Amargos

Você sabe como são esses velhos amargos. Eles nem precisam ser propriamente velhos, às vezes são apenas mais velhos. Olhando com hostilidade o novo que entra, apenas por ser mais novo, apenas por ter acabado de entrar. Quando mais entusiasmado o jovem, pior a reação. O velho discursará – em palavras ou só com o olhar – sobre já ter vivido e feito tudo aquilo. Ele já foi jovem, já foi bonito, já foi talentoso; ele já foi muito mais jovem, bonito e talentoso e olha só do que é que deu: em na-da. Hoje ele estava lá, um amargurado que nada denuncia sobre o seu passado brilhante. Esse velho torcerá para que o jovem naufrague em todos os seus esforços, porque é apenas isso que o mundo tem a oferecer aos que se esforçam. Talento? Ele já viu maiores. Ao invés de ser a luz que guia os mais jovens, ele será o primeiro a soltar um “eu já sabia”. Se o reconhecimento – esse milagre – acontecer, isso o deixará mais amargurado ainda, porque com ele não aconteceu e isso não é justo.

Eu fui olhada com esse amargor várias vezes quando era um jovem talento. Não tive apoio quando era “uma promessa”, o contato que poderia ter mudado minha vida nunca aconteceu. Via os que poderiam ter sido mestres para mim e me perguntava porque eles não me estendiam a mão, como podia alguém de tão alto se sentir ameaçado por alguém que estava apenas começando. Era como se eles não tivessem noção do que eram e onde estavam. Até o que o mundo me deu voltas e fios brancos. Na posição de mais velha e mais sábia, diante de alguns jovens talentos, desejei do fundo do meu coração que eles se ferrassem. Porque a segurança dos que nunca foram magoados me irrita; a certeza de que serão reconhecidos me dá vontade de frustrá-los. Percebi que estou ficando igual os velhos do meu passado, que ser generoso quando nos foram mesquinhos é muito difícil. Não escapei de crescer criando sombras e pontos obscuros. Preciso muito de algumas mudanças, para que a esperança que me resta não se transforme de todo em amargura.

clica que cresce
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