Minha Snoopy

Quando eu era criança tinha um cachorro chamado Flock. Eu era fã dos desenhos do Snoopy e ficava muito frustrada do Flock ser totalmente indiferente às casinhas de cachorro. Lembro que numa das tentativas de fazer ele usar a casinha, jogamos um ossinho dentro e meu irmão sentou com as costas na porta, barrando a saída. Depois disso, nem com ossinho ele entrou mais. O Flock olhava para as casinhas com a indiferença de quem acha que aquilo não tem nada a ver com ele. Pra que ficar num espaço pequeno daqueles se ele tinha o quintal inteiro?

A Dúnia me surpreendeu logo no primeiro dia. O adestrador disse que era possível que levasse um tempo, que seria bom deixar coisinhas lá pra ela, não forçar. Eu lembro que pusemos a casinha lá e saímos. Horas depois, quando voltamos, ela já estava lá dentro. Acho a coisa mais linda.
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Três fofinhas

Ele ficou olhando pra mim, certeza. Eu estava conversando com uma amiga, daquelas que param de andar quando falam, o que torna a conversa meio patética. E ele nos acompanhou com o olhar. Tonta do jeito que sou, é capaz da minha paixão platônica ter reparado que eu existo há um ano e eu só me dei conta dele agora…

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Estava fazendo costura duas vezes por semana, e com muita dor no coração agora farei apenas uma vez. Já era pra ter largado faz tempo, na verdade. Mas fui atrasando, por adorar as aulas e as turmas. Cada dia era uma turma diferente, e a turma mais legal era justamente a que menos compensava ir, então imaginem a dó. Mas tive que fazer umas reposições na segunda e me apeguei à turma de segunda também, ou seja, a pessoa se apega a toda turma que vai. Deve ser um bom sinal.

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Meu medo, com relação ao meu novo negócio: fazer, fazer, fazer e não vender. Porque, por mim, tenho trocentos projetos, amo lojas de tecidos, penso em modelos novos, fico toda cheia quando vejo alguém usando algo que eu fiz.

Fofa

Todos eram unanimes em dizer: ela é uma fofa. Tínhamos muitos amigos em comum, e agora ela era namorada de um deles. Mesmo assim, nunca quis proximidade. Sou desconfiada com pessoas fofas. Adolescentes fofas, ainda vá lá; mas uma mulher com mais de trinta anos e fofa é algo que não me desce. Eu aceito uma mulher – aos trinta já passou da hora de se assumir como mulher – ser tranquila, bacana, gente boa, otimista, sociável… mas fofa não. Então quanto mais diziam que ela era uma fofa, menos vontade eu tinha de conhecê-la. Ela também não parecia ter vontade de me conhecer, embora eu soubesse que ela lia meu blog e meu perfil, tanto que vivia pegando as minhas citações pra colocar no seu próprio perfil. Sem créditos, o que é pior. Não que ela devesse dizer que pegou do meu perfil, não é isso, é que não faz sentido colocar um monte de citações entre aspas e não dizer que aquela era de Camus, a outra de Nietzsche e assim por diante. Se eu tinha colocado a autoria, ela que copiasse direito. Então além de ser fofa, ela não citava corretamente, o que irrita meu lado TOC profundamente.

Até que eles terminaram. Percebi de longe, com a ausência de mensagens carinhosas, mudança de status no perfil, o silêncio em torno dos pombinhos. Não sei se ele me disse que haviam terminado ou só deduzi. Era meu amigo e eu não tinha nada a ver com isso. Só que ela apareceu no meu blog, fez um comentário qualquer e colocou o msn, subitamente com vontade de ser minha amiga. Farejei que havia alguma coisa errada e não adicionei. Depois soube da confusão, por ele e por outros: ela havia reunido todos os amigos em comum do casal, em chats. Ela contou os podres dele, as incoerências, os xingamentos, ou seja, a face feia do meu amigo. As pessoas se envolveram e quiseram intervir. Ele, chamado para dar explicações, disse que não tinha nada para dizer. Aquilo foi considerado uma falta tremenda entre os nossos amigos, que passaram a considerá-lo um mau caráter e se afastaram; só restei eu. Das coisas que ele me contou, vi tanta insanidade e grosserias como em qualquer outro relacionamento intenso e doente. Não sei se tenho uma moral dúbia, mas nunca espero que meus amigos sejam namorados ou cônjuges perfeitos. Eu sei que num relacionamento ou entre quatro paredes as pessoas são outras coisas. O que eu achei realmente imperdoável nessa história foi uma mulher feita acabar com todo um círculo de amizades porque ela estava com raiva do ex. Muito fofa.

Anos depois, ela se tornou líder de uma torcida em prol de participante de reality show.