Casa pequena

Oi Ale,

Já comentei com você, não lembro por que meios, que compartilho do teu fascínio pelas Casas Pequenas. No teu caso, como vim saber mais tarde, o fascínio tinha a ver com a própria necessidade de encontrar um lugar para morar. Já eu tenho a minha própria casa. Para as revistas de decoração, ela é considerada uma casa pequena – sério, as dicas para deixar os espaços “mais amplos” servem para ambientes com até 200 m² – só que está longe de ser uma Tiny House. Aí, como fazer quando a gente já tem a sua casa, nem de longe tão pequena, e começa a achar que a graça é morar num lugar bem pequeno, bem básico, como mundo como quintal (como você mesmo diz)? Comecei a ficar com vontade de vender a minha casa e me mudar pra um container…

 

Claro, não faz o menor sentido. Ainda mais se levarmos em conta a bolha imobiliária que estamos vivendo. Comecei a perceber que o meu fascínio pelas casas pequenas tinha a ver com os espaços bem aproveitados, funcionais, com o apego ao simples e essencial. Mais espaços acabam atraindo mais coisas, mais armários, mais caixas, e quando vemos está tudo preenchido. Eu trouxe comigo um monte de relíquias de família, achando que teria espaço o suficiente pra tudo. Mas não, não tinha. Outra questão é que moro na minha casa há uma década, e me frustro em perceber que ela não é o que eu queria. Assim que casei, fiz assinatura de revistas de decoração, me inteirei de acessórios e possibilidades, mas tudo sempre foi difícil demais, caro demais. Numa casa pequena tudo isso ficaria mais fácil, coloca um ou dois móveis e está feita a decoração.

 

Foi aí que eu decidi fazer da minha casa-não-tão-pequena uma casa pequena. Se o que eu gostaria é de ter um motivo para viver com menos, por que não fazer isso agora? Tenho agido como se fosse me mudar para um lugar menor. Tenho olhado para as minhas coisas e me perguntado se há alguma maneira de ter menos. CDs, por exemplo. Ocupa tanto espaço ter CDs, sendo que cabe tudo em um pendrive. Tenho descoberto coisas que eu nem sabia que tinha, tenho feito escolhas libertadoras. Até mesmo o problema da decoração tem ficado mais fácil. Ao invés de esperar uma decoração ideal, ou armários sob medida que possam esconder minha bagunça, percebo que fica mais fácil quando há menos coisas para organizar.

Era isso. Beijo e parabéns pela newsletter, que tanto nos inspira.

Arrume três

Quando eu ainda morava com a minha mãe, e o meu quarto estava muito bagunçado, eu criei um método de arrumar três coisas de cada vez. É que quando a bagunça é demais, a gente nem sabe por onde começar e acaba nem começando, porque daria trabalho demais e consumiria muito tempo. O que eu fazia era me propor a arruma apenas três coisas. Cada vez que eu passava no quarto, arrumava as três coisas e pronto. Em pouco tempo, o meu quarto ficava arrumado sem que eu tivesse feito muito esforço. Hoje uso isso na minha casa. Sempre penso que, se fosse para ficar rica, deveria transformar essa ideia simples numa daquelas regras de sucesso. Ao invés de explicar o que eu faço em cinco linhas, eu deveria enrolar em mais de cem e escrever um livro. O meu livro, Arrume Três, seria uma proposta para revolucionar a vida dos leitores. Na capa, eu estaria de terninho e mostrando três dedos. Do insight genial no meu quarto, eu estenderia esse exemplo para o resto da minha vida e provaria por A + B o quanto aplicar o Arrume Três melhora para sempre as nossas relações no emprego, com os amigos, no amor, na família. Atribuiria o meu sucesso (ninguém precisa verificar se sou ou não) a isso. Arranjaria citações místicas e pesquisas duvidosas para justificar a escolha do número três. Criaria metáforas vergonhosamente óbvias entre bagunça e vida, não teria o menor escrúpulo em dizer o que as pessoas devem fazer. Contaria exemplos de vidas que foram revolucionadas por essa simples mudança de atitude. Venderia minha palestra a empresas, e nelas convidaria as pessoas a escreverem três problemas em três pedras e jogarem elas fora. O Arrume Três me faria rica e famosa.

Pra começar tudo isso eu só preciso de três trouxas. Alguém se oferece?

Bagunça

Viviane havia saído da casa da mãe há pouco tempo e estava morando sozinha num apartamento. A terapeuta quis saber como ela estava na casa nova:
– Está tudo ótimo. Meu apartamento é um brinco, só o quarto que é uma bagunça, mal dá pra entrar.

– Será que você não está morando só no seu quarto, ainda?

Ela ficou cismada. Ao abrir a porta e se deparar com aquele ambiente organizado, olhou para ele com uma certa desconfiança. Colocou por querer a bolsa bem no meio da mesa de jantar. Deixou os sapatos num canto. Quando voltou para a terapia na semana seguinte, Viviane contou como estava na casa nova:
– Está tudo ótimo! Agora eu tomei conta do apartamento inteiro, ele está uma zona!

Limpeza ritualística de final de ano

Posso dar a desculpa do feng-shui, mas o que me levou a cultivar o hábito da limpeza de final de ano foi o fato de ter morado num apartamento pequeno. Não é bobagem. O Luiz foi criado numa casa e cada vez que precisavam guardar mais coisas, eles construiam mais um armário ou um puxadinho. Resultado: quando meus sogros se mudaram, até coleção de latinhas de cerveja vazias do ex-cunhado tinha. Em compensação, no apartamento da minha mãe, se a gente não jogasse algumas coisas fora todo ano, em pouco tempo não tinha mais como dormir lá dentro.

É muito difícil estabelecer as prioridades, saber o que jogar fora ou não. Centenas de xerox de sociologia que não sei se usarei, CDs LG que meu aparelho de som não lê, uma quantidade invencível de papel de rascunho, roupas que não-servem-mas-hão-de-voltar-a-servir, milhares de lembretes espalhadados perto do computador, brinquedos inuteis e fofinhos, projetos artesanais inacabados, etc. Isso porque não entrei no item Plastimodelismo, que tem sucata e pecinhas minúsculas pela casa inteira e que eu não posso jogar NADA fora. Encontros com aranhas marrons de todas as idades e tamanhos faz parte do processo.

Mas esse ano não tem como evitar. Meu diploma de sociologia por aí, em algum lugar, há mais de um ano.