Invencível

Heavy rain in Spain

Vocês já andaram num dia chuvoso de galochas, capa de chuva e guarda-chuva? A sensação é ótima, estamos invencíveis. Enquanto os incautos correm para as marquises e molham os pés nas poças, caminhamos com independência, no ritmo que queremos, podemos erguer os olhos do chão na maior tranquilidade. Demorei pra descobrir o quanto a caado influencia no humor relativo ao clima. Quem me conhece pessoalmente sabe o quanto que fiquei contando vantagem, igual criança, quando comprei a minha bota de pelinhos. O frio se aproxima e já olhei para ela, feliz. É uma bota que vende nessas lojas de alpinistas, caras pra caramba, mas por acaso a esposa do fabricante me ofereceu a preço de custo. Com o preço de custo, ela já era o máximo que eu gastaria num calçado, pra vocês terem ideia. Mas, enfim, comprei. A bicha dá um calor que é como se eu colocasse os pés numa bolsa de água quente, vem subindo aquele bem estar. Não é bonita, mas quem enfrentou inverno de verdade sabe que vaidade não importa, quando o frio aperta a vontade é dar uma de Di Caprio e entrar nas vísceras de um urso morto. Pode vir chuva, pode vir inverno, estarei nas ruas, preparada para vocês.

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O defeito

Não é todo mundo que sabe disso, mas os lados direito e esquerdo do nosso corpo não são completamente simétricos. Nem poderiam ser, se levarmos em conta que fazemos a maioria das coisas com um lado só. Reparando bem, é sempre o mesmo pé que se incomoda com sapato, sempre o mesmo lado do soutien que precisa ter a alça ajustada. Eu sei de longa data que minha panturrilha esquerda é maior do que a direita até mesmo pelo uso – sempre tive mais equilíbrio do lado esquerdo do corpo, enquanto o direito é mais ágil. No ballet, dava para perceber claramente que eu ficava muito mais tempo em equilíbrio em ponta ou meia ponta sobre a perna esquerda do que sobre a direita. E de certa forma, dançar acentuou ainda mais essa diferença.

Foi justamente na época que eu fazia ballet que começou a moda de galochas, ou “rainning boots”. Eu ficava o dia inteiro andando com uma mochila nas costas e quando chovia era um horror. Eu era obrigada a levar umas três meias, porque meus tênis sempre molhavam. Eu não conseguia usar a única bota que tinha no armário, porque ela tinha salto e me cansava muito. Por isso eu tinha tudo para querer uma dessas galochas, que além de tudo eram lindas e coloridas. Mas o meu lado do contra detesta seguir modinhas, e eu resisti tanto que quando resolvi comprar não consegui mais. Primeiro porque meu número tinha acabado, depois porque passou a estação e depois porque passou a moda. Rodei a cidade inteira e não achei. Passei meses olhando tristemente as vitrines à procura de uma galocha perdida.

Até que um dia encontrei. Era uma loja pequena e toda estilosa. Na vitrine, três galochas lindas: uma de quadrinhos, outra de borboletas e não lembro da terceira. Elas estavam caras mas eu já tinha o dinheiro separado, ia pagar à vista e levar. Entrei confiante. A vendedora me ofereceu a do mostruário, um pé direito 36. Não lembro se ficou certinho ou se ficou um pouco folgado, o que sei é que pedi pra ver dos outros dois modelos. Ela me trouxe uma, que ficou boa no pé, mas ficou apertada na panturrilha. Depois aconteceu o mesmo com a outra bota. Pedi uma numeração maior, que ficou enorme em todos os sentidos. Não dava pra entender porque só o primeiro modelo tinha dado certo. Estava quase levando a primeira bota, até que me dei conta de que com aquela eu havia experimentando a perna direita e com as outras a perna esquerda. Quando finalmente experimentei os dois pés, percebi que todas ficavam confortáveis na paturrilha direita e apertadas na panturrilha esquerda. Tudo por causa daquele um ou dois centímetros de diferença entre uma panturrilha e outra. Elas eram lindas, eu tinha dinheiro, tinha o meu número e eu não pude comprar. A vendedora, ciente de que havia trazido várias botas à toa e perdido sua comissão, me falou:
– O ruim é que você nunca vai conseguir comprar uma bota de cano alto por causa desse defeito na perna que você tem.

Pior que eu estava tão chateada que nem tive forças pra dizer que defeito na perna é a mãe.