberemos; já os meus erros serão espalhados e aumentados ad infinitum. Se eu esperneasse, levasse a público e me vitimizasse, quem sabe fosse diferente. Agora vejo que não importa como e porque acabou, e sim a maneira como a história é contada. Os que agem como eu sempre são os vilões.

Pseudo-compreensivos

Geralmente, os pseudo-compreensivos são pessoas que se vêem como boas. As famosas boazinhas. Elas têm uma auto-imagem que não permitem expressar aos outros sentimentos ruins. Então elas acham que estão sempre pensando nos outros, respeitando seus pontos de vista e que nunca atravessam a linha do correto. Além disso tornar a pessoa uma completa mala sem alça, essas sentimentos não são verdadeiros. Cada um pensa em si, sempre, nem que seja apenas uma questão de ponto de vista – sempre partimos do nosso ponto de vista, não tem como ser de outra maneira. Quando elas discordam de alguém, ao invés de assumirem isso diante do outro e de si mesma, abordam a questão de uma forma boazinha. Forma que eu considero muito mais irritante, egoísta e manipuladora do que simplesmente discordar.

Quando uma pessoa discorda de você abertamente, ela na verdade te respeita. Ela coloca as cartas na mesa, deixa clara a maneira como realmente vê as coisas. Muito diferente de quem começa com um discurso compreensivo pra logo depois começar a minar pouco a pouco os seus argumentos. É como alguém que começa com um abraço que desarma, pra logo depois mostrar que em nenhum momento realmente te acolheu. Depois do “claro, você tem todo direito” ou “cada um sabe o que é melhor pra si”, chegam os não seria melhor, os você não está levando em conta que, os será. Existem duas reações – se sentir confuso ou com raiva. Se você ficou confuso, caiu na armadilha do psedo-bozinho, que te fez mudar o ponto de vista que teoricamente respeitava. Se com raiva, você percebeu a manipulação e não consegue responder à altura – teoricamente a pessoa não te fez nenhuma crítica. E reagir com raiva à uma “simples observação” parece colocar em dúvida a sua própria sanidade…

Imatura, eu?

Assim como o Marty Mcfly do De volta para o futuro perdia a razão quando o acusavam de ser covarde e levou 3 filmes pra parar com isso, eu também fazia muita besteira se fosse acusada de imatura. Alias, nem precisavam me acusar diretamente. A simples idéia de parecer imatura já me levou a muita coisa.
Eu era solteira e tinha saído para dançar com uma amiga. Num momento que eu estava sozinha, um cara se sentou na minha mesa. Ele se sentou num ângulo que quando eu falava com ele, via nitidamente seus amigos nos observando. Eles estavam tão animados e entretidos com o que acontecia na minha mesa, que só faltavam fazer Hola a cada investida do cara.

Estava nitidamente fazendo papel de troféu (ou de trouxa). Na certa, estava rolando algum tipo de aposta. Quando comentei com o cara sobre o agito dos seus amigos, ele soltou esse discurso:

– Eu não me importo com a opinião dos outros. Acho que as pessoas devem fazer o que é melhor para elas e serem independentes da opinião da sociedade. Se meus amigos querem ficar olhando e comentando, o problema é deles. Eu acho que você não deve pautar suas decisões com base nisso. Se você sentir vontade de fazer alguma coisa, deve ser superior ao que eles vão pensar e fazer do mesmo jeito.
Quanto tempo eu perdi, quanto papel de trouxa! Saí quando não queria, aguentei desaforo, deixei de reclamar dos meus direitos. Um dia percebi que o preço que eu pagava por essa fictícia fama de madura era alto demais. E pior: essa acusação de imaturidade é uma maneira de manipular. Somos acusados de imaturos quando estamos agindo conforme nossos sentimentos, ao invés de fazer a vontade dos outros. Imatura eu era quando me importava com a opinião dos outros!

– Já eu me importo com a opinião dos outros sim. Não me sinto bem com os teus amigos me olhando. Não quero que fiquem me observando e rindo de mim como se eu fosse uma idiota que caiu na conversa de alguém. Não vou ficar com você pra virar troféu depois.

Assim como o McFly, eu aprendi a dizer não. Meu sangue ainda ferve às vezes, mas sei que o preço a pagar por isso não vale a pena. E se negar a fazer papel de madura às vezes tem resultados inesperados. O Sr. Não-me-importo-com-os-outros me ligou depois.