O problema do primeiro encontro

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Eu me dei conta que um dos meus problemas com aplicativos de namoro é a minha tendência quase incontrolável de causar uma primeira boa impressão. Digo incontrolável porque nem sempre eu posso querer causar uma impressão tão boa que a pessoa persista. Talvez por uma curiosidade de escrita, qualquer ser humano que for colocado na minha frente por poucas horas despertará meu interesse. Pode ser o famoso homem que só fala de crossfit – eu lhe perguntaria: me conta, o que o crossfit tem de tão interessante? Eu gosto de ouvir as histórias das pessoas. Lembro que quando minhas colegas viraram todas psicólogas e eu virei escultora, elas viravam pra mim sem saber o que perguntar, e eu achava aquilo o fim. Se uma pessoa está numa realidade totalmente alheia à minha, aí sim fica ainda mais fácil de puxar assunto! Que rotina é essa que eu desconheço, do que se trata, quais as habilidades necessárias, como alguém vai parar nesse caminho. Tenho mil curiosidades, sou uma companhia verdadeiramente interessada. Aí a pessoa vai sair do primeiro encontro achando que temos muito em comum e que, no mínimo, podemos ser grandes amigos. Mas pra mim o interesse pode ter se esgotado ali, para sempre. E outra característica minha é detestar ser rude, o que dificultaria cortar as asinhas da pessoa depois…

Jantar é um #hojetem

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Uma etapa muito temida por mim é quando o Fulano – depois das apresentações, da conversa fluente, da discreta pergunta feita pessoalmente ou para amigos a respeito do estado civil, e pequenos testes que medem se o nível de interesse é recíproco – convida para jantar. Faço de tudo para não vivenciar isso, tento resolver a situação num passeio no parque, um café, uma carona, mas nem sempre é possível. O sair para jantar nada mais é do que um #hojetem. Os dois estão interessados, sabem que querem muito mais do que uma amizade ou um amor platônico. A parte dele é arranjar um restaurante que tenha um clima mais romântico. E a minha parte, como convidada? Sem dúvida, estar bonita, e só isso eu já acho uma baita pressão. Pra quem anda sempre esportiva por aí, estar bonita às vezes implica em se colocar numa roupa que faz com que eu não me sinta eu mesma, o que gera o problema do que é estar bonita, para quem é o bonita. A lingerie não vai ser a furada do armário, mas também já acho demais partir de primeira pra calcinha comestível. Sendo a instituição jantar tão ligada ao #hojetem, tem que se fazer de desentendida o jantar inteiro e o divertido está nas insinuações e a possibilidade da recusa, se fazer de surpresa quando a mão dele vai parar na cintura, sendo que eu já pensei nos mínimos detalhes e estou nervosa desde que recebi o convite ou já pode ir beijando quando encontra? Uma amiga minha defendia dar antes do jantar, porque já resolvia tudo e os dois jantavam calminhos e mais famintos – mas também já ouvi muitas histórias que mostram que muitos homens são apegados à etiqueta dos três encontros.

Desencontro

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Eu passei todo funeral do meu ex-sogro normal. Algumas vezes eu sentia que as lágrimas vinham e voltavam para dentro dos olhos e deixei. Mas naquela manhã muito chuvosa no cemitério, com o gramado encharcado, olhei para os filhos e a viúva molhados, acompanhando sozinhos o caixão descia, e chorei muito, incontrolavelmente. Por eles, pelo significado tão difícil daquela cena. Eu não sei se foi isto ou se foi no momento que cheguei ao lado da minha sogra, poucas horas antes, sem dizer nada, e lhe abracei, que ela passou a gostar de mim. Ela passou grande parte do casamento me achando uma péssima escolha. Os parentes do interior, que nunca tinham me visto na vida, não cansaram de me dizer “você é uma pessoa tão legal, nós tínhamos uma impressão totalmente oposta de você!”. Depois minha sogra continuou fazendo tudo o que ela fazia antes – me receber, preparar almoços, fazer sala -, só que com um carinho palpável. Eu achava uma pena e não tinha como dizer, não ainda; mais de dez anos haviam se passado e ela nunca se deixava convencer, nunca tinha realmente me olhado. Quando percebeu, o período que tínhamos juntas estava chegando ao fim.

