Café universitário

Quando a Luciana esteve aqui, tomamos um café num café que fica perto de dois mundos bem diferentes que eu frequentei: o mundo acadêmico e a dança. Disse a Lu que evitava ir pra lá porque não queria encontrar pessoas da faculdade, e dei a entender que era porque eles não gostavam de mim. Ela aceitou minha explicação e na hora senti que aquela não era a verdade.

Eu mesma demorei pra entender qual seria a explicação que eu não soube dar para a Luciana. Quem já viveu vai sabe: é duro encontrar com alguém que não dá o menor valor ao que você está fazendo. Quando você revela que não está trabalhando na área, não está numa carreira promissora e não está ganhando bem, no geral dirão apenas um “ah” bem murcho – que não consegue ocultar a surpresa e o desprezo pelo que você está fazendo. Pior ainda quando o interlocutor se preocupa com você: ele se sentirá na obrigação (ou se dará ao direito) de te aconselhar. Uma amiga, uma vez, espantada em saber que eu estava dançando e não dando ou fazendo aula, ligou na hora para um professor amigo dela, no meio do almoço. Por infelicidade, o sujeito atendeu, e depois de uma curta conversa (“estou aqui com uma amiga muito competente e sem emprego), ela me fez falar com ele pelo celular. Ficamos os dois muito sem graça. A situação de estar num limbo, em si, já é toda difícil, toda constrangedora. Mas eu acho que isso não seria nada se eu conseguisse colocar convicção na minha voz, e batesse no peito dizendo que tudo é temporário, que estou nos primeiros passos de uma grande jornada. Só que eu não consigo. Eu não sei se um dia o caminho que eu escolhi me dará o status e dinheiro que se espera de mim.

Alguns encontros me fazem pensar no Enéias, com apenas quinze segundos pra resumir toda uma vida. Nem eu consigo entender direito o que estou fazendo, quanto mais resumir e passar certeza. Para esse tipo de contato, há de se ter uma armadura brilhante à disposição. Eu tenho preferido evitar certas regiões da cidade.
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