Eu não sei brigar

Acho que existem dois sentimentos meio excludentes com relação aos desafetos: rancor e vingança. Tenho notado que quem é vingativo tende a não ser rancoroso e vice-versa (das pessoas que são rancorosas E vingativas quero muita distância). Eu não me vingo e guardo rancor. Todos os meus desafetos acabam descobrindo isso. Não me dou ao trabalho de prejudicar e nem ao menos de sair falando mal – eu apenas me reservo ao direito de ignorar que a pessoa existe. Quando me perguntam, falo o que aconteceu, e se for o caso até ressalto que o outro tem suas qualidades – “veja bem, foi o que aconteceu comigo, mas profissionalmente ele é muito bom”, etc. Só que o que geralmente acontece é quem é amigo de ambos geralmente não quer perguntar. A pessoa vê, estranha, e eu deixo que estranhe. Resultado: tenho acumulado ao longo dos anos a fama de ser uma pessoa de trato muito difícil, que por qualquer bobagem eu corto as pessoas da minha vida.

Tenho descoberto que o que me falta é uma certa propaganda ou, em outras palavras, que eu sou é burra. Enquanto eu acredito que uma briga minha diz respeito apenas ao que aconteceu comigo e com o outro, alguns fazem disso uma publicidade muito boa para si. Elas escondem os seus erros, já se adiantam e criam uma versão dos fatos, fazem com que as pessoas jamais me perguntem algo que elas acham que já sabem o que foi. Eu, num misto de ingenuidade e orgulho, acho que quem me conhece deve ter senso crítico o suficiente pra não me reconhecer em certas atitudes. Sobre o que me fizeram, apenas eu e o outro saberemos; já os meus erros serão espalhados e aumentados ad infinitum. Se eu esperneasse, levasse a público e me vitimizasse, quem sabe fosse diferente. Agora vejo que não importa como e porque acabou, e sim a maneira como a história é contada. Os que agem como eu sempre são os vilões.
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