O cara da armação inadequada

Eu e ele nos cruzamos quando eu não saio de bicicleta. Onde eu o encontro – mais próximo ou mais distante do semáforo – me diz o quanto estou no horário ou não. Na última vez o vi já dobrando a padaria, então apertei o passo porque já estava bem atrasada. O normal é que eu o veja bem na faixa de pedestres. Ele é daqueles tipos magros de ombros finos e rosto magro e fino cuja idade não sabemos determinar. Quando jovens, parecem velhos, e quando velhos parecem não ter chegado lá. Diria que tem mais de trinta e menos de cinquenta. Ele tem aquele tom de pele que aqui faz as pessoas se sentirem muito negras, muito pardas, mas que em Salvador seria considerado “você tá horrível, desbotado, precisa ir na praia pegar um cô(r)”. O cabelo baixinho e as sobrancelhas bem pretas. As roupas, sempre folgadas, tendem ao marrom. Não sei para onde ele vai, que tipo de serviço faz, eu adivinharia que tende a ser algo braçal sem ser pesado. 

Era pra ser apenas uma das muitas pessoas com quem cruzo por aí, sem nem registrar, mas sempre que olho pra ele aquela armação de óculos me incomoda. Fina pros lados, totalmente inadequada pro rosto. Imaginem, um rosto fino e comprido com uma armação fina e comprida pro lado – fica parecendo uma cruz. Para piorar o conjunto, na parte de cima, como se de plástico, um tom de branco muito forte que lhe dá um tom moderninho brega. Eu passo por ele e tem aquele branco gritando, dizendo que ou aquele óculos não foi escolhido pra ele, ou ele não sabe quem é, que rosto tem, que mensagem passa.

(Eu não deveria dizer isso, pra não estragar o post, mas da última vez que nos vimos eu vi que o óculos não tem partes de plástico. A armação é toda de metal e a parte de cima reflete a luz de maneira estranha. Ou seja, a crítica ainda é válida)

Lembrança

Estava no Mercado Municipal à tarde, horário em que nunca vou lá. Estava cheio, e no meio de tanta gente acabei cruzando com a Rita. Acho que não a via há pelo menos um ano. Antes nos víamos sempre, na época que fazíamos pilates juntas. Foram anos de uma turma que se encontrava fora da academia, geralmente na casa da Tânia e aquela amizade tão grande parecia que nunca teria fim. Mas a professora de pilates abriu seu próprio estúdio, eu parei de frequentar a academia, outros foram embora por outros motivos e o grupinho acabou espontaneamente. Minha amizade com a Rita se limitou ao fato de termos nos adicionado no FB, o que quer dizer pouco mais do que nada, já que ela não é do tipo que fica on line. Por coincidência, no dia anterior ao nosso encontro me pediram a recomendação de uma personal stylist e dei o telefone da Rita. As pessoas me perguntam coisas estranhas…

Quando nos encontramos, rolou aquele momento sinal fechado, com as duas ressaltando que precisamos nos ver e incapazes de marcar como e onde. “Que imensa coincidência te encontrar! Ontem mesmo eu fui à casa da Tânia e lembramos tanto de você!”

Não sei se eu ando carente ou o quê, mas só dela dizer que lembraram de mim, depois de tanto tempo, me deixou com o coração quentinho.

O encontro santificado

Sempre imagino que em algum lugar, especialmente na Índia, deve existir alguém que tem por profissão mudar a vida das pessoas com suas palavras. Imagino o peregrino sedento por mudanças encontrando essa pessoa. Ele ou ela impressionaria por sua cabeleira vasta, roupas simples, objetos essenciais; ou viveria num meio tão exótico, que você sente que atravessou palácios antes de chegar até lá. O sorriso, o olhar e o aroma de incenso gravam a cena na memória para sempre. Aí essa pessoa diz ao peregrino que ele é especial, que ele tem uma luz, que deve levar aquele projeto engavetado adiante porque aquela é a sua missão. O peregrino volta para casa, luta pelos seus objetivos e sente que aquele momento foi um marco zero na sua vida. No cantinho dessa cena, se você reparar atrás da pilastra, existe o faxineiro, ou um familiar do tal santo, que observa tudo com cara de tédio – o sujeito diz aquilo todos os dias, basta aparecer um estrangeiro deslumbrado. O cabelo, o sorriso e os maneirismos são iguais a qualquer um dos seus conterrâneos. O que ele tem de diferente é ser monotemático. Quem conhece nem liga.
Porque a verdade verdadeira é que não existe muito mais a ser dito. Em qualquer pps a gente encontra mensagens inspiradoras. No fundo, todo mundo já sabe mais ou menos o que tem que fazer. Nossos amigos e nossos inimigos já nos jogaram na cara faz tempo e muitas vezes o que há de errado. Só lhes faltou a mística.

De mal

Eu não acho que fui injusta com ela. Ao contrário, me vejo com uma injustiçada. Nós nos encontramos por acaso, num teatro minúsculo, pra ver uma peça que tinha como tema justamente a paixão que nos anima, a dança. Já havíamos nos visto ao longo desses meses, e posso dizer que quando estávamos só nós duas, optamos por fingir que não nos vimos; com outras pessoas, nos cumprimentamos cordialmente. Então, passado um ano e tudo muito assentado e resolvido para mim, fiquei na dúvida de como seria. Por mim, estava pronta para assumir uma atitude cordial de ex-aluna. Só que ela fingiu que não me viu. Então eu também não a vi.

 

Esse um ano depois me fez tão, tão bem, que eu não poderia estar magoada. Acho que a maneira como uma história se desenrola influencia totalmente nosso modo de olhar os rompimentos. Se rompemos e aquilo nos joga na lama, nos enche de cicatrizes, fica tudo ruim, o outro vira o monstro que acabou com a nossa vida. Se, ao contrário, aquele fim permitiu novas buscas e levou a coisas ainda melhores, sentimos um agradecimento. Um agradecimento ao destino, à situação, ao modo com que a nossa sorte mudou. Mas aquele que um dia nos deu a facada nas costas, o chute na bunda ou o empurrão porta afora continua sendo o filho da puta. Ficamos de mal.

 

Estava vendo as fotos de amigos recém-separados e fiquei feliz em ver que ambos estão muito bem. São duas pessoas ótimas que se separaram e não tiveram dificuldade de se apaixonarem e encontrarem outras pessoas ótimas. Pensei neles e nos meus dolorosos rompimentos. Quando pacíficos, casamentos costumam terminar com dor; os outros viram guerras. Quando troquei de “danças” também saí pra nunca mais voltar. Acho que a explicação está no investimento, na intensidade dos laços. Nos lugares onde dancei, fui sempre a louca que nunca falta, a que estuda em casa, a que quer fazer tudo. E, claro, exigia da outra parte proporcionalmente. Nenhum casal se separa pelas picuinhas, por mais dolorosas que elas sejam. Quando o investimento é grande demais, a própria inércia o mantém. Para interromper o processo e permitir o novo, só grandes “injustiças”.

Desarrumada

Todo mundo sabe que existe uma Lei de Murphy relativa ao vestuário e encontros. Quando você sai de casa linda, perfumada, cabelo perfeito, com aquela roupa que lhe cai especialmente bem, você não encontra ninguém. Você pode tentar aproveitar o momento e desfilar por aí desse jeito, andando por todos os lugares, sentada no sofá mais visível como quem espera, passar em frente à janela – a mesma coisa, ninguém. Agora experimente ir até à esquina, só para comprar um pãozinho, vestindo um chinelo de dedo com meia ou uma camisa de futebol por debaixo do moletom surrado. Ah, pode ter certeza de que surgirá do nada o seu pretendido mais desejado, o genro que mamãe pediu a deus, e ele não apenas te verá como é capaz de puxar um papo. E você lá, sendo mentalmente fotografada na pior look da sua vida.
Estava eu aqui pensando, lembrando de uma história, de um sujeito que fiquei uma vez… e me dei conta que é como se o nosso encontro tivesse sido um encontro-de-chinelo-de-dedo-na-padaria um pouco mais prolongado. Eu havia acabado de me formar e minha cabeça estava uma bagunça. Estava procurando emprego, chateada pelos muitos nãos, confusa sobre o que eu queria, entrando com o pé esquerdo no mundo adulto. Ele apareceu bem naquele momento, dizia gostar de mim. Mas tudo era tão difícil. Por ter me conhecido quando me conheceu, ele ficou com a impressão de que eu era sensível e instável daquela maneira. Minha vontade era de dizer, o tempo todo: Essa não sou eu, releve o que eu acabei de fazer! porque aquela não era eu. Não a eu que eu normalmente sou, e sim uma eu enfraquecida, confusa, deprimida. Se tudo desse certo, em poucos meses eu já não seria mais assim, e sim muito mais leve. Ele não esteve tanto tempo na minha vida para comprovar. Achei uma pena, na época, porque não era daquele jeito que eu queria ser vista. Só que foi o que pude mostrar. Eu estava desarrumada – por dentro.

Uma flor

Como a própria Rita disse no seu post, nós nos conhecemos. Eu não sabia que ela vinha e fui surpreendida com uma mensagem, foi algo meio “ou vai ou racha”. A TIM derrubava a ligação toda hora, a Família Paschoalin não encontrava lugar pra almoçar em Santa Felicidade (!?), mas corre daqui e corre de lá, nos encontramos todos no Bosque Alemão e passamos algumas horas muito agradáveis. Não foi a sensação de conhecer um amigo virtual, e sim de encontrar alguém que você já conhece de longa data e aquela ilusão de que pode voltar a encontrar de novo qualquer dia desses, dobrando a esquina.

Quando já tinha voltado, a Rita veio falar comigo no Facebook. Com medo de ser mal interpretada, mas também sabendo que era um elogio, ela veio me falar que eu sou “muito mais gracinha” do que pareço virtualmente. Depois, no próprio mural, ela disse que eu sou “uma flor”. Ela não me ofendeu de maneira alguma, tive que dizer – eu sei. A Luciana me disse algo parecido, quando escreveu no seu próprio blog, após sua vinda a Curitiba, que eu fui uma surpresa boa. Parecia tão antipática assim? Não, responderiam as duas em uníssono. Até salvei os twittes da Lu : “ahaha, eu explico. sempre te achei inteligente, ironica, precisa, sagaz e várias virtudes cognitivas. mas não sabia que você era também suave, doce e uma pessoa tão disponível e delicada. foi ótimo passear com você”. As palavras da Rita foram: “Mas você não revela nos seus textos esse seu lado gracinha’ “.

Não, não revelo. Sempre digo que a escrita é uma coisa mentirosa, apenas uma versão escolhida e a escolha da minha versão deixa de fora esse lado. Poucos amigos reais se tornam meus leitores, tamanha antipatia que essa persona virtual talvez tenha perto da realidade. Eu nem saberia o que escrever se tentasse incluir esse lado. Talvez eu tenha medo de soar piegas. Talvez seja uma tentativa débil de me proteger, como uma cobra budista. Felizmente, apesar de tudo, uma pessoa e outra toma coragem e se dispõe a me conhecer e descobre a verdade. Mais: ela conta pros outros.

Queridas, essa é minha débil e meio envergonhada tentativa de mostrar aos outros o que vocês viram e eu não sei exprimir. Muito obrigada por me encontrarem, apesar de tudo! Agora voltaremos à programação normal.

Ex-amigo

Uma vez fui a um restaurante quase às 14h. Eles me atenderam, mas o pessoal da cozinha estava quase indo embora, então eu não pude pedir o que queria e o cozinheiro teve que fazer o que dava. Por causa disso, causei uma certa agitação no restaurante, com garçom indo e vindo, consultas, mudanças de idéia e negociações. Quando tudo já estava calmo e eu estava esperando a comida, alguém se levantou com certa solenidade numa mesa um pouco distante da minha e saiu a passos duros. Virei o rosto instintivamente e lá estava um ex-amigo, que me olhou de maneira rancorosa. Não sei se ele achou que eu fingi que não o vi ou se ele tem todo esse rancor de mim. Mais do que ir simplesmente embora, ele parecia estar se retirando do recinto porque eu estava lá. Eu não entendo o porquê do drama. Nunca fomos tão chegados; ele chegou a passar um ano inteiro sem falar comigo. Depois que ele furou mais um compromisso, cansei das desculpas e deixei pra lá. Nunca brigamos formalmente, nossa amizade passou.

Tenho um certo número de ex-amigos e não vejo nenhum problema nisso. Amizades acabam. Algumas por mudanças de vida e um esfriamento natural, outras porque houve brigas e decepções. O que eu não consigo entender, seja lá como foi, são olhares e discursos magoados, como se tudo tivesse sido uma mentira. Depois de tantos momentos juntos, tantas histórias, risadas e presentes, de um dia pro outro você se torna aquele que me decepcionou. Como se desde a primeira conversa você tivesse tudo planejado para magoar o outro, como se cada palavra de afeto tivesse sido uma mentira premeditada, igual conquistador que dá golpe em viúvas carentes. É como se pegassem a sujeira do fim e com ela alterassem todo passado, julgassem o passado pelo que a amizade significa hoje, ou seja, pelo afastamento. Não é assim, não precisa ser assim. Tudo o que passou foi bom e verdadeiro quando aconteceu. Foi uma história com início, meio e fim. O fato de ter terminado não quer dizer que não valeu, quer dizer apenas que acabou. Não tenho vontade de procurar meus ex-amigos e torná-los parte da minha vida de novo, mas entendo que numa época eles foram importantes. Que vivam as suas vidas, comam em restaurantes e sejam felizes.

Realização

Foi justamente no fim de semana que eu passei doente. Depois de passar mal o sábado inteiro e acordar mais ou menos no domingo, no final da tarde eu não aguentava mais de tédio e quis sair. Se eu soubesse, teria tentado dar um jeito no cabelo todo pra cima e a cara de morta. Vesti qualquer coisa e saí de qualquer jeito. Na loja aconteceu um encontro que já havia imaginado muitas vezes, e em todas imaginei que sentiria alguma coisa. Mas da minha parte não aconteceu nada. A vingança pode até ser um prato que se serve frio, mas quando as coisas esfriam demais também não dá certo. Éramos daquelas amizades intensas, difíceis, e no final de dois anos eu me sentia totalmente esgotada. Deixar de falar com ela foi deixar de saber de todas as fofocas pra me tornar parte delas.

Ela me viu primeiro. Quando olhei na direção dela, ela fez uma cara de quem está casualmente olhando para o lado, mas a vi me medir de cima abaixo e tive a certeza de que seus olhos estavam cravados em mim quando lhe dei as costas. Não senti o arrepio que imaginei, nem a vontade de tomar um banho de descarrego. Comecei a pensar no que ela viu, e qual o efeito do que ela viu. Ela parecia mais baixinha, mais cheinha (ela se orgulhava da sua gostosura) e com a lordose mais pronunciada. De mim ela deve ter notado que continuo tendo cabelo curto, quem sabe tenha reparado que está mais claro e mal pintado. Pelas roupas, viu que eu não me tornei nenhuma perua, que ainda sou fã de andar de tênis. Se se incomodou pelo fato de eu estar magra, seria pela expectativa de que todos engordam durante os anos. Aí pensei no detalhe que certamente a matou de inveja, algo que não estava em mim e sim no que a minha mão direita segurava: a mão do meu marido.

Na última vez que nos vimos, eu estava namorando o Luiz há poucos dias. Eu a encontrei numa secretaria, na faculdade, e ela disse que tinha seus informantes e que “a federal inteira” já estava sabendo que eu estava namorando e com quem. O sonho dela era casar e ter muitos filhos, e no Facebook (não sejamos hipócritas, claro que fui lá olhar) dela diz que ela está “num relacionamento”. Eu realizei o sonho do marido próprio e ela não. Pra algumas mulheres, isso é tudo.

Encontro no além

Não sei porque insistiam tanto que eu seria médium. Nunca viajei por aí enquanto estava dormindo, nem vi espíritos, não falei com parentes mortos e muito menos previ acontecimentos. Não que eu um dia não tenha desejado tudo isso. Hoje acho divertido dizer para os que insistem que eu deveria desenvolver minha pretensa mediunidade que o corpo é meu e não empresto pra ninguém – se eles não usaram direito enquanto estavam vivos, por que eu tenho que ceder o meu? Por que o meu tempo dentro do meu corpo é menos importante do que o tempo deles? Que os tais espíritos encarnem, fabriquem o seu próprio corpo e o aproveitem bem, pra não ter que emprestar o dos outros no futuro. O único intercâmbio com o além que eu gostaria de ter, até o momento, seria encontrar o único amigo que perdi para a morte: o João. Só que se no além as pessoas continuam sendo o que é, encontrar com o João seria mais ou menos assim:

Eu entro numa ombrada, por uma daquelas portas duplas de filmes de faroeste. Dentro, um bar com mesas redondas de madeira e cadeiras combinando. Não reparo nos outros, nem ao menos sei dizer que existem outros. Como quem sabe a que veio, me dirijo ao fundo do salão e lá está o João sentado, muito à vontade. Ele sorri ao me ver, nos abraçamos e ele me oferece uma cadeira. Estou eufórica, digo que estou feliz em vê-lo, pergunto como ele está, ele diz que está bem, e depois desse curto momento percebo que estou falando com um amigo que já morreu, e todas as implicações que aquele encontro tem. Mil perguntas surgem na minha cabeça: quero saber como é a vida após a morte, se somos classificados de alguma forma, se existem ocupações no outro lado, se os que morreram participam de alguma maneira do mundo dos vivos… Ele olha no fundo dos meus olhos e diz:
– Não seja boba, não temos muito tempo. Pergunte algo realmente importante.

Ninguém nunca me conheceu e nem nunca me conhecerá como o João. Ele conhece as mesmas palavras vazias que eu sobre mundos, planetas e evoluções- estudamos as mesmas teorias, deixamos de lado as mesmas teorias. Se ele me dissesse, o que eu poderia realmente entender? Questões que até um segundo atrás pareciam importantes foram caindo uma a uma, suavemente, como areia numa ampulheta. É o mesmo amigo que me viu em tantas crises, e no espaço de alguns anos quase todas sumiram da minha memória. Ele que viveu pouco mais do que eu vivi até hoje; tempo o suficiente pra saber o quão difícil é estar vivo, da nossa ignorância pra tudo, do desejo e tentativas sempre às cegas. Eu era tão jovem quando convivíamos, e quando somos muito jovens cada ano faz muita diferença. Não tenho mais o mesmo olhar, não tenho mais as mesmas dúvidas; mesmo que ele não me vigie lá do alto, mesmo que não tenha lido um arquivo com o meu nome, basta olhar para saber. A própria presença dele já responde mais do que eu poderia desejar. De repente a pergunta surge clara, a única possível, a essência do que me atormenta a cada passo:

– João, tenho escolhido bem?

Ele sorri. Será que a pergunta foi tão boba, será que sou tão previsível?

– Você está feliz, não está?

– Muito, – respondo impulsivamente. E depois de pensar um pouco, respondo para mim mesma – muito.

– Então eu não há do que se arrepender.

Café universitário

Quando a Luciana esteve aqui, tomamos um café num café que fica perto de dois mundos bem diferentes que eu frequentei: o mundo acadêmico e a dança. Disse a Lu que evitava ir pra lá porque não queria encontrar pessoas da faculdade, e dei a entender que era porque eles não gostavam de mim. Ela aceitou minha explicação e na hora senti que aquela não era a verdade.

Eu mesma demorei pra entender qual seria a explicação que eu não soube dar para a Luciana. Quem já viveu vai sabe: é duro encontrar com alguém que não dá o menor valor ao que você está fazendo. Quando você revela que não está trabalhando na área, não está numa carreira promissora e não está ganhando bem, no geral dirão apenas um “ah” bem murcho – que não consegue ocultar a surpresa e o desprezo pelo que você está fazendo. Pior ainda quando o interlocutor se preocupa com você: ele se sentirá na obrigação (ou se dará ao direito) de te aconselhar. Uma amiga, uma vez, espantada em saber que eu estava dançando e não dando ou fazendo aula, ligou na hora para um professor amigo dela, no meio do almoço. Por infelicidade, o sujeito atendeu, e depois de uma curta conversa (“estou aqui com uma amiga muito competente e sem emprego), ela me fez falar com ele pelo celular. Ficamos os dois muito sem graça. A situação de estar num limbo, em si, já é toda difícil, toda constrangedora. Mas eu acho que isso não seria nada se eu conseguisse colocar convicção na minha voz, e batesse no peito dizendo que tudo é temporário, que estou nos primeiros passos de uma grande jornada. Só que eu não consigo. Eu não sei se um dia o caminho que eu escolhi me dará o status e dinheiro que se espera de mim.

Alguns encontros me fazem pensar no Enéias, com apenas quinze segundos pra resumir toda uma vida. Nem eu consigo entender direito o que estou fazendo, quanto mais resumir e passar certeza. Para esse tipo de contato, há de se ter uma armadura brilhante à disposição. Eu tenho preferido evitar certas regiões da cidade.

Estranhos

Não faz muitos dias. Eram umas 20h e ele estava andando perto da Reitoria, na direção oposta à própria casa. Não sei onde ele estava indo, se pra um dos cursos ou pra visitar o Alessandro. Porque eu sei onde ele mora, sei de algumas coisas que ele faz e só. Coisas distantes, quase como um rumor. Nem parece que ali houve um grande amor, a pessoa que me foi mais cara durante quase toda a minha vida. Nunca pensei que seríamos desses que se tornam adultos com um vago passado em comum, dois estranhos. Eu – só pra variar – sempre estive disposta a usar de todos os meios pra evitar a distância. Já ele nunca tomou a iniciativa de me ligar ou me mandar notícias. Antes eu não ligava, ou não percebia; hoje me pergunto se fui realmente amada. Um dia, há alguns anos, fiz algo que não o agradou. Algo que nem o envolvia. Ingenuamente, achei que ele ia querer me ouvir, conhecer o meu lado da história. Porque se um dia me dissessem “teu irmão matou alguém com requintes de crueldade”, eu diria “esperem, vamos ouvir o lado dele, tenho certeza de que existe uma explicação”. Não faria isso apenas por amor – eu depositava nele uma confiança infinita. Mas só eu depositava.

O sinal abriu e o Luiz disse brincando – “ponha a cabeça pra fora da janela e grite “André!”. Mas eu não o fiz, porque não tenho nada para dizer a ele. Nem seu nome.

Quase perfeito

Era madrugada de sexta ou sábado e eu estava no chat do UOL. Eram os tempos da internet discada, então esse era o único período do dia e dia da semana em que eu podia entrar. E sempre que eu entrava, sempre que alguma conversa ficava boa, sempre que conhecia um homem interessante, ele invariavelmente morava em São Paulo. A coisa era de tal maneira que eu já tinha assumido que a vida era assim e entrava direto nas salas de São Paulo.

Qual não foi a minha surpresa, e das totalmente agradáveis, quando conheci um sujeito interessante e ele me disse que era de Curitiba. Rimos, conversamos sobre livros, sobre músicas, sobre faculdade. Tudo batia. Lá pelas 3h da manhã, com a conversa a todo vapor e os pulsos doendo, resolvemos ligar um para o outro. E assim passamos mais de uma hora no telefone, numa conversa incrível e sussurrada que não se esgotava. Aí decidimos desligar o telefone, dormir algumas horas e nos encontrarmos em frente à Rua 24h, naquele mesmo dia. Como vou te reconhecer? “Eu tenho 1,80, sou loiro, olhos azuis…”

U-a-u. Confesso que sempre tive uma queda por morenos baixinhos (da minha altura, pra ser mais específica), mas mesmo assim fiquei impressionada com a descrição. Só não me consumi em expectativas porque não tive tempo. No curto período que tive para pensar antes de conhecê-lo, eu já estava concluindo que ele tinha tudo para ser o amor da minha vida. Um namorado, no mínimo. A não ser que ele tivesse mentido, que ele fosse repulsivo, que ele tivesse algum defeito gravíssimo. Ou que eu fosse repulsiva pra ele. Caso o problema fosse com ele, eu era idealista o suficiente pra passar por cima de uma atração física pequena, se preciso fosse. Quando atravessei a rua e vi aquele loiro de olhos azuis, alto e de casaco preto, achei que tinha ganhado na loteria.

Essa impressão durou apenas os segundos necessários para ele me reconhecer e vir me cumprimentar. O problema é que ele era uma moça. Não que ele tivesse me enganado, e sim que ele ainda não sabia. Ele andava como gay, falava como gay, era sensível como um amigo gay; nem precisava ter um gaydar bom pra perceber. Acredito que isso desconhecia isso porque era de uma família religiosa (só descobri pessoalmente), frequentava igreja, aqueles tabus todos. Quando eu disse que estava ouvindo muito Nightswimming, ele me perguntou: você tem um mês especial? Gay.

Conversamos a tarde inteira e no dia seguinte ele me mandou um longo e-mail, dizendo que adorou me conhecer. Respondi algo meio curto e nunca mais entrei em contato. Ele não merecia meu sumiço, mas foi mais forte do que eu.

Instante

É mágico: num instante que pode durar horas ou anos, pessoas completamente afins se encontram. Nesse momento perfeito, se produz algo belo, fascinante, criativo, divertido e tudo mais que se proponha. Como nada foi feito para durar, se o destino não os separa o tempo se encarrega disso. Picuinhas começam a aparecer e o que era brilhante fica cada vez mais fosco. Mesmo assim, quem estava lá sempre será associado a uma fase bonita. Ficamos abertos e nos apegamos de maneira que em outras circunstâncias jamais aconteceria.

Instantes assim não podem ser recriados. Você pode pegar as mesmas pessoas e tentar fazer igual, que não será. (Isso me lembra uma frase de Marx: A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa) A única coisa a se fazer é amar essas lembranças e estar aberto para viver outras experiências.

(Homenagem aos dias insanos e felizes que um dia vivi no Orkut